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segunda-feira, 8 de maio de 2017
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Chifre queimado
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De cócoras, na soleira da porta,
Bento tentava, com o tição na mão, acender o chifre que não pegava fogo de
jeito nenhum. Muita impertinência, imagina dois dias no borralho e o fogo não
pegava. Resolvido, voltou à cozinha e, com o ferrão de Tenório no oco do
chifre, enfiou no meio do braseiro.
Foi o que bastou. Zumira ao entrar
já foi logo deitando falação. Aquilo não aceitava. Onde já se viu misturar
aquela catinga no feijão que cozinhava desde cedo. Lugar de homem não era na
cozinha. Se a simpatia de espanto de cobra fosse aquele fedor, que ele
queimasse o chifre lá no curral, que ficasse longe do fogão.
Bento saiu no terreiro ainda com o
chifre enfiado no ferrão. Tenório, que chegava suado da lida, reconheceu a vara
pelo entortado do cabo. Já foi logo enfezando com o cunhado. No consentir de
quem ele estava usando o ferrão? Ainda mais naquele uso inadequado. Para que
queimar o chifre? Se fosse espantar cobra não era assim que fazia, tinha que
ralar o chifre e misturar com estrume que encorpava a fumaça. Bento,
contrariado com a falação, devolveu o ferrão e foi até a casa do vaqueiro Osório
emprestar um ralo.
Depois de quase a tarde inteira
que Bento estava pelejando com o chifre, o vaqueiro viu que ele estava usando o
ralo de fazer quitanda de sua mulher Izaltina. Maior ciúme dum outro objeto ela
não tinha. Osório, sem graça, reclamou que Bento devia ter falado o que ia
ralar. Se soubesse ele não emprestava. Para que ele estava fazendo aquilo?
Bento contou da simpatia de espantar cobra, disse que elas estavam aparecendo
muito no paiol e atacando as galinhas. Osório explicou que não era assim, de
ralar o chifre e misturar estrume, tinha de raspar com a faca melhor de corte
que tivesse na casa, juntar com pólvora e, também, que chifre secado em
borralho de fogão não servia. Tinha que secar ele numa fogueira, acesa em noite
de céu encoberto, sem lua e sem estrelas, noite de só breu.
Misterioso, Bento juntou as pedras
e fez a fogueira. Depois de secar o chifre numa seqüência de noites bem
escuras, passou quase um mês raspando e guardando dentro de um embornal. Dos
cartuchos do cunhado retirou a pólvora e guardou em outro.
Seu Baldino,
passando rente à cerca, parou num dedo de prosa. Bento, na curiosidade dele,
foi explicando o que estava fazendo. Baldino lhe disse conhecer a simpatia, a
raspagem do chifre estava correta, a pólvora também, mas pedra na fogueira não
podia usar não. Carecia fazer uma bacia de barro, do tamanho duma braça, encher
de gravetos. Só assim espantava as cobras. O efeito só seria duradouro se a
simpatia fosse feita à meia- noite e quando acabasse de queimar, ele espalhasse
as cinzas em volta do local.
Bento, com a bacia de barro pronta
e os dois embornais pendurados no esteio do paiol, esperava ansioso a noite
chegar. O cunhado, vindo do curral com o balde de leite na mão, mangou dele
dizendo que nunca tinha visto homem mais sem opinião e que ele não tinha fé no
que fazia. A simpatia tinha lá suas liturgias mas sem a fé não valia nada. Já
que ele aceitava palpite de todo mundo por que não ouvia o Mané Benzedor,
conhecedor por profissão e morando tão perto. Bento, quase na zanga com o
cunhado, resolveu procurar Mané Benzedor que lhe deu todas as orientações. Explicou
como fazer, corrigiu o errado, acrescentou o estrume na bacia de barro, mandou
pôr, além dos gravetos, sabugos e palha de milho e que esperasse uma noite de
bem breu.
Feliz da vida, Bento ficou
esperando a melhor noite, determinado a não aceitar mais palpite de ninguém,
nem falar mais no assunto, evitando apodo do cunhado.
Veio a cheia e nada. Na minguante
deu a noite esperada, escura, fechada e sem vento, parecia noite cega de nascença.
Na paciência, com todos os
detalhes, Bento preparou a bacia na porta do paiol, calculou o meio da noite e
pôs fogo.
0 barulho foi seco, bum..., nem
ressoou. O fedor foi exalando pelo ar e impregnando as palhas de buriti que
cobriam o paiol, espantando as galinhas do poleiro. Foi quando Bento viu a
sombra se transformar na figura que andava em volta exalando pior cheiro que a
mistura que ardia na bacia de barro.
Dela ouviu, atrás do bafo, bem na
sua frente.
- Cobra, que cobra levo.
E o coisa ruim sumiu do susto.
Cobra nunca mais apareceu lá e
Bento morre de medo, na noite escura, quando começa exalar aquele cheiro de
chifre queimado por todo o corpo.
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Marcos Quinan
quinta-feira, 4 de maio de 2017
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Chapada do São Marcos
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Chapada do São Marcos
bera do Ri do Braço
Vai Vem é afruente...
entre águas
entre rios
meio de cerrado
onde avoa codorna
e ispanto perdiz nos passo
Chapada do São Marcos
bera do Ri do Braço
Vai Vem é afruente...
entre águas
entre rios
meio de cerrado
onde avoa codorna
e ispanto perdiz nos passo
na porta da casa
bambuzá parceiro de vento cantadô
na porta da casa tamém
um pau frondoso
que cumula sombra nos embaxo
as foia sôrta antes da frorada
e arcochoa a sombra
pr’eu deitá cum meu amô
se cai fror durmida
nóis panha e se prefuma
se cai diurna
nóis se farta de cheiro que nem beija-fror
teno tropa prá tocá
nóis vai no passo manso
mode num cansá animá
mode tê paga boa
corda cedo
dia sem raiá
móia os pé no sereno
prá animá incontrá
no pasto pequeno
nóis campeia eles
traiz, arreia e vai gado buscá
Istimosa, Paridera, Esperança, Lambari ...
às veiz nóis passa no vau
céu vermeio parino o sol
merenda já tá cherano
o corpo recrama sustança
nóis tira o leite
aparta o gado
e atende o corpo cum zelo
pur pricisão às veiz
nóis mata um capado já chei de ingorda
aí é festança
nóis sangra ele antes da lida do gado
mode as muié aprepará
a limpança, o discarne, o retaio
fazê a lingüiçada e as armôndega
se truveja nas cabicera do Braço
nóis fica preparado
água do ri vai lambê as berada
e favorecê a distoca
aí, é o imborná de paçoca
a cabaça d’água e o invergá do corpo no eito
nos ôi de inxada cumulado na vida
o atestado de labuta
coisa que os calo das mão
num faiz pur sê só dois
o da firmeza e o da repuxa
adipois da lida
no terrero, em vorta do lume
cum as istrela recamada no céu
a cheia fazeno crarão
os vaga-lume riscano o negror da noite
na guardança da terra
nos calo da mão
o cantadô recebe a viola
e na quietude
canta sua dismidida querença
ah Sertão do São Marcos
divisórias águas do Braço da minha vida
num achei a sabedoria de ficá
e me perdi nos caminho de vortá
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bambuzá parceiro de vento cantadô
na porta da casa tamém
um pau frondoso
que cumula sombra nos embaxo
as foia sôrta antes da frorada
e arcochoa a sombra
pr’eu deitá cum meu amô
se cai fror durmida
nóis panha e se prefuma
se cai diurna
nóis se farta de cheiro que nem beija-fror
teno tropa prá tocá
nóis vai no passo manso
mode num cansá animá
mode tê paga boa
corda cedo
dia sem raiá
móia os pé no sereno
prá animá incontrá
no pasto pequeno
nóis campeia eles
traiz, arreia e vai gado buscá
Istimosa, Paridera, Esperança, Lambari ...
às veiz nóis passa no vau
céu vermeio parino o sol
merenda já tá cherano
o corpo recrama sustança
nóis tira o leite
aparta o gado
e atende o corpo cum zelo
pur pricisão às veiz
nóis mata um capado já chei de ingorda
aí é festança
nóis sangra ele antes da lida do gado
mode as muié aprepará
a limpança, o discarne, o retaio
fazê a lingüiçada e as armôndega
se truveja nas cabicera do Braço
nóis fica preparado
água do ri vai lambê as berada
e favorecê a distoca
aí, é o imborná de paçoca
a cabaça d’água e o invergá do corpo no eito
nos ôi de inxada cumulado na vida
o atestado de labuta
coisa que os calo das mão
num faiz pur sê só dois
o da firmeza e o da repuxa
adipois da lida
no terrero, em vorta do lume
cum as istrela recamada no céu
a cheia fazeno crarão
os vaga-lume riscano o negror da noite
na guardança da terra
nos calo da mão
o cantadô recebe a viola
e na quietude
canta sua dismidida querença
ah Sertão do São Marcos
divisórias águas do Braço da minha vida
num achei a sabedoria de ficá
e me perdi nos caminho de vortá
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sexta-feira, 28 de abril de 2017
Colho Cura
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Sérgio Souto
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Entreatos
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No elenco, eram sete contratados para reproduzir suas vidas em cena.
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No elenco, eram sete contratados para reproduzir suas vidas em cena.
Personagens: um manipulador, outro que usava a religião para seus logros.
O egoísta que também era um covarde. A transgressora convicta que amava um
poeta insignificante. Um que acreditava em seu passado e o usava como álibi pra
tudo. Outro, mal dissimulava sua arrogância e se dizia muito feliz.
A última não sabia quem era; nua, dançava languidamente, queria somente
ser desejada, fotografada e aplaudida.
Entre os atos, a
cortina não se fechava, a marcação ficava apenas num piscar de luzes. Nos três
minutos de intervalo, sem nenhuma caracterização, uma pessoa entrava no palco,
mudava o cenário, limpava cada canto com um espanador, parecendo querer tirar
qualquer vestígio de vida.
Era o único que
estava representando.
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quarta-feira, 26 de abril de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
Sensações
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Não queria saber de
mais nada e não percebia que a ponta dos dedos começava a se achatar, as unhas
entravam na carne.
Os olhos iam perdendo
o eixo do movimento normal, a pele murchando. Na boca, os lábios se repuxavam
para dentro; no nariz, a deformidade adquiria um tom avermelhado e o conjunto
produzia mal-estar em quem visse.
Sentia o cheiro, a
textura da pele, a maciez dos grandes lábios; o pensamento a tinha inteira nas
sensações, amava e a queria. Amava e a tinha, amava e a perdia.
Sentia dor, muita
dor; a ereção rasgava suas entranhas. Assim eram seus dias e noites; não
conseguia esquecê-la, vivia das lembranças e nem tentava confinar sua loucura.
Parecia um jogo, uma
execução que ele, o carrasco, determinava o delírio.
Esquizofrenia, lapsos
de memória e muitas esquisitices viviam nele. Na verdade o que queria, no seu desvario,
era se matar sem matá-la dentro de si.
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segunda-feira, 24 de abril de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Rebelião
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Na memória continha o
registro de todas as sensações; ao circular, espalhava o que absorvera nos
sentidos, célula por célula.
Corpo e alma contidos
no líquido viscoso e impregnados de lembranças, sentimentos e saudades
transitando por todos os lugares, sustentando o ser imerso em sua intensidade.
Quando fizeram a
transfusão, o sangue sintético que recebeu não tinha memória. Precisou ser
tanto que as mais insignificantes partes do corpo foram se rebelando e deixando
de funcionar aos poucos.
O coração, último
rebelde, parou abraçado aos pequenos vestígios de sua alma desfeita no ar e
levada pelo vento.
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Rebelião
quarta-feira, 19 de abril de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
Fio de tempo
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Todas as metáforas conduziam suas histórias para se tocarem; o olhar de um já tinha o outro dentro, desde quando se conheceram.
Hesitavam, mas a atração era verdadeira, era de verdade o cuidado que tiveram. Vinham de lonjuras e entregas sentindo suas realidades solitariamente.
Precisavam-se e se pertenceram. ...
As mãos, o silêncio, o beijo; a coragem e o medo conjugando a excitação, explodindo no querer inteiro. Um viço vinha misturado ao desejo, perfumando as horas.
Entregaram-se num fio de tempo estendido imperceptivelmente entre a realidade e o sonho.
E ficaram em silêncio, um dentro do outro, tentando de verdade se pertencer antes que alguma saudade acordasse o momento.
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Todas as metáforas conduziam suas histórias para se tocarem; o olhar de um já tinha o outro dentro, desde quando se conheceram.
Hesitavam, mas a atração era verdadeira, era de verdade o cuidado que tiveram. Vinham de lonjuras e entregas sentindo suas realidades solitariamente.
Precisavam-se e se pertenceram. ...
As mãos, o silêncio, o beijo; a coragem e o medo conjugando a excitação, explodindo no querer inteiro. Um viço vinha misturado ao desejo, perfumando as horas.
Entregaram-se num fio de tempo estendido imperceptivelmente entre a realidade e o sonho.
E ficaram em silêncio, um dentro do outro, tentando de verdade se pertencer antes que alguma saudade acordasse o momento.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017
sábado, 15 de abril de 2017
Último encontro
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A revelação não o
surpreendeu. Suspeitava desde muito tempo. Na infância, na juventude e agora
ali, ouvindo.
Sempre aquela coisa
estranha. Espécie de comichão no corpo, um pensamento saliente tomando conta dos
sentidos. A atenção redobrava. O raciocínio formulado com muita rapidez, quase
aviltava suas interlocutoras.
Ela era bela e
sofisticada. Curvava o olhar enquanto falava parecendo querer, confrontada com
alguma razão, ser interrompida. Ele não evitava a conversa, disfarçava, não
contracenava, ouvia, só ouvia.
A revelação veio
entre a intenção das palavras. Claro como aquela tarde quente, estranha como as
probabilidades do seu corpo. Ele era um demônio...
Sim, um demônio. Sentia,
sentia ser.
Foi como um rastilho
de pólvora se acendendo. Seu pensamento correu o passado todo. Era mesmo,
lembrava-se de cada momento, de cada transmudação ao longo da vida.
Queria rir,
gargalhar, mas se conteve. Impassível, ouviu como uma transgressão confessada, como
um desejo de remissão impresso no tom da voz. Viu nos olhos molhados nostalgia,
mas nenhum arrependimento.
O esforço que ela
fazia para inventar uma história de culpa já não tinha importância. Era só um
espectador. A beleza ele já havia roubado. O arbítrio da fé não o interessava.
Apenas ergueu o copo.
Em silêncio, brindou
ao pecado que a colocara inteira no seu inferno particular.
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Último encontro
quarta-feira, 29 de março de 2017
terça-feira, 28 de março de 2017
O dramaturgo
Autor muito aclamado,
suas peças sempre faziam sucesso.
Prêmios e
reconhecimento por onde passava. Livros publicados, palestras em universidades,
seminários, uma unanimidade.
Sempre que lhe
perguntavam de qual personagem gostava mais, respondia: ora um ora outro.
Mas na verdade a
preferida nunca dissera a ninguém, guardava para si a grande paixão que sentia
pela atriz de televisão fracassada, criada para um dos textos de que mais
gostava. Um monólogo existencialista engraçado e denso ao mesmo tempo. Seu trabalho
menos aplaudido e, em sua opinião, a melhor encenação de todos eles.
A atriz que viveu a
fracassada abandonara o teatro, seduzida por uma religião. Nunca mais a vira.
Numa viagem com a
trupe, começou a ter sonhos recorrentes com a personagem preferida. Sua melhor
criação passava, correndo de uma multidão, na frente do hotel.
A cada sonho
distinguia outros atores representando, eram seus perseguidores. O único rosto
que identificava era o da atriz que a interpretara.
Resolveu; naquela
noite, ficaria sem dormir para quebrar a sequencia daqueles sonhos.
Alta madrugada; estava
lendo quando ouviu a gritaria e as batidas na porta; era ela pedindo socorro.
Era ela querendo
fugir da ficção.
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O dramaturgo
segunda-feira, 20 de março de 2017
terça-feira, 14 de março de 2017
Quase vida
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Não sabia viver de
outro modo, queria o mundo todo, tudo de uma vez. Ávido. Não parava de querer e
não percebia o que ia se formando e crescendo, como uma aura acompanhando o
corpo.
A mulher era
especial, aquela lua também. Ambas fascinavam no imediatismo do momento, mas
nenhuma durava em seu sentimento e na lembrança. O enlevo só alimentava seu
prazer e mais nada.
Passado, isso é
bobagem. Futuro, nem existe ainda, dizia e continuava ávido como se apenas o
imediatismo significasse viver.
Cada dia de um jeito,
cada dia com uma pessoa que ele encantava com sua beleza. Cada dia com o vazio aumentando
como se fosse uma substância.
Numa noite percebeu-se
diferente, quis lembrar da aurora e do sentimento pela mulher que amou num amanhecer
e não conseguiu.
Sentiu a voracidade
do presente que o envolvia, dominando, ditando apenas procedimentos, pedindo
mais para crescer e só ai entendeu sua quase vida.
Era um corpo apenas.
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Quase vida
segunda-feira, 13 de março de 2017
sábado, 11 de março de 2017
Armou o cão
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Estava sozinho em
casa, sentado na poltrona de couro, com a espingarda entre as pernas.
Fechou os olhos
percorrendo as lembranças, identificando cada momento bom, cada decepção.
Sentiu saudade.
Como se fosse um
ritual, abriu a caixa no colo, escolheu a ferramenta e começou a cuidar da
arma. Desmontou-a peça por peça, lixou as pequenas ferrugens, limpou com a
flanela, passando óleo fino em cada encaixe.
Montou e desmontou
duas vezes, conferindo a precisão do funcionamento. Levantou-se e foi buscar o
carregador de cartuchos manual, escolheu um e calibrou com gestos seguros e
carga reforçada.
Terminou a preparação,
guardou o material; tomou um copo d’água, tinha a boca muito seca. Olhou contra
a luz o cartucho como se o medisse e lhe conferisse uma missão.
Pensou na mulher. Quando
chegasse, o quanto se aborreceria.
Desencaixou os dois
canos da espingarda e carregou o esquerdo, depois resolveu e mudou o cartucho
para o direito.
Um tiro só bastaria.
Depositou a arma
carregada no braço da cadeira, levantou-se e ligou a televisão no último
volume.
Voltou, sentou-se,
reviveu alguns momentos, armou o cão e respirou profundamente antes de puxar o
gatilho.
Atirou no tubo da TV.
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