terça-feira, 19 de julho de 2016

Água tremulando


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Água tremulando

 

 

Da forma que reconto

O jeito que ouvi contar

Sofreando aqui e ali

Pra ninguém se assustar

 

Vinha pelo alagado

Tocando dez montarias

Quatro éguas, seis cavalos

Cansados de muitos dias

 

Viu na água tremulando

O rasto que não havia

Animais se assustando

No silêncio que fazia

 

Pensou sucuri ou jibóia

No triz de tempo restado

Antes da criatura

Atacar por todo lado

 

Veio nuns rodopiados

Pulando de todo lugar

Surgiu dentro do estrondo

Fez tudo se dilacerar

 

Só o vaqueiro restou

Quase inteiro pra contar

Mesmo ausente da perna

Inda teima em montar

 

Seu caso ficou falado

Tanto aqui como por lá

No alagado se for

O serviço de passá

 

Se ver água tremulando

Num silêncio de apertar

Larga tudo sai correndo

Procura aonde chegar

 

 

 

Doutrina

 

“Amarrei o cipó timbuí

Escondi a ponta do nó

Esperei para ver o que vi

Visagem chorando dó”

 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Vaqueiro Terço


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Vaqueiro Terço

 

 

Quedado na paisagem

Vaqueiro Terço tugia

De longe só olhando

O sol dentro do dia

 

Treslia o pensamento

Emendando palavras

Como tivesse achado

E perdido o encontrado

 

Canseira da apartação

Misturada com a dor

Que sente um coração

Ao perder o seu amor

 

 

 

Doutrina

 

“Cavalo quebrantado

Pelo oficio de valia

Trabalhando em dobrado

Descanso já merecia”

domingo, 17 de julho de 2016

Histórias esquecidas


 
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Histórias esquecidas

 

 

Histórias esquecidas

Nas noites de fogueira

Canto de lamento

Contando a vida inteira

 

No mar o sentimento

No rio sobra razão

No campo o fundamento

No encanto a sedução

 

Surrão sempre atulhado

De trabalho e valentia

Um tanto de solidão

E outro de alegria

 

No rogo duma canção

São parentes por destino

Conhecem tanto o perdão

Quanto qualquer desatino

 

Deu-se em merecimento

Na quantia do exato

Vaqueiro quando conta

A história vira fato

 

 

 

Doutrina

 

“Boca fechada é segredo

O sentir é temporão

Quem não vive com seus medos

Nunca foi valente não”

sábado, 16 de julho de 2016

Amansamento


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Amansamento

 

 

Presentes naquele silêncio

Folhas trazidas no vento

Entre olhares desconcertados

Fanadas como momento

 

Seu cheiro evanescia

E ainda tinha sedução

Por fora eu resistia

Por dentro acho que não

 

Foi dando um pesadume

Quando olhei para ela

Flor presa nos cabelos

Corpo no vão da janela

 

Com um gesto desabrido

Soberbo me desviei

Puxando a rédea pra longe

De onde eu desejei

 

Juntando toda coragem

Que tinha no coração

Levei pro amansamento

A brabeza da paixão

 

 

 

Doutrina

 

“Um ser pode ter tamanho

De um deus ou criatura

Dependendo do momento

E de como se afigura”

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Vaqueiro jogador


 
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Vaqueiro jogador

 

 

Tinha gênio ominoso

Era muito rabugento

Evolava mau cheiro

Em todo qualquer momento

 

Desejo que acerbava

Tomou tudo que tinha

Apostava em qualquer jogo

Mas a sorte nunca vinha

 

Pedia ao encantado

Buscando se merecia

Rezava até ao diabo

E nenhuma prece valia

 

Um dia apostou a vida

Na morte de todos os medos

Esperou a Mulher Cheirosa

Pra desvendar seus segredos

 

E deu-se o maior encontro

De todo aquele lugar

O vaqueiro pegou o cheiro

E saiu sem se lanhar

 

Freqüentou a pajelança

Já livre de todo azar

Curou doença afetiva

Nunca mais quis apostar

 

 

 

Doutrina

 

“Quem passa no Cruzeirinho

Deixa lá o seu segredo

Se for de manhãzinha

Não precisa de ter medo”

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Santinha do Arari


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Santinha do Arari

 

 

No cheiro anunciando

Espostejado de tucunaré

E a lua dando entrada

Na janela do chalé

 

É dia de muita festa

Tem gente que nunca vi

Rezando bem rezado

Pra Santinha do Arari

 

Cumprindo a devoção

Com iguaria diferente

Um peixe bem pescado

Temperado no ardente

 

No pote muito caxiri

Esperando na cozinha

Acabar a obrigação

Dos homens na ladainha

 

Só esperando a fogueira

A lua empresta o luar

E histórias de vaqueiros

Exige ouvir contar

 

 

 

Doutrina

 

“A lua preparou

Com seu jeito de bordar

Na ponta de sete estrelas

Sete laços de luar

Estendeu a sua rede

Como quisesse pescar

Nenhum peixe ela pegou

Mas pescou o meu olhar”

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Vaqueiro velho do Desaguadouro

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Vaqueiro velho do Desaguadouro

 

 

Nos campos virentes

Lá no Desaguadouro

Lugar de aruanãs e acarás

De salga, aningueiras

Aracus e curimatás

 

Onde só caboclo sabe

Qual caminho de chegá

Ensina pra todo mundo

E ninguém sabe encontrá

Teve gente que por perdido

Se aportou em Muaná

 

Lá vive um ser cambado

Que se esforça pra andá

Parece com mucura

Imita tamanduá

Um ser que não tem tamanho

Mas tem jeito de atacá

 

Com semblante encanecido

Duas sementes no olhá

Sabe cantá dolente

Encanta quem apreciá

 

Dizem que foi vaqueiro

Nos tempos lá do passado

E sofreu a desventura

De amor atraiçoado

 

Por isso quando caboclo

Vai por lá trabalhá

Põe algodão nos ouvidos

Evitando se encantá

 

 

 

Doutrina

 

“Montaria derrubou

Vaqueiro ficou cambado

O amor desgovernou

Andou pro outro lado”

terça-feira, 12 de julho de 2016

Marajó meu sertão


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Estribo vestindo os pés

Rédea solta nas mãos

 

Vez em sempre

Os pés descalços

Calçando o mundo

 

No lugar que passado

Não é longe

 

No lugar marajó

Meu sertão

 

 

Doutrina

 

“Onde índio se escondeu

Quilombola já se escondeu

Curiboca esconde agora”