terça-feira, 14 de setembro de 2010

paixão perdida

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perdi todos os teus olhares
perdeste os meus
perdi na ausência da tua voz
risos e harmonias
também perdeste da minha
tantas histórias e rimas
nossas bocas nos mostraram
quanta paixão se perdeu
nos merecíamos tanto
e não soubemos nos ter
nossa história de amor
desde o maço de flores do campo
até quatro mil
quatrocentos
e setenta e cinco dias
ao entardecer
não direi mais o que perdeste
mas eu sei o que perdi
e aceito a saudade
pois foi dela que vivi



MQ
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PATRÍCIA BASTOS, JOÃOZINHO GOMES E ENRICO DI MICELLI - TERESINA

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RUY GODINHO – ENTÃO, FOI ASSIM?

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O FILHO QUE EU QUERO TER
(Vinicius de Moraes/Toquinho)

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem
De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim
Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem
Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus
Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter
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Então, foi assim...

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A poesia de Vinicius de Moraes1 se revestia de profundo realismo quando enfocava sentimentos humanos. Essa característica está presente tanto quando ele trata da tristeza da solidão, do abandono e morte, que é o caso de Um Homem Chamado Alfredo; a quando ele se refere à vida, à esperança e ao sonho, que é o caso de O Filho Que Eu Quero Ter, ambas da parceria com o violonista e compositor Antonio Pecci Filho, o Toquinho2.

O Filho Que Eu Quero Ter reflete um desejo de Toquinho confidenciado a Vinicius na praia de Boa Viagem (PE), em meio a uma temporada de shows. Toquinho, conforme João Carlos Pecci3, já vinha pensando sobre o assunto e compôs inclusive um tema. Nesse dia, Toquinho, emocionado, revelou ao Poetinha o desejo. Em seguida, entregou-lhe o tema musical e foi para a praia.

Vinicius sofreu para escrever a letra. Não um sofrimento relacionado à dificuldade de fazê-la, mas à emoção, ao enternecimento, à comoção. Ele se condoeu verdadeira e profundamente com aquele justo desejo e, em lágrimas, compôs a letra.

No fim da tarde, quando Toquinho retornou, o encontrou em prantos, com a letra da música nas mãos. A profusão de sentimentos e de emoções que permeou essas duas almas criativas e amorosas nesse momento é inenarrável.

Um dos depoimentos mais determinantes sobre essa canção foi feito, no citado livro, pelo designer Elifas Andreatto: “Quando ouvi O Filho Que Eu Quero Ter revoguei minha decisão de jamais ter filhos (...) Meus filhos nasceram inspirados na música e deram sentido a todos os meus desenhos”.

A obra traz ainda o depoimento de Toquinho afirmando que: “Essa música contém uma magia que emociona. Possui uma melodia quase infantil, uma espécie de moldura para a idéia da letra”.


Sem dúvida, O Filho Que Eu Quero Ter é uma das mais comoventes canções criadas pela dupla. Qualquer pessoa, tendo filho ou não, com um mínimo de sensibilidade se emociona e chora com a imagem da espera, do acalanto, da transformação do menino em homem, o momento do derradeiro beijo, de cerrar os olhos do pai, ao final, com o desejo da continuidade.

O Filho Que Eu Quero Ter foi gravado, entre outros, por Chico Buarque no LP Sinal Fechado, de 1974 .


1 Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes 19/10/1913 Rio de Janeiro-RJ 09/7/1980 Rio de Janeiro-RJ.
2 Antonio Pecci Filho 06/7/1946 São Paulo-SP.
3 Toquinho: 30 anos de música.
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Ruy Godinho
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

tola


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nos mares que nos separam
águas de desconfiança
ondas de possessividade
jogam nossos navios nas pontas afiadas
dos recifes da indiferença

tola és
pensas que a noite não pode ser boa
sem “boa noite”
que não me embriago com a bebida
que não sei pescar
que sorrateiro deve ser só o amor

tola és
não há águas, ondas ou mares
desconfianças, possessividades ou indiferenças
cumprimentos, bebidas ou iscas
que apaguem qualquer dos nossos momentos de amor



MQ
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ROLANDO BOLDRIN - SR BRASIL

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CLARA SANDRONI - RIO DE JANEIRO

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Ninguém me Conhece: 9) O Imprevisível Sonekka

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Zé Edu Camargo nem deve se lembrar, mas aquela noite está clara como o dia em minha mente. Convidado por Élio Camalle, cheguei, junto com este, ao estúdio onde ele gravava seu CD Bicho Preto, e lá encontrei Celso Viáfora e o já citado Zé Edu, que, por sua vez, havia sido convidado por Celso a assistir à participação que este faria na canção Arsênico (de Camalle & Camargo), pertencente ao supracitado disco. Enquanto Celso aquecia as cordas vocais e decorava a letra e alcançava as nuances da melodia, Zé Edu, à queima-roupa, sem maiores preliminares, recitou-me: "Um cara como eu/ devia ter um calo no lugar do coração,/ devia trazer/ duas pedras na mão,/ devia cantar/ como quem cospe no chão./ Um cara como eu/ sabe do que fala/ quando diz do desamor,/ da solidão,/ da dor que não passou,/ desilusão/ de não saber onde errou./ Mas toda rasteira,/ cada tombo/ e as porradas mais doidas,/ todo susto nessa vida,/ me fazem mais forte/ e eu vou em frente,/ forjando o aço/ afiando o corte./ Eu sou duro na queda/ hardcore,/ mas não perco a ternura jamais./ Eu vou à guerra,/ mas sou de paz./ Se num soco beijo a lona,/ eu me levanto,/ e o sangue agridoce em minha boca/ é o mesmo que me aquece o coração".

Quem acabou recebendo o soco e beijando a lona fui eu. E o sangue agridoce em minha boca era um misto de emoção e inveja. Explico: Numa situação em que a letra fosse o positivo e a melodia o negativo, Sonekka seria meu negativo. A facilidade que tenho pra letrar melodias é a mesma que ele tem pra musicar letras. Ou seja, somos ambos movidos e inspirados pelo material que temos em mãos. Mas tenho que tirar o chapéu e acrescentar que, nesse quesito, Sonekka é ainda mais eficaz que eu. Sua facilidade é tanta que eu não estaria exagerando se afirmasse que ele é capaz de musicar bula de remédio. E é justamente aí, nessa facilidade, que reside também seu ponto fraco. Seus detratores (sim, eles existem), os emepebistas radicais, consideram-no um compositor menor por conta de muita balada perdida deste que ouviram (não me refiro à canção homônima de Camalle que Sonekka gravou). E aqui ajo como o advogado do diabo. Como sou um admirador crítico de sua obra e, embora tenhamos uma "brodagem" e eu seja seu camarada e parceiro de canções e empreitadas, não sou seu amigo do peito, possuo o distanciamento necessário pra analisar-lhe a obra, coisa que um Zé Edu ou um Tavito, fãs incondicionais que são, por mais belos que fossem (e são) os textos, não o lograriam.

Contudo, se minha função aqui fosse simplesmente a de atirar pedras, o texto não teria razão de ser. A questão merece um aprofundamento maior. Sonekka hoje é um compositor amadurecido, que sabe o momento de dizer não, mas tal amadurecimento se deve ao fato de ter ele durante anos dito sempre sim às infinitas letras que lhe caíam nas mãos, vindas dos mais variados rincões do Brasil... e do mundo! Letras estas que foram cobaias de seus experimentos musicais (algumas delas, minhas, confesso). Deste laboratório saíram canções sofríveis, fracas, razoáveis, legaizinhas, boas, excepcionais e até geniais (pudera, Sonekka há muito ultrapassou os três dígitos). Algumas me deram sono, outras me levaram às lágrimas. Outro ponto em comum comigo (e com Moska) é que Sonekka funciona melhor com os amigos. Daí o fato de suas melhores canções terem sido compostas em parceria com Zé Edu, Ricardo Soares, Ricardo Moreira, Gilvandro Filho, Alexandre Lemos, Zé Rodrix...

Outro calcanhar de aquiles, ainda segundo os detratores, seria o timbre, que lembraria o de Cazuza. Mas não vou cair nessa esparrela. Timbre, como nome, sexo e naturalidade (entre outras coisas), não se escolhe (embora atualmente muita coisa se possa trocar). Se a obra é relevante não vai ser o fato de o timbre lembrar o de fulano ou o de beltrano que comprometerá o resultado final. Ademais, o senso de humor do tempo tira de letra tais argumentações. Delicioso exemplo é o de Renato Russo, que, em começo de carreira, era confundido com Jerry Adriani. Anos depois seria justamente Jerry quem gravaria um disco só com sucessos de Renato (então já falecido), espantando a juventude da época, que desconhecia por completo o ídolo da Jovem Guarda.

Mais que um timbre genérico, Sonekka é um talento ímpar, uma mente criativa e polêmica (a exemplo de seu amigo-parceiro-guru Zé Rodrix), um mago da informática, um agregador de perdidas ovelhas da música, o braço direito (e o esquerdo) do Clube Caiubi (e o cérebro que alargou os horizontes deste mesmo clube ao transformá-lo numa rede virtual que ultrapassou as barreiras fronteiriças), um cara sensível e complexo, um... Paremos por aqui, senão vira tese. Em vez disso, cometo a indiscrição de relatar um pequeno ocorrido à guisa de exemplo: certa vez, passando o réveillon na casa de Zé Rodrix, instantes depois dos fogos (ou terá sido durante?) notei que o anfitrião atendia uma chamada telefônica. Do outro lado da linha, diretamente de Santos, estava um camarada de porre, aos prantos, soltando frases como farpas, infeliz talvez pela inútil felicidade geral, pondo em xeque sua condição de vivente e criador, enfim, desafogando com o amigo mágoas que também reconheci minhas. Naquela noite, presenciando-lhe um momento de fraqueza, aprendi a respeitar (e entender um pouco) mais o ser humano do outro lado da linha. Esse cara que teve a coragem de fazer de um apelido de tempos de escola nome artístico e que foi visionário ao se antecipar aos tempos de Google trocando-lhe o C por um duplo K, tornando-se assim único.

Desconfio das linhas retas. Por isso, fiz todo esse rodeio pra voltar ao parágrafo inicial: a letra que me recitou Zé Edu naquela noite foi a campeã de um concurso (diria mesmo um desafio) que Sonekka lançou entre os parceiros letristas pra chegar à canção-título de seu disco Agridoce. Eu, claro, fui um dos muitos concorrentes. E digo mais, até conhecer a letra do Zé, achava a minha imbatível. Mas foi só ouvir os primeiros versos pra jogar a toalha. Ainda acho até hoje (pura dor de cotovelo) a minha melhor. Mas tenho que admitir que a do Zé era a perfeita tradução do que Sonekka queria, ao passo que a que compus (em parceria com Camalle) se prestava a outra coisa. Zé Edu, como um bom amigo de fé, irmão camarada, decifrara o parceiro.

Mas é esse o ponto. Em meus textos anteriores procurei nas canções dos homenageados material que os sintetizasse e servisse de título pra coluna. Porém, no caso de Sonekka, não achei nem em Agridoce nem em outra canção sua a frase (ou a palavra) que buscava. A palavra que encontrei não consta de seu repertório: imprevisível! Sonekka é meio como os versos da canção O Quereres, de Caetano, que dizem que onde queres isso sou aquilo. Ah, que bruta é a flor deste querer, que quer catalogar o incatalogável, que quer exigir que o compositor componha assim e assado, que vá por este e não por aquele caminho, apenas porque é de bom-tom. Sonekka não é esse tipo de compositor. Goste-se ou não dele. Os caminhos, ele escolheu todos. As opções, idem. As canções, preferiu fazê-las de brincadeira, errando e acertando, pois assim podia se revelar tal como era e construir o que se tornou. Os parceiros, preferiu também escolher todos, e deixar que a verdade transparecesse no resultado das canções. As boas sobreviveriam. As outras teriam tido pelo menos a oportunidade de não ser vítimas de sumário aborto. O importante é que sabe escolher as que entram em seus discos. Bem lá no fundo, acho que quanto melhor a letra que lhe cai nas mãos melhor a canção que nos chega aos ouvidos (e ao coração). Deixemos o rapaz brincar. Será isso, afinal, tão imprevisível assim?


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Ouça algumas das imprevisibilidades de Sonekka aqui:

http://clubecaiubi.ning.com/profile/OXdoPoema


Léo Nogueira - http://www.oxdopoema.blogspot.com/
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domingo, 12 de setembro de 2010

bem-vinda

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sê bem-vinda,
amada minha,
inesperada
mas bem-vinda,
amada minha

não te preparei versos e luares,
nem os braços
em abraços,
amada minha
mas sê muito bem-vinda,
amada minha,

seguiste os vaga-lumes,
não foi? amada minha

te pedia para voltar
depois de cada entardecer,
amada minha,
no piscar de cada estrela,
amada minha,

pedia aos vaga-lumes
que as imitassem sem parar
até te encontrar,
amada minha



MQ
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Ninguém me Conhece: 8) A Felicidade Triste de Ceumar

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Minha ideia inicial era escrever apenas a respeito de artistas que, de uma forma ou de outra, estivessem excluídos: os sem-produtor, os sem-marketing, os sem-mídia, os sem-público, os sem-shows, os sem-voz, os sem-grana, os sem-patrocínio, os sem-editais, os sem-pais-famosos etc. Porém, como toda regra tem exceção (e é saudável que assim seja), faço hoje uso deste espaço pra escrever acerca de Ceumar. Sim, Ceumar! Se bem que, por um determinado viés, ela também poderia ser vista como pertencente aos sem-alguma-coisa, porque, apesar de ser razoavelmente conhecida, sua fama é ainda infinitamente pequena se comparada ao talento que possui. Lembro-me de quando li pela primeira vez a seu respeito na Folha de São Paulo, num remoto janeiro de 2000, texto sob a pena de Pedro Alexandre Sanches (que saudades!) com o sugestivo título Ceumar Parece Coisa que nem Existe. Acabei a leitura sentindo comichões que só passaram quando comprei o CD Dindinha. Na verdade, os comichões aumentaram...


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Mas, voltando ao início, não foi do nada que resolvi cometer esse texto. Ele nasce como um ato de contrição. Explico: desde Dindinha venho considerando Ceumar a Elis Regina de nosso tempo. Calma, calma! Ceumar, felizmente, não tem nada a ver com Elis. Quero dizer, não traz em seu canto nenhum trejeito elis-reginiano que virou fórmula, ou mesmo vício, afetando nove entre dez cantoras da geração pós-Elis. Mas traz em seu repertório os mesmos bom senso e bom gosto que guiavam o da outra: o hábito de mesclar tradição com modernidade. E a bem-vinda desobediência aos modismos vigentes, o hábito de não fazer concessões (outra semelhança com Elis, que não tem a ver com música, é essa estranha e quase incomodativa beleza, que foge aos padrões das passarelas). Tais características se acentuaram em seu segundo disco, ¡sempreviva!, este, de identidade ainda mais escancarada que o anterior, sinal de evolução. Nele eu tive a felicidade de encontrar nomes relativamente próximos a mim, o que me deu esperanças de vê-la (ouvi-la) cantando, num futuro não muito distante, alguma composição de minha lavra. Cheguei, inclusive, a tentar uma aproximação, mas, apesar de sua simpatia de sempre (viva), eu ainda tinha que aprender a não pôr o carro na frente dos bois. Peguei minha senha e voltei pro fim da fila, esperar o momento oportuno. Conformei-me lembrando que na época de Elis também houve muitos compositores que tiveram sua quilometragem de sala de espera...



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Mas, que raio tem o tal ato de contrição a ver com a história? Simples: após o malfadado Festival Cultura, com o pomposo subtítulo A Nova Música do Brasil, do qual Ceumar participou cantando a premiada Achou!, de Dante Ozzetti e Luiz Tatit, e o convite feito a esta pra gravar, ao lado de Dante, o CD homônimo, comecei a ver cair por terra minha associação Elis-Ceumar. Tanto que odiei o CD. Claro está que ela procurou trazer pra perto os seus, como parceiros nas canções (todas de Dante), mas era pouco. Uma observação: passada a frustração inicial, meses depois de abandonar o disco, voltei a ouvi-lo e só então pude me deliciar com a delicadeza das canções, que, em primeira audição, não me haviam arrebatado. Um disco pra ser sorvido aos poucos, sem afobação, fora dos padrões de descartabilidade que nos são hoje enfiados goela/ouvidos abaixo. Aliás, o que escrevi acima a respeito de Achou! pode ser aplicado a todos os CDs da cantora.


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Voltando à bendita novela do ato de contrição, rompi de vez com Ceumar quando soube que esta havia gravado um novo CD. Não, que ela gravasse um novo CD era uma notícia a se comemorar. O que me causou decepção foram dois detalhes que me são insuportáveis: 1) Odeio CDs (e DVDs, principalmente) gravados ao vivo. Pra mim, show é pra se ver no calor do momento, não no sofá, comendo pipoca. Se a indústria fonográfica dependesse de mim pra comprar suas pilhas e mais pilhas de DVDs/CDs ao vivo, já teria falido há muito. 2) Sou um compositor ranzinza. Gosto muito de Marisa Monte (inclusive de suas canções, fique-se claro), mas não suporto essa obrigatoriedade que ela (sem querer) imputou às cantoras que lhe sucederam de ter que ser também compositoras. AAAAAAAHHHHHH!!! E o que fazemos nós, os compositores que não nascemos com o dom da afinação? Vamos vender pastel na feira? Agora toda cantora é também compositora. Assim como toda famosa-relâmpago é atriz-modelo-dançarina. Tomo emprestada a frase que disse certa vez o saudoso Zé Rodrix (num outro contexto): "Estão roubando o leite de meus filhos!" (O fato de eu não ter filhos não vem ao caso). E lá vinha Ceumar com um CD (ao vivo!) com 20 canções... dela!


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Finalmente chega ao final a novela do ato de contrição: como minhas convicções são bem maleáveis, de tanto ouvir falar bem desse bendito Meu Nome, resolvi comprá-lo, mesmo que fosse apenas pra falar mal com conhecimento de causa. E eis que se deu algo que gosto muito de fazer: morder a língua! Não, não sou masoquista. Apenas é que o mundo fica mais bonito quando nos deixamos deslumbrar. Prefiro ser um barraco de portas abertas a uma mansão com cerca eletrificada. É assim que sou, essa construção eternamente em obras. E sem prazo de entrega. Afinal, no dia em que me der por pronto, não terei mais o que fazer nessa bolinha que gira. Por ora, contento-me em tirar prazer dessas doloridas mordidas de língua.


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Bem, deixando a filosofia barata pra outra ocasião (afinal, o retratado do texto não sou eu), o fato é que Meu Nome me arrebatou desde a primeira audição. Canções belíssimas, melodiosas (como já não se fazem mais), letras inspiradas; teria Ceumar aprendido a compor da noite pro dia? Ou terá sido estratégia de marketing esperar tantos discos pra se afirmar como (boa) compositora? Acredito mais na segunda opção (é bom lembrar que no ¡sempreviva! já havia uma canção de sua autoria). O importante é que me senti em débito com ela, pois me fizera morder a língua nos dois pontos acima criticados: 1) Embora ao vivo, é um CD que merece existir, porque sai do conforto da mesmice ao corajosamente trazer um repertório de canções até então inéditas. E a ousadia está também na economia de instrumentos, que deixa as canções muito próximas de como vieram ao mundo. 2) Nota-se que Ceumar é do ramo, não é uma neo-compositora a fim de ganhar também uma fatia do bolo dos direitos autorais. Suas canções têm alma, não são burocráticas. E ela, além de ter a companhia de um invejável time de letristas, também não faz feio quando escreve suas próprias letras. O que lhe falta em técnica sobra em coração.


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Algo que me chamou a atenção, sobretudo, é que é um disco de MPB! Também nisso é ousado, pois já faz tempo que os compositores se esforçam por não parecer "emepebistas", talvez por medo de parecer antigos e, assim, afastar o público sedento de novidade. Claro que o CD tem pitadas de pop, mas sutis. Ceumar mostra no disco que tem atitude e que seu trabalho veio pra ficar, podendo ser ouvido em qualquer época sem parecer datado. Na canção Ciranda, feita em parceria com o companheiro de outras jornadas Dante Ozetti, ela se resume: "Eu gosto de cantar/ seja lá onde for/ livre na melodia/ na alegria, no amor/ cantando a vida eu vou/ olhos a marejar/ giro na roda-viva/ vivo em paz nesse lugar/ na cidade, no sertão/ vanguarda, tradição/ na festa, no terreiro/ no baile, São João/ se me chamar eu vou/ canto de coração/ entro no passo, pego a zabumba/ te encontro no refrão/ vem brincar nesse cordão/ me dê a mão, me leve/ pode entrar na ciranda/ pois a vida é tão breve". Afinal, o título do CD foi acertado, pois tem assinatura.


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Contudo, eu a resumiria em outra canção, esta em parceria com Kléber Albuquerque: tenho a impressão de que Ceumar é, ao mesmo tempo, feliz e triste. Por trás da máscara de alegria, suas canções deixam transparecer certa melancolia (sentimento também fora de moda nessa época de "sai do chão"), como se a boca sorrisse e os olhos chorassem. Por isso essa revelação de uma Ceumar compositora nos chega como um presente. Um belo (e necessário) presente! Na canção que abre o disco, Reinvento (com Estrela Ruiz Leminski), ela canta "Eu quero aprender um jeito de reiventar". Depois de tantos discos dedicando-se a transformar canções alheias em suas, acho que ela já aprendeu essa reinvenção. Azar o meu. Sorte nossa!






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Ouça algumas das felicidades tristes (ou seriam tristezas felizes?) de Ceumar aqui:


http://clubecaiubi.ning.com/profile/OXdoPoema





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Léo Nogueira - http://www.oxdopoema.blogspot.com/





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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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Lançamentos da Editora Massangana

A Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), lança no dia 13 de setembro, na Livraria Cultura do Recife, o livro “O Monóculo e o Calidoscópio”, de Cláudio Aguiar. A obra destaca algumas tendências decisivas no processo de cristalização do pensamento de Gilberto Freyre. Já no o dia 29 de setembro, será lançado na Livraria Cultura o livro “Pernambuco em chamas”, de Rubim Aquino, Francisco Mendes e André Boucinhas. A obra discute as lutas que os pernambucanos travaram durante a história, desde o Império à República.



Serviço

O que: Lançamentos de setembro da Editora Massangana

* “O Monóculo e o Calidoscópio”, dia 13 de setembro, às 19h, na Livraria Cultura

* “Pernambuco em chamas”, dia 29 de setembro, às 19h, na Livraria Cultura

Entrada: gratuita

Local: Livraria Cultura Paço Alfândega – Bairro do Recife

Informações: Editora Massangana – editora@fundaj.gov.br

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sábado, 11 de setembro de 2010

tu

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na distinção
do teu porte
na ternura
das tuas mãos
no lirismo
da tua voz
na segurança
dos teus gestos
na certeza
do teu amor
em silêncio
na fraqueza
da tua indiferença
em segredos
a posse fatal
da minha sensibilidade



MQ
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CANÇÃO DOS POVOS DA NOITE - PRATEADO

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Prateado
(Marcos Quinan)

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Arranjo – Fernando Carvalho
Violas de 12 Cordas/Violões – Fernando Carvalho

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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 11.09.09

- O destaque do 1º bloco vai para a Coleção Choro Carioca - Música do Brasil. Os autores enfocados são o flautista Berredo, que foi assíduo frequentador das rodas de choro de Jacarepaguá nos anos de 50 e 60 e o pianista e regente Barrozo Neto, nascido no Rio de Janeiro, em 1881.

- No 2º bloco, teremos o privilégio de conhecer obras inéditas do mestre Pixinguinha, na versão do grupo Água de Moringa, contidas no CD lançado no ano de 2002.

- A diversidade rítmica da música popular brasileira vem sendo redescoberta pelas novas gerações de músicos. Isso favorece a renovação de nossa tradição musical. Novos grupos têm surgido e buscado imprimir sua marca. É o caso do Abraçando Jacaré, que nos apresenta o som do CD Um Abraço no Jacaré, destaque do 3º bloco.

- O 4º bloco (choro cantado) traz uma prova incontestável de que filho de peixe, peixinho é: a bela voz de Carol Saboya, filha do pianista e compositor Antônio Adolfo e sobrinha do cantor e compositor Rui Maurity, no CD Sessão Passatempo.

- O Choro é um gênero encantador. Cativa cada vez mais músicos do mundo todo. É o caso do pianista, maestro e compositor uruguaio José Cabrera, autor de diversos Choros, gravados no CD Brasiliano, destaque no 5º bloco.


Ouça pela internet:

Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.

Rádio Roquette Pinto, Rio de Janeiro: www.fm94.rj.gov.br

Rádio Universidade FM, Londrina-PR, quintas-feiras, 22h.

Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h


Produção e Apresentação: Ruy Godinho


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WILSON DAS NEVES

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

juras na madrugada

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para eudes fraga


espalhei meu olhar
estavas tão perto
mas fingiste que não

procurei o teu rosto
que a multidão escondia
me disseste que sim

e foram tantos passos
pelas calçadas e ruas
até o trinco do teu portão

nossas mãos
enlaçadas
laçaram o luar
e nos expomos,
e nos amamos

juras possíveis
na madrugada
silenciosa
disseste sempre



MQ
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Ninguém me Conhece: 7) Lúcia Santos, Sem Tarja


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O Sopa de Letrinhas, pra quem não conhece, é um sarau (des)organizado há anos por Vlado Lima. Quem já foi sabe o que é. Quem nunca foi, lendo o texto que escrevi a respeito de seu mentor intelecnorante (Vlado Lima, 86% Mau) terá uma ligeira ideia da “bagaça”. Ou então, indo ao bar Lua Nova na última sexta-feira de cada mês (leve dentes de alho e crucifixos!). Foi justamente numa dessas noites que conheci Lúcia Santos.


Na noite em questão, o Sopa estava de endereço novo, ainda que provisoriamente. Ia acontecer na Casa das Rosas, na av. Paulista. E Kana estava entre as atrações musicais. Chegamos cedo. Noite agradável, clima amistoso, vários conhecidos, a noite prometia. Só que o que não podíamos adivinhar é que o milagre seria maior que a promessa. Ainda mais porque o começo do sarau foi desanimador: abrindo a noite, um cara esquisitão, suando, recitava (lendo) um poema quilométrico recheado de linguajar chulo. Seu intuito era provocar, mas a impressão que dava era a de que o maior incomodado era ele. E aqui gostaria de abrir um parêntese: alguns amigos, pra me agradar, chamam-me poeta. Não me considero um, embora tasque a palavra lá no meu release. Mas faço isso apenas pra me sentir com sangue azul em determinadas situações. Na realidade acho que, hoje em dia, apesar de haver um sem-número de poemas, são cada vez mais raros os poetas. Ser poeta não é só se vestir de forma singular e empostar a voz pra recitar qualquer porcaria. Ser poeta é algo que deve ser natural da pessoa. Só quem é sabe sê-lo sem esforço. Foi o que pudemos identificar em seguida, com a apresentação (e a transformação) de Lúcia.

Quando Vlado a apresentou, vi subir ao palco uma moça pequena, de olhos vivazes, sestrosos, e atitude brejeira, dentro de um vestido de mariazinha (ou terá sido saia?). Ah, ostentava um penteado (?) rasta. Notei-lhe um ligeiro tremor de insegurança que foi logo abandonado quando abriu a boca e uma voz firme, incisiva, sentenciou, com genuíno acento nordestino: “haja rivotril/ pra ficar meio débil/ a ponto de acreditar/ que as suas mentirinhas/ são ingênuas brincadeiras/ primeiro de abril/ só tomando rivotril/ pra não mandar você/ para a puta que o pariu”! Tive que agachar pra pegar meu queixo que havia caído. Kana ficou eufórica (futuramente musicaria esse poema). A noite estava salva! O que simbolizava a presença de palco de Lúcia, contudo, nada teria valido se sua poesia não fosse boa. E era.

Lúcia recitou ainda outros poemas que agora me fogem, mas igualmente certeiros. Outros poetas e cantores se apresentaram, entre eles Kana (maravilhosa, como sempre), alguns foram bem, outros nem tanto, mas a figurinha da moça recitando seus poemas com aquela postura intrépida, com um quê de cangaceira, ficou dando voltas e mais voltas em minha mente durante toda a noite. Findo o sarau, encontramos o igualmente bom poeta Leopoldo Skoberg, companheiro de versos e prosas (e copos), a quem perguntei se conhecia a dita cuja. Respondeu-me ele: “Claro, é minha amiga”. E, antes que pudéssemos soletrar rivotril, pegou-nos pelas mãos e apresentou-nos, com os melhores adjetivos. Quando demos por nós, já estávamos proseando como velhos conhecidos.

Daquela noite em diante, passamos a nos ver com regularidade, ora em nossa casa, ora em seu apartamento. Pudemos, inclusive, frequentar alguns de seus “famosos” saraus, performáticos, enigmáticos, uma festa (etílica) de versos e cores, nos quais as luzes funcionavam mais por sua ausência, e Leopoldo, pela presença de seu narguilé (ah, e de seus versos, por supuesto). Eu me sentia meio que na caverna de Sociedade dos Poetas Mortos. Pairava no ar uma atmosfera de conspiração.

Kana parceirou com ela antes de mim, já que Lúcia tinha certa dificuldade (timidez?) pra parceirar a quatro mãos. Eu me contentava em “terceirizar” seus versos, apresentando-os a feras como Clarisse Grova, Adolar Marin, Kléber Albuquerque, Élio Camalle… Até que um dia, desabusadamente, danifiquei-lhe um pequeno poema, tomando a liberdade de acrescentar-lhe outras estrofes e enviar o produto final pra que Marcio Policastro o musicasse. Dessa maneira tão, digamos, natural, espontânea, antiforçada, tornamo-nos, enfim, parceiros.

Aqui abro outro parêntese (será que fechei o anterior?): Lúcia é um bom exemplo da diferença entre poeta e letrista. Quer vê-la em sérios apuros, entregue-lhe uma melodia pra ser letrada. O suor é inversamente proporcional ao resultado. Porém, quando a palavra se acende em seu âmago, labaredas de versos incendeiam papéis, corações e mentes (e, atualmente, telas de computadores). Contudo, Lúcia prima pela sonoridade dos versos, mesmo quando a métrica e/ou a rima não estão em seus lugares esperados. Por isso, seus poemas são facilmente musicáveis (e musicados). Assim, ela é hoje uma letrista da maior relevância, sem, efetivamente, dignar-se de ser uma.

Outra característica de Lúcia é a defesa do direito ao silêncio, principalmente nos muitos saraus de que participa. Certa vez, presenciei um arranca-rabo entre ela e um poeta que não gostava de ouvir. E sou testemunha de que nesses momentos suas palavras são igualmente cortantes. Assim como não houve esparadrapo que me bastasse quando li seus livros Quase Azul Quanto Blue e Uma Gueixa Para Bashô (este último, de haicais). Seu livro do meio, Batom Vermelho, ela ainda está me devendo, e aproveito a ocasião pra cobrar-lhe em público o mimo.

Ainda a respeito de haicais, lembro-me de que Lúcia, numa entrevista, comentava que, apesar de parecer aos leigos mais fácil, é um desafio escrever um poema em apenas três versos. Eu que o diga. Já tentei um milhão de vezes mas nunca me saiu nenhum que prestasse que sobrevivesse pra contar a história, digo, o poema. Tenho, irremediavelmente, uma verborragia hemorrágica escorrendo-me pelas veias… Responda-me você, oh, destemido leitor, se é fácil escrever versos como “amor água/ em solidão pedra/ tanto medra até que mágoa”; “como um conto de Tchecov/ o amor/ ainda comove"; “minha mão adaga/ quando a tua/ não me afaga”; “não me lance/ esse olho de lince/ senão eu danço”; “tua língua em meu ouvido/ babel/ onde tudo faz sentido”; “em tua mão destra/ meu violino só/ vira orquestra”. Atreva-se, leitor! Ou haicale-se pra sempre!

Abro mais um parêntese (o terceiro): de tanto lhe devorar os versos, acabei decifrando-a: Lúcia é uma poeta que vai na contramão de Pessoa. Ao passo que este dizia que “o poeta é um fingidor; finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, Lúcia é uma sentimental; sente tão completamente, que chega a sentir que não é dor a dor que deveras falseia. Em outras palavras, Lúcia se traduz (se trai) e se desvela tendo sua poesia como fio condutor. Quando diz “teimo/ em não pôr termo nesse amor,/ ardo,/ te amo/ mesmo que finda a tarde,/ na madrugada queimo”, está realmente em chamas, não é apenas figura de linguagem. Da mesma forma, está dizendo a verdade quando afirma que “é muita vela pra pouco defunto/ é muita boca pra pouco assunto/ é pouca chuva pra tanto deserto/ é pouca luva para tanto frio/ é muito cio para pouco falo/ é pouco abalo pro meu terremoto/ é muita veia para pouco sangue/ é pouco caso pra tanto tesão/ é muita areia pro teu caminhão”. Mas, quando ama, sem ficar rubra, revela que “ele nem se tocou/ que estava/ enfim/ diante de um grande amor/ quando deu por si/ caiu em mim”. Ou ainda, quando se deixa traduzir, dizendo: “sou bacana/ discípula de Baco/ sou sacana/ se enchem meu saco/ sou cigana/ não caio no vácuo/ venho e vou/ sou mais do que tenho/ por isso dou”. E o que dá não é pouco.

Há algum tempo, Lúcia se desiludiu do frio de São Paulo (não estou me referindo ao clima) e voltou à sua terra, pra, como diria o mano, “viver de brisa/ arder em brasa/ no calor do Maranhão”. Cá ficamos nós, saudosos da prosa, dos versos, dos saraus... Dia desses, Camalle me confidenciou: “Cara, tô louco pra musicar um poema da Lúcia, mas, como é um haicai, tá faltando estrofe”. Ao que lhe respondi: “Não seja por isso”. Moral da história: passamos a madrugada acrescentando estrofes e melodia a um sonoro refrão que sentenciava: “a cabeça de um homem/ numa bandeja/ toda mulher deseja”!

Por ora, é isso que nos resta: enquanto não a revemos de frente, contentamo-nos em profanar-lhe o verso.


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Ouça alguns dos poemas musicados de Lúcia Santos aqui:

http://clubecaiubi.ning.com/profile/OXdoPoema


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Léo Nogueira - http://oxdopoema.blogspot.com/

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

tanto mais

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queria te dar a aurora
se despindo na manhã
e orvalhar os caminhos
dos teus gestos pelo dia,

queria te dar momentos
que jamais tivemos
e todos os sonhos
que ainda não sonhei,

queria te dar mais,
tanto mais,
nas palavras usadas
em desbotadas metáforas,

queria te dar muito mais
do meu amor
que não envelhece,
mesmo esperando
só dentro de mim


MQ

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SINHÔ

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

senzala no canecão - rj 06/10/99 20:30

para joãozinho gomes


solta sua voz de floresta e rio
nas palavras que fogem
das suas mãos
para o marabaixo
dos tambores daqui
mostra em couro e cor
a batida do seu coração
e porque ele bate aqui
mostra os meninos irmãos
pontos de luz
que não se amedrontam
com o mar abaixo
das montanhas daí
solta sua voz de leito e margem
nas rimas que fogem da sua boca
mostra a todos sorrindo
as estrelas do cruzeiro norte
luzindo a verdade daqui
solta sua voz de semente e verde
nas cores daí
balança as cadeiras de couro
e deixa verem o cordão equador
que segura as vestes de versos
que leva daqui
solta sua voz de afluentes e lendas
nos verbos que é honra dos gomes
e dos brasis

e eu na platéia como lhe disse
aplaudo daqui


MQ

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CANDEIA

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