quinta-feira, 9 de junho de 2011

SERTÃO DO SÃO MARCOS - Desde que nasceste

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Em volta do curtume escolhi ficar, se era minha mesmo, achava que deveria acompanhar desde pequena; fazer como os outros, ficar por aí, atazanando a vida de todo mundo e só aparecer na hora chegada, não queria. Minha preferência era acompanhar aquela alma, iniciando sua formação desde o engatinhar.


Sempre fora assim, mesmo com toda a crítica que recebia, fincava opinião e por isso, às vezes, era até discriminado, mas não ligava.


Gostava demais do enquanto, de vê-la dar os primeiros passos pelo em volta, seu andar miúdo pelo pasto, quando banhava no Sapé, tinha força. Ficava de longe olhando, medo do cheiro delatar. Perto mesmo só chegava no em volta do curtume, os cheiros se misturavam e não assustava.


Gostava enquanto, já mocinha com porte de nobreza, distinta ia se moldando, alma firme e cheia de ternura, raridade que percebi logo, ainda ela menina. Sonhava tanto, era gananciosa e nessas horas séria demais, exigente demais.


Gostava mais do enquanto, de vê-la dançar o primeiro baile, o corpo formando, seguro nos gestos de alma dançando.


Nessa época, um dia não resisti e esperei numa esquina e quando ela passou, sussurrei.



- És minha...

Ela correu pela noite e não tive coragem. Gostava tanto de vê-la com medo e naquela angústia revelando incertezas. Vê-la conhecer o amor em silêncio. Crescer ali nos arredores do curtume, eu podia estar bem próximo, acompanhando, anotando, descobrindo, esperando, era minha.


Poderia tomá-la a qualquer hora, na vontade. Mas não o fazia, esperava com franqueza, com ciúmes, gostava.


Um dia, ela se mudou para outra rua, longe do curtume. Eu não podia ficar tão próximo, o cheiro ia delatar. Me conformei com outros artifícios que me foram dados ter e a vi crescer justa, às vezes rude e juntando mágoas; às vezes agressiva e silenciosa, ambi-cionando.


Não via a hora, ao mesmo tempo, querendo não querer, preferindo... Mais uma vez não resisti e a esperei numa tarde findando.

- És minha...

Ela correu quase indiferente, expressão presente naquela hora, paz e razão na idade conquistada, deixando herança.


Mais uma vez não tive coragem e voltei a minha forma de antes, exalando o pior dos cheiros, com todos os meus segredos esperei na cumeeira do telhado mais alto do curtume a noite calar e sorrateiramente pulei a janela do seu quarto. Ela sonhava com o amor quando a acordei com meu calor cheirando a enxofre.

- És minha...


Ela veio devagarinho, sorrindo, silenciosa sem nenhum gesto de espanto e se entregou calmamente me perguntando.

- Desde quando me amas?

Fui abraçando aquela alma, que me fora predestinada, e respondendo como se a pergunta não tivesse sido feita para o amor com que ela sonhava.

- Desde que nasceste, alma que me ama.




MQ
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Leia a obra completa aqui: http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/
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