segunda-feira, 8 de junho de 2015

Iên e Zu Munducu - MQ


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Quando viu, veloz e em saltos no meio fechado do mato, pensou: guariba. Não era. Pensou pintura sem preceito, desar. Não era. Caça fora de hora no espaçado do dia, parecia.

 Acompanhou pisando silêncios até o destro gesto. No outro, metade susto, metade medo. Caça nada, parecia resto de fogo sem fumego, avaliou quanta carne, armou a borduna de tucum, recém tirada.

Queria o assado vivo, pensou; esse prostrou manso facilitando o golpe ou adivinhando intenção de ser levado. Olhou no detalhe cuidando distância; viu os molambos que o outro vestia; a pele porejando, escura e brilhante. Não resistiu, baixou o braço e o tocou com a ponta da arma falando.

 

- Iên... iên... iên...

 

De joelhos, sem entender aquela língua mais estranha ainda do que a que vinha ouvindo desde o navio, levantou a cabeça e gesticulando desandou a contar sua história para espanto e risos do pajé. Ria de sua fala mais enrolada que a dos outros e de seu jeito de animal já ferido. Sem entender as risadas, o negro voltou cabisbaixo para sua submissão. Calaram-se. O escravo esperava o golpe, o pajé queria ouvir mais, apontava a arma:

 

-         Iên... iên... iên... pedia ouvir.

 

Ficaram tempo... um gesticulava e falava muito; o outro ria sem abandonar o domínio da presa. Quando o índio ria, o negro parava e abaixava a cabeça. Parecia uma brincadeira, o índio lembrava o movimento da dança do tamanduá, boleando a arma. O negro medrava como precito, bongando dor como no castigo do bambaquerê.

Entraram juntos para espanto da aldeia, o pajé o exibindo como um animal de estimação. Esperou juntar todos em volta e cutucou falando:

 

- Iên... iên... iên... repetindo a brincadeira que fez muitas risadas.

 

Desse dia em diante, o negro virou a sombra do índio, sempre um passo atrás, acompanhando onde quer que fosse, era servidão e a curiosidade em aprender puçangas e feitiços, não ocultando modos que sabia, conhecimentos de raízes, folhas e musgos. Quando os dois se embrenhavam no mato, ficavam por dias e dias colhendo toda sorte de ervas e, de retorno, faziam experimentos, beberagens e inalações como se fossem dois boticários em pesquisa de cura.

Virou um igual - de nome ficou Iên - a sombra do pajé a quem chamava Zu Munducu. Inseparáveis. Calada a língua, falando  por olhares, sinais e meios, se entendiam mais ainda no colher ervas, em lidar com as encantarias e na evocação de espíritos, sabedoria de um e de outro se misturando e misturando as línguas. 

Iên vivia na maloca sem participar de nenhuma festa, deles, recebia nestas ocasiões, o naco de comida das mãos de Zu Munducu; mas pelas frestas do palhiço acompanhava as cerimônias de preparo da carne, fosse caça ou carne humana; as danças e rituais de alegria e cura.

Afastado dos demais, ficou até o dia que trouxeram um dos presos, peado no cercado. A pancada na testa derrubou o corpo no chão. Iên olhou Zu Munducu, viu consentimento. Correu, tomou a dianteira pra descarnar, cabendo, valente, nas vistas de muitos e no espanto do pajé. Cortou como eles, limpou, corou como nunca viram, esfregava as costas da mão esquerda na cavidade do ventre e entoava palavras parecidas com as já ouvidas. Soaram melancólicas, calando qualquer riso. Foi olhado de um modo diferente quando pelou pernas, braços, separou a cabeça e entregou ao pajé, murmurando profundo como no ritual. Serviu as partes dando gritos e rindo alto, tinha aprendido tudo.

No passar do tempo a aldeia foi se acostumando com a presença do negro, todos o tratando como igual, aceitando outros escravos fugidos, como ele, aparecendo sozinhos, em pequenos grupos e, às vezes, misturados com índios de outras aldeias, chegados por vontade, sem lutas.

O lugar ia cafuzando, crescendo seus domínios, misturando as raças e os costumes, protegido pela valentia e mistério. O jeito dos negros em tratar os fugidos contaminava. Passaram a fazer o mesmo com os capturados transformando o Abaribó numa mistura de muitas tribos com quilombolas. Lugar de liberdade, calaçaria, igualdade, magia, dançarás e alegria.

Tapuiúnas e tapuitingas impregnados naquelas matas surpreendiam comboieiros e grandes descimentos, aumentando a população raciada de índios, negros e mestiços aldeados na extensão de muitas léguas.

Acumulavam a comida viva, aprisionada, para grandes festejos. Comum, Zu Munducu, separar dos brancos os que tinham algum traço de sua raça ou da de Iên. Esses viviam em liberdade, a menos que não se submetessem, eram tratados como iguais, alimentados e não trancados em cercados vigiados, como os outros.

Eram mais de sessenta peados, um jesuíta e oito brancos fortemente armados. Foram dominados na escaramuça, maior grupo preso pelos abaribós, dos oito brancos, três feridos, dois mortos e comidos no local do encontro. Primeira vez que capturavam um padre, causou rebuliço. Muitos ali conheciam os jesuítas das missões, esse foi mantido separado dos demais, era um fascínio para as mulheres que dele cuidavam, comia muito e nunca foi comido, morreu velho, ensinando coisas, trancado mas espalhando descendentes. Do tempo, desse dia, ficaram poucos rituais. Os  capturados serviram de escravos até se acostumarem ao jeito de viver no Abaribó, virando gente de lá, se misturando nos quereres de todos, plantando mandioca, fazendo farinha, aprendendo junto alegrias e todas as danças.

Os infensos acabavam por deixar envelhecer cativos no mais bruto dos fazeres, vigiados sem castigo até a morte. Serviam de brincadeira para as mulheres e crianças. Uns tentavam fugir, sem caminhos, errando o rumo das águas, se perdendo dos limites e se embrenhando na sesmaria dadivosa, corpos nunca achados, virando húmus ou comida de animais.

A sabedoria de Iên e Zu Munducu perdurava pela lembrança de todos; anos de harmonia com o natural e as encantarias, inçando quem chegasse fugindo do que quer que fosse.    

Quanto mais crescia o lugar, mais ousados ficavam, indo longe buscar pelas trilhas, capturar viajantes de quem esbulhavam tudo. Como os dois ancestrais cuidavam harmonia. Nessas incursões fizeram o primeiro contato com um regatão, na tensão de armas que só não resultou em luta porque a cor da pele identificou iguais de um lado e de outro.

Dali ficou, para os abaribós, o comércio das drogas do sertão, as trocas e a fama do lugar que correu pelas águas, levada pelo comércio ambulante dos poderosos, ligando-os aos oprimidos e desvalidos, atraindo fugidos que achavam o rumo das suas terras, lugar onde tudo se podia.

 

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domingo, 7 de junho de 2015

O POVO DO BELO MONTE - MQ

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sábado, 6 de junho de 2015

ENTÃO, FOI ASSIM? - RUY GODINHO

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O programa Então, Foi Assim? deste sábado, será inteiramente dedicado ao talento e criatividade do cantor e compositor carioca Celso Fonseca, que rendeu músicas memoráveis.

Na ocasião ele revelará as histórias de:
 
- O eterno Deus Um Dança (c/Gilberto Gil);
 
- Meu samba torto;
 
- Nunca pensei
 
- Febre e
 
- Por acaso, pela tarde.
 
 
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde na Nacional FM com retransmissão para mais de 240 emissoras em todo Brasil.

 
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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sexta-feira, 5 de junho de 2015

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O destaque do 1º bloco vai ser a Coleção Choro Carioca - Música do Brasil. Os autores enfocados são Santos Bocot e Heitor Catumby.
 
No 2º bloco o encontro de dois grandes gênios -Radamés Gnattali e Rafael Rabello - para homenagear Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto.
 
No 3º bloco o encontro internacional do clarinetista e saxofonista cubano Paquito D'Rivera com o brasileiro Trio Corrente.
 
No 4º bloco Clarisse Grova canta composições do bandolinista Afonso Machado; no CD Que tal?
 
No 5º bloco teremos o CD Quinteto Vento em Madeira, primeiro disco de carreira deste grupo.
 
Roda de Choro, sábado, meio dia pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz, de Brasília, retransmitido em mais 205 emissoras pelo Brasil, Japão e Angola.

Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Novembro de 1999 - MQ


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Foi numa tarde

de passarinhos,

de água clara.

 

O sol projetando

os espaços,

a ponte sugerindo

as ligações

do trabalho

com a saudade.

 

Era o terminar do século.

 

O computador portátil,

no banco traseiro do carro,

pronto para palavras antigas

e o Braço indo... indo...

 

De repente vi.

 

- Tarde, seu moço...

 

Perplexo respondi:

 

- Boa tarde.

 

Era Baldino,

Ojero, Borborema

e toda a mulada

entrando nos matos

no rumo de Ipameri.

 

 
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Rua de Baixo - MQ


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- Cotinha, que sombrinha bonita, foi de Baldino, foi?

 

- Demorou mas trouxe; trouxe também uma peça de chita p’ra Das Dores do Baltazar, mas não achou minhas intertelas. Ele passou lá, encomenda de Irino. Nem olhei nada não. Tava na hora da minha novena e ele com pressa.

 

- A senhora viu quem o padre escolheu para festeiro?

 

- Também não gostei. O seu Zé Bilú até simpatizo, mas a mulher dele é um entojo, gosto não. É um tal de lá em Minas prá cá, lá em Minas prá lá.

 

- Ela é muito exibida mesmo.

 

- Passa o dia inteiro varrendo a porta da rua, sem precisão. Até parece que é muito asseada. Dona Duvigis do céu! Quase esqueço de contar, o filho da Davina da pensão embarrigou a sobrinha dela.

 

- O mais velho?

 

- Não, o mais moço. Imagina também deixar aquela molecada sozinha, ainda mais a sobrinha, filha de quem é.

 

- Lembro da mãe dela não!

 

- Aquela que foi excomungada, morava no curtume.

 

- Não, Cotinha. Aquela não era mãe dela, era irmã da mãe e da Davina.

 

- É a mesma coisa, essa gente é tudo igual. Num vê o filho do seu Laudênio, igual ao pai, não vale nada. Todo dia vejo o cavalo dele parado na porta daquela mulher amigada do Custódio.

 

- Cruz credo, que discaração.

 

- Imagina que ele põe de um tudo prá ela, até encomenda de peça de pano fez p’ro Baldino. O dia que descobrir vai ser um deus nos acuda.

 

- Soube da Ana do Clemente?

 

- Que falta de vergonha, logo com o vaqueiro. Basta ver os dois juntos, o jeito dela dá ordens prá ele. Quem não sabe.

 

- Nem na missa ela vai mais. Seu Clemente deve de tá revirando na cova.

 

- A Júlia Parteira me contou que o vaqueiro num dorme junto com os outros, não. Tem dentro da casa um quarto só dele, ao lado do dela.

 

- Deveras?

 

- Ela pois a Clotilde e o marido, quando foram de poso, prá dormir no quarto do vaqueiro e ele num colchão do lado da porta do quarto dela.

 

- Que falta de respeito.

 

- Esse mundo tá virado, Cotinha.

 

- Aquele lá num é o irmão do que enforcou a mulher?

 

- Parece. O Irino diz que viu ela enforcada, ficou de cedo até de noite pendurada na corda. Disse que num podia mexer no corpo até a polícia chegar. O pescoço dela foi esticando por causa do peso do corpo. Que judiação.

 

- Dona Duvigis, senhora já pois reparo nas desgraças que tá acontecendo aqui? Dona Idalina, coitada, nunca mais soube de Mundica. Agora, a mais nova abandonada pelo marido. Ele parecia tão bom.

 

- Mas num tolerou a loucura da Lilica.

 

- Isso é. Mas quem havia de tolerar, ele não devia é ter casado com ela.

 

- Mas a cobiça era nas terra do sogro.

 

- Lilica é muito formosa e os homens num querem saber do juízo não, quer é tudo na mão, a formosura e o fogo do corpo.

 

- Falar em fogo, Cotinha, tem noticias do sacristão?

 

- Tenho não, o padre num deixa ninguém entrar no quarto dele. Diz prá respeitar a velhice dos outros. Depois do enterro ele ficou variando, só vi ele no dia.

 

- E os parente dele?

 

- É sozinho no mundo. Os parentes que tem, ninguém sabe onde vive, só sabe que foram p’ro norte.

 

- Não é no norte que o filho da Lila mora, aquele esquisito que tem nome de mulher.

 

- É sim, ele esteve aqui outro dia, é meio esquisito mesmo.

 

- Eu vi ele conversando com o Arcanjo, andou por aí em todo lugar.

 

- Já reparou o desmazelo que tá a igreja depois da doença do Otacílio?

 

- Mas quem tá cuidando agora é dona Geralda; porca que só ela, num limpa nada na igreja, mas é protegida do seu Firmino, único benfeitor  que o padre vê, desde que ele deu o sino novo.

 

- Diz que o seu Firmino dorme é pelado.

 

- Quem te contou?

 

- Foi Rita Bananera, ela viu ele levantar igual veio no mundo, e num foi só uma vez, não.

 

- Será que ela tá se engraçando com ele?

 

- Viúva há tanto tempo, né? E ela tem jeito de fogosa.

 

- Será? Por isso que ela passa lá todo dia e com o mesmo tanto de banana no tabuleiro que entra, sai.

 

- É mesmo. A senhora espia eles.

 

- Destramelo a janela e olho pela fresta. Ela só vai lá cedinho, hora que ele tá acordando.

 

- Num falo que é gente que num presta?!

 

- Cotinha, vamos rodear, num gosto de passar na porta da venda desse Manco, só tem falação e fuxico, esse homem não presta.

 

 

 
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Zarias - MQ


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Zarias era tocador de viola, dos mais afamados chapada afora. Não tinha um arrasta-pé que não era, ele e seus companheiros, chamado para tocar. A catira era o que mais dava prazer a Zarias.

Junto com Nacleto, Clóvis e Zé Dado, formavam o quarteto de sanfona, viola, caixa e violão mais apreciado, fosse no toque das valsas, mazurcas ou nos rastapés, fosse nos cateretês, maxixes, xaxados ou xotes.

Tocavam em todo o tipo de festa e diz que, uma vez até num enterro, por encomenda do viúvo. E na hora não sabiam o que tocar, foram perguntar ao vigário e quase foram excomungados.

Nesse dia foi só valsas.

Os quatro cruzavam aquele sertão mês a mês, ano todo. Três bons cavalos, com arreata no apuro; um carro de uma junta só, que levava os instrumentos e a tralha de cada um; o rancho e a canastrinha do dinheiro. Essa, vigiada dia e noite. Mesmo quando estavam tocando, ela sempre ficava aos pés de Nacleto, seu vigia oficial.

Zé Dado era jogador inveterado. Uma vez, foi surpreendido junto com um vaqueiro; na frente de cada um, um montinho de açúcar, e eles esperando para ver em qual deles o mosquito ia pousar primeiro.

Clóvis não podia ver rabo-de-saia. Como metade do ano as funções eram nos cabarés, ele se esbaldava; espalhava promessas de agrado, que nunca cumpria, para toda mulher que enrabichasse com ele.

Zarias, o mais afamado, em qualquer lugar que chegasse para um divertimento, ficava horas no centro da roda sempre tocando sua violinha.

E era bonito vê-lo tocar. Diziam até que ele dormia junto com ela.

Mas dizem que o certo é cheio dos poréns.

E o certo é que fazia sete anos que eles não punham os pés em Urutaí. Todos os figurões do lugar, gente mais simples, o padre e até dona Dirce, esta dona de casa de mulher, já haviam chamado os músicos. Zarias sempre arrumava uma desculpa e nunca aparecia. Todas as localidades e fazendas da chapada, de menos Urutaí, tinham seu comparecimento.

Perguntado, Zarias enfezava e perdia todo o cavalheirismo que lhe era peculiar. Não respondia. Perguntados, Nacleto, Clóvis e Zé Dado, tinham as mais diversas reações. Nacleto ficava sério e desconversava. Os outros dois davam uma risadinha e corriam do assunto.

Nesse tempo, eu era menino e me lembro dessa observação, feita na venda do Manco, pelo meu avô.

Hoje, passados mais de vinte anos, numa conversa com meu pai sobre aqueles tempos e aquelas pessoas, e principalmente sobre o músico, ele me contou que, até morrer, Zarias, sempre inseparável de sua viola, nunca voltou a Urutaí. Morreu de repente, longe da família, quando tocava, sentado no tamborete na varanda da pensão de sua comadre Quirina.

Aquilo, passado tanto tempo, não me saía da cabeça. Intrigava também muito meu pai e, naquela conversa, ali na varanda da Forquilha, esperando dona Flora que ia pegar a jardineira para Urutaí, tentávamos desvendar o mistério quando, na surpresa, dona Flora, ouvindo um fiapo da nossa conversa, contou depois, para minha mãe, o motivo de Zarias nunca ter voltado a Urutaí.

Na manhã do outro dia, meu pai acordou rindo todo.

 

- Descobri o mistério. Você tinha uns três anos, foi no casamento de sua madrinha Lilica. Uma festança, tinha gente até de Minas, coisa de muita cerimônia.

Zarias, ainda pouco afamado, chegou com sua turma, assistiu à cerimônia do casamento e, na hora da festa, muita gente, muito barulho. Ele precisava afinar a viola e, antes de começar, queria urinar.

Foi para o terreiro junto da cerca de taquara, desabotoou a braguilha e, enquanto urinava, afinava a viola, colocando o bojo dela de encontro ao ouvido, por causa do barulho da festa. Afinava uma corda e fazia acordes para conferir a afinação, afinava outra e fazia o mesmo. Como ele era muito virtuoso, entusiasmou-se com aqueles acordes e se esqueceu até da festa. Foi preciso chamarem.

Na arrumação de começarem a tocar, nem seus companheiros viram. O baile começou e Zarias no canto, tocando sua violinha. E eram polcas, valsas, mazurcas, às vezes um rasteado ou uma quadrilha, muito xote e todos dançando. Foi quando Nacleto começou a reparar que as mulheres puxavam seus pares, no embalo da dança, para mais perto de onde eles estavam. E sempre soltavam risinhos, trocando sinais entre si.

Nacleto pôs cada vez mais sentido e viu que tinha alguma coisa errada. Seguindo os olhares, descobriu que a braguilha de Zarias estava aberta e as partes para fora. Começou a olhar para ele desesperadamente antes que, em vez de só as mulheres, os homens também notassem. E aí, seria caso até de morte.

Zarias não entendia o que o companheiro queria dizer com tanto sinal; todos estavam tocando direito, nenhuma nota escorregada, a festa muito animada. Nacleto olhava para os olhos dele e tentava puxar, arrastando com o olhar sua atenção para a braguilha. Até que conseguiu, mas a viola atrapalhava ele enxergar as partes de fora.

Nessa hora, já ficava em frente de Zarias, escondendo ele, para evitar o assanhamento do salão. E Zarias pensava, por que será que Nacleto queria aparecer tanto, ele que era o mais quieto de todos?

Era de uma pausa a combinação, mas Nacleto acabava uma música, puxava os baixos da sanfona e começava um recortado, Zarias não entendia, aquilo não tinha sido combinado.

O desassossego tomou conta também de Clóvis e Zé Dado, que não sabiam o que estava acontecendo, quando repararam na braguilha do companheiro. Aí foi sinal de tudo que é jeito. Zarias levantou a viola, encostando o bojo na orelha, e viu suas partes de fora. Assustado e vermelho de vergonha, virou de costas e, no terminar da música que tocavam, entrou num rasteado que fazia com uma mão só e, com a outra, guardou as partes e abotoou a braguilha.

Acabaram a função. Zarias saiu na frente, montou seu cavalo e esperou os companheiros no Inajá. Obtendo deles a promessa de nunca relatarem o acontecido, não voltarem lá e nunca mais falarem no assunto com ele.

Desse dia em diante, nunca mais voltou a Urutaí e, fora seus três companheiros e algumas mulheres que viram, mais ninguém soube do acontecido.

 

- Pai, como é que dona Flora soube? E com tantos detalhes, perguntei.

 

- Ela foi casada com ele.

 

 
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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cavalo de guia - MQ


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Acha que tem dó no mundo, pois não tem; ninguém tem dó nem do cavalo nem do cavaleiro.

Pensa que eu não penso que é só labuta? Que sou ensinado porque venho do pasto sozinho, engano. Tenho é dó e nesse costume, qualquer dia vão me soltar no pastinho de arreio e tudo. Acho que eles deixam ele dormir de roupa. Consideração pouca tem esse povo dele mas... o de comer quem traz?

Deixaram de novo ele deitado no banco. Vem pôr esse arreio logo, menino. Enquanto não enfio a cara na janela da cozinha, dona Socorro não esperta. Qualquer dia vou dar é um coice na porta.

Chegou o arreio, depressa menino, cedo é a hora melhor. Rimmm... Minha boca, seu moleque desgraçado.

Isso é todo dia a mesma coisa, subir ele na sela, e a má vontade do menino em nos levar até o começo da rua. Era trabalho nenhum. Depois, era eu que fazia todo o caminho, debaixo do sol quente, parava em todas as casas, por conta da caridade.

Quando o menino ia junto, era mais fácil. As pessoas se assustavam, menos com o Divino, coitado, magro demais, todo torto e paralisado de um lado, a mão esquerda prejudicada, parecia mão de menino pequeno. A perna esquerda, de tanto sentar para um lado só da sela, murchou. Mas o que mais assustava as pessoas era o balançar dos olhos de um lado para o outro, muito rápido, juntado com o tremor generalizado do corpo, a baba e o puxar do ombro esquerdo para cima.

Aquela comichão no corpo dele começava de baixo para cima e sacudia até o meu pêlo. Era como se o tremor fizesse parte do respirar dele.

Tinha dia que a doença atacava mais, ele se desgovernava e caía da sela. O povo passava mas não socorria, tirando Da Luz, essa sim, se via, corria e punha ele de novo na sela. Sempre comentando, como se Divino entendesse:

 

- Por que seu povo não te trata direito? Seu menino devia estar junto. Onde já se viu. Nem banho tão te dando.

 

Essa era criatura boa. Do povo da Vila, a única que não fingia não ver. Qual fosse o dia, o ajutório dela vinha para dentro do saco.

Sina dele, assustar; a minha, tolerar o sol quente o dia inteiro. Do peso dele reclamava não, era coisa pouca. Mas ficar na porta das casas esperando as pessoas reparar para pôr um ajutório dentro dos sacos amarrados na sela, isso era penoso. Mas enfiar a cabeça na janela como fazia com dona Socorro, assustava. Já tentei antes e uma vez levei um balde d’água na cara.

Não que tivesse escolha, mas esse serviço não prestava. Às vezes, parado na porta duma casa, via passar os outros cavalos e os invejava. Aquilo é que era vida, não essa de carregar Divino pedindo esmola pela Rua de Cima inteira e, depois pela Rua de Baixo, todos os anos, nessa mesma lida.

Apeava ele direto no banco e tirada a sela, me soltava no pasto com aquele tapinha na bunda que me enfurecia tanto. Diversas vezes tentei acertar o coice, mais aquele menino só tinha o de danado.

Da beira da cerca via o jeito que tratavam ele na hora de esvaziar os sacos e trocar aqueles pelos limpos. Único asseio daquela gente. A mulher dizia que os sacos tinham que estar limpos para ninguém ter receio de pegar neles para pôr as esmolas. Mas Divino, para esse tinha que faltar asseio e despertar dó. Ainda reclamavam: “só deu isso?”

Já tinha visto muito o jeito de eles dar banho. Banho de acento aquilo lá, não era não. Jogavam dentro da bacia e deixavam horas misturando lá o tremor do frio com o tremor do sestro dele.

Pensa que eu não penso, era só o que eu fazia. Ver todo dia aquela judiação e a cada dia Divino mais velho e pior da doença, e eles falavam que era sestro. E, cada dia, o trato piorava. O menino crescia e ia ficando pior.

Um dia, notei que ele estava balançado mais que o normal, seus olhos indo na intenção de enxergar o lado esquerdo e o direito do horizonte, ziguezagueando por essa linha, parecia querer ver os dois lados ao mesmo tempo. Alarmei e fui direto para porta da casa de Da Luz, onde comecei a relinchar o mais alto que podia. O socorro veio, mas quando ela chegou no portão e pôs a mão na tramela, o corpo despencou do arreio e Divino já caiu no chão, morto.

Passei mais de mês me escondendo do menino no pastinho, e procurando jeito de tirar aquela sensação de tremor do meu pêlo, mas mal o sol nascia a comichão começava e ia até a noitinha. Não escapei de nenhum, o menino me achou e o tremor ficou agarrado em mim, marcando a sina.

Dona Socorro arremedava. No começo mal, mas com o tempo e ajudada pelo meu próprio tremido, foi se acostumando e fingia nos mínimos detalhes a doença do marido. O povo generoso dizia que a coitada tinha pegado a doença dele.

O costume de vir do pasto sozinho, mantive. Mas o resto mudou, dona Socorro começou a afinar, atrofiar e a babar como Divino. O menino continuou a me puxar pelo cabresto até o começo da Rua de Cima. Mas, da feita que entrávamos na rua, quem ditava as regras era eu.

No começo ela sofreu tanto que chegou a trocar de cavalo por uns dias. Mas não deu certo, o colega não era acostumado, não tremia como eu. O que não ajudava nada o fingimento dela.

Dona Socorro pena até hoje, quando fico tempo demais nas portas da caridade, debaixo de sol quente. Não pode pôr comando na frente dos outros, nem quando chegamos em casa. Se me judia, como no começo, me escondo no pasto e o de comer tem que esperar o menino me achar.

Não ponho governo nela, nem deixo ela pôr em mim. No menino já acertei muitos coices por conta daqueles tapas na bunda.

Na porta da casa de Da Luz, com ela nunca parei. O saco pendurado no arreio volta sempre mais minguado que nos tempos de Divino.

Foi assim que tirei proveito da minha sina. Porque cavalo também pensa. Ora se pensa.

 

 

 
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