terça-feira, 9 de maio de 2017

Baltazar de Das Dores


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Vagava na chapada, havia mais de vinte anos, conhecia ela como a palma das mãos, caminho, atalhos, jeito de chegar. Era Baltazar. Uns diziam que era descendente de ciganos, outros que era dali mesmo. O certo é que cruzava aquelas terras, trabalhando ora aqui ora ali, sempre muito considerado por todos. Da família diziam que só restava ele.

 

- Seu Baltazar, apeia.

 

- Cumo vai dona Filó? Bom dia, seu Aniba.

 

- Dia. Chegô na hora, Filó cabô de passá um café. Achegue.

 

- Cum gosto, seu Aniba, cum muito gosto.

 

Ali mesmo, entre gole e prosa, tratou do serviço. Na preferência de Baltazar, trabalhar ali era o melhor. Fosse pela paga, fosse pelo trato, além de poder pôr os olhos em Das Dores, que quanto mais passada do tempo, mais boniteza acumulava. Em sendo filha única de seu Aniba e dona Filó, ficava no vantajoso da herança, mas isso não era cobiça de Baltazar.

Das Dores, moça donzela, jeito de menina ainda, apesar do maduro nos anos, vivia na conformação de solteira vida afora. Bonita, isso sim, ela era: o rosto, os olhos claros, os cabelos lisos sempre presos para trás, e o corpo escondido naquele mesmo jeito de se vestir. Baltazar não tirava a atenção dela. Coisa que seu Aniba logo avaliou nele foi a bem querença escapulindo nos olhos, nessas horas.

 

- Seu Baltazar, já pensô tomá sussego na vida, pará num canto, radicá?

 

- Dô prá isso não seu Aniba, ponho custumação in lugá ninhum. Ponho gosto é nos caminho, na istrada.

 

- I’eu mais Filó tamo ficano véio, nóis só tem Das Dores e a terrinha. Se nóis fartá é ela só no mundo.

 

Numa pausa.

 

- Faço cumbinação, cunheço ocê prá mais de vinte ano, ponho reparo nos oiá docêis dois, fereço a mão dela e tudo que carecê.

 

- Na honra fico seu Aniba, no acanho de respostá tamém.

 

A conversa acabou ali. No outro dia, nem a paga Baltazar esperou. Ganhou estrada.

 

Dois anos passados.

 

Das Dores estendia as roupas na frente da casa para quarar, quando avistou no longe o cavaleiro, caminhou até o batente da porteira, enxugando as mãos no avental. Distinguiu Baltazar ainda no longe. Seu coração disparou; sem pensar muito, abriu a porteira.

 

- Cumo vai, Das Dores?

 

- No custumá, em como Deus qué.

 

- E seu Aniba, vim tê uma prosa mais ele.

 

- Foi na rua cum a mãe, apeia.

 

Baltazar desceu do cavalo, levou o animal para o cocho e sentou na soleira da porta.

 

- Nem fiz armoço ainda. Se quisé merendá, a mãe dexô quitanda feita. Vô passá um café.

 

- Carece não, Das Dores. Gradeço. Sabe do assunto qui quero pôr trato cum seu pai?

 

- Magino, mania do pai querê rumá casamento de cumbinação, mais quero não, quero só se for de bem querê.

 

Baltazar ficou surpreso e envergonhado, disfarçou o quanto pôde, tentou mudar o rumo da conversa, mas ela insistiu.

 

- Foi pur isso que ocê sumiu, igual fugino, foi o pai?

 

- Cumbinação foi não, ele só falô que punha gosto.

 

- E ocê põe?

 

Ele ficou um bom tempo pensativo, meio encabulado, sem saber o que fazer com o chapéu que tinha nas mãos. Mas respondeu balançando a cabeça afirmativamente.

Das Dores abriu um sorriso e falou bem baixinho, enquanto olhava Baltazar bem nos olhos.

 

- Brigado Santo Antônio.

 

Ele, por sua vez, sentiu o coração bater mais depressa. Nunca tinha sido olhado daquele jeito antes. Conhecia o afeto de muitas pessoas encontradas vida afora por onde seu caminho levava, nada como o que Das Dores demonstrou com aquele olhar. Os dois parados no meio da cozinha, água fervendo no fogo, nem notaram a chegada de seu Aniba e dona Filó que, da porta, os olhavam. Seu Aniba tossiu e pôs o quebrar naquele momento.

 

- Cumo vai Baltazar. Veio recebê a paga?

 

- Vim foi pôr trato de casamento cum Das Dores, se ainda é do agrado do sinhor e dela.

 

- É do seu agrado, minha fia?

 

Ela, baixando o olhar, sem graça:

 

- Se for do seu, pai, do meu é.

 

- Vamo cunversá lá no terrero, seu Baltazar.

 

Estranheza de Das Dores, que conversa seria essa? O pai vivia tentando arranjar marido para ela. 

Tomando o rumo da cerca, seu Aniba foi pensando na conversa que tivera com ele, no seu sumiço de dois anos, e em toda aquela situação repentina, agora.

 

- É de seu querê mesmo? Tá resorvido tomá sussego? Puis reparo no que aconteceu dois ano atráis.

 

- O sinhor sabe da minha andança, que sô respeitadô; nesses dois ano garrei a pensá na vida. Das Dores tá no meu pensá faiz muito. Fugi no acanho de num sabê do gostá dela. Agora sei.

 

O casamento se realizou meses depois. Os dois viveram o primeiro ano sem filhos; no segundo, nasceu o primeiro e, daí em diante, foi um atrás do outro, para alegria de Das Dores. No todo, doze.

Baltazar tomou amor pela lida e, uma vez por ano, levava o gado para vender no curtume. Demorava mais que o necessário, mas era do saber de Das Dores que ele corria a chapada toda matando a saudade das gentes e dos lugares. Mas quando voltava, era como no dia em que pediu sua mão. Tocava o berrante no longe e chegava sempre cantando.

 

quando ando no sertão

careceno pricisão

eito prá invergá o corpo

sei que num farta não

quem me é de valia

ladainha creio

rezei tantas

esqueço não

 

Das Dores largava tudo o que estivesse fazendo e o esperava com a porteira aberta e a quantia de amor que cabia no seu olhar.

 
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segunda-feira, 8 de maio de 2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Chifre queimado


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De cócoras, na soleira da porta, Bento tentava, com o tição na mão, acender o chifre que não pegava fogo de jeito nenhum. Muita impertinência, imagina dois dias no borralho e o fogo não pegava. Resolvido, voltou à cozinha e, com o ferrão de Tenório no oco do chifre, enfiou no meio do braseiro.

Foi o que bastou. Zumira ao entrar já foi logo deitando falação. Aquilo não aceitava. Onde já se viu misturar aquela catinga no feijão que cozinhava desde cedo. Lugar de homem não era na cozinha. Se a simpatia de espanto de cobra fosse aquele fedor, que ele queimasse o chifre lá no curral, que ficasse longe do fogão.

Bento saiu no terreiro ainda com o chifre enfiado no ferrão. Tenório, que chegava suado da lida, reconheceu a vara pelo entortado do cabo. Já foi logo enfezando com o cunhado. No consentir de quem ele estava usando o ferrão? Ainda mais naquele uso inadequado. Para que queimar o chifre? Se fosse espantar cobra não era assim que fazia, tinha que ralar o chifre e misturar com estrume que encorpava a fumaça. Bento, contrariado com a falação, devolveu o ferrão e foi até a casa do vaqueiro Osório emprestar um ralo.

Depois de quase a tarde inteira que Bento estava pelejando com o chifre, o vaqueiro viu que ele estava usando o ralo de fazer quitanda de sua mulher Izaltina. Maior ciúme dum outro objeto ela não tinha. Osório, sem graça, reclamou que Bento devia ter falado o que ia ralar. Se soubesse ele não emprestava. Para que ele estava fazendo aquilo? Bento contou da simpatia de espantar cobra, disse que elas estavam aparecendo muito no paiol e atacando as galinhas. Osório explicou que não era assim, de ralar o chifre e misturar estrume, tinha de raspar com a faca melhor de corte que tivesse na casa, juntar com pólvora e, também, que chifre secado em borralho de fogão não servia. Tinha que secar ele numa fogueira, acesa em noite de céu encoberto, sem lua e sem estrelas, noite de só breu.

Misterioso, Bento juntou as pedras e fez a fogueira. Depois de secar o chifre numa seqüência de noites bem escuras, passou quase um mês raspando e guardando dentro de um embornal. Dos cartuchos do cunhado retirou a pólvora e guardou em outro.

Seu Baldino, passando rente à cerca, parou num dedo de prosa. Bento, na curiosidade dele, foi explicando o que estava fazendo. Baldino lhe disse conhecer a simpatia, a raspagem do chifre estava correta, a pólvora também, mas pedra na fogueira não podia usar não. Carecia fazer uma bacia de barro, do tamanho duma braça, encher de gravetos. Só assim espantava as cobras. O efeito só seria duradouro se a simpatia fosse feita à meia- noite e quando acabasse de queimar, ele espalhasse as cinzas em volta do local.

Bento, com a bacia de barro pronta e os dois embornais pendurados no esteio do paiol, esperava ansioso a noite chegar. O cunhado, vindo do curral com o balde de leite na mão, mangou dele dizendo que nunca tinha visto homem mais sem opinião e que ele não tinha fé no que fazia. A simpatia tinha lá suas liturgias mas sem a fé não valia nada. Já que ele aceitava palpite de todo mundo por que não ouvia o Mané Benzedor, conhecedor por profissão e morando tão perto. Bento, quase na zanga com o cunhado, resolveu procurar Mané Benzedor que lhe deu todas as orientações. Explicou como fazer, corrigiu o errado, acrescentou o estrume na bacia de barro, mandou pôr, além dos gravetos, sabugos e palha de milho e que esperasse uma noite de bem breu.

Feliz da vida, Bento ficou esperando a melhor noite, determinado a não aceitar mais palpite de ninguém, nem falar mais no assunto, evitando apodo do cunhado.

Veio a cheia e nada. Na minguante deu a noite esperada, escura, fechada e sem vento, parecia noite cega de nascença.

Na paciência, com todos os detalhes, Bento preparou a bacia na porta do paiol, calculou o meio da noite e pôs fogo.

0 barulho foi seco, bum..., nem ressoou. O fedor foi exalando pelo ar e impregnando as palhas de buriti que cobriam o paiol, espantando as galinhas do poleiro. Foi quando Bento viu a sombra se transformar na figura que andava em volta exalando pior cheiro que a mistura que ardia na bacia de barro.

Dela ouviu, atrás do bafo, bem na sua frente.

 

- Cobra, que cobra levo.

 

E o coisa ruim sumiu do susto.

 

Cobra nunca mais apareceu lá e Bento morre de medo, na noite escura, quando começa exalar aquele cheiro de chifre queimado por todo o corpo.

 

 

 
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quinta-feira, 4 de maio de 2017

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Chapada do São Marcos

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Chapada do São Marcos
bera do Ri do Braço
Vai Vem é afruente...
entre águas
entre rios
meio de cerrado
onde avoa codorna
e ispanto perdiz nos passo

na porta da casa
bambuzá parceiro de vento cantadô
na porta da casa tamém
um pau frondoso
que cumula sombra nos embaxo
as foia sôrta antes da frorada
e arcochoa a sombra
pr’eu deitá cum meu amô
se cai fror durmida
nóis panha e se prefuma
se cai diurna
nóis se farta de cheiro que nem beija-fror
teno tropa prá tocá
nóis vai no passo manso
mode num cansá animá
mode tê paga boa
corda cedo
dia sem raiá
móia os pé no sereno
prá animá incontrá
no pasto pequeno
nóis campeia eles
traiz, arreia e vai gado buscá
Istimosa, Paridera, Esperança, Lambari ...
às veiz nóis passa no vau
céu vermeio parino o sol
merenda já tá cherano
o corpo recrama sustança
nóis tira o leite
aparta o gado
e atende o corpo cum zelo
pur pricisão às veiz
nóis mata um capado já chei de ingorda
aí é festança
nóis sangra ele antes da lida do gado
mode as muié aprepará
a limpança, o discarne, o retaio
fazê a lingüiçada e as armôndega
se truveja nas cabicera do Braço
nóis fica preparado
água do ri vai lambê as berada
e favorecê a distoca
aí, é o imborná de paçoca
a cabaça d’água e o invergá do corpo no eito
nos ôi de inxada cumulado na vida
o atestado de labuta
coisa que os calo das mão
num faiz pur sê só dois
o da firmeza e o da repuxa
adipois da lida
no terrero, em vorta do lume
cum as istrela recamada no céu
a cheia fazeno crarão
os vaga-lume riscano o negror da noite
na guardança da terra
nos calo da mão
o cantadô recebe a viola
e na quietude
canta sua dismidida querença
ah Sertão do São Marcos
divisórias águas do Braço da minha vida
num achei a sabedoria de ficá
e me perdi nos caminho de vortá

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Entreatos

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No elenco, eram sete contratados para reproduzir suas vidas em cena.

Personagens: um manipulador, outro que usava a religião para seus logros. O egoísta que também era um covarde. A transgressora convicta que amava um poeta insignificante. Um que acreditava em seu passado e o usava como álibi pra tudo. Outro, mal dissimulava sua arrogância e se dizia muito feliz.

A última não sabia quem era; nua, dançava languidamente, queria somente ser desejada, fotografada e aplaudida.

Entre os atos, a cortina não se fechava, a marcação ficava apenas num piscar de luzes. Nos três minutos de intervalo, sem nenhuma caracterização, uma pessoa entrava no palco, mudava o cenário, limpava cada canto com um espanador, parecendo querer tirar qualquer vestígio de vida.

Era o único que estava representando.


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quarta-feira, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

Sensações

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Não queria saber de mais nada e não percebia que a ponta dos dedos começava a se achatar, as unhas entravam na carne.
Os olhos iam perdendo o eixo do movimento normal, a pele murchando. Na boca, os lábios se repuxavam para dentro; no nariz, a deformidade adquiria um tom avermelhado e o conjunto produzia mal-estar em quem visse.
Sentia o cheiro, a textura da pele, a maciez dos grandes lábios; o pensamento a tinha inteira nas sensações, amava e a queria. Amava e a tinha, amava e a perdia.
Sentia dor, muita dor; a ereção rasgava suas entranhas. Assim eram seus dias e noites; não conseguia esquecê-la, vivia das lembranças e nem tentava confinar sua loucura.
Parecia um jogo, uma execução que ele, o carrasco, determinava o delírio.
Esquizofrenia, lapsos de memória e muitas esquisitices viviam nele. Na verdade o que queria, no seu desvario, era se matar sem matá-la dentro de si.
 
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segunda-feira, 24 de abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rebelião


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Na memória continha o registro de todas as sensações; ao circular, espalhava o que absorvera nos sentidos, célula por célula.

Corpo e alma contidos no líquido viscoso e impregnados de lembranças, sentimentos e saudades transitando por todos os lugares, sustentando o ser imerso em sua intensidade.

Quando fizeram a transfusão, o sangue sintético que recebeu não tinha memória. Precisou ser tanto que as mais insignificantes partes do corpo foram se rebelando e deixando de funcionar aos poucos.

O coração, último rebelde, parou abraçado aos pequenos vestígios de sua alma desfeita no ar e levada pelo vento.

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Valsa Verso

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Fio de tempo

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Todas as metáforas conduziam suas histórias para se tocarem; o olhar de um já tinha o outro dentro, desde quando se conheceram. 

 Hesitavam, mas a atração era verdadeira, era de verdade o cuidado que tiveram. Vinham de lonjuras e entregas sentindo suas realidades solitariamente. 


 Precisavam-se e se pertenceram. ...


 As mãos, o silêncio, o beijo; a coragem e o medo conjugando a excitação, explodindo no querer inteiro. Um viço vinha misturado ao desejo, perfumando as horas.


 Entregaram-se num fio de tempo estendido imperceptivelmente entre a realidade e o sonho. 


 E ficaram em silêncio, um dentro do outro, tentando de verdade se pertencer antes que alguma saudade acordasse o momento.


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cacimba

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sábado, 15 de abril de 2017

Último encontro


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A revelação não o surpreendeu. Suspeitava desde muito tempo. Na infância, na juventude e agora ali, ouvindo.

Sempre aquela coisa estranha. Espécie de comichão no corpo, um pensamento saliente tomando conta dos sentidos. A atenção redobrava. O raciocínio formulado com muita rapidez, quase aviltava suas interlocutoras.

Ela era bela e sofisticada. Curvava o olhar enquanto falava parecendo querer, confrontada com alguma razão, ser interrompida. Ele não evitava a conversa, disfarçava, não contracenava, ouvia, só ouvia.

A revelação veio entre a intenção das palavras. Claro como aquela tarde quente, estranha como as probabilidades do seu corpo. Ele era um demônio...

Sim, um demônio. Sentia, sentia ser.

Foi como um rastilho de pólvora se acendendo. Seu pensamento correu o passado todo. Era mesmo, lembrava-se de cada momento, de cada transmudação ao longo da vida.

Queria rir, gargalhar, mas se conteve. Impassível, ouviu como uma transgressão confessada, como um desejo de remissão impresso no tom da voz. Viu nos olhos molhados nostalgia, mas nenhum arrependimento.

O esforço que ela fazia para inventar uma história de culpa já não tinha importância. Era só um espectador. A beleza ele já havia roubado. O arbítrio da fé não o interessava. Apenas ergueu o copo.

Em silêncio, brindou ao pecado que a colocara inteira no seu inferno particular.

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terça-feira, 28 de março de 2017

O dramaturgo


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Autor muito aclamado, suas peças sempre faziam sucesso.

Prêmios e reconhecimento por onde passava. Livros publicados, palestras em universidades, seminários, uma unanimidade.

Sempre que lhe perguntavam de qual personagem gostava mais, respondia: ora um ora outro.

Mas na verdade a preferida nunca dissera a ninguém, guardava para si a grande paixão que sentia pela atriz de televisão fracassada, criada para um dos textos de que mais gostava. Um monólogo existencialista engraçado e denso ao mesmo tempo. Seu trabalho menos aplaudido e, em sua opinião, a melhor encenação de todos eles.

A atriz que viveu a fracassada abandonara o teatro, seduzida por uma religião. Nunca mais a vira.

Numa viagem com a trupe, começou a ter sonhos recorrentes com a personagem preferida. Sua melhor criação passava, correndo de uma multidão, na frente do hotel.

A cada sonho distinguia outros atores representando, eram seus perseguidores. O único rosto que identificava era o da atriz que a interpretara.

Resolveu; naquela noite, ficaria sem dormir para quebrar a sequencia daqueles sonhos.

Alta madrugada; estava lendo quando ouviu a gritaria e as batidas na porta; era ela pedindo socorro.

Era ela querendo fugir da ficção.


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segunda-feira, 20 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Quase vida

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Não sabia viver de outro modo, queria o mundo todo, tudo de uma vez. Ávido. Não parava de querer e não percebia o que ia se formando e crescendo, como uma aura acompanhando o corpo.

A mulher era especial, aquela lua também. Ambas fascinavam no imediatismo do momento, mas nenhuma durava em seu sentimento e na lembrança. O enlevo só alimentava seu prazer e mais nada.

Passado, isso é bobagem. Futuro, nem existe ainda, dizia e continuava ávido como se apenas o imediatismo significasse viver.

Cada dia de um jeito, cada dia com uma pessoa que ele encantava com sua beleza. Cada dia com o vazio aumentando como se fosse uma substância.

Numa noite percebeu-se diferente, quis lembrar da aurora e do sentimento pela mulher que amou num amanhecer e não conseguiu.

Sentiu a voracidade do presente que o envolvia, dominando, ditando apenas procedimentos, pedindo mais para crescer e só ai entendeu sua quase vida.

Era um corpo apenas.


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segunda-feira, 13 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Armou o cão

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Estava sozinho em casa, sentado na poltrona de couro, com a espingarda entre as pernas.

Fechou os olhos percorrendo as lembranças, identificando cada momento bom, cada decepção. Sentiu saudade.

Como se fosse um ritual, abriu a caixa no colo, escolheu a ferramenta e começou a cuidar da arma. Desmontou-a peça por peça, lixou as pequenas ferrugens, limpou com a flanela, passando óleo fino em cada encaixe.

Montou e desmontou duas vezes, conferindo a precisão do funcionamento. Levantou-se e foi buscar o carregador de cartuchos manual, escolheu um e calibrou com gestos seguros e carga reforçada.

Terminou a preparação, guardou o material; tomou um copo d’água, tinha a boca muito seca. Olhou contra a luz o cartucho como se o medisse e lhe conferisse uma missão.

Pensou na mulher. Quando chegasse, o quanto se aborreceria.

Desencaixou os dois canos da espingarda e carregou o esquerdo, depois resolveu e mudou o cartucho para o direito.

Um tiro só bastaria.

Depositou a arma carregada no braço da cadeira, levantou-se e ligou a televisão no último volume.

Voltou, sentou-se, reviveu alguns momentos, armou o cão e respirou profundamente antes de puxar o gatilho.

Atirou no tubo da TV.


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quarta-feira, 8 de março de 2017

terça-feira, 7 de março de 2017

Guerra sem fim

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Eram medíocres e inseparáveis no convívio e nos conflitos; o amor era, o ódio também. Um e outro conviviam com muitas diferenças e se precisavam. 

Vaidosos, cuidavam muito das aparências. Disfarçavam-se maquiando o rosto da harmonia e tinham cuidado ao afagar o perdão; de todos o mais casmurro e falso, anotava tudo para pequenas chantagens futuras.


 O egoísmo ora se juntava ao amor, ora com o ódio. A coragem, totalmente malvista, nunca se despia para nenhum dele
s.

 A compreensão, coitada, bem que se esforçava para explicar as razões de cada um, raramente conseguia. A mentira frequentava a cama dos dois, lânguida e discretamente metida.


 O desejo era um aliado, ao mesmo tempo libertário, imediatista e despudorado. O único que conseguia equilibrar, mesmo que por pouco tempo, o que do outro havia em cada um.


 Promíscuos com suas alianças temporárias, seus instantes de trégua e dissimulações, viviam na guerra sem fim que mora dentro dos seres.


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domingo, 5 de março de 2017

sábado, 4 de março de 2017

Bela, séria e sensual


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Transitava por ali todos os dias e naquele, quando foi passando, notou pela primeira vez. Era bela e sensual. Parecia que olhava todos pela fresta da venda com indiferença.

Imóvel e séria.

Sentiu ser olhado como se lhe copiassem o corpo e seguiu em frente. Aquela sensação o acompanhou até o momento de atender seu cliente.

Começou a ouvir vozes todas as vezes que passava por ela. No começo não entendia, pensou loucura. Seriam poemas declamados iguais aos que seu primo fazia? Não, não eram.

Familiarizado com a voz e, mesmo no meio do barulho da rua, foi conseguindo entender aos poucos. Eram leis declaradas uma por uma, com todas as mudanças, parágrafos, artigos e códices.

Loucura. Olhava os passantes tentando comprovar se também estavam ouvindo aquilo.

 Parecia que não.

Em muitos dias ficou observando. Ela praticamente ensinava as leis. A inflexão, as pausas soavam de um jeito diferente conforme a roupa e a aparência do transeunte.

Não podia ouvir a palavra doutor ou ver alguém de terno e gravata que se calava abruptamente. Esperava o passante passar, voltando a declarar suas excelências.

Era por isso que, todos os dias, na porta do Palácio da Justiça, o guardador de carros urinava nos pés da estátua bela, séria e sensual.

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sexta-feira, 3 de março de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Embriagados


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A conversa se arrastou por mais de duas horas. Mágoas, demandas, traições e ressentimentos. Era um rascunho se desenhando.

Justificavam o que parecia justo. Um afirmava o amor o outro a paixão e diziam isso claramente. Os dois estavam mentindo.

Metáforas tiraram a afiação das palavras. Deslealdades desvendadas e a falta de limites foram imputadas a razões egoístas, como coisa humana convivendo.

Os melhores momentos não eram parte daquele ato.

O que um idealizou do outro não estava mais no jeito dos olhos, tinha se perdido em momentos diferentes e fazia muita falta.

Para um, viver tudo que pudesse. Havia muita vida em si. Para o outro, o melhor do que tivesse, havia muita morte em si.

Na mesa, a toalha manchada de molho, a bebida que não embebedava. Parecia um momento comum.

Quantidade e qualidade provavam da mesma perda, a verdade dizia suas mentiras e a mentira suas verdades.

Em volta, na outra mesa, a decepção começava a beber com o ódio; o perdão pedia a conta e tentava retirar o amor e a paixão embriagados do local.


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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cor da terra

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Cor de terra sobrepondo as gradações como se quisesse ter uma luminosidade propositadamente opaca.

Ficava na parede fronteiriça à porta, de maneira que, quem entrasse, não via imediatamente.

Ela viu, admirou e não conseguiu mais tirar os olhos. Comprou e levou para casa.

Alguns meses se passaram em muitas tentativas de achar o lugar ideal para pendurá-lo. Cada parede que experimentava, sentia que não era ali, parecia faltar alguma coisa. Em poucos dias ele se entortava ou amanhecia de cabeça para baixo muitas vezes a assinatura indecifrável mudava de lugar; não era loucura, ela media e comprovava. Um mistério.

Voltou à galeria, queria saber mais, qual a história daquele quadro? Quem era o artista?

 

- Não sabemos nada dele, quando compramos o negócio, já o encontramos na parede pendurado, ninguém sabe o nome do pintor - responderam.

Foi num dos quartos desocupados da casa que acabou sendo pendurado; quando aproximou o quadro da parede, a impressão que teve foi de um puxão para um encaixe perfeito. Ali ficou.

Para aquele quarto ela acabou transferindo seus afazeres, mudando seu cotidiano. Passava horas olhando a pintura.

Todos os dias aqueles tons alteravam a paisagem retratada, detalhes desapareciam ou iam se trocando, se rearranjando na textura, nas camadas de cores e sombreados.

Cada dia ela se trancava mais até que resolveu não sair mais dali.

Quando deram por sua falta e, ao arrombarem a porta, não a encontraram. Sentiram apenas um cheiro de orvalho recendendo e duas mãos saindo da paisagem cor da terra.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

zaldivar

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para otávio zaldivar arantes

 
na solidão

do sonho

o tijolo

a cena

implodiu

na rua
 

monólogo

perdido

de solidão

diálogo

esquecido

nos sonhos
 

tijolos

inacabados
 

cena

apagada

no espetáculo

de sonhar


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Último encontro


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A revelação não o surpreendeu. Suspeitava desde muito tempo. Na infância, na juventude e agora ali, ouvindo.

Sempre aquela coisa estranha. Espécie de comichão no corpo, um pensamento saliente tomando conta dos sentidos. A atenção redobrava. O raciocínio formulado com muita rapidez, quase aviltava suas interlocutoras.

Ela era bela e sofisticada. Curvava o olhar enquanto falava parecendo querer, confrontada com alguma razão, ser interrompida. Ele não evitava a conversa, disfarçava, não contracenava, ouvia, só ouvia.

A revelação veio entre a intenção das palavras. Claro como aquela tarde quente, estranha como as probabilidades do seu corpo. Ele era um demônio...

Sim, um demônio. Sentia, sentia ser.

Foi como um rastilho de pólvora se acendendo. Seu pensamento correu o passado todo. Era mesmo, lembrava-se de cada momento, de cada transmudação ao longo da vida.

Queria rir, gargalhar, mas se conteve. Impassível, ouviu como uma transgressão confessada, como um desejo de remissão impresso no tom da voz. Viu nos olhos molhados nostalgia, mas nenhum arrependimento.

O esforço que ela fazia para inventar uma história de culpa já não tinha importância. Era só um espectador. A beleza ele já havia roubado. O arbítrio da fé não o interessava. Apenas ergueu o copo.

Em silêncio, brindou ao pecado que a colocara inteira no seu inferno particular.

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