sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ninguém me Conhece: 18) A Febre de Fernando Cavallieri

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Quando tinha por volta de 13 anos, num jogo de futebol de salão, dei um drible que fez fulano perder o rumo de casa (é, já dei minhas cacetadas), e este, pra se sentir vingado em sua honra, confundindo futebol com boxe, numa pancada certeira, fez-me beijar a lona (que não havia). A brincadeira custou-me uma fratura no braço esquerdo, duas semanas de gesso (durante os quais a régua foi minha espada vingadora contra a implacável coceira) mais sessões de fisioterapia.
Desta experiência, trouxe uma peculiaridade que, contra a minha vontade, fez-me aprender a reparar nas diferenças: acostumei-me a usar o relógio no pulso direito, gostei, e mantenho o hábito até hoje. Porém, no âmbito da sociedade, a diferença, por vezes, chega a parecer aberração, pois o cidadão é educado pra ser igual e, instituído do direito à igualdade, acha que o certo é que todos pensem/ajam como ele. Eu mesmo, durante o período escolar, fazia de tudo pra esconder minha origem cearense (cheguei a, inconscientemente, forçar a perda, ou melhor, troca do sotaque) e meu fanatismo por Roberto Carlos (primeiro ídolo), tudo no intuito de ser popular, ser igual, ser mais um, fazer parte da “tchurma”. Crescido, longe das salas de aulas, aprendi a defender minhas características, peculiaridades, esquisitices, enfim, tudo o que até hoje forma o que sou, ainda que em construção. Este preâmbulo um tanto improvisado foi apenas o meio que achei pra apresentar Fernando Cavallieri.

Sim, Fernando Cavallieri, ou simplesmente o Cava (pros íntimos). Um cara que aprendeu a tocar violão com este de cabeça pra baixo, sem, contudo, inverter-lhe também as cordas. Vou explicar melhor: como há mais gente no mundo destra que canhota, tudo é feito pensando nessas pessoas. Com o violão não é diferente. Um professor destro, seguindo uma partitura pra destros, dá aulas a um aluno destro. Quando calha de o aluno ser canhoto, este inverte as cordas, de maneira a parecer que, quando está diante de um professor, olha prum espelho. Cava até chegou a ter aulas dessa forma, mas preferiu obedecer a sua naturalidade e, em vez de inverter as cordas de seu violão, inverteu a posição de seus dedos, criando acordes que, embora pareçam esdrúxulos, possuem a sonoridade necessária pra que sua harmonia flua naturalmente.

Mas não sou músico, repito o que me ensinaram apenas. Vamos, pois, ao Cava: Conheci-o praticamente na mesma época em que comecei minha parceria com
Adolar, todos nós outros pertencentes então à RSMB de Madan (ver texto sobre Adolar). Contudo, apesar de eu e Cava termos desenvolvido fortes laços de amizade, com este a parceria não decolou, ficando sempre ao rés do chão. As letras que eu mandava pra Adolar (e as melodias que este me incumbia de letrar) transformavam-se rapidamente em canções, ao passo que com Cava o mesmo processo resultava lento e infrutífero. Não porque lhe faltasse capacidade, pelo contrário, quando uma letra lhe toca a alma, extrai dela uma belíssima canção, como no caso de Febril, letra de Zé Edu Camargo pela qual Cava se apaixonou a ponto de musicá-la em minutos, aos prantos. Não, definitivamente o problema não era a falta de talento. Quando muito, seria de química, talvez. Quem sabe as letras que eu lhe enviava não eram pra ser musicadas por ele. Muitas delas viraram bonitas canções nas mãos de compositores outros, como foi o caso de Hiroshima, parceria minha com Clarisse Grova (contei essa história aqui).
O fato é que o fracasso da parceria fez nascer em mim sentimentos nada apreciáveis, como inveja, mágoa e rancor, sentimentos estes que se intensificaram quando Cava me presenteou seu terceiro CD, o excelente Inefável. Dentro do encarte, ele, carinhosamente, fez uma montagem com as fotos dos parceiros e músicos que participaram do disco. Confesso que não ver minha foto ali entre tantos rostos conhecidos foi uma experiência traumática. E ainda mais por ter resultado num CD excepcional, o qual eu, meio que de forma masoquista, ouvia e reouvia à exaustão.

Há coisas que não se podem explicar com palavras, tão inefáveis como o disco de Cava. Nossa parceria faz parte desse conjunto de coisas. Freud explica, Shell responde (by
Vlado). Em contrapartida, nossa amizade já nos regalou momentos de celebração da mais pura cepa. Entre tantos momentos, destaco um aniversário de Cava que comemoramos dentro de seu carro, em pleno estacionamento do Pão de Açúcar, eu, ele e Camalle (ou teria sido no carro deste?). Tomamos vinho, comemos, no lugar de bolo, salgadinhos, proseamos, emocionamo-nos... Memorável noite. Estávamos próximos à minha antiga residência, porém, dado o avançado da hora, pra não atrapalharmos o sono da beleza de Kana, optamos por permanecer ali mesmo. Quando a companhia é boa e está presente a arte do encontro (by Vinicius), as coisas ao nosso redor sofrem uma transformação que as melhora.

Se, no entanto, minha parceria com Cava não evoluiu, tive ao menos a felicidade de intermediar uma belíssima parceria dele com
Camalle. Deu-se assim: na época, Camalle morava em minha casa. Chegou certa noite encantado com uma letra que Cava lhe enviara. Mostrou-ma. Era, com efeito, muito inspirada. Na manhã do dia seguinte, confessou-me: “Léo, desgostei da letra”. Passadas algumas horas da impressão primeira, encontrara nela algo que o incomodou, mas não sabia exatamente o quê. Tomei-lhe a letra das mãos, li-a duas ou três vezes e cheguei à conclusão de que o verso derradeiro era supérfluo, redundante mesmo, na letra. Dei-lhe a ideia de que ele experimentasse lê-la sem ele. A mágica se deu. No mesmo dia nascia O Olho do Furacão, das mais belas do repertório de ambos.

Cava é um artista completo. Baita músico; grande cantor (inclusive, é muito bom também quando escolhe cantar canções alheias. Até o apelidei de Elisregino); versátil na composição, seja fazendo música e letra sozinho, seja letrando melodias alheias ou mesmo musicando letras dos mais diversos letristas (excetuando as deste escriba. Mas estou sendo maldoso. O que falta à nossa parceria em quantidade sobra em qualidade. O problema é que, se é do humano querer sempre mais, com o compositor então...). No mais, Cava é um branco de olhos claros que ataca muito bem no samba. Aquele filtrado pela bossa, claro.

Eu teria muito mais a escrever a respeito do moço, mas seria abusar da boa vontade de vocês. Por ora, basta acrescentar que Cava é dos primeiros que romperam de vez com a indústria, chegando mesmo a se autopiratear em vez de se submeter às condições “salgadas” de prensagem. Lembrando que, quantos mais discos são prensados, mais barata fica a unidade. Ou seja, proporcionalmente falando, prensar cem mil cópias é muito mais barato que prensar mil, este número bem mais próximo à nossa realidade. Cava prensa 50, 30, 20, de acordo com a demanda. Além disso, é autor de versos como “Você deu samba e muito mais./ Vai procurar os seus direitos autorais”, “Eu falo braille ao seu ouvido cego”, e, entre tantos outros, estes mortais: “Eu rezo pelo dia em que o Bem se levante/ e mande o Mal à lona num letal nocaute/ Como o Mal, se exima de ser elegante/ que vire o tabuleiro e lhe dê xeque-mate”. Touché!

Quem avisa amigo é: o texto acaba aqui. Peço aos lúcidos que vão lá embaixo clicar no link (que frase feia!) e ouvir as canções do moço. Aos desvairados, deixo como bônus texto que escrevi em 14/04/2006, quando do lançamento do Inefável:

INEFÁVEL

O que dizer sobre o Inefável? O que dizer, se é inefável? Tudo bem, vou falar sobre ele falando sobre mim. Eu cresci. Sim, senhor. E do alto do meu metro e pouco de homem feito, asseado e barbeado, pude observar lá embaixo, “no chão sob os meus pés”, aquele menino nu que fui, comendo terra com as mãos pra alimentar seu ego, ego este que tinha mais a ver com uma solitária do que com o ego em si. E enquanto esse menino mastigava a terra, esfregava os olhos, criando barro por meio do contato das mãos imundas com as lágrimas do rosto. Menino mau, mau menino! Ora segurava com a mão esquerda (destro que é) o encarte daquele CD.
Olhava hipnotizado as mandalas e jogava mais terra goela abaixo, remelento e com o nariz a escorrer lava. Gania e chorava e pedia peito de mãe, indignado por o CD ser tão bom. Se fosse uma droga, ao menos a solitária roncaria menos, devoraria menos vísceras, de dentro de seu buraco negro. Mas não, o CD tinha que sair assim tão bom? A sensibilidade tinha que falar assim tão alto aos ouvidos de uma criança? Esse cantante tinha que soltar sua voz “febril” cada vez melhor, atirando cada palavra na cara dos ouvintes como se fosse a última a sair de sua boca? Não, ele não tinha esse direito. Não fez “sua boa ação do dia”, “inesgotável, insuportável, insustentável, inconsolável”… O menino, “numa água de dar dó”, sonhava ser “homem”, enquanto misturava “capim” à terra que ingeria. Enquanto ouvia “sempre te direi que vai dar”, simplesmente não dava! “Mirando um céu de estrelas” coloridas, enxergou a sua, apagada, que não estava mais lá. O menino, tão jovem, não sabia que podia gerar dentro de suas entranhas tamanho sentimento incontrolável de inveja criativa. Ouvia aquele puto e sua trupe estelar estalar suas bem resolvidas notas em seus tímpanos sujos sem cotonete de mãe. Não, não era um “cisco no olho”, era uma “tarde nebulosa” que teimava em não passar. Ele, menino “sórdido”, mau menino, regando seu tumor pra se “vivificar”. Quem disse que era “a hora errada”? Por que só pra ele era a hora errada, enquanto pra todos os outros era a hora certa? Via aquele trem ir embora e sumir no horizonte deixando-o ali, só, nu, com sua solitária a lhe causar câimbras. Ele, menino bem alimentado e que acreditava em “Papai Noel”. “Qual nada”! Aquele menino se expunha ali por inteiro, na frente de todos e de ninguém, com sua solitária etíope (ou seria nordestina?) maior que ele, em seu parco tamanho, não cabendo em si e arrotando arrogância… Viu, menino? Isso é pra você aprender que existe um universo girando além do seu umbigo e enquanto você fica aí “se achando” vai se perdendo. Você, cigarra que não canta. Qual cigarra qual nada! Você não passa de uma formiga preguiçosa. Cigarra são aquelas que lá se vão, naquele trem, que labutam enquanto cantam. Enxugue as lágrimas, menino! E, já que você comeu terra e da terra fez barro, volte ao barro de onde veio e cresça e apareça! Esse bichinho dentro de você é apenas uma lombriga, mas se você estiver atento aos sons inefáveis e aos seus tons geniais ao seu redor, quem sabe um dia esse pequeno monstrinho possa ainda se transformar numa linda borboleta…
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Ouça algumas das febris canções do Cava aqui.
Leia as letras aqui.Cava também está no Caiubi
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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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SÁBADO – DIA 16.10.10

No 1º bloco o destaque vai para a Coleção Choro Carioca. E também dá uma importante dica: O Instituto Casa do Choro e a Sociedade Musical Carioca realizarão, em parceria, os projetos V Festival Nacional de Choro e Turnê Choro Carioca: Música do Brasil. Com o patrocínio da Petrobras, a turnê, prevê a realização de 20 shows e 20 concertos didáticos em 20 cidades brasileiras, de todas as regiões, com o principal objetivo de divulgar a coleção de CDs de mesmo nome, produzida e lançada pela Acari Records, em 2006.


No 2º bloco enfocaremos um dos principais instrumentos de sopro, a clarineta, que foi o último a ser incorporado à orquestra. Para ilustrar, mostraremos obras de Abel Ferreira, um dos grandes clarinetistas brasileiros.


No 3º bloco teremos o excepcional trabalho do grupo Tira Poeira. Com linguagem própria, o grupo conseguiu achar uma forma de espanar a poeira do convencionalismo, sem abrir mão da tradição. Na parte musical, choros do CD homônimo, de 2003.


O destaque no 4º bloco - do Choro Cantado – vai para a o CD Antigas Cantigas, lançado em 1999, pelo mineiro Renato Motha, em parceria com a cantora e percussionista Patrícia Lobato, somente com músicas de domínio público.


No 5º bloco, a tônica será a presença de Mu Carvalho, que em 2003, lançou o excelente CD O Pianista do Cinema Mudo, com 13 composições, 12 de sua autoria e a releitura de Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu.


Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília:
www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.
Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.

Produção e Apresentação: Ruy Godinho


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ROLANDO BOLDRIN - SR BRASIL

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riqueza pobre


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natureza em labor
espalha rios, florestas
em entrelaço

vidas, entranhas
de espanto altivo
em servidão
conhecendo
a riqueza pobre
de lâminas
e arengas

braços aprisionados
em qualquer valia
desordenando raças
espalhando
a riqueza podre
nas despensas abastadas
dos brasões reluzentes
de feras que rezam


MQ
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BIRATAN

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Celso Viáfora - dia 15/10 - Auditório Ibirapuera - SP

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SUELI ADUAN - Imutável


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O prazer


Novelas
Seis, sete, oito


Prefixo
Fixo
Imutável


Acomodável
Café quente


Lençol limpo

A vida passada a limpo



http://sueli-aduan.blogspot.com/
http://escritoslinguagemnocorpo.blogspot.com/
http://oficiodeescrever.blogspot.com/

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não venha, não vá


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levaria aconchego
nos braços apertando
apertado seu corpo
em delicada atenção
nosso momento de sonhar
rir das tempestades
e por instantes nos salvar
do tempo igual
que em igual se muda
levaria do horizonte
o sol nascendo
em minhas roupas
e os olhos prontos
para o seu olhar
dentro dos passos
de afinal chegar
limparia a poeira
das lonjuras de mim
mataria a saudade
enroscada sem fim
levaria meu cheiro
envolto na manhã
pra você cheirar
entre um beijo e outro
do tempo em migalhas
que podemos nos dar

mas vem dita a palavra
como mãos vazias
o instante está
não venha, não vá



MQ

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ÓPERA PROFANO - BELÉM

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CANTORES DO CHUVEIRO - RIO DE JANEIRO

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

colcha de angústia


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retalhos de vida,
dispostos juntos,
são das cores alegria
e tristeza

retalhos juntos,
dispostos na vida,
formam as cores
da chegada
e da partida

retalhos dispostos,
na vida juntos,
cor da lembrança
e da saudade

retalhos de vida,
dispostos juntos,
na cor da labuta

tecendo a colcha de retalhos
com que cubro
minha angústia



MQ
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RUY GODINHO – ENTÃO, FOI ASSIM?

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IARA (RASGA O CORAÇÃO)
(Anacleto Medeiros/Catulo da Paixão Cearense)

Se tu queres ver a imensidão,
Do céu e mar,
Refletindo a prismatização
Da luz solar,
Rasga o coração,
Vem te debruçar,
Sobre a vastidão,
Do meu penar,
Rasga, o que hás de ver,
Lá dentro a dor, a soluçar,
Sob o peso de uma cruz, de lágrimas chorar,
Anjos a cantar,
Preces que dirás,
Deus a ritmar, seus pobres ais,
Sorve todo olor, que anda a rescender,
Verás que espinhosas, florações do meu sofrer,
Vê se podes ler, nas suas pulsações,
As brancas ilusões, que eu releguei, no seu gemer,
O que não pode é te dizer, nas palpitações,
Ouve-o, brandamente, docemente, a palpitar,
A se for por tal, num terno vesperal,
Mais puro que uma grande,
A se ouvir um hino, só de flores a cantar,
Sob um mar de pétalas de dores, ao luar,
Doido a te chamar, penso em te esperar,
Na ânsia de te ver, ou de morrer,
Tens o meu perdão, flor me vem abrir,
Este coração, na primavera desta dor,
Ao reflorir, mas ao sorrir,
Nos rubros lábios teus,
Terás minha paixão, sorrindo,
Adeus !
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Então, foi assim...

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O ano de 1896 foi bastante produtivo para o instrumentista, maestro e compositor Anacleto de Medeiros1. Ele formou a banda militar mais famosa de todos os tempos – a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro – e criou uma de suas mais belas peças musicais, a chótis2 Iara.

Gênero também grafado em inglês, schottisch, ou já devidamente aportuguesado, xote, Iara foi composta em homenagem a um barco homônimo, campeão de regatas, que se destacava em competições no Rio de Janeiro.

A beleza e a qualidade da composição – que se transformou num clássico chorístico e do repertório de bandas de música – chamaram a atenção do imponente Villa-Lobos que a aproveitou como tema central em Choros nº10 e levou o maestro Batista Siqueira a considerá-la “uma obra-prima de beleza e simplicidade”.

Iara foi gravada em 1907, ano de falecimento de Anacleto, pela Banda da Casa Edison. Em 1912, recebeu versos de profundo mau gosto do poeta Catulo da Paixão Cearense3 que a rebatizou de Rasga o Coração. Se por um lado ganhou em popularidade, por outro, perdeu em graça e leveza ao ser transformado em canção.

De acordo com Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello4, esses versos são tão numerosos que mereceram de Guimarães Martins, autor do livro Modinhas, a curiosa recomendação: “O cantor que não desejar interpretar todas as estrofes escolherá as que mais agradarem”.

O polêmico Catulo da Paixão Cearense, que, de quando em vez se apropriava de músicas alheias – Luar do Sertão (João Pernambuco) e Ontem ao Luar (Pedro de Alcântara), por exemplo – nas quais colocava letras, foi o principal parceiro de Anacleto de Medeiros, com quem compôs entre outras: Por um Beijo, Palma de Martírio, O Que Tu És, Perdoa, Nasci Para Te Amar, O Boêmio e Coração Oculto.


1 Anacleto Augusto de Medeiros 13/7/1866 Paquetá-RJ 14/8/1907 Paquetá-RJ.

2 Dança de salão de origem alemã, muito difundida na Europa em 1848. Chegou ao Brasil em 1851 e logo se popularizou,
adentrando o mundo rural. No Rio Grande do Sul sua aceitação coincidiu com a difusão da gaita. No Nordeste era
executada ao som das sanfonas ou foles.

3 08/10/1863 São Luís-MA 10/5/1946 Rio de Janeiro-RJ.

4 A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras.



Ruy Godinho

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ALBA MARIA - BELÉM

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

SÉRGIO BASTOS

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noite

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para chico sena


da própria noite
com intimidade sobrevivi
sedento
cansado
desprotegido
e convivi com minha loucura
busquei e estive
diluído em muitos
gestos de amor
que esparramei em tudo
que te rodeia
foi em vão
minhas mãos enlouquecidas
não te abraçaram
enternecida a razão
a loucura era irreal
a noite não



MQ
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domingo, 10 de outubro de 2010

ANA TERRA

Independente


Desde a hora que nascemos até a hora da nossa morte buscamos pertencer a algum lugar. Dos primeiros aos últimos passos, caminhamos consciente ou inconscientemente em direção ao pertencimento, mesmo que seja viver sozinho e isolado no meio da floresta. A floresta é nossa instituição. Mas, se você não se sente cabendo confortavelmente em lugar nenhum, faz o quê? Vai ser artista, ora bolas! E independente, por favor...


Agora, falando sério, não vamos corromper os conceitos. Disco Independente foi chamado o modo de produção que floresceu na música brasileira nos anos setenta, cuja propriedade do fonograma é do artista.

Música Independente e Gravadora Independente são expressões utilizadas universalmente para definir toda e qualquer gravadora ou relação de trabalho não relacionadas às chamadas “majors”.

A indústria fonográfica em nosso país difere radicalmente, por exemplo, da indústria fonográfica norte-americana, onde milhares de “selos independentes” possuem mercado próprio devido ao forte protecionismo que aqui é inexistente.

Como país colonizado cultural e economicamente, o Brasil não pode construir seu próprio mercado, que foi ocupado, em todos os setores, pelas empresas estrangeiras e/ou multinacionais. Essas gravadoras, além de comercializar aqui a música estrangeira produzida em seus países de origem, receberam do Estado, a título de “incentivo à música brasileira”, isenção total do ICM-Imposto sobre Circulação de Mercadorias. Só para lembrar, o investimento nunca foi integralmente do capital internacional, mas sim da renúncia fiscal.

Na realidade brasileira, sabemos que a indústria fonográfica, desde o início de sua implantação, é formada majoritariamente por empresas multinacionais. Nos últimos tempos, seu modelo concentrador e excludente alijou do mercado a maioria de seus artistas consagrados, sem falar nos iniciantes, empurrando-os para a criação de selos próprios - similar à prática dos chamados alternativos. O modelo cooperativo desse tipo de produção, onde não há vínculo empregatício entre os participantes, e o artista é proprietário do fonograma produzido, não deve ser confundido com a gravadora nacional, que se autointitula independente mas que reproduz o mesmo modelo empresarial das gravadoras multinacionais.


Por Ana Terra

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breu da chibata


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raça desvalida
que terra amou?
seu cheiro de guerra
em canto soou

vem de onde vem
acaso ou certeza
disfarça contando
encobre o sangue
dissimula rezando

diverso o gentio
cativo vagou
vermelho sangue
calando ficou

a pele escura
prisioneira chegou
o breu da chibata
a moeda pagou

o gume das facas
penetra em vão
onde tudo dá
natural e tão


MQ
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

JAC. RIZZO - Vestígios

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O meu texto é curto
cortina de palavras
de transparência suave

Nuanças e matizes
que se estendem
profundas ao infinito

Parede caiada com pregas
dobra de muro
reentrâncias
tudo que a hera esconde

O meu texto é só pretexto
pro coração respirar


Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/
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SÉRGIO BASTOS

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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 09.10.10

No 1º bloco o destaque vai para a Coleção Princípios do Choro e abordará obras dos compositores Lourival Inácio de Carvalho, conhecido como Louro, nascido em Niterói no ano de 1894 e o paraibano Severino Rangel de Carvalho, nascido em Itabaiana, em 1896, popularmente conhecido como Ratinho.


No 2º bloco enfocaremos o CD Trio de Câmara Brasileiro Apresenta Saudades de Princesa, sobre a obra de Canhoto da Paraíba, lançado em 2009. O trio é formado por Caio Cezar (violão e direção musical), Alessandro Valente (cavaquinho) e Pedro Amorim (bandolim e violão tenor).


No 3º bloco teremos o excepcional trabalho de Chiquinho do Acordeom e seu magistral desempenho, registrado no CD homônimo, lançado no ano de 2000.


O destaque no 4º bloco - do Choro Cantado – vai para a o CD Flávio Henrique e Marina Machado, dois ícones da música mineira atual, ele como excepcional compositor e ela como intérprete reconhecida e solicitada.


No 5º bloco, a tônica será a presença do multi-instrumentista e compositor paulistano Marquinho Mendonça e o som do CD Tempo Templo, lançado em 2010.


Ouça pela internet:


Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.


Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.



Produção e Apresentação: Ruy Godinho


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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

ROLANDO BOLDRIN - SR BRASIL

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TRANSITAR - BELÉM

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T-BONE - QUINTAS CULTURAIS - BRASÍLIA

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Ninguém me Conhece: 16) Affonso Moraes, Cumprindo a Missão

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Num distante 29 de setembro, mais precisamente há 76 anos, chegava pra pedir espaço nos palcos da vida um garoto saudável que seria batizado com o charmoso nome de Affonso, assim mesmo, com dois efes, pois o moleque não estava pra prosa. Estava pra poesia! Poesia? Qual o quê! A vida se lhe mostrava dura, logo de cara. Filho de migrantes baianos, mais uma barriga pra ser alimentada e mais um número pra contar no percentual de moradores daquele cortiço. Poderia ser personagem de Aluísio de Azevedo. Mas não era.

Era só um moleque a mais a sonhar com os ares pendurado num papagaio artesanal e a trançar pernas numa bola pelas ruas de paralelepípedo da periferia paulistana. Assoviava os sambas e as marchinhas de sucesso enquanto ganhava o mundo com sua caixa de engraxate em vez de mochila. Mas a vida não era de todo ruim. Um futebol ali, uma matinê acolá, um namorico de vez em quando (só segurando na mão, claro. Beijo no rosto, nem pensar!), o Carnaval de rua. Affonsinho foi crescendo nessa levada, gingando como num samba. Teve sorte. Conseguiu decifrar os enigmas do beabá, não se saiu de todo mal com as matemáticas e preferiu o labor ao canivete. De tal forma que se livrou de terminar os dias como a maioria dos malandros com quem crescera brincando.

De tanto batucar em tudo o que emitisse som, quando pensou que não, mesmo sem o auxílio das cordas de um violão ou de um cavaquinho, sem que fosse necessário identificar as teclas de um piano, sem saber soprar uma flauta, vira-se compositor. Seu instrumento era o ritmo que emanava do próprio corpo feito suor e escapava-lhe como o ar. O garoto levava jeito pra coisa. Compositor! Que pompa! O quê? Compositor? Que diabo é isso? Isso é lá coisa a que um homem digno se dedique? Paga as contas? Enche barriga? Coisa de delinquente, isso sim! Vá trabalhar, Affonso! Constituir família! E Affonso foi. Sim, perdera o "inho" e ganhara em troca responsabilidades mil. Enroscou-se com uma cabrocha lá das bandas dos espanhóis, de sorriso encantador, nome bíblico (Sarah! Ah, Sarah!) e sobrenome engraçado (Cueva, onde já se viu?) e, na hora em que olhou as horas e já ia saindo de fininho pra não perder o samba, antes que pudesse retrucar alguma desculpa esfarrapada ou balbuciar um "deixemos disso", já era tarde, lá estava o sr. Affonso (sim, agora era senhor) no altar, contraindo (êita verbo danado de conjugar!) ma-tri-mô-nio!

Os anos passavam parecendo trem que não para na estação. Os filhos não paravam de nascer (três!). O dinheiro mal chegava pra pagar as contas. Escapar pro samba, vez em quando, fazia-se necessário. Ou ir ver os ídolos do rádio em apresentação ao vivo. Sim, naquela época os programas de rádio eram chiques, com plateia e tudo, verdadeiros shows. Dera sorte. Os cunhados, músicos (e, além de tudo, cegos), eram um álibi precioso. Fez muita farra com eles, os garotos que, como não se julgavam reservas, acharam por bem formar um grupo vocal com o vaidoso nome de Titulares do Ritmo. E como cantavam os rapazes! Quando decidiam cantar um samba do sr. Affonso faziam o favor de melhorá-lo, e muito! Não que este não cantasse. A voz até dava pro gasto, mas sua praia era mesmo compor. Sim, trabalhava mas não deixara de lado seus sambas. E até chegou a ganhar dinheiro com eles, pois se saiu vencedor de mais de um festival.

Mas, e as contas, Affonso? E o leite das crianças? Você não é mais um jovenzinho desmiolado, homem de Deus! Precisa pensar no futuro! Daqui a pouco vai fazer 40 anos, empresa nenhuma mais vai te contratar! Tá bom, tá bom! Já chega! Ele sabia o que ia fazer: o que devia ter feito já havia muito tempo! E não é que Affonso fez? Caiu de cabeça nos livros, decorou leis, aprendeu o linguajar ensaboado dos juízes e passou a virada dos 40 numa sala de aula da qual saiu advogado. A mulher não conteve as lágrimas. Agora sim, que senhor que nada! Agora o tratariam por dr. Affonso! E o doutor não desonrou o canudo que conquistou. Em pouco tempo já era chefe do seu chefe! Mas, e o samba, Affonsinho? E os camaradas? Ué, e quem disse que advogado não pode fazer samba? ...Nas horas vagas, bem entendido. Só que as horas vagas eram tão, mas tããão poucas... Ou você está pensando que advogado leva a vida na flauta? Deixemos isso lá com quem não tem maiores ambições!

E o tempo passou como passam os aviões. O homem já tinha até pisado na Lua! E o dr. Affonso lá, defendendo o pão de cada dia, com redobrado esforço. O casamento chegou a ficar abalado, o sambista querendo passar a perna no advogado, numa versão tupiniquim de O Médico e o Monstro, mas um filho (o menor!) trouxera-o de volta à razão. E o amor, pai? E o amor? É, o amor valia os sacrifícios. Fazia-se um samba, mais um, e estava tudo resolvido. Não, faria dois! Só que o que Affonso, aliás, dr. Affonso, nem sequer desconfiava era que seus filhos haviam herdado o mau sangue do sambista. E como dona Sarah limpava-lhes bem os ouvidos, em pouco tempo a gurizada já sabia de cor os sambas que o pai lhes ensinara. Os dele e os alheios. Verdadeira enciclopédia o tal do Affonso! E assim, ainda que de maneira um tanto improvisada, resolvera a dual questão. Não tendo roupa, aliás, permissão pra ir ao samba, trouxera o samba pra casa. E estava feita a festa. Dona Sarah , que até tinha cantava bem, acompanhava o coro e até já acompanhava o ritmo (um tanto desengonçadamente, é verdade), batucando no tecido da roupa, sem extrair deste som algum. Mas a resignação, quando causa alegria a outrem, também dá felicidade. E Sarah entende bem do assunto.

Crescidos os filhos, formou um advogado-dramaturgo-compositor, uma juíza-cantora e um quase advogado que trocou as leis pela pauta. Cervantina profissão. Um Moraes de estirpe! Fosse numa família comum, este, Alexandre como o rei da Macedônia, teria sido considerado a ovelha negra. Nesta, traçando o percurso contrário, foi o herói agregador. Deu cordas e coração às canções do pai e do irmão e foi responsável pela qualidade sonora e musical dos discos de ambos. Mas ficou algo por contar: a família do dr. Affonso descobriu um templo, ou, nas palavras deste, uma igrejinha, onde o patriarca pôde renovar o gosto pela composição e os filhos descobriram uma energia boa que fez brotar neles a vitalidade e a maturidade musical. O
Clube Caiubi. Agora, aposentado, o doutor virou o seu Affonso, ou simplesmente o Affonsão. Ele, que começou Affonsinho, fechava então um ciclo, e, finalmente, gravava seu tão esperado disco. Ele, que passou por tantas mídias, foi moderno ao gravar um CD. Erroneamente pensou em intitulá-lo Missão Cumprida, mas foi demovido da ideia. Sua missão estava longe de ver-se cumprida. Optou pelo melhor Já Era Hora. Aliás, já passava da hora. Tantas décadas fazendo sambas e guardando-os no baú da memória fizeram deste um CD que não comportou tantas belas canções. Muitas (a maioria, obviamente) ficaram de fora. Mas as que entraram deram ao trabalho sabor de coletânea, de "o melhor de", ou ainda de "the best of", pra que os mais jovens entendam. Mas se o advogado se aposentou, o sambista, na flor da idade, tem ainda um caminho longo pela frente. Sua missão está apenas começando.
Por falar em flor da idade, Affonso, recém-nascido, usando da malandragem que o faria sambista e sabedor das brechas da lei como bom futuro advogado, deu um jeito de ser registrado uma semana depois, e, assim, aparecer (ele, que é muito Apparecido – assim, com dois pês) "oficialmente" com sete dias de idade. Pra quem esperou mais de 70 anos pra gravar um disco, digo, CD, esperar sete dias pra "nascer" é de tirar de letra (de samba). Mas isso é um segredo e, como tal, obviamente não vamos contar a ninguém, pra não pegar o sambista e o advogado de calça curta e assim roubar-lhe o mérito do ludíbrio. Como diria John Ford, "quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda". Lenda ou fato, hoje é dia de samba no cafofo dos Moraes. Parabéns, Affonsinho!

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Ouça um pouco da missão de Affonso aqui.
Leia as letras aqui.
Affonso também está no Caiubi
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

LÚCIO FLÁVIO PINTO


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O bom ditador
Lúcio Flávio Pinto - Setembro 2010



Lula merece fazer Dilma Rousseff sua sucessora. O brasileiro está satisfeito com o seu governo. Mas o resultado que se anunciará será bom para o país? É o Brasil verdadeiro que sairá ganhando desta eleição? Ou o futuro é ameaçador? Da presunção à convicção do absoluto: é este o passo da democracia ao fascismo. É o passo em que o Brasil está. A direção foi dada por Luiz Inácio Lula da Silva. Como todos sabem, Lula pouco ou quase nada lê. Seu aprendizado sempre foi na prática, empírico e pragmático. Mas foi um aprendizado profundo. Sobreviveu à condição de imigrante nordestino em São Paulo, ao peleguismo sindical, à corrupção política, à tutela intelectual, aos adversários e aos inimigos.


Inteligente, perspicaz, audacioso e pertinaz, aprendeu o máximo que sua tão vasta experiência lhe possibilitou. É o mais preparado dos políticos brasileiros de todos os tempos, o único que fez a escola da vida para a carreira política. Durante duas décadas não teve mandato (renunciou ao que conquistou, de deputado federal; na sua versão, por não conseguir conviver com os 300 picaretas do parlamento; na verdade, por não conseguir dividir o poder), não precisou garantir a própria sobrevivência e da família, foi tendo cada vez mais tudo “do bom e do melhor”. Circulou pelo Brasil inteiro e pelo mundo.

Pôde se dedicar integralmente a cinco campanhas eleitorais para presidente da república. Perdeu três (sua sorte é tão imensa que perdeu as três primeiras: não saberia o que fazer então com os mandatos em disputa) e ganhou duas, ambas na hora certa. Nenhum político brasileiro tem cartel semelhante — nem provavelmente terá. A estrela de Lula é de primeira grandeza. Combinada com seus instintos, sua inteligência e sua identificação com o povo, resultou numa biografia realmente notável.

Contradição ambulante, conforme a autodefinição, é um ser que se modifica e se adapta ao ambiente quando o cenário ainda está em mutação. Graças à sua incrível capacidade de antever o momento imediatamente seguinte ao vigente, Lula é aquilo que, abusando do jargão, se passou a chamar de “força da natureza”. É uma esplêndida culminação de instintos vitais. Mas sem a menor condição de autoconhecimento, de reflexão e de análise. Uma vocação inocente de ditador, com a melhor das aparências, sem consciência de culpa.

A expressão “nunca antes” é contumaz no seu discurso porque ele só consegue reconstituir os fatos dos quais participou, a história que vivenciou — e sempre através da sua ótica, impermeável à interferência externa, sobretudo à crítica. Tudo mais que exigir esforço cognitivo, pesquisa documental ou checagem factual escapa aos seus domínios. Ele se considera marco demarcatório da história do Brasil porque tem a si como eixo de tudo, o que não é de espantar nem pode legitimar críticas: é só isso o que Luiz Inácio Lula da Silva vê.

A dificuldade para criticá-lo com honestidade, sem preconceitos, está na circunstância de que nunca mesmo nenhum político foi tão popular quanto ele — nem tão poderoso. A oposição foi varrida do mundo real no Brasil. Não agora, de súbito, embora só agora tenha chegado ao fundo do poço, numa extinção melancólica e vil. Ela começou a desaparecer quando se deixou alcançar pela osmose. Todos viraram Lulas, imitações dele, suas sombras, suas marionetes. O Brasil sofre os efeitos de um antiintelectualismo sem igual, sutil e corrosivo, imperceptível e devastador. Se o símbolo dos instintos vitais deu certo como nunca antes, por que pensar? Por que contestar? Por que contrapor? Por que, até mesmo, dialogar? É aderir e copiar.

Ali estava a fórmula do sucesso, simples e ao alcance de todos, já que permitiu ao apedeuta se tornar ídolo internacional, subir além do alcance de estadistas de várias partes do mundo, que lhe estenderam enormes tapetes vermelhos, fazer e acontecer — e, ao fim e ao cabo, como gostam de dizer os portugueses, símbolos do que é básico e elementar, tudo resultar em mais dividendos para o mago das circunstâncias.

O povo está feliz e votaria de novo em Lula se a constituição admitisse três eleições seguidas para presidente da república. Se Dilma passou dos 50%, tendo começado quase no nada (o “nonada” de Guimarães Rosa), Lula passaria dos 80%. Colocaria no chinelo o Jânio Quadros de exatamente meio século atrás, na eleição dos 5.6 milhões de votos de 1960 contra 3,8 milhões do marechal Lott.

O “poste eleitoral” de 2009 se tornou sucesso retumbante em 2010. Mas não só por causa do carisma e da popularidade de Lula. Também pelo uso mais abusivo da máquina pública de que se tem notícia em 80 anos de eleição no Brasil, a partir da revolução de 1930. Lula transformou as leis em potocas, ampliando para a cena nacional a chacota paroquial do caudilho paraense Magalhães Barata. Zombou das normas e dos seus aplicadores. Pisou sobre os papéis sagrados que rasgou. Fez de si um absoluto. O passado evaporou, como se fora antediluviano. Dele, todos perderam a memória, num Alzheimer coletivo, com dezenas de milhões de enfermos.

Não, Lula não é o pai da pátria (logo, Dilma não lhe pode ser a mãe putativa). Antes dele, centenas de cidadãos conceberam, colocaram em prática e administraram um plano de combate à inflação (e, a rigor, de criação da nova moeda brasileira, feita para durar) do qual só se tem algo comparável naquele que Hjalmar Schacht pôs em prática na Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial e faria o país renascer (infelizmente, para resultar em Adolf Hitler).

Uma façanha que honra a cultura brasileira no mundo. Ninguém que tenha nascido depois do Plano Real pode ter idéia do que era a deterioração dos valores econômicos no Brasil, a crueldade da anarquia inflacionária, sobretudo para os que vivem da renda (ou da venda da força) do seu trabalho. Acostumados a uma moeda forte (embora cambialmente enviesada), são levados a crer (ou mesmo partem da premissa) que sempre foi assim, que a estabilidade atual não deve ser creditada a ninguém nem é penhor de alguém. No entanto, ela tem uma origem datada e nomes que a personificam. Foi o grande legado de Fernando Henrique Cardoso.

Lula e o PT, que equiparavam o Plano Real ao Plano Collor e ao Cruzado de Sarney como manobras oportunistas e eleitoreiras, que não foram capazes de ver com isenção a criatura e segui-la com acuidade, hoje se beneficiam dessa grande aventura intelectual, que mobilizou talentos de várias pessoas excepcionais e o discernimento do seu comandante, quando ministro da fazenda de Itamar Franco e, depois, como presidente. Se tivesse chegado ao poder em 1989 ou em 1994, Lula e o PT não conseguiriam dar ao Brasil a moeda que hoje ele tem e a estabilidade de que usufrui.

É claro que os tucanos do príncipe dos sociólogos acumularam a partir daí desastres e vilanias, das privatizações (umas que não deviam ter sido feitas, outras que jamais podiam ser feitas pelos valores praticados) à imoralidade da reeleição, passando por uma visão elitista e predadora da administração pública, e uma incapacidade congênita de porosidade social. Os tucanos criaram as políticas compensatórias, mas não as abriram aos deserdados. Apenas as toleraram porque a primeira dama, a maior de todas, Ruth Cardoso, as patrocinou.

O grande lance de Lula foi exatamente dar densidade às criações sociais que os tucanos lançaram como decoração, como aplique nas suas fantasias empavonadas. Cinquenta milhões de brasileiros são clientes desse benefício, que, como o próprio nome diz, é compensatório, remediador, paliativo. Não projeta essas pessoas, não lhes dá condições para o futuro, não as tornam espinhas dorsais do progresso brasileiro. A lamentável situação da educação, da saúde e da segurança é uma advertência de que não se trata, ao contrário do que diz o catecismo, de desenvolvimento sustentável.

Os brasileiros estão felizes, compram como nunca, constroem como nunca, andam sobre quatro (ou duas) rodas como nunca, têm imóveis como nunca. Papai Lula abriu-lhes o cofre, mas abriu-lhes uma estreita passagem apenas de um lado do erário. Do outro lado, há larga avenida para banqueiros e empresários, para investidores da bolsa, para tomadores dos papéis oficiais, que lucram — como nunca, nem sob FHC, seu par — em bilhões e bilhões de reais, para companheiros e aderentes, para a “nova classe” trabalhadora, reprodução da “velha classe” elitista e não sua contrafação, como devia — e se dizia — ser.

Tudo isso não à base de poupança real, dinheiro ou ativos em geral acumulados para permitir investimentos, mas de crédito, de endividamento, como — de fato — nunca antes. Um terço do PIB é crédito, aos juros mais altos da face da terra, tão altos que podem ser reduzidos sem perder sua excepcionalidade. Há muito mais atividade econômica e enriquecimento, que permitem o reinvestimento. Mas em grande parte esse dinheiro consolida o modelo exportador de bens primários, dentre os quais recursos não renováveis, que se vão de vez, ao invés de servir ao enriquecimento interno, à consolidação da nação.

Sem o enorme incremento da exportação o Brasil não teria suportado tão bem a crise financeira internacional de 2008, condição que faltou durante as duas grandes crises externas ocorridas na gestão FHC. O problema (seriíssimo) é que dependemos de uns poucos produtos primários (minério de ferro, soja, carne) e de uma quantidade ainda menor de parceiros, com destaque inquietante para a China, da qual nos tornamos quase um apêndice.

O Brasil imediatista e superficial de hoje é o reflexo coerente do líder que o comanda e ao qual o país dá sua aprovação, nesse coro do consentimento incluídos os oportunistas da oposição. Eles traíram a função histórica que lhes cabe, de remar contra a corrente, de não se deixar seduzir pela aprovação fácil, pela fórmula do sucesso fornecida pelos marqueteiros, os bruxos da nossa época.

Em plena campanha eleitoral, vemos o Grande Irmão censurando os críticos, tirando a tomada dos insubmissos, armando golpes que, descobertos, se tornam infantilidades inimputáveis porque a oposição também perdeu a noção de tempo e espaço, o senso do distinto e do diverso, lançando-se desavergonhadamente para debaixo do guarda-chuva do Big Brother.

Pela primeira vez, não há contracanto eleitoral. Cresce de volume um uníssono que violenta a inteligência nacional, a capacidade que um país tem de reconhecer a si, de ver a realidade, ao invés de ser conduzido pela manipulação política e publicitária. Este Brasil unidimensional e unilinear é uma aberração, uma ficção, um factóide. Mas como as lideranças renunciaram ao seu papel profético ou se tornaram tão medíocres que perderam qualquer conteúdo, cristalizou-se o dominó de Fernando Pessoa: “quando quis tirar a máscara,/ estava pregada na cara”.

Homem de São Paulo (apesar das origens geográficas nordestinas), como FHC (só circunstancialmente carioca), Lula é o outro lado da mesma moeda. Não é igual, mas é o mesmo. Enquanto influencia e faz amigos, com sua verve e graça, os de sempre mandam na economia, seguindo esquema em vigor há duas décadas. Enquanto São Paulo é a cidade com mais helicópteros em trânsito por seu espaço aéreo, as favelas do Rio de Janeiro são teatro de operações bélicas da bandidagem, com e sem uniforme. O Brasil afluente convive com o Brasil doente.

Lula merece ganhar esta eleição. Mas não ganhar como parece que vai ganhar de fato, tornando secundário ou irrelevante quem ganhará de direito. Mesmo porque, no íntimo, só com seus botões, qualquer ser pensante hesitará ao tentar responder a um mistério criado e prolongado pelos marqueteiros e seus esteticistas, cirurgiões e feiticeiros outros: que Dilma é essa?

Num passado longínquo, um quadro da ditadura militar perguntou a nós todos: mas que país é este? Foi uma época de milagre, como agora, até maior (dois dígitos de crescimento anual do PIB), bem parecido com o de JK antes (portanto, o “nunca” não se aplica a esse passado). A pergunta tem que ser refeita, hoje. Mas talvez já não se consiga uma resposta. O absoluto é uma abstração, embora malsã. Sua maior malignidade está em se infiltrar sem ser percebido. E, mesmo sendo impossível, passar a ser aceito como normal. Como agora.


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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).

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LUCINHA BASTOS, ANDRÉA PINHEIRO E MARIANNE LIMA - BELÉM

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Simplesmente Ana Martel

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Ela é Ana, Ana Martel, intérprete e compositora de temas cujos títulos lhe refletem a alma, “Simples Assim”. “Seu Lugar” é a Amazônia. Seu “Doce Cantar” voa e diz “Bom Dia, Maria”, a tantas Marias que povoam as terras macapaenses. A “Solução” pode estar no rio que dá água de beber ao “Pássaro Que Passou” fazendo uma sombra que se misturou à dela para alçarem voo juntos.
Ana Martel tem olhar atento ao mundo, mas, de vez quando, fica “De Olhos Fechados”, para assim melhor enxergar. Assim é Ana, simples assim, Ana Martel. Sou Ana – disco independente com patrocínio da Eletrobrás a partir do incentivo da Lei Rouanet – traz, além das sete músicas já mencionadas no parágrafo anterior, “Toque de Caixa”, parceria de Ana com Zé Miguel, e também “Sou Ana” (Sérgio Souto e Enrico di Miceli), “Branca no Samba” (Biratan Porto, Paulo Moura e Marcelo Sirotheau) e “Mal de Amor” (Joãozinho Gomes e Val Milhomem).
Ana é macapaense. Por seu canto e por seus versos se pode suspeitar que, ainda menina, ela foi à boca da brenha e gritou: “Prazer, sou Ana!”. A resposta não tardou: “Prazer, sou a floresta!”. Desde esse dia as duas se tornaram corda e caçamba, amigas inseparáveis, como se feitas uma para a outra. Por seu frescor contemporâneo, a música de Ana Martel está impregnada de força amazônica. Sua voz tem a afinação dos passarinhos que cantam e voam sobre a copa das maiores árvores da floresta. Suas boas soluções melódicas vêm límpidas como o vento que abençoa enquanto esparrama benefícios. A bateria tocada por Edvaldo Anaice encabeça as levadas, enquanto as percussões de Marcio Jardim e o poder dos tambores de marabaixo e de batuque, estimulados pelas mãos de Nena Silva, revelam a pujança rítmica de algumas das músicas de Eu sou Ana. A flauta tocada por Esdras de Souza tem destaque em ao menos cinco delas. O baixo de Príamo Brandão, ora elétrico, ora acústico, acentua a cozinha e dá peso às onze faixas do álbum. Os violões de náilon e de aço, bem como a guitarra de Davi Amorim, agregam riqueza melódica a pelo menos quatro canções.
Os arranjos foram divididos entre o bom pianista, tecladista e organista Jacinto Kahwage (seis) e o igualmente competente pianista, bandolinista, violinista e acordeonista Luiz Pardal (cinco). O resultado é uma agradável combinação de sonoridade e ritmo que propicia intensidade ainda maior aos versos e uma ampla visão da musicalidade amazônica.
Palmas para os compositores macapaenses, parceiros ou não de Ana Martel, eles que verbalizam o viver da gente do extremo norte do Brasil. Palmas para os instrumentistas que tocam seu belo trabalho à margem do que se escuta no restante do país. Palmas para Ana Martel, ela que trata de descrever e cantar a sua gente de Macapá, de Belém e de toda a Amazônia. Ana que parece entoar um colossal grito de “gracias a la vida” (ainda que nada tenha a ver com Mercedes Sosa), ao amor e em louvor à terra, à floresta e à música.


Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4


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RUY GODINHO – ENTÃO, FOI ASSIM?

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AQUELE ABRAÇO
(Gilberto Gil)

O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
O Rio de Janeiro, fevereiro e março
Alô, alô Realengo – aquele abraço!
Alô, torcida do Flamengo – aquele abraço!
Chacrinha continua balançando a pança
E buzinando a moça e comandando a massa
E continua dando as ordens no terreiro
Alô, alô, seu Chacrinha – velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha – velho palhaço
Alô, alô, Terezinha – aquele abraço!
Alô, moça da favela – aquele abraço!
Todo mundo da Portela – aquele abraço!
Todo mês de fevereiro – aquele abraço!
Alô Banda de Ipanema – aquele abraço!
Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço
A Bahia já me deu régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu – aquele abraço!
Pra você que me esqueceu – aquele abraço!
Alô, Rio de Janeiro – aquele abraço!
Todo o povo brasileiro – aquele abraço!





Então, foi assim...
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“Aquele Abraço, Gil!”

Era assim que os soldados saudavam o cantor tropicalista Gilberto Gil1 no quartel da Marechal Deodoro, Rio de Janeiro, onde ele esteve preso, durante a repressão militar, no ano de 1969. Os carcereiros reproduziam um bordão usado na época pelo humorista Lilico, em um programa na TV Globo.

Aquela saudação ficou marcada na mente do compositor como uma manifestação de cordialidade de pessoas que, por questões profissionais, trabalhavam num ambiente de repressão e tortura.

Alguns meses depois de solto, Gil esteve no Exército, para tratar de sua saída estratégica do Brasil. “Reencontrar a cidade do Rio de Janeiro na manhã que nós saímos da prisão e revimos a Avenida Getúlio Vargas, ainda com a decoração do carnaval, foi o pano de fundo da canção. Na minha cabeça Aquele Abraço se passa numa quarta-feira de cinzas; é quando o ‘filme’
da música é em mim mentalmente locado”, conta Gil a Carlos Rennó2.

“Na manhã de minha volta a Salvador, fui visitar Mariah Costa, mãe de Gal”, continua Gil, “ali na casa dela, eu ideei e comecei Aquele Abraço . Finalmente eu ia poder ir embora do país e tinha que dizer bye bye, sumarizar o episódio todo que estava vivendo, e o que ele representava, numa catarse. Que outra coisa para um compositor fazer uma catarse senão
numa canção?”

Ainda de acordo com a referida obra, Gil comenta: “no avião mesmo eu terminei a música, escrevendo a letra num papel qualquer e mentalizando a melodia muito simples, quase de blues; como eu não dispunha de instrumento, tive que recorrer a uma estrutura fácil para guardar na memória. Quando cheguei à Bahia, eu só peguei o violão e toquei; já estava
comprometido afetivamente com a melodia.”

Não foi propriamente no quartel de Realengo que Gil esteve preso. “É uma associação inexata, feita por aproximação; eu nem queria me referir ao lugar certo onde havia ficado preso.” Um dado curioso é que o bairro de Realengo, que ficou famoso com a música, antigamente se chamava Real Engenho. Na época, nos letreiros das locomotivas, era grafado Real Engº. O povo lia: Realengo. O poder de síntese do brasileiro consagrou um novo nome para o bairro.

A música causou dois mal-entendidos: um com o humorista Lilico e outro com o apresentador Chacrinha. Lilico, o autor do bordão, achou que teria direito à música. Ficou aborrecido com Gil, que não assistia ao programa, pois na cadeia não tinha televisão. Gil só veio a assisti-lo por curiosidade depois que foi solto. A primeira reação de Chacrinha foi de bronca e irritação. Como na época ele era criticado por diversos setores da sociedade, acusado de fazer programas vulgares e apelativos, achou que as referências ao seu nome fossem achincalhe. Fato contemporizado com a participação de amigos, que o convenceram de que os versos de Gil eram apenas uma exaltação. Tanto que Chacrinha, com o sucesso da música, também ficou conhecido como Velho Guerreiro.

O samba foi lançado em agosto de 1969, em um compacto simples, juntamente com Omã Iaô, também de Gil. Nesse mesmo mês saiu seu terceiro disco, o LP Gilberto Gil, que incluiu Aquele Abraço no repertório. A música se transformou num sucesso nacional, que Gil infelizmente não pôde vivenciar. Havia partido, em julho, para o exílio em Londres, com sua esposa Sandra, Caetano e a esposa Dedé, em busca de salvar seus a-braços.

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1 Gilberto Passos Gil Moreira 29/6/1942 Salvador-BA.
2 Gilberto Gil: todas as letras.



Ruy Godinho
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

PEDRINHO CAVALLÉRO - BELÉM

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MISSA AMAZÔNICA - BELÉM

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domingo, 3 de outubro de 2010

CENSURA

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MODOS



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“O descaso com a cultura sempre nos colocará de frente pro crime”

MQ
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JAC. RIZZO - Urgência

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Preciso fazer
meu coração
sofrer

Lanhar a alma
até sangrar

Dilacerar meu ser

Preciso renascer

Fazer um sonho
ressurgir

Mergulhar
no meu mais pleno azul

E quando
a primeira estrela brilhar

Pura e doce
nascer outra vez



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Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/

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CLARA SANDRONI - RIO DE JANEIRO

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sábado, 2 de outubro de 2010

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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Ninguém me Conhece: 15) Rafael Alterio, a Sorte É Nossa

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Rafael Alterio é um dos camaradas mais engraçados que conheci na vida. E quando digo engraçado não quero dizer piadista, palhaço, humorista, bobão, muito menos me refiro àqueles que se sentem no dever de ser espirituosos 24 horas por dia. Não. O Garga (pros íntimos) é NATURALMENTE engraçado. Claro que, quando está entre amigos, pode fazer as vezes de piadista, palhaço, humorista... Mas a diferença é que Rafael é engraçado ATÉ QUANDO NÃO QUER! Juro que às vezes não sei se ele está falando sério ou se está tirando onda. Figuraça! Quando estou em algum lugar e o vejo chegar, me dá uma alegria quase masoquista, pois sei que vou ser sufocado por seu abraço quebra-costelas e em seguida sua barriga vai me prensar contra a parede enquanto ele colará sua boca ao meu ouvido e, com forte respiração, me contará as últimas, sempre com aquela sua voz cantada. E vou ficar agoniado quando ele fizer aquela cara séria e, em voz pausada, me disser: "Garga... Sabe o quê que é? Eu tô com umas ideias aqui na minha cabeça... E... O negócio é o seguinte: Ô, Garga... Pres'tenção, Garga! Agora o lance é sério... A parada é assim..." E, dez minutos depois, ele ainda não vai ter me revelado nada da grande novidade, enquanto eu vou estar com a respiração entrecortada, de tanto sufocá-la à espera da revelação que irá mudar nossas vidas...

Não devia contar isso, mas é que certa noite quase fiz xixi nas calças após tê-lo ouvido lançar, quase que sem querer, uma de suas tiradas à queima-roupa. Estávamos no finado Crowne Plaza, eu na plateia, ele no palco, passando o som. Não me lembro de quem mais estava, as portas ainda não haviam sido abertas ao público, recordo-me apenas de que um percussionista (não vou revelar o nome pra preservar sua integridade) estava no palco com ele e, pra testar o microfone do pandeiro, começou a tocá-lo numa velocidade vertiginosa. O Garga esbugalou os olhos e, sem perceber que seu microfone estava ligado, antes que a frase passasse pelo cérebro, soltou: "Putz, meu, imagina esse cara tocando uma!"... A meia dúzia que acompanhava a passagem de som quase teve um troço! Outra noite, num bar em Ribeirão Preto, após termos participado de um festival, ele pediu que Kana falasse qualquer coisa em japonês e começou algo parecido com uma tradução simultânea, mas só pela sonoridade das palavras. Ficou nisso uns bons quinze minutos. Nunca ouvi tantos absurdos na minha vida. Quando saí de lá, quase que precisei de ir ao hospital recolocar o maxilar no lugar. Contudo, acho que ele, nos shows, não explora tanto essa verve cômica, talvez porque não combine com o tipo de música que faz, que de engraçada não tem nada. Mas se eu fosse seu diretor garanto que ia procurar achar uns intervalos entre as canções pra que ele desse à plateia um show à parte. Procurem no youtube a gravação dele no Jô. Quando este lhe pergunta se trouxe seu CD e ele tenta explicar o porquê de ter esquecido... Aquilo parece que foi ensaiado! Rolei de rir. Foi uma verdadeira aula de como usar o antimarketing como marketing.

A primeira grande lembrança que tenho do Garga foi de uma noite no Café do Bexiga, quando a casa ainda pertencia a um sergipano boa-praça, meu parceiro Batista. Éramos habitués do lugar, Kana chegou até a tocar lá uma época. Bons tempos... O fato é que lá estávamos, eu e Kana, tomando uma cerveja, quando vimos chegar Daisy Cordeiro com Rafael a tiracolo... Pensando bem, a Daisy com o Garga a tiracolo não é lá uma imagem das mais imagináveis, visto ser o Garga um grande cara, em todos os sentidos: por dentro, por fora, pra cima e pros lados. Reconstruamos a frase: De repente vimos adentrar o recinto Daisy Cordeiro muito bem acompanhada por Rafael Alterio. É, ficou melhor. Caímos na prosa e eis que este me puxou pelo braço com seu jeito expansivamente carinhoso e, bem próximo a meu ouvido, batucando na mesa, cantarolou uma melodia linda. E aqui faço um mea culpa: Andasse eu com um gravadorzinho à mão, teria hoje muitas mais parcerias com Rafael, pois este é um poço (sem fundo) de melodias. 99% das vezes que o encontrei, tinha melodias que estavam esperando por mim e que, como eu não estivesse pronto pra gravá-las, sacanamente entregou a outros... Mas naquela noite, graças a Deus, digo, Daisy, que tinha o bendito gravador, pude emplacar minha primeira parceria com o Gargaruzzo. Mas a coisa não foi fácil. E aqui abro espaço pra uma pequena aula de letra: O excesso de admiração por alguém pode pode ser prejudicial à parceria às vezes. A ansiedade depõe contra o resultado positivo. Daí que o pobre Leozinho comeu as migalhas do pão que o diabo amassou pra acertar a letra. Fez a primeira, o Garga disse: "Do caralho!". Mas não era. Tentou melhorá-la, piorou. Resumindo: a parceria estava fadada ao fracasso até certo dia em que Kana disse: "Léo, faz a letra pensando em mim, pois eu quero gravar essa canção". E foi o que fiz. Pedi que ela me fizesse uma gravação cantando a melodia e, assim, ouvindo sua voz, meu cérebro pensou que a melodia era dela, e, como estava acostumado a letrar suas melodias, a letra saiu num piscar de olhos astigmáticos. Nasceu enfim Mais Um, que Kana gravaria em seu segundo disco, Imitação, com gentil participação do próprio Rafael. Depois disso não me "assustei" mais ao receber (bissextamente) as gargomelodias.
Mas nem todas eram pra rolar. Há uma história que só não teve um fim trágico porque o destino não o quis. Tive uma ideia que nasceu da sonoridade das palavras: "Pruquê que tu tá tão seca/ parece um mandacaru/ tu que era bela bisteca/ pruquê que seca ta tu?". Desenvolvi o tema numa folha de papel (dei-lhe o título de Vacas Magras), pu-la no bolso e saí pro saudoso Villaggio Café, quando este ainda ficava no Bixiga. Acho que era um show da Daisy ou da Márcia Salomon, não lembro ao certo, pra variar (já repararam que minhas memórias são de uma exatidão ímpar, não?), mas o fato é que lá estava o Garga também, e, findo o show, ficamos numa mesinha na calçada até altas horas. De repente, lembrei-me da letra e mostrei-a a Daisy. Ela adorou e passou o papel ao Garga. Este, quando a leu, faltou pegar o papel e mastigá-lo. Foi imperativo: “Garga, esta é minha e ninguém tasca!”. Dobrou o papel em quatro partes e o guardou no bolso do casaco. Ainda tive forças pra avisar que não tinha feito cópia, se ele quisesse eu lhe enviaria depois. Foi taxativo: “Não!”. Na manhã seguinte, tocou o telefone. Era o Garga. Tive um mau pressentimento que se confirmou quando ele me avisou afobadamente que não sabia onde raios tinha metido a letra e pediu que eu lhe mandasse novamente. Senti-me como se um raio me fulminasse. Não tinha cópia nem me lembrava da letra. Por sorte, lembrei-me dos versos iniciais. Partindo deles, tentei reconstruí-la, mas acabei fazendo outra, que ficou boa também, porém a original se perdeu pra todo o sempre. Dessa vez, salvei-a no computador antes de lhe mandar por e-mail. Durante um tempo, encontrei-o muitas vezes, e a cada vez ele me cantarolava uma parte da melodia. Mas o processo era lento e a canção não avançava (Rafael é do time do Rondon, cada cajadada é uma melodia, mas entregue-lhe uma letra...). Camalle, que conhecia a letra, vivia me pedindo pra que o deixasse musicá-la. Como eu já havia ouvido a (meia) melodia do Garga e gostara, sempre respondia com uma negativa. O tempo passou, os anos passaram, Camalle veio morar um tempo em minha casa, e o destino tratou de resolver o problema por mim. Certa manhã Camalle acordou, viu que eu não estava e aproveitou pra procurá-la na pastinha verde (outra, não aquela primeira) na qual eu guardava minhas letras. Na época, embora eu já tivesse computador, tinha o hábito de imprimir tudo e guardar na bendita pasta. Encontrou-a. Quando cheguei, ele me lançou um sorriso enigmático, pediu que eu me sentasse, pegou o violão e a letra e começou a cantar uma canção que me levou às lágrimas. Tive que procurar forças pra ligar pro Rafael e desincumbi-lo da empreitada. Em se tratando de parceria musical, embora não o estipulemos, há um prazo de validade pra que uma canção nasça. Como numa velha história de Tom Jobim, Rafael disse "vou te contar", mas quem acabou contando foi Camalle. Nem todo dia a maré está contra o peixe.

O Garga é sempre um bom assunto. Quando penso nele, muitas histórias me vêm à mente. Ele gosta de falar, eu gosto de escrever, daí, se não me policio, faço deste texto uma Bíblia. Pra encurtar a prosa, basta dizer que Rafael Alterio é um dos meus compositores prediletos. Suas melodias sempre têm a capacidade de me emocionar. E, embora não seja um grande cantor, é um excelente intérprete que sabe extrair o máximo de sua voz, que, se não é uma grande voz, ao menos é charmosamente original. De lambuja, o Garga teve o raro privilégio de ter uma canção sua gravada por ninguém menos que Chico Buarque. Trata-se de Meia Volta*, parceria sua com Cristina Saraiva, gravada pelo sr. Hollanda no disco Só Canção, desta. Por falar em Cristina, Rafael tem a felicidade de ter a seu serviço um time de craques letristas de dar inveja a qualquer Barcelona. A começar por sua esposa, a bonita por dentro e por fora Rita Alterio, camisa 10 da seleção garga. Com ela Rafael fez mágicas tabelinhas que são verdadeiras obras-primas do cancioneiro brasileiro e ganhou muitos campeonatos, digo, festivais. Tirante Rita, capitã e titular absoluta, o Garga tem a mão revezando-se entre o banco e os gramados craques como Celso Viáfora, Juca Novaes, Edu Sant(h)ana, Kléber Albuquerque, Élio Camalle, e a própria Cristina Saraiva, entre outros de drible fácil e poesia nos pés. Por último, ao lado do banco, petecando com os gandulas, o centroavante grosso, que além do mais está no jejum de gols, Léo Nogueira, que ainda teima em jogar nem que seja os minutos finais de alguma partida menos importante com a camisa da seleção da Gargolândia. E olha que as chances estão cada vez mais remotas. Como seus filhos Pedro e Gabriel também são músicos de fino trato com a pelota e têm apresentado ao(s) pai(s) uma nova safra de jovens craques de deixar Neymar humilde, vem contratação nova por aí, e eu, Ronaldo dos pobres, acima do peso e chegando aos 40, ando pensando que a qualquer momento terei que pendurar as chuteiras e procurar nova profissão, talvez a de comentarista esportivo num desses programas de tevê a que ninguém assiste, como o Ninguém me Conhece, do canal O X do Poema.
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Tenha a sorte de ouvir algumas estrelas da constelação sonora de Rafael aqui:
http://clubecaiubi.ning.com/profile/OXdoPoema
*A canção Meia Volta, cantada por Chico é a quinta do player.
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Leia as letras aqui:
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

NILSON CHAVES E TRIO MANARI - BELÉM

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SUELI ADUAN - Fim do dia


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Na hora da prece.
No fim do dia.
A Ave-Maria

O caminho, o passante.
O errante, o pecador.
A dor, o semelhante.

Na hora da prece
No fim do dia
A Ave-Maria.




Sueli Aduan

http://sueli-aduan.blogspot.com/

http://escritoslinguagemnocorpo.blogspot.com/

http://oficiodeescrever.blogspot.com/
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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 02.10.10

No 1º bloco o destaque vai para a Coleção Princípios do Choro e abordará obras dos compositores nordestinos Pedro de Alcântara – autor de Ontem ao Luar – e José do Carmo, nascidos em 1866 e 1895, respectivamente.

No 2º bloco enfocaremos o CD Radamés Gnattali - Novo Quinteto, lançado no ano de 2006, em homenagem ao centenário deste maestro, pianista e compositor gaúcho, gravado com a mesma formação e arranjos de Radamés.

No 3º bloco teremos o CD New Choros Of Brasil, resultado do encontro do violonista brasileiro Paulo Bellinati e o clarinetista estadunidense Harvey Wainapel, lançado em 2003.

O destaque no 4º bloco - do Choro Cantado – são os choros de Jacob do Bandolim que receberam letras, presentes no repertório do CD Ao Jacob, Seus Bandolins – Jacob do Bandolim, Sua Música, Seus Intérpretes, cantados por Joyce e Zé Renato.

No 5º bloco, a tônica será a presença do grupo curitibano Variedades Contemporâneas, que lançou CD homônimo em 2010, com um repertório repleto de choros autorais.

Ouça pela internet:

Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.

Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.



Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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BIRATAN

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