sábado, 21 de dezembro de 2013

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

 
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Então, Foi Assim? Os bastidores da criação musical brasileira deste sábado, será inteiramente dedicado à criatividade e a irreverência da terceira menor big band do planeta: Os Mulheres Negras, duo formado em 1985, pelo ator, saxofonista, cantor e compositor Maurício Pereira e pelo ator, multi-instrumentista e cantor André Abujamra.   

Na ocasião, eles nos contarão as histórias de:
- Eu vi (Os Mulheres Negras)
- Só te tele (Os Mulheres Negras)
- Porqua mece (Os Mulheres Negras)
- Milho (Os Mulheres Negras) e
- Judith (Os Mulheres Negras).
 
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde na Nacional FM!
 
Retransmitido por 230 emissoras por todo o Brasil.
 
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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ESPECIAL ERNESTO NAZARETH 150 ANOS III
 
Os quatro programas RODA DE CHORO de dez/2013, vão ser especiais. Isso porque homenagearemos o grande pianista e compositor Ernesto Nazareth, um dos pilares da música brasileira, nascido no Rio de Janeiro, em 20 de março de 1863.
O pianista e pesquisador Alexandre Dias, compartilhará com os ouvintes, nos dois primeiros programas, músicas mais conhecidas, consideradas lado A. E nos dois últimos, músicas menos conhecidas, consideradas lado B do compositor carioca.
 
  
Roda de Choro, sábado, ao meio dia.
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
 
Rádio Câmara FM, 96,9 MHz, de Brasília, retransmitido por mais 190 emissoras por todo o Brasil.
 
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Perpétua - MQ


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Ela cardava o algodão ensimesmada, triste e calada, aquele choro miúdo para dentro. Lembrava Altino, Eleonora e o pai, sentia tristeza sentada no canto, nem o gato Beleu, brincando com os novelos, lhe tirava dos pensamentos.

Pensava no para trás da vida, lembrava do dia que Altino chegou, empoeirado, arrastando a perna quebrada e ela o socorrera. Lembrava daquele olhar que lhe dera, do prazer de rasgar a perna da calça, os dois sozinhos na casa inteira, no dia inteiro. O pai mais Eleonora chegando de noitinha com trovejo e uma chuva miúda, perguntando quem era estendido no catre da sala, aquela brabeza de sempre, condenando tudo que ela fazia.

O interesse de Beleu, passando de um lado para o outro, encostando na perna sã de Altino.

Doía recordar, a invídia da irmã manifestada na hora que o moço acordou, o interesse do pai quando soube ser Altino sobrinho do seu Rubilão da Malhada, fazendeiro próspero e conhecido de todos, a melhor terra do lado de Minas. Antevia ele casamento, não dela, sempre restando, mas de Eleonora. Acabava assim, com o encanto de ter sido notada por Altino.

Lembrava da conversa na cozinha, sentados no banco rente ao fogão abrandando o frio que a chuva trouxera, e daquele vento esparramando carusma na toalha que Eleonora, exibindo as prendas, punha na mesa. O olhar perdido e a voz dele explicando o tombo na grota e o desnorteio do rumo. Quando encontrando o dela, era como se a chamasse de anjo.

Cardava devagar aquelas lembranças, misturando-as ao algodão de primeira apanha, nas lágrimas escondidas no olhar distante, sentia a inveja da irmã e o desprezo do pai, ainda ali, naquela casa vazia, sentindo ainda o cheiro dele. Ouvia sua voz, no longínquo do pensamento, pedir a mão de Eleonora. Quanta vontade teve de chorar na hora, e mais ainda, quando sozinha no quarto.

Ajudando preparar a viagem do pai e da irmã para casa dele em Minas. Vontade de chorar, mas só o fez por dentro. Sozinha aqueles meses todos e depois quando convivia com eles casados, morando naquela casa tão sua, tão só sua, vontade de chorar.

Lembrava de esforçar naturalidade quando via chamego entre os dois. Quando começou a pensar em fazer, não lembrava o momento exato, ficou perdido na memória, resvalando entre o dia em que os vira nus, se pertencendo, e quando eles e o pai a apartara duma conversa a respeito da lida na fazenda.

Lembrava o escorralho da caneca de alumínio que ela limpou bem antes de devolver ao criado no quarto do pai. Ele não devia nem ter sentido o gosto do veneno ao tomar de uma vez a água que sempre levava à noite para o quarto. Para Eleonora e o marido ele morrera de repente e assim foi enterrado.

Foi o tempo mais difícil e que ela lembrava mais fácil, quando os três ficaram sós e ela se submetia, quase com servidão, aos mandos da irmã que não falava em dividir as terras, igual o pai fez quando a mãe morreu. Sempre deserdada de carinho. Às vezes, Altino reparava e tentava bondade com ela. Quase iludida, teve dúvidas no que planejou fazer, mas fez.

Foi numa noite enluarada, daquelas que dá gosto ver as estrelas recamadas no céu. Foram dormir tarde. Perpétua fingiu passar mal e pediu para irmã ficar no quarto com ela naquela noite. Por insistência de Altino, Eleonora concordou.

Na madrugada, o travesseiro no rosto da irmã e o corte na garganta não permitiu nenhum grito. No raiar do dia, pouco se ouviu ele gritar enquanto debatia com o azeite fervendo ouvido a dentro, escorrendo, e ela falando...

 

– Adeus meu amor.

 

Era tão exato o calor queimando os dois ali no pensamento e tudo que deles tinha o cheiro. Seu olhar, ainda, refletia aquelas chamas distantes. Enterrados num canteiro de cravos nunca cuidado, esquecido, debaixo de sua janela, sempre fechada.

Ela cardava o algodão ensimesmada, triste e calada. Cardava no canto daquela sala antiga, suas lembranças, dor sem dor, esperando chegar alguém. Olhava distante Beleu brincar com o mosquito na soleira da porta, esperando naquele mês chegar alguém.  

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Joaquim da porteira - MQ


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No prumo da sombra, sentado no coxo, cigarro de palha atrás da orelha, chapéu meia-aba, com parecença de novo. O bigode branco apontando com as pontas, o igual do cabelo rodeando a calva. Roupa de algodão no alinho e a gemedeira cuidada no sebo curado.

Idade... não sabia, estava no mundo. Fala mansa e um querer saber de tudo mas sem especular muito, só assuntando. A prosa meio enrolada não apontava para canto nenhum, só descobriu que labutava de um tudo nos entremeios da lida.

 

- Lá vem o enterro do Clemente...

 

Saía dos pensamentos, tirava o chapéu, alinhava os poucos cabelos. De olhos baixos, assistia à passagem do cortejo já com a porteira aberta. Nessa hora, o tempo parava. Até o ranger do carro de bois passando ao longe, parava. O sanhaço calava seu canto em cima do moirão da porteira. Respeitador. Vento soprava lento em acompanhamento. Fartura de gente. Bom homem o Clemente.

Atrás do Climério, ladeando, dona Ana seguia. Hora mais boa do vivente, hora da morte...

Dos velórios gostava não. Tempo de espera, se o falecido faleceu. Gostava não. Só ladainha e o esconder do mal feito, porque só defunto honrado demais foi, bondade demais teve. Por isso preferia os enterros. Os seis carregando calados o peso do bem e do mal, sem carecer de balança, pensava Joaquim. Dor dos parentes, amor derramando...Vizinhos, amigos e conhecidos já não falam nem bem nem mal, tirando o Manco. Esse sim, parava de falar não, era da natureza dele. Nessas horas que o silêncio é falado. Manco não achava com quem conversar. Mas depois lá na venda:

 

- Clemente era homem bom com os filhos, mas muito bruto com a criação. Vê ele ferroando uma canga  de boi dava dó.

 

Joaquim virava o gole da branquinha e já saía de fininho. Gostava do depois também não. Preferência era o abrir da porteira, a caminhada silenciosa, só o barulho dos passos no chão sovado da estrada e o sopro do vento respeitador.

A gamela tomando forma no lavrado do facãozinho corneta, bem amolado, e a voz lá de dentro:

 

- Joaquim, Esperança rebentou a cerca de novo e tá na horta pisando tudo.

 

Joaquim acudia prontamente. Lá vinha ele puxando Esperança pelo focinho. Mula Borborema, inquieta, no lado da cerca, corria rente olhando a estrada, na dobra do morro.

 

- Que diacho esse jeito dela, só pode ser uma coisa: É Baldino chegando. Falava sozinho Joaquim

 

Quando a mulada do tropeiro apontava no tope do morro, tinha que correr e abrir a porteira senão Borborema levava a cerca e tudo. Aberta a porteira, o galope era compassado e garboso até encontrar a tropa; emparelhava com um mulo velho de nome Ojero, que ninguém acreditava na idade que tinha. Perguntado Baldino pela idade do mulo, ele só dava risada até mudar de assunto.

A reação de Borborema era o primeiro sinal de festa no lugar. O cometa de Baldino era o mais festejado por aquelas bandas. Farturento no proseio, dava as notícias como coisa de assunto seu, trazia recado, carta, receita de quitanda do mesmo jeito que as notícias da política. Trazia o encomendado e também o do carecer daquela gente. Agrado não escasseava a ninguém.

Para Joaquim, presente melhor não havia, o amigo chegando. Para Baldino, a melhor parte de sua lida andeja, o pouso do Braço, local do arrancho, a prosa do amigo. Um lugar no mundo de andar dum tropeiro que se pudesse considerar sua casa, seria ali. Sozinho no mundo, se pudesse escolher um parente, seria Joaquim.  Se cobiçasse uma mula nova, seria Borborema.

Não havia no sertão todo céu mais lindo, estrelas mais recamadas. E tinha ainda a formosura e as encomendas de dona Duvigis, cobiça recolhida no corpo e cobre garantido na guaiaca.

Alegria de Joaquim, a chegada de Baldino. Sentados no rabo do fogão, cada um no seu cigarro de palha.

 

- Baldino, tô pricisano de ir no Ritiro, aproveito do amigo a companhia se for fazê passage pur lá.

 

- Mais que eu, quem vai gostá é Ojero e Borborema, quem sabe num agrego ela na tropa dessa veiz. Comentou rindo para Joaquim.

 

Ainda sem raiar o dia, a mulada já se embrenhava pela Meia-Légua. À medida  que o tempo engolia o caminho, Joaquim e Baldino aprofundavam a conversa, revelando um ao outro suas histórias, coisa que nunca haviam feito antes, apesar da amizade de tantos anos.

 

- Nasci em terra distante que nem alembro. Vim novo,  cum primo Ambrósio,  que já tinha posse no Braço. Fui sendo criado ali na labuta da terra e do gado, cum ele e os  irmão. No tempo, cada um foi se apartando, criando famia, até primo Ambrósio cabou na cidade.

 

Silêncio.

 

- Casei não Baldino, passei perto dessa alegria. Ela era muito formosa, morreu dos peito, muito nova. O casório tava de data marcada e tudo, morreu nos meus braço, cum minha  jura de querê outra não. Dia do enterro foi dia do casamento. Mais foi triste não, foi só silencioso. Daí que veio o gostá de acumpanhá os enterro. Silêncio demais, hora de ficá só com os pur dentro, é respeitoso com a sina. Vida miúda, né Baldino?

 

Baldino emocionado:

 

- Nos miúdo que tá os graúdo, Joaquim.

 

Silêncio.

 

- Sou da beira do Veríssimo, Joaquim, de frente de Minas. Herdei estrada de pai tropeiro, criado sem eira. O lugar era garimpo de diamante, a mãe ficou enterrada lá, nem alembro dela. Peguei gosto pela lida, num tem lugar nessa chapada que num negociei. “Óia o Jerômo Minino chegando ...” Jerômo era meu pai e o minino era eu. Jerômo, meu pai, descansou velho já variano, mas nos caminho. Foi numa noite escura, no pouso dos Conjeto. Pensei quietá por lá, vendi a mulada com as arriatas e a mercadoria, fiquei só com Ojero. Agreguei nos Conjeto, mais sentia falta dos caminhos e do ofício. Foi quando apareceu os ciganos e conheci Diolina, que me trouxe p’ra estrada e me fez passá o dos pior. Dizia que era de todos os home que quisesse. Eu tava enfeitiçado, Joaquim. Tulerei aquilo mais de ano e um dia não pude agüentá mais, cacei meu rumo. Inda cum fornecimento, recomecei minha lida. Compromisso de ofício que honro até hoje. E Diolina nem prá lembrá serve. Ocê tem razão, é miúda sim, Joaquim.

 

Silêncio.

 

A hora do acontecer, acontece.

 

Na passada, no vau do Lajeado, Borborema escorrega as patas traseiras. Joaquim cai de pescoço na pedra. Baldino desmonta correndo para socorrer o amigo, gritando seu nome, mas Joaquim está morto.

Com a noite engolindo o dia, Baldino desponta na Meia Légua. Joaquim atravessado na sela.

No pouso, ninguém, curral vazio. Baldino chamava pelo vaqueiro Legário, por sua mulher, nem viva alma.

Quando já acabava de arrumar o defunto em cima da mesa da cozinha, Baldino ouviu, primeiro, o barulho de cachorro, depois o menino Tobias, com a lamparina na mão, indo pelo caminho.

 

- Minino Tobias, onde tá o povo daqui?

 

O estalo fez o chão tremer. A cerca do pastinho enrolou os arames em fogo. O menino que ia passando nem ouviu os gritos de Baldino. Desandou numa carreira danada.

Céu derreteu pesado, enchendo o Vai Vem em minutos. Por toda a noite água caiu. Baldino ali, sozinho, com Joaquim.

No amanhecer do dia o corpo já apodrecia; sem aparecer viva alma.

Da janela da cozinha, ele avista o morro da Catarina e a ponte do Vai Vem encoberta pelas águas.

Baldino avalia que ninguém pode passar e, devagar como se rezasse, embrulha o corpo de Joaquim com os baixeiros. Amarra com um laço, enquanto diz baixinho:

 

- Caixão teve... caixão teve...

 

Baldino atrela Borborema e Ojero na carroça, onde põe o corpo de Joaquim e segue pelo caminho do cemitério.

A porteira aberta, os sanhaços cantando por todo o caminho na barulheira da manhã nascendo estiada.

Baldino no dentro do pensamento:

 

- É miúda sim, Joaquim, é miúda sim...

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

NOITE DE SÃO MARÇAL -MQ

 
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

CHAPADA DO SÃO MARCOS - MQ

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“Distrito do Arraial de Nossa Senhora da Conceição, Distrito do Vai Vem, Município de Entre Rios, hoje Ipameri, no começo era o Sertão do São Marcos.

 

Nasci lá”.

 


 

Chapada do São Marcos

 

  

Chapada do São Marcos

bera do Ri do Braço

Vai Vem é afruente

entre águas

entre rios

meio de cerrado

onde avoa codorna

e ispanto perdiz nos passo

 

na porta da casa

bambuzá parceiro de vento cantadô

na porta da casa tamém

um pau frondoso

que cumula sombra nos embaxo

as foia sôrta antes da frorada

e arcochoa a sombra

pr’eu deitá cum meu amô

se cai fror durmida

nóis panha e se prefuma

se cai diurna

nóis se farta de cheiro que nem beija-fror

 

teno tropa prá tocá

nóis vai no passo manso

mode num cansá animá

mode tê paga boa

corda cedo

dia sem raiá

móia os pé no sereno

prá animá incontrá

no pasto pequeno

nóis campeia eles

traiz, arreia e vai gado buscá

Istimosa, Paridera, Esperança, Lambari ...

 

às veiz nóis passa no vau

céu vermeio parino o sol

merenda já tá cherano

o corpo recrama sustança

nóis tira o leite

aparta o gado

e atende o corpo cum zelo

 

pur pricisão às veiz

nóis mata um capado já chei de ingorda

aí é festança

nóis sangra ele antes da lida do gado

mode as muié aprepará

a limpança, o discarne, o retaio

fazê a lingüiçada e as armôndega

 

se truveja nas cabicera do Braço

nóis fica preparado

água do ri vai lambê as berada

e favorecê a distoca

aí, é o imborná de paçoca

a cabaça d’água e o invergá do corpo no eito

 

nos ôi de inxada cumulado na vida

o atestado de labuta

coisa que os calo das mão

num faiz pur sê só dois

o da firmeza e o da repuxa

 

adipois da lida

no terrero, em vorta do lume

cum as istrela recamada no céu

a cheia fazeno crarão

os vaga-lume riscano o negror da noite

na guardança da terra

 

nos calo da mão

o cantadô recebe a viola

e na quietude

canta sua dismidida querença

 

 

ah Sertão do São Marcos

divisórias águas do Braço da minha vida

num achei a sabedoria de ficá

e me perdi nos caminho de vortá
 
 
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