quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ninguém me Conhece: 16) Affonso Moraes, Cumprindo a Missão

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Num distante 29 de setembro, mais precisamente há 76 anos, chegava pra pedir espaço nos palcos da vida um garoto saudável que seria batizado com o charmoso nome de Affonso, assim mesmo, com dois efes, pois o moleque não estava pra prosa. Estava pra poesia! Poesia? Qual o quê! A vida se lhe mostrava dura, logo de cara. Filho de migrantes baianos, mais uma barriga pra ser alimentada e mais um número pra contar no percentual de moradores daquele cortiço. Poderia ser personagem de Aluísio de Azevedo. Mas não era.

Era só um moleque a mais a sonhar com os ares pendurado num papagaio artesanal e a trançar pernas numa bola pelas ruas de paralelepípedo da periferia paulistana. Assoviava os sambas e as marchinhas de sucesso enquanto ganhava o mundo com sua caixa de engraxate em vez de mochila. Mas a vida não era de todo ruim. Um futebol ali, uma matinê acolá, um namorico de vez em quando (só segurando na mão, claro. Beijo no rosto, nem pensar!), o Carnaval de rua. Affonsinho foi crescendo nessa levada, gingando como num samba. Teve sorte. Conseguiu decifrar os enigmas do beabá, não se saiu de todo mal com as matemáticas e preferiu o labor ao canivete. De tal forma que se livrou de terminar os dias como a maioria dos malandros com quem crescera brincando.

De tanto batucar em tudo o que emitisse som, quando pensou que não, mesmo sem o auxílio das cordas de um violão ou de um cavaquinho, sem que fosse necessário identificar as teclas de um piano, sem saber soprar uma flauta, vira-se compositor. Seu instrumento era o ritmo que emanava do próprio corpo feito suor e escapava-lhe como o ar. O garoto levava jeito pra coisa. Compositor! Que pompa! O quê? Compositor? Que diabo é isso? Isso é lá coisa a que um homem digno se dedique? Paga as contas? Enche barriga? Coisa de delinquente, isso sim! Vá trabalhar, Affonso! Constituir família! E Affonso foi. Sim, perdera o "inho" e ganhara em troca responsabilidades mil. Enroscou-se com uma cabrocha lá das bandas dos espanhóis, de sorriso encantador, nome bíblico (Sarah! Ah, Sarah!) e sobrenome engraçado (Cueva, onde já se viu?) e, na hora em que olhou as horas e já ia saindo de fininho pra não perder o samba, antes que pudesse retrucar alguma desculpa esfarrapada ou balbuciar um "deixemos disso", já era tarde, lá estava o sr. Affonso (sim, agora era senhor) no altar, contraindo (êita verbo danado de conjugar!) ma-tri-mô-nio!

Os anos passavam parecendo trem que não para na estação. Os filhos não paravam de nascer (três!). O dinheiro mal chegava pra pagar as contas. Escapar pro samba, vez em quando, fazia-se necessário. Ou ir ver os ídolos do rádio em apresentação ao vivo. Sim, naquela época os programas de rádio eram chiques, com plateia e tudo, verdadeiros shows. Dera sorte. Os cunhados, músicos (e, além de tudo, cegos), eram um álibi precioso. Fez muita farra com eles, os garotos que, como não se julgavam reservas, acharam por bem formar um grupo vocal com o vaidoso nome de Titulares do Ritmo. E como cantavam os rapazes! Quando decidiam cantar um samba do sr. Affonso faziam o favor de melhorá-lo, e muito! Não que este não cantasse. A voz até dava pro gasto, mas sua praia era mesmo compor. Sim, trabalhava mas não deixara de lado seus sambas. E até chegou a ganhar dinheiro com eles, pois se saiu vencedor de mais de um festival.

Mas, e as contas, Affonso? E o leite das crianças? Você não é mais um jovenzinho desmiolado, homem de Deus! Precisa pensar no futuro! Daqui a pouco vai fazer 40 anos, empresa nenhuma mais vai te contratar! Tá bom, tá bom! Já chega! Ele sabia o que ia fazer: o que devia ter feito já havia muito tempo! E não é que Affonso fez? Caiu de cabeça nos livros, decorou leis, aprendeu o linguajar ensaboado dos juízes e passou a virada dos 40 numa sala de aula da qual saiu advogado. A mulher não conteve as lágrimas. Agora sim, que senhor que nada! Agora o tratariam por dr. Affonso! E o doutor não desonrou o canudo que conquistou. Em pouco tempo já era chefe do seu chefe! Mas, e o samba, Affonsinho? E os camaradas? Ué, e quem disse que advogado não pode fazer samba? ...Nas horas vagas, bem entendido. Só que as horas vagas eram tão, mas tããão poucas... Ou você está pensando que advogado leva a vida na flauta? Deixemos isso lá com quem não tem maiores ambições!

E o tempo passou como passam os aviões. O homem já tinha até pisado na Lua! E o dr. Affonso lá, defendendo o pão de cada dia, com redobrado esforço. O casamento chegou a ficar abalado, o sambista querendo passar a perna no advogado, numa versão tupiniquim de O Médico e o Monstro, mas um filho (o menor!) trouxera-o de volta à razão. E o amor, pai? E o amor? É, o amor valia os sacrifícios. Fazia-se um samba, mais um, e estava tudo resolvido. Não, faria dois! Só que o que Affonso, aliás, dr. Affonso, nem sequer desconfiava era que seus filhos haviam herdado o mau sangue do sambista. E como dona Sarah limpava-lhes bem os ouvidos, em pouco tempo a gurizada já sabia de cor os sambas que o pai lhes ensinara. Os dele e os alheios. Verdadeira enciclopédia o tal do Affonso! E assim, ainda que de maneira um tanto improvisada, resolvera a dual questão. Não tendo roupa, aliás, permissão pra ir ao samba, trouxera o samba pra casa. E estava feita a festa. Dona Sarah , que até tinha cantava bem, acompanhava o coro e até já acompanhava o ritmo (um tanto desengonçadamente, é verdade), batucando no tecido da roupa, sem extrair deste som algum. Mas a resignação, quando causa alegria a outrem, também dá felicidade. E Sarah entende bem do assunto.

Crescidos os filhos, formou um advogado-dramaturgo-compositor, uma juíza-cantora e um quase advogado que trocou as leis pela pauta. Cervantina profissão. Um Moraes de estirpe! Fosse numa família comum, este, Alexandre como o rei da Macedônia, teria sido considerado a ovelha negra. Nesta, traçando o percurso contrário, foi o herói agregador. Deu cordas e coração às canções do pai e do irmão e foi responsável pela qualidade sonora e musical dos discos de ambos. Mas ficou algo por contar: a família do dr. Affonso descobriu um templo, ou, nas palavras deste, uma igrejinha, onde o patriarca pôde renovar o gosto pela composição e os filhos descobriram uma energia boa que fez brotar neles a vitalidade e a maturidade musical. O
Clube Caiubi. Agora, aposentado, o doutor virou o seu Affonso, ou simplesmente o Affonsão. Ele, que começou Affonsinho, fechava então um ciclo, e, finalmente, gravava seu tão esperado disco. Ele, que passou por tantas mídias, foi moderno ao gravar um CD. Erroneamente pensou em intitulá-lo Missão Cumprida, mas foi demovido da ideia. Sua missão estava longe de ver-se cumprida. Optou pelo melhor Já Era Hora. Aliás, já passava da hora. Tantas décadas fazendo sambas e guardando-os no baú da memória fizeram deste um CD que não comportou tantas belas canções. Muitas (a maioria, obviamente) ficaram de fora. Mas as que entraram deram ao trabalho sabor de coletânea, de "o melhor de", ou ainda de "the best of", pra que os mais jovens entendam. Mas se o advogado se aposentou, o sambista, na flor da idade, tem ainda um caminho longo pela frente. Sua missão está apenas começando.
Por falar em flor da idade, Affonso, recém-nascido, usando da malandragem que o faria sambista e sabedor das brechas da lei como bom futuro advogado, deu um jeito de ser registrado uma semana depois, e, assim, aparecer (ele, que é muito Apparecido – assim, com dois pês) "oficialmente" com sete dias de idade. Pra quem esperou mais de 70 anos pra gravar um disco, digo, CD, esperar sete dias pra "nascer" é de tirar de letra (de samba). Mas isso é um segredo e, como tal, obviamente não vamos contar a ninguém, pra não pegar o sambista e o advogado de calça curta e assim roubar-lhe o mérito do ludíbrio. Como diria John Ford, "quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda". Lenda ou fato, hoje é dia de samba no cafofo dos Moraes. Parabéns, Affonsinho!

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Ouça um pouco da missão de Affonso aqui.
Leia as letras aqui.
Affonso também está no Caiubi
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