segunda-feira, 12 de outubro de 2009
SERTÃO D'ÁGUA - NA INTENDÊNCIA
continuação...
Na Intendência
A sala de espera que dava acesso ao gabinete do intendente estava cheia. Num canto, cônego Gaudêncio conversava com Dr. Cavalcante, irmão do bispo; no outro, o presidente do conselho ouvia com muita atenção o major Eustáquio da Brigada Militar. Aguardando na ante-sala, Dr. Artur, da Província do Pará; Dr. Pedro Nobre, da Folha do Norte, cada um sentado de um lado do sofá.
No gabinete, o intendente, em conversa reservada com o tenente Felópio, da capitania, e o desembargador-chefe de polícia Dr. Otávio, inteirava-se do resultado do patrulhamento da baía. Ouvia atentamente:
- Nada foi encontrado de anormal, as alvarengas patrulham dia e noite. Foram interceptadas dezenas de embarcações. Em nenhum caso constatamos fatos Somente o diz-que-disse de alguém que contou que alguém viu, mas nada que merecesse investigação. Tudo leva a crer que a história não passa de invenção de alguém mexendo com a crendice do povo.
- E as mortes, a mulher molestada? perguntava o intendente.
- Se o senhor considerar o misticismo do povo, tudo que acontecer de ruim na cidade vai ser atribuído à visagem.
- Essas mortes foram investigadas com rigor? perguntava o tenente ao chefe de polícia.
- Com muito rigor! Ainda estamos investigando os casos da Vila do Pinheiro. Temos uma morte que foi ataque do coração, outra por afogamento. Segundo atestam os médicos legistas, a senhora atacada não foi encontrada para esclarecimentos; o marido levou a família para o interior de Bragança. Na Vila do Pinheiro, as investigações estão atrasadas porque os corpos já tinham sido sepultados, mas confirmamos. A moça morreu com a cabeça esmagada, o pai de santo foi degolado.
- Se a teoria do tenente está certa, vamos espalhar que as alvarengas conseguiram encontrar o tal ser e o prendeu. O que o senhores acham? Propôs o chefe de polícia.
- Teremos que administrar uma multidão que vai querer vê-lo preso. Vamos ouvir o comandante da brigada. Pedindo pra chamá-lo, o intendente ficou pensativo, imaginando já dar a notícia aos jornais, cujos responsáveis mandara chamar.
A opinião do comandante foi de propagar a notícia de uma outra forma, dando como caçada pelas alvarengas e abatida a tiros. Houve uma unanimidade entre os presentes que passaram a planejar os próximos passos. A comunicação oficial seria feita ainda no dia, a tempo de sair nas manchetes. O intendente iria adiar a reunião com os jornais para o outro dia. A capitania colocaria mais duas alvarengas patrulhando o mais próximo da orla possível, para que fossem mais notadas. Na hora combinada, os disparos seriam intensos e que fossem simulados destroços de uma canoa, uma mortalha... coisas desse tipo para se ter o que mostrar.
continua...
MQ
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VAQUEIRO MARAJOARA - ENCANTARIAS, CHULAS E LADAINHAS
Mar doce
Quem cruza esse mar doce
Do Arari, Anajá ou São José
Encurta as pernas na sela
Temendo rabada de jacaré
Quem anda nesse mar doce
Do Arari, Anajá ou São José
Vai em sempre encontrar
Prosa e uma cuia de caribé
Quem chega nesse mar doce
Do Arari, Anajá ou São José
Procura rês desgarrada
Ou destempero em corpo de mulhé
Quem vai desse mar doce
Do Arari, Anajá ou São José
Se a donzela é formosa
Volta para perguntar se ela qué
“Encontrar a ventura
Remando sem parar
Levando cada encanto
Pras bordas do alto mar”
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MQ
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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

Exibição da intimidade é tema de palestra na Fundação
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Mostrar a vida pessoal em detalhes através da tecnologia usando redes de relacionamentos, blogs, fotologs, webcams e reality-shows tornou-se uma prática de muitos na sociedade contemporânea. Essas manifestações são consideradas sintomas de uma transformação nas formas de ser e estar no mundo. A palestra “O Show do eu: espetáculo e confissões na Web 2.0”, com a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paula Sibilia vai analisar o fenômeno de exibição da intimidade. A Fundação Joaquim Nabuco promove a palestra gratuita no dia 15 de outubro, às 18h30, na Sala Aloísio Magalhães. Serão disponibilizadas 100 vagas com preenchimento por ordem de chegada. O evento é aberto a artistas, críticos, professores, estudantes de graduação e pós-graduação e demais interessados.
Mais informações pelo e-mail cadif@fundaj.gov.br .
Serviço
O que: Palestra - O show do eu: espetáculo e confissões na Web 2.0, com Paula Sibilia (Programa de Pós-Graduação da UFF)
Entrada: Gratuita, com vagas para 100 pessoas
Quando: 15 de outubro, às 18h30
Local: Sala Aloísio Magalhães, Fundação Joaquim Nabuco
Projeto: Programa Estudos da Cultura: formação em arte e cultura contemporâneas
Promoção: Coordenação Geral de Capacitação e Difusão Científico-Cultural Diretoria de Cultura Fundação Joaquim Nabuco
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 – Derby. Recife-PE. CEP.52010-100
Informações: (81) 3073-6659/ 3073-6670 cadif@fundaj.gov.br
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domingo, 11 de outubro de 2009
GESTOS DE CADA LUGAR
.Cabaceiras
Rural é Coqueiro
Cabaceiras do Cedro
Águas do São Lucas
Telelém... Telelém...
Baias de São José
Sarnambi e Tubarão
Onde cada onda
Parece fingir de chão
Erê! Ilha do Gapó
Lugar de Boi Turino
E de outros encarnados
Dançando o Tambor de Mina
No alto que é arriba
O santo só quer morar
Na casa que se avista
O lado que tem o mar
Telelém... Telelém...
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MQ
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SERTÃO D'ÁGUA - ESTADO DO PARÁ
continuação...
Estado do Pará
Na primeira página:
VISAGEM ATACA NOVAMENTE
“As últimas informações, que nos chegam sobre o caso do ser demoníaco que assusta quem chega à cidade pela Baía de Guajará, dão conta da preocupação das autoridades com o tumulto que se forma no Ver-o-Peso e Porto do Sal, principais áreas de desembarque para os barcos que chegam do interior. Também nas ilhas continua o clima de insegurança. Desta vez, foi atacada, numa praia na ilha de Cotijuba, a senhora casada com o pescador Idelmar dos Anjos. A visagem teria tido um intercurso carnal com a senhora que, distraída, andava pela praia quando foi atacada por esse ser demoníaco que atormenta agora, não só os navegantes na madrugada, mas à luz do dia ataca os ribeirinhos de nossas ilhas. Depois de aparecer morto em sua embarcação no Porto do Sal, o carregador Raimundo de Souza, velado na residência dos familiares da esposa, no Reduto, foi enterrado esta manhã. O outro cadáver, até agora não identificado, que apareceu boiando no Ver-o-Peso continua no necrotério aguardando identificação, enquanto o boato sobre a moça e o pai de santo encontrados com as cabeças decepadas na Vila do Pinheiro, aguarda confirmação das autoridades. Pelo visto, as famílias da moça e do pai de santo já enterraram os corpos numa cerimônia de umbanda, sem notificar a polícia.
Cresce o número de pessoas que viram o ente navegando em sua canoa de luzes. Agora é um caso para as autoridades que estão tomando todas as providências na investigação. A brigada já destacou uma guarnição comandada pelo Tenente Alvino de Albuquerque para ficar de prontidão no Ver-o-Peso. No Porto do Sal, comandada pelo tenente Flores Neto, outra guarnição acompanha os acontecimentos.
Duas alvarengas fazem o patrulhamento da baía de Guajará com homens fortemente armados.
As autoridades e o bispado pedem ao povo que mantenham a calma e façam suas orações e não deixem que o misticismo tome conta de seus corações. ”
Entrou muito irritado o jornalista Tibúrcio Maia com o jornal debaixo do braço. Chamou todos da redação e determinou que não se publicasse nenhuma linha mais daquele caso. O assunto estava proibido por ordem superior. O partido não ia se indispor com a igreja e com as alianças políticas. Bem que ele tinha sido contra desde o começo, se o tivessem ouvido, não teria passado o vexame de ser chamado e levado aquela descompostura. Daquele momento em diante nada deveria ser publicado sem que ele mesmo autorizasse.
João Merino, no canto da sala, calado, esperou o colega falar tudo que queria, todos voltarem às obrigações, sentou e calmamente começou a argumentar que não podiam ficar de fora de um assunto daqueles, que se diminuísse o destaque mas, não publicar nada enquanto os outros jornais o faziam era não respeitar os leitores. Foi interrompido por Tibúrcio Maia com um tapa na mesa e um ponha-se fora daqui, ouvido até fora da sala. Num segundo estavam atracados em briga corporal, tapas empurrões e pontapés, provocando o maior tumulto no jornal e atraindo até quem passava na porta.
Entre os transeuntes, estava Cheiro Verde que parou e pôde se inteirar do que acontecia ali.
continua...
MQ
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RIO DO BRAÇO
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Entre Águas, Entre Rios
(Marcos Quinan / Marco Antonio Quinan)
Forjadas na emoção
Canções de rio
Histórias das lembranças
Esmiuçar do ser
Ser a forja da emoção
E o rio
Ser a solidão
E sonhar
Tempo algoz
Tempo algoz
Venturas acumuladas na caminhada
Saber da fundura, qual braçada
Tamanho dos passos, qual estrada
O rio entende o gesto
De ser a estrada
Cruzar sertões
Cruzar sertões
Entre águas
Entre rios
Entre rios
Entre águas
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Arranjo – Fernando Carvalho
Voz – Pádua
Violão de Nylon / Viola de 12 Cordas – Fernando Carvalho
Flautas – Roberto Stepheson
Sanfona – Chiquinho Chagas
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sábado, 10 de outubro de 2009
MAX MARTINS
Um corpo
Tu és o leito
Eu o leitor
e nisto leito
deito
o aquilo dito
lido líquido
que o sangue supre
a pele sua
e me interpela: escrevo-amo ?
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SERTÃO D'ÁGUA - A PROVÍNCIA DO PARÁ
continuação...
A Província do Pará
Ranulfo, sentado na mesa do editor, rabiscava o papel, pensando no corpo quente da mulher que o esperava e irritado por ter sido chamado logo naquele dia, ainda mais por ter ficado a noite toda e estar ali, até aquela hora. Absorto em seus pensamentos, nem percebeu quando o cônego Gaudêncio entrou com o Dr. Artur. Sem graça, levantou da cadeira do patrão, cumprimentando. Ia sair quando foi convidado a ficar.
Em nome do bispado e da direção da festa, o religioso pedia que não dessem tanta importância àquela crendice de seres sobrenaturais e aparições, afinal era antevéspera do Círio e aquele assunto estava tendo um destaque inadequado, tão próximo à grande festa paraense. Dr. Artur olhava Ranulfo como se pedisse sua opinião, ao mesmo tempo em que se despedia do cônego.
- O que acha? Perguntou depois do religioso sair, confirmando o olhar.
Antes que respondesse, entrou Anísio com a notícia de um morto no Ver-o-Peso. Uma mulher atacada em Cotijuba e um boato sobre duas mortes na Vila do Pinheiro: uma moça e um umbandista. Contava que as autoridades já estavam tomando providências.
Dr. Artur ficou algum tempo pensativo, olhou cada um como se confirmasse sua decisão e começou dar as ordens:
- Primeira página. Mande chamar o Dr. João Freitas, temos que lidar com as autoridades. Quero uma frase bem forte, Ranulfo, vamos acabar com a concorrência, porque depois dessas mortes eles vão destacar os fatos.
Seu Anísio novamente não gostou do título que Ranulfo deu:
MORTE E ASSOMBRO
NO CÍRIO DE NAZARÉ
“São muitas as vítimas da visagem que espalha o pavor pela baía de Guajará. Foram confirmadas duas mortes, o estivador Raimundo de Souza, morador da Ilha do Combu, encontrado morto com os olhos esbugalhados, sem ferimentos dentro da canoa nas proximidades do Porto do Sal e o estudante não identificado, cujo corpo achado no porto do Ver-o-Peso pela filha da conhecida Tia Merença, já estava em estado de putrefação, aparentando marcas e ferimentos.
Na ilha de Cotijuba mais uma vítima quase fatal. A senhora Nazaré dos Anjos, esposa de Idelmar dos Anjos, conhecido pescador daquela ilha, foi atacada em plena luz do dia pela visagem que teria quase consumado o intercurso carnal, se não fosse a chegada dos pescadores que a socorreram. A vítima chegou a ver a visagem, mas se nega, traumatizada, a falar no assunto.
Na Vila do Pinheiro, foi confirmada a morte de uma jovem e de um dos mais conhecidos umbandistas de Belém, Pai Constâncio, cujo corpo mutilado foi enterrado junto com o da moça ainda não identificada, em uma cerimonia religiosa, sem que as autoridades tivessem conhecimento.
A lista de embarcações que encontraram a visagem cresce com o movimento de chegada dos fiéis para o Círio. Deles a informação de que muitas pessoas do interior desistiram de embarcar na última hora, com medo desse ser estranho.
Os fatos preocupam os organizadores do Círio de Nazaré e o bispado, que já solicitaram a intervenção das autoridades para apurar as mortes e não deixar o misticismo tirar o brilhantismo da festa de fé do povo paraense.
As autoridades mobilizadas destacaram guarnições de prontidão nos principais pontos da cidade e criaram uma comissão especial para coordenar as atividades comandadas pelo próprio intendente. Na capitania, duas alvarengas fortemente armadas foram destinadas ao patrulhamento da orla.”
Ranulfo ao chegar, a casa vazia e o bilhete em cima da petisqueira, aquela letra quase desenhada de Nora:
“Fui para a casa da tia, no Marco da Légua, não estou correndo como os outros de nenhuma assombração. Fique com seu patrão, com o jornal e com quem mais quiser, eu fico com o mel, mentiroso”.
Só aí Ranulfo se deu conta de que estava fora de casa fazia quase dois dias. Tomou um banho, trocou de roupa, disposto a ir até o Marco atrás de Nora. Ao sair de casa notou o movimento grande na rua e mudou o rumo para o jornal.
No jornal, seu Anísio tentava despachar dona Noemi, sobrinha do Dr. Artur, com suas estrofes para serem publicadas no domingo do Círio. Ranulfo passou, evitando que ela o visse e pedisse opinião, indo direto pra sala do patrão com a notícia de que o povo estava fugindo para o interior, as estações estavam todas cheias e tinha gente saindo da cidade de toda maneira, evitando a margem da baía e qualquer furo ou braço dela. Quem morava próximo de algum igarapé então, já tinha saído há muito.
Pedia ao patrão enviar alguém à Vila do Pinheiro, ao Marco da Légua, ao Porto do Sal, às estações. Ele se encarregaria do Ver-o-Peso e do necrotério. Dr. Artur prontamente foi atendendo o que Ranulfo ia pedindo; autorizou na hora e contou do grande amigo e poeta que chegou no navio americano. Decerto tinha visto alguma coisa, ele mesmo iria avistá-lo. Ranulfo saiu da redação rumo ao Ver-o-Peso, onde tinha certeza de encontrar outras informações.
Caminhava entre as pessoas, absorto, com o pensamento ora na mulher que o deixara, ora na balbúrdia que estava virando a cidade, quando viu e foi visto por Filó, pelos olhos e pelo corpo de Filó. Foi um encantamento. Visagem era ela! - pensou sem saber o que fazer quando ela falou:
- Contra inveja, meu mano, tu te resolve. Leva comigo-ninguém-pode, cipó-pucá e vence-tudo, tuma que é garantido de tia Merença.
Cheiro Verde se aproximou do colega que sorria pra Filó e, puxando-o pelo braço, perguntou o que ele sabia, dizendo ser a hora de deixarem as divergências e trocarem as informações que tinham.
Enquanto conversavam, Ranulfo não tirava os olhos de Filó que também não tirava os olhos dele. Cheiro Verde sentia sua importância chegar e pensava: tomei-lhe a mulher, agora vou tomar a fama - lembrou quando cruzou com ele na pensão da Florete no dia que conseguiu o emprego no jornal e foi festejar. Lembrou que olhava pra ele e pensava: - um dia vou ser mais famoso que tu, muito mais famoso.
Tanto um como o outro já sabiam da reunião na intendência, mas guardaram a informação. Na verdade, tudo que conversaram já era sabido pelos dois.
continua...
MQ
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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE
.Projeto Primeiro Olhar promove atualização de professores através da arte
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Professores das redes pública e privada de ensino e demais interessados em arte podem se inscrever gratuitamente no III Módulo de Atualização para Professores, do projeto Primeiro Olhar, promovido pela Divisão de Ações Educativas da Fundação Joaquim Nabuco. O objetivo é aproximar o público da arte contemporânea através de atividades educativas, tomando como ponto de partida as exposições do Projeto Trajetórias. Na ocasião, artistas e mediadores discutirão as obras expostas e o contexto dos trabalhos na produção contemporânea. Também será distribuído gratuitamente material pedagógico elaborado pela equipe educativa da Fundação para subsidiar atividades em sala de aula. Os interessados devem se inscrever até o dia do evento, através do e-mail culturaeduc@fundaj.gov.br . O módulo acontece no dias 14 de outubro, pela manhã e à tarde, em 2 turmas diferentes, na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.
Serviço
O quê: III Módulo 2009 de Atualização para Professores
Inscrições: são gratuitas e acontecem até dia 11 de outubro por telefone, e-mail ou na Fundação
Curso: dia 14 de outubro, em dois horários: das 9 às 12h e das 14 às 18h
Promoção: Divisão de Ações Educativas – Coordenação Geral do Espaço Cultural Mauro Mota Fundação Joaquim Nabuco
Onde: Sala Sylvio Rabêlo – Fundação Joaquim Nabuco – Casa Forte
Endereço: Av. 17 de Agosto, 2187 – Casa Forte – Recife – PE
Informações e inscrições: Rua Henrique Dias, 609 – Derby. Recife-PE. CEP.52010-100
Tel.:3073.6682 3073-6714 E-mail: culturaeduc@fundaj.gov.br
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009
GESTOS DE CADA LUGAR
Pai do Jocinho
Erê! Zé Mariano
Telelém... Festa de Cura
Quem carrega o seu dom
É saudado com mesura
Quenta tambor
Reza pra Santa Bárbara
Chama tambor
Protege o terreiro
Cruzados em xis
Mediante corpo
Guias, rosários
Paramentos
Pontos em dança
Encantados
Olhos de mundo
Vida na vida
Erê! Zé Mariano
Telelém... Tambor de Mina
Erê! Festa de Cura
Telelém... a nossa estima
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VAQUEIRO MARAJOARA - ENCANTARIAS, CHULAS E LADAINHAS
Tajá
Vivia só de ausência
Lidando com o de lidar
Sentindo muita carência
Sem ninguém pra consolar
Tajá-pinima, piranga
Tajá-puru, taiurá
Erê! Coaraci-tajá
Busquei um tajá curado
Trabalhado nos segredos
Queria o ente amado
Amarrado sem os medos
Tajá-pinima, piranga
Tajá-puru, taiurá
Erê! Coaraci-tajá
Quando ele apareceu
No rumo que não errou
Seu olhar me convenceu
Com amor me aprisionou
“Prendeu pode soltar
Erê! Coaraci-tajá
Soltou pode voltar
Erê! Coaraci-tajá”
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MQ
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
SERTÃO D'ÁGUA - FOLHA DO NORTE
continuação...
Folha do Norte
Os colegas riram de Cheiro Verde até a chegada do Dr. Pedro Nobre com o comandante do navio americano. Trancaram-se na sala e, depois de quase uma hora de conversa, chamaram seu Juvenal, em seguida Cheiro Verde. Foi sua grande oportunidade. Mudaram a manchete, acrescentaram os últimos fatos, mas não quiseram mencionar o americano. Seu Juvenal, na saída da sala, pediu tempo integral no Ver-o-Peso; entrevistas e, se houvesse fato novo, chamasse o fotógrafo.
Para a alegria de Cheiro Verde, a matéria saiu com seu nome, mas titulada com “ VISAGEM FAZ MAIS VÍTIMAS NA BAÍA DE GUAJARÁ”. Passou a noite esperando a impressão, pensando que dali pra frente seu Juvenal iria tratá-lo melhor, falar olhando pra ele, com respeito.
Saiu pela manhã com o jornal debaixo do braço, direto para o Ver-o-Peso, onde mostrava pra todos os conhecidos, empavonado. Agora era um dos principais jornalistas da Folha do Norte, dizia.
Exibindo sempre o jornal debaixo do braço, foi atrás dos últimos acontecimentos. Conversou com uma dezena de pessoas que os presenciaram, tentando descobrir algum detalhe que tinha escapado.
Parou no garapeiro e leu um pedaço da sua matéria pra ele:
“Um corpo chegava ao necrotério, quando o grito de mulher fez todos correrem numa confusão de empurrões e tropeços. No Ver-o-Peso, a moça achou o afogado entre os igarités. Assustada, gritando e chorando foi socorrida pela mãe, a conhecida Tia Merença e pelo garapeiro Jonas.
Agora são duas as vítimas da visagem que muitos não acreditam existir. Os soldados da brigada, de prontidão no local, pediram ajuda aos bombeiros para conter a multidão de curiosos.”
Quando terminou de ler, o sorriso de Jonas foi até as orelhas, Cheiro Verde pensou que Ducina tinha razão quando perguntava nomes ao ajudá-lo com as matérias.
Terminava de tomar a segunda cuia de tacacá quando soube da Vila do Pinheiro. Queria ir lá, mas primeiro ia confirmar se não era boato; naqueles dias nada do que se ouvisse na rua podia ser acreditado sem uma confirmação. Resolveu passar na redação antes.
- Mas é um pedido do bispo, dizia seu Juvenal para Dr. Pedro Nobre, que não cansava de olhar as horas no relógio de bolso.
- Não podemos deixar de publicar o assunto, os outros jornais estão dando cobertura completa. O povo na rua, é só no que fala, não podemos abrandar. O fato é grave, tem mortes e pelo número de gente que viu, ou de alguma forma teve contato com a tal visagem, vai ser difícil parar... imagine ficar de fora. São quatro mortes e uma mulher atacada.
- Quatro? Onde foram as outras? Perguntou seu Juvenal, sentando no canto da sala.
- Uma moça e um pai de santo, lá na Vila do Pinheiro. Soubemos há pouco, mas não temos confirmação, respondeu Cheiro Verde, entrando na sala.
- Além do mais, não acredito que isso dure até depois de amanhã. Falam que estão se organizando pra vigiar a baía pelo menos durante o Círio. Melhor manter o assunto na primeira página. Mande confirmar a morte da moça e do pai de santo.
Moça morta e um pai de santo na Vila do Pinheiro. Cheiro Verde queria ir lá, mas seu Juvenal pediu que ficasse de plantão na porta do necrotério; ia mandar outro. Já que ninguém confirmava as mortes, se de fato tivessem acontecido, os corpos chegariam a qualquer momento, melhor ele estar no necrotério.
Saiu pensando passar primeiro na pensão da Florete para ver Ducina e mostrar a primeira página do jornal, mas viu Ranulfo da Província indo com as mãos no bolso como se tivesse fazendo um passeio por ali. Ia direto no rumo do Ver-o-Peso. Cheiro Verde o seguiu até encontrá-lo conversando com tia Merença e Filó.
continua...
MQ
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RIO DO BRAÇO
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Toada Inacabada
(Marcos Quinan / Joãozinho Gomes)
Vou pelas nota intermitente da toada
E peço lhes sua licença
Presse caso inacabado
De nome sou Zé Cirino dos Amado
Larguei-me pelo mundo dentro ao fundo, fora o raso
Um dia pelas tanta dum dumingo inda estrelado
A fruta do meu peito pelo centro e pelos lado
Dedica-se a Sá Deusdete
Deusa santa bicho irado
Meu coração cuja paixão lhe foi negada
Havera de pulsar vazio, mesmo sangrado
Queixei-me a Sá Deusdete
Magoando e magoado
E assim parti desiludido e definhado
E pelo mundo noutras terra doutro lado
No meu delírio torturante e torturado
Diz Sá Deusdete
Sou-lhe inteira
Viu Cirino meu pecado
Avuliei meu pensamento apaixonado
Mãos de saudade enlaçavam o corpo amado
Ardente em carne, fogo e cor
Assim fincado
Na memória desse caso entoado
Mais pra beleza linda e lesa
Dos dois lados
Se encontre Sá Deusdete
Como assim estou achado
Adeus de nada que também me tenho estrada
Mas deixo-lhes contada em casca e dor, nessa toada
Que é a lança do destino em mim cravada
Pois ao seu inteiro dispor
Sou Cirino desamado
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Arranjo – Fernando Carvalho
Voz – Jean Garfunkel
Violino – André Cunha
Viola – Ivan Zandonade
Cello – Saulo Moura
Violão Nylon – Eudes Fraga
Viola de 12 Cordas– Fernando Carvalho
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009
VAQUEIRO MARAJOARA - ENCANTARIAS, CHULAS E LADAINHAS
Uirapuru
Japuaçu bicou o fogo
Procurando por calor
O bico ficou vermelho
Agora é sua cor
Japiim canta imitando
Tudo que ouviu cantá
Todas as aves do mato
Menos tanguru-pará
Jurutaí com seu agouro
Só da sombra aparece
Quando a noite é escura
Sua risada enlouquece
Juruti que traz sorte
De dentro do seu tajá
Espanta até a morte
Deixando o amor ficá
Em volta tudo se aquieta
Harmonia corre o ar
Só o encanto desperta
Quem sabe ensina cantar
“Do ninho tirei pedaço
O cauré não disse não
Foi logo pedindo um naco
De cabeça e coração”
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MQ
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SERTÃO D'ÁGUA - VILA DO PINHEIRO
continuação...
Vila do Pinheiro
Na estação do Pinheiro, Dália embarcou Isabel e voltava macambúzia, mal ouvindo o que Batino conversava com ela. Na noite anterior Pai Constâncio lhe dera um banho de gamela e uns apalpões, ela tinha nojo dele como homem, sabia das filhas de Iansã, mas não queria o mesmo. Absorta em seus pensamentos nem notou quando o trem passou e Isabel acenou despedida, foi preciso que Batino lhe apontasse. Como iria contar a ele que Pai Constâncio tirou graça com ela? Mas como não contar? A irmã dele viu, e era muito fofoqueira. Melhor contar logo a Batino, se tivesse que ser, tomava logo a surra. O que queria mesmo era acabar com a agonia que sentia. Quem sabe ele desse uma coça em Pai Constâncio, aquele sem vergonha. Pensava Dália.
- Na estação do Curro não se fala noutra coisa a não ser da morte do carregador, no furo, perto do Porto do Sal. Raimundico do Combu morreu de susto quando viu a visagem - ela ataca a qualquer hora, disseram. Já apareceu um morto no Ver-o-Peso, a polícia está lá de prontidão. Saiu até em jornal, contava Batino, sem que ela prestasse nenhuma atenção. Juntava coragem, mas ele só pensava no igarapé. Quando lá chegaram, ele queria logo, ela conversar primeiro, resolvida a falar tudo. Quando começou, ouviu o barulho. Viraram-se e viram de costas a visagem na montaria saindo do igarapé, gemendo ronco... Correram o que puderam, saindo mato afora, com o susto. Dália, ofegante, esperou voltar a respiração ao normal, Batino acalmar-se também, aí começou a contar. Ele, valente que era, correr da visagem, já o tinha deixado diminuído e nessas horas se enfurecia com violência.
Ela não avaliou que a hora não era boa e falou do assanho de Pai Constâncio, contou da noite anterior que ele a apalpou no terreiro, quando tomava banho de gamela, encostou na bunda e falou no ouvido, convidando.
Batino, que ouvia tudo calado, de cabeça baixa, desgovernou-se. Espadaúdo que era, bastou um tapa só: ela caiu rolando pelo barranco, ele em cima, com pontapés na cabeça. Esbravejando e xingando:
- Tu deitou com ele... tu não presta, tu te oriente ... tu deu pra ele... e saiu com os pés sujos de sangue deixando o corpo da moça com a cabeça arrebentada no meio das canaranas.
Quem a achou foi seu Frauzino, tocador de requinta, que sempre num final de tarde ia ali, naquele mato, ensaiando toque, aprendendo com as pipiras. Assustado, pareceu reconhecer a filha do Lico Foguista. Correu em casa gritando para o cunhado ajudar, que tinha achado uma moça morta com a cabeça espocada. Mandou chamar o foguista, que chegou quando eles a traziam pelo caminho, confirmando em prantos ser a filha. Dava dó ver seu Lico abraçando-a, sentado no chão, chorando.
Batino vigiou a casa do pai de santo até surpreendê-lo sozinho com uma terçadada na cabeça. O corpo desfalecido, arrastou até o alagado do fundo, onde o sangrou pelo pescoço, quase decepando a cabeça. Dali saiu sem que ninguém o visse depois de se lavar do sangue. O corpo com a preamar iria dar no trapiche do Ferreirinha e a tal da visagem levaria a fama. Pensava Batino.
Quando ia virando o canto da rua, sua irmã vinha correndo buscar Pai Constâncio e contou-lhe abraçada, chorando, que Dália tinha sido vítima da visagem, estava morta com a cabeça toda esmagada. Batino por um instante quis falar à irmã que era só uma peia que queria dar, mas ficou calado e começou a chorar junto. Por dentro, pensava no tanto que gostava de Dália, mas já que estava feito, que a visagem levasse a fama pelos dois.
Pai Constâncio foi encontrado assim que a maré subiu, enganchado na palafita da casa do Ferreirinha, ainda com o sangue quente e sanguessugas por todo o corpo.
O assombro foi muito grande. A Vila inteira compareceu ao terreiro onde velavam os mortos. Cada um contava o acometimento da visagem de um jeito: uns diziam que eram mais de uma centena e só atacavam perto d’água; outros que elas já tinham encostado as montarias e vinham pelas ruas. O medo foi tomando conta, muitos procuravam a estação para sair da Vila. No trapiche, o medo se alastrava, em pouco tempo as pessoas saindo a pé pareciam formar uma procissão.
continua...
MQ
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
VAQUEIRO MARAJOARA - ENCANTARIAS, CHULAS E LADAINHAS
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Encruzado
Rogos de esquecimento
E um destino encruzado
Pra curar é invisível
O nada é tudo calado
Escondidos pela noite
Na escuridão visceral
O profano e o sagrado
Resumem o natural
Águas vivas, águas mortas
Dentro do mesmo sacado
Curadores vêm da terra
Pra semear um legado
Fazer bem às criaturas
É presente do passado
O que tem numa puçanga
Representa cada lado
“O caboclo sabe
Quando é vão
O caboclo sabe
Aonde é são”
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MQ
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SERTÃO D'ÁGUA - TERRAÇO DO GRANDE HOTEL
continuação...
Terraço do Grande Hotel
No terraço do Grande Hotel, o movimento era grande. Na mesa do Dr. Cavalcante, o mesmo assunto: o preço da borracha aviltado, o cacau, as dificuldades daquele momento com a política, o movimento grande de pessoas para o Círio e a tal da visagem.
Com a chegada do jornalista José Torres, relatando as últimas notícias, o assunto da visagem predominou. A conversa foi longa sobre quem viu, quem não viu, sobre as pessoas mortas e o movimento de gente no comércio, no Ver-o-Peso e nas estações. Dr. Cavalcante ouviu sorrindo o jornalista e prometeu atender seu pedido de intervenção junto ao bispo - que estava furioso com o principal assunto da cidade naquela véspera de Círio. Já havia enviado pelo cônego Gaudêncio pedido ao seu jornal para que não desse tanta importância aqueles boatos. O bispo estava mobilizando todos, queria tratamento de polícia para o caso, e o cônego a seu mando estava indo de jornal em jornal, fazendo reclamações e ponderações para que o assunto não fosse levado a sério pela imprensa. Até no Teatro Ideal ele foi, por causa do título da peça que seria levada. Dizia o jornalista José Torres.
Dr. Cavalcante assumiu compromisso e mandou na hora mensageiro solicitar ao bispo que o recebesse.
O mensageiro voltou no final da manhã com a resposta, o bispo o receberia naquela mesma tarde.
Dr. Cavalcante era um dos homens mais ricos e influentes, dono de casa aviadora, banqueiro, comerciante, jurista respeitado, além de devoto fervoroso de Nossa Senhora de Nazaré. Amigo de políticos, autoridades e irmão de Dom Francisco, que o recebeu sorrindo e foi ficando sério ao ouvir o irmão pedir pra deixar os jornais com aquelas sandices todas, pelo menos até o dia do Círio. Aquilo estava movimentando o comércio. Pedia ao bispo que todas as paróquias celebrassem missas em intenção da alma daquele infeliz ser que vagava pela baía e assim, em vez de desagregar o povo na quadra nazarena, trá-lo-ia mais pra perto dos festejos.
O povo - dizia Dr. Cavalcante - acredita que o carregador morto, o rapaz afogado e a mulher atacada foram vítimas da visagem. Deixa acreditar! Nunca vimos tanto movimento nas ruas. Meu irmão sabe que, quando o comércio vai bem, a igreja também vai. O povo está assustado e é nessa hora que precisa ter mais fervor em Nossa Senhora de Nazaré.
O semblante de Dom Francisco foi se desanuviando, quase convencido pela empatia do irmão que despediu-se, aguardando a reflexão do bispo sobre seu pedido e prometendo ficar aquele assunto nos jornais somente até a véspera do Círio e ir acompanhando a família na Procissão da Transladação.
continua...
MQ
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009
SERTÃO D'ÁGUA - NO ARRAIAL DE NAZARÉ
continuação...
No Arraial de Nazaré
Os dois faziam a alegria de seu Canduco. Era a barraca de maior movimento no arraial. Chegaram de manhã e dali não saíam, comendo e bebendo em meio à roda que se formava pra vê-los. O violão, não sabia de onde tinha vindo, mas agora corria a roda, quando parava nas mãos do músico carioca era aquela melodia refinada, coisa pra Teatro da Paz, pensava seu Canduco. Quando alguém interrompia com notícias da tal visagem, o poeta paulista anotava tudo em pedaços de papel, que ia enfiando no bolso da calça. De vez em quando, recitava um verso, também refinado para os ouvidos do barraqueiro. Parecia um pouco com as coisas dos batuqueiros do Reduto, mais despudorados, se é que entendia direito.
Sua filha desmanchava-se em atenções com o poeta que a distinguiu com um verso, mas ao declamá-lo, olhava mesmo era para a mulher do barraqueiro ao lado:
Há nos teus braços
Na precisão dos contornos
A pele da juventude
Sem nenhuma palidez
E o maternal delatado
Que olho com polidez
Há nos teus braços
Marcas de outros caminhos
Que te laçaram com avidez
E vestígios de um amor
Que o instinto quase desfez
Há nos teus braços
Todos os ângulos
Dos gestos lânguidos
Que tem o prazer
Há nos teus braços
O sensual desenho
De sol passeando
No horizonte das tardes
Há nos teus braços
Um pedaço de mim
Crucificado
Há nos teus braços
Solidão e intenções
Reparando, sem reparar
O abraço do meu olhar
Quando o poeta terminou de recitar, olhando pra ela, os curiosos até aplaudiram, todos sorriram até o marido.
Decorria o dia, a roda ia aumentando, atraindo quem passava. Os dois visitantes ouviam todos que quisessem tocar, aplaudindo, perguntando. De longe, parecia que aquele aglomerado de gente estava ouvindo alguma notícia da visagem mas, ao aproximar, encontravam o sarau ao ar livre.
Camargo Neto, o poeta maior, passava com um grupo de amigos bem na hora que alguém terminava de ler a “Elegia Curiaú” obra de João dos Gomes, poeta mameluco, conhecido apenas no Reduto e publicado graças ao empenho do jornalista Ranulfo, da Província do Pará.
Você o vento da noite
Eu o vento do dia
Ao amanhecer
Juntos nos canaviais
Vamos beber na fonte
Rodopiar por aí
Percorrer os matos
Você lembrando seu amor
Eu o meu
Vamos roubar o aroma
Das plantações de fumo
Fazer ondas nas águas
Assobiar por aí
Ao entardecer
Sentir saudades
Virar brisa
E cantar baixinho
Você lembrando seu amor
Eu o meu...
O autor, sentado entre o poeta paulista, e o músico e compositor carioca, sorria. Acompanhava a leitura, balbuciando os versos bebidos pelos dois novos amigos. O silêncio parecia perfumar o ar.
Camargo Neto parou e ficou apreciando a valsa tocada a seguir. O violonista com o charuto preso nos dedos da mão direita, tocava assim mesmo, com grande desenvoltura, dedicando aquela valsa ao autor da elegia.
Ao terminar, os aplausos ecoaram pelo arraial, atraindo ainda mais gente. Camargo Neto aproximou-se do grupo, apresentando-se e sendo também aplaudido. Conhecido que era, foi logo intimado a declamar “O sonho Cabano”, sua obra mais conhecida, sempre obrigatória pela pungência e modernidade dos versos, o que fez sem nenhum constrangimento.
Paneja a bandeira, cabano
Exorta bravura da luta
Trazendo lingada de sonhos
Em laivos de terra nova
Noutrora laço tisnado
Traição coragem refuta
Lobrigando os aleivosos
Vendendo nonada conduta
Oblitera dias de dono
O sumário das balas
Canhão que um corpo cala
No Vintismo conforme
Dobra as duzentas
E cinqüenta e seis
Bandeiras, cabano
No túmulo de cal
Sesmarias sementeiras
Das rústicas sementes
Libertas do desterro
Drogas do sertão
Ódios de porão
Corrente opressora
Aduzindo alvitre
Alarvia em sonhos
Algarviada cabana
Panejando a vontade
De liberdade sem tomo
Os aplausos foram intensos. João dos Gomes levantou-se para cumprimentar o poeta e, na emoção da hora, com a voz pequena e grave, sem a verve do colega começou a recitar no mesmo tema:
Raça desvalida
Que terra amou?
Seu cheiro de guerra
Em canto soou
Vem de onde vem
Acaso ou certeza
Disfarça contando
Encobre o sangue
Dissimula rezando
Diverso o gentio
Cativo vagou
Vermelho sangue
Calando ficou
A pele escura
Prisioneira chegou
O breu da chibata
A moeda pagou
O gume das facas
Penetra em vão
Onde tudo dá
Natural e são
O compositor carioca e o poeta paulista assistiam e aplaudiam Camargo Neto e João dos Gomes, abraçando-se emocionados. A música tomou conta daquele ponto do Arraial.
A valsa executada a seguir pelo compositor carioca, dizia ele, era parte da peça “ Quadrante Norte “ em fase final de composição. Ao começar a tocá-la, o poeta paulista levantou-se, declamando, como que saudando Camargo Neto e João dos Gomes:
Natureza em labor
Espalha rios, florestas
Em entrelaço
Vidas, entranhas
De espanto altivo
Em servidão
Conhecendo a riqueza pobre
De lâminas e arengas
Braços aprisionados
Em qualquer valia
Desordenando raças
Espalhando a riqueza pobre
Nas despensas abastadas
Dos brasões reluzentes
De feras que rezam
continua...
MQ
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RIO DO BRAÇO
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Vó Caluta
(Marco Antonio Quinan / Marcos Quinan)
Vó Caluta
Discreta luta
Descreve dor
Em brando luto
De trinta anos ou mais
Vô Conjeto
Passou
Tifio passou
Vó Caluta
Descreve luta
Discreta dor
Vô Conjeto
Passou
Tifio passou
Vó Caluta
Passou...
Arranjo – Eudes Fraga e Roberto Stepheson
Vozes – Marco Antonio Quinan / Marina Quinan / Marcelo Quinan
Violão de Aço e Percussão – Eudes Fraga
Clarinete – Johnson Joanesburg
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domingo, 4 de outubro de 2009
ROGÉRIO SANCHES DEL MORA
“Certa noite, ao entrar em minha sala de aula, vi num mapa-múndi, o nosso Brasil chorar:
O que houve, meu Brasil brasileiro?Perguntei-lhe!
E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido,
Estou sofrendo. Vejam o que estão fazendo comigo...
Antes, os meus bosques tinham mais flores
Conseguiremos salvar esse país sem braços fortes?
Pensei mais...
VAQUEIRO MARAJOARA - ENCANTARIAS, CHULAS E LADAINHAS
Fumigação
Cera do sapo cunauaru
Alecrim e alfazema
Misturados bem no breu
Depois de uma novena
Na porta põe ferrolho
O janelão feche inteiro
Feche tudo bem fechado
No quintal faça o aceiro
Fumigado vai nas frestas
Espantando o apresentado
Limpando tudo que empesta
Ou que for por lá achado
“Coaxa cunauaru
É sua a minha casa
Morada do bem querer
Distante de qualquer vasa”
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MQ
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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE
Documentário sobre arte e arquitetura em ferro é lançado no Recife
Aspectos da arquitetura presente na capital pernambucana são retratados no documentário “Arte e arquitetura em ferro numa cidade tropical”, com lançamento marcado para o dia 5 de outubro, às 19h, no Cinema da Fundação. O documentário é uma realização da Virtual Comunicação e é dirigido por Emanuel Bandeira. A entrada é gratuita. Mais informações através do e-mail cinema@fundaj.gov.br.
Serviço
O que: Estréia do documentário “Arte e arquitetura em ferro numa cidade tropical”
Quando: 5 de outubro, às 19h
Onde: Cinema da Fundação
Entrada: Gratuita
Promoção: Virtual Comunicação
Apoio Cultural: Diretoria de Cultura Fundação Joaquim Nabuco
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 – Derby. Recife-PE. CEP.52010-100
Fones: (81) 3073.6688 3073.6689
Email: cinema@fundaj.gov.br
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sábado, 3 de outubro de 2009
GESTOS DE CADA LUGAR
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O Santo e o Jumento
Erê! Telelém... Telelém...
Caixeiras do Maranhão
Encanto da fé que reza
Passando de mão em mão
“Busca o mastro / Abre a tribuna
Vem tocar... vem tocar... vem...
Quem quiser / Pode rezar
Vem dançar... vem dançar... vem...
Com o som / Das nossas caixas
Convidamos pra louvar / O divino santo rei
Vem dançar... vem cantar... vem...
Derruba o mastro / Chegou a hora
Da tribuna se fechar / Para o ano de deus amém...
As caixeiras vão voltar / Para o ano de deus amém...
As caixeiras vão voltar” (*)
Esculpi um santo a faca
E saímos para rezar
Recolher cada ajutótio
Trazendo pro meu altar
Imitando a vizinha
Que saia pra rogar
Entrei em uma casa
Esperei o ajutório
Enquanto esse meu santo
Na bandeja que era altar
Esperava na janela
O crente ir lá buscar
Quando veio um jumento
O santo abocanhar
Esculpido na mandioca
Tem gosto de se acabar
Depressa comeu o santo
Deixando só o altar
O dono da casa viu
E não teve entendimento
Onde já se tinha visto
Santo comido por jumento
Erê! Telelém... Telelém...
(*) Música: Caixeiras do Maranhão (Marcos Quinan / Juliana Balsalobre)
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MQ
SERTÃO D'ÁGUA - TEATRO IDEAL
continuação...
Teatro Ideal
O TEATRO IDEAL APRESENTA: JÚLIO VILLAR
NO MONÓLOGO “ O ENTERRADO VIVO”.
Seu Alfeu era só alegria, primeiro pela reforma do teatro para a temporada do Círio, depois pelo programa que iriam apresentar. Mandou fazer dezenas de cartazes e espalhou pelos logradouros e casas comerciais. Aproveitava a agitação da cidade com o Círio e aquele componente adicional, que era só no que se falava desde o dia anterior, um ser assombrando a baía de Guajará. Antevia seu Alfeu muito dinheiro entrando na bilheteria. A abertura do teatro iria ser um sucesso.
Procurou o artista no hotel, propondo uma temporada maior devido aos fatos. Deixariam para anunciar nos últimos dias, em cena aberta, economizando assim com novos cartazes. Júlio Villar prontamente aquiesceu, fazendo apenas uma exigência de ganho um pouco maior do que o contratado.
Naquela mesma manhã, perto do almoço, Júlio Villar foi procurado pelo cônego Gaudêncio, a mando do bispo, pedindo o cancelamento da apresentação daquele monólogo anunciado nos cartazes, uma vez que não ficava bem aquela peça ser levada no clima de agitação que vivia a cidade, às vésperas do Círio de Nazaré, com a tal da visagem do Guajará. Que o artista escolhesse outra peça em seu repertório, por todos sabido, um dos melhores que o público paraense iria ver.
O recado do artista chegou ao teatro. Seu Alfeu acabava de se despedir de Ranulfo que viera lhe informar as últimas notícias que sairiam em manchete no jornal. Ranulfo da porta ouviu o recado, e preveniu o amigo que poderia ser o bispado tentando cancelar a apresentação daquela peça. A pressão que eles estavam fazendo era muito grande. Com essa história da visagem, eles temem que atrapalhe as festividades deste ano.
Seu Alfeu apanhou o paletó e saiu às pressas da sala e das vistas do mensageiro que subornou para não tê-lo encontrado.
Ninguém sabia de onde o boato saiu, mas corria de boca em boca que “ O Enterrado Vivo” não seria mais apresentado naquela temporada. Seria substituído por outra peça do repertório do artista. Na bilheteria do teatro, não se confirmava nem se desmentia. Seu Alfeu, ninguém encontrava.
No hotel, Júlio Villar não queria falar com ninguém, antes de se avistar com a direção do teatro. Até a entrevista ao jornal pedira pra cancelar, com medo de que o repórter perguntasse qualquer coisa sobre a mudança de repertório.
Nas imediações do Teatro Ideal, fazia-se chacota sobre a estréia marcada para o dia seguinte quando chegou a notícia do rapaz encontrado no Ver-o-Peso e da mulher atacada na ilha de Cotijuba. Cada um que contava tinha sua versão. Para uns, o rapaz fora jogado do navio americano e o capitão já estava no necrotério para reconhecer o cadáver. Para outros, era tudo invenção do dono do teatro para encher a casa. A mulher atacada, era alguma assanhada do navio americano, tomando banho e que se assustou com algum pescador. Os boatos foram se espalhando pelo arraial, nas proximidades do teatro, desencadeando uma curiosidade nunca vista, nem mesmo no primeiro filme do Olímpia ou no Teatro da Paz, em apresentação de grandes companhias. Todos queriam adquirir seus ingressos antecipadamente.
No Teatro a grande confusão. Seu Alfeu não aparecia, a bilheteira não sabia o que fazer com aquele tumulto; os lugares todos vendidos, o povo na porta, exigia outra sessão.
A noite apenas começava no arraial, fervilhando de gente. O assunto de todos era a visagem e o monólogo do artista português. Ouvindo, o povo se aglomerava. Cada um que começava a contar que viera do Ver-o-Peso, ajuntava uma pequena multidão ao redor.
continua...
MQ
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RIO DO BRAÇO
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Tema das mulas
(Marcos Quinan)
Arranjo - Fernando Carvalho
Viola de 12 Cordas - Fernando Carvalho
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE
.Serviço
O quê: Curso de Desenho de Som – Captação do Canne
Ministrante: Nicolas Hallet (BA) Monitora: Simone Barbosa (BA)
Onde: Maceió, de 5 a 10 de outubro Rio Branco, de 12 a 17 de outubro Belém, de 26 a 31 de outubro
Inscrições: olharbrasil@gmail.com (Maceió - AL) mcapo@terra.com.br (Rio Branco - AC) npdpa.analobato@gmail.com (Belém – PA)
Promoção: Centro Audiovisual Norte-Nordeste (CANNE) / Diretoria de Cultura / Fundação Joaquim Nabuco e parceiros locais
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 – Derby. Recife-PE. CEP.52010-100
Tel.: (81) 3073. 6718. E-mail: canne@fundaj.gov.br
RIO DO BRAÇO
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Urutaí
(Marcos Quinan)
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Arranjo – Coletivo
Violão de Nylon – Eudes Fraga
Percussão e Cavaquinho – Marco André
Flauta – Roberto Stepheson
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SERTÃO D'ÁGUA - VER-O-PESO
continuação...
Ver-o-Peso
- Pruquê tu duvida, meu mano? A meuã alevantú no meo do piri e tumbô arremetida, retinindo onça. A vigilenga pendeu e jugô tumano a cueira, a meuã sumiu no perau, mea santa, axi!
Contava Zé Panema para o vendedor de peixe. Os dois encharcados de cauim como era costume quando se encontravam. O vendedor ria, punha dúvida no contar do amigo, persignava-se, irritando Zé Panema que sentado levantou, deu um cambaleio derrubando um carregador com o alguidar de tucupi. O barulho ingente dele quebrando no chão chamou a atenção de todos e assustou quem estava por perto. Em minutos a multidão estava formada, ouvindo-o insistir no que contava.
- Tu bebeu cum ela, Zé Panema? Gritaram da multidão.
- Tu prenhô ela, Zé Panema?
- Chama tia Merença pra benzê, leva raiz de pajamarioba com casca de sucuba, senão vai nascê um Paneminha assombrado, axi! E a multidão ria em meio à balbúrdia.
- Tu tumô na poronga, Zé Panema?
Amesendados nas imediações do necrotério, um pelotão da brigada, comandado pelo tenente Alvino, fazia prontidão desde aquela manhã. Ao ouvir o barulho e a confusão, correram de pronto, dispersando a multidão, prendendo os dois bêbados que discutiam os prejuízos com o dono da mercadoria.
Naquela antevéspera do Círio, a tarde estava mais quente que o normal. A agitação da manhã havia acabado, tudo indicava que ia continuar assim, calmo.
Mas estava enganado o tenente. Naquele momento, o grito de Filó encheu o ar mormacento da tarde, o ajuntamento de gente foi imediato. Um corpo boiava no meio dos igarités, bem onde Filó ia lavar o jambu e encher o balde. Assustou-se, saiu gritando por entre as pessoas, até ser socorrida pela mãe que, percebendo o grito da filha, veio correndo. O tenente avistou apenas Filó sendo levada. Venceu a distância em segundos enquanto ouvia os gritos - é aqui... aqui.... as pessoas chamando... - tem um morto! Só assim entendeu o grito da mulher que queria, e foi ver.
O Ver-o-Peso virava num burburinho de gente querendo chegar na beira; os soldados isolando o lugar, o povo se apertando cada vez mais, alvoraçado com a chegada dos bombeiros.
O fato ganhou as imediações, foi se espalhando pela cidade como um rastilho de pólvora. Num instante, a multidão foi aumentando, até parar os bondes que não tinham como trafegar pelas ruas próximas ao Ver-o-Peso.
Cada um tinha sua versão do ocorrido: uns descreviam o combate do morto com a visagem; outros que era ela própria que findara debaixo dum casco de vapor. Muitas versões circularam pela multidão querendo chegar mais perto do necrotério para onde foi levado.
O corpo já estava em decomposição, viera com a maré, sendo comido pelos peixes, irreconhecível.
No necrotério, ficou estendido ao lado do outro morto, vindo do Porto do Sal, exposto à curiosidade do encarregado, que se gabava como se entendesse da ciência:
- Esse morreu afogado, era novo ainda, uns vinte e poucos anos, se muito. Sem identificação, roupas boas, um pouco descuidadas, mas boas. Já aquele Sr. Raimundo de Souza foi ataque do coração. O mais novo não temos como identificar com o que restou das roupas, só uma única coisa posso quase garantir, vivia sozinho. É uma dedução, seu Libório, pelos botões... alguns pregados com linha de outra cor... só pode ser! E pela idade, talvez seja um militar, um estudante.
Seu Libório tirava as medidas calmamente quando a mulher chegou, chorando. com as duas filhas pelas mãos e seu Dedé do Acaraqui, compadre dela, que a buscou no Combu com a notícia da morte do marido. Lá fora juntava gente querendo ver os corpos, saber dos detalhes. A brigada de prontidão, instalada ao lado do necrotério, com ajuda dos bombeiros, foi desfazendo a confusão formada nas imediações.
O tenente Alvino com mais dois soldados examinavam o porto do Ver-o-Peso, por entre os igarités e freteiras, fazendo uma pequena multidão acompanhar. Nada achando, chegou até a barraca de Tia Merença, onde Filó estava sentada no chão se refazendo do susto.
- Quem é? Perguntou à moça, - peguei nele Alvino... por São Marçal, peguei nele...
O tenente acalmou Filó e a multidão em volta, contando que ninguém sabia quem era, tinha morrido afogado, era a única coisa que sabia.
Na porta do necrotério, o repórter perguntava à viúva sobre o morto. Ela não conseguia falar, o choro tomava conta, Dedé falava por ela:
- Tuda vida cumpadre Reimudico medrou de visage, tinha medo inté dus barulho da água na quilha, assombrado... assombrado... assombrado...! Era só falá dum assunto mais do lado do mistério, que ele saía de perto. Valente que era, num medrava de nada que era vivo, não.
Uma vez entralhava a rede, deu cuíra de ver a soca mexeno demais na aragem... correu, era a sucuriju de maior tamanho que teve no Combu. Foi a única vez que correu dum vivo.
Enquanto o ribeirinho falava, o funcionário do necrotério fez sinal para o repórter entrar, como se tivesse outras informações a dar. Na porta, a multidão aguardava curiosa qualquer movimento.
continua...
MQ
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009
SERTÃO D'ÁGUA - NA INTENDÊNCIA
continuação...
Na Intendência
A providência tinha que ser imediata, pedia o intendente. O governador o chamara ao palácio, em reunião com o bispo, para que se tomasse todas as medidas para acabar com aqueles boatos.
Sentados a sua frente o desembargador-chefe de polícia Dr. Otávio, o tenente Felópio da capitania, o major Eustáquio da brigada, o tenente Silveira do corpo de bombeiros e o Dr. Batista, presidente do conselho municipal. Ouviam o pedido do intendente para que se policiassem os locais de maior concentração popular: feiras, portos, estações e até no arraial nazareno. Haviam combinado junto ao bispo e ao governador que seriam tomadas essas providências, além de formar uma patrulha de duas alvarengas, armadas para patrulhamento da baía. O bispado, por sua vez, iria enviar um representante aos jornais pedindo para tirar o assunto das primeiras páginas. A recomendação era de que evitassem o tumulto, principalmente nos logradouros.
Queria o intendente que fosse apurado com muito rigor o motivo da morte do carregador do Porto do Sal, para isso, que se destacasse alguém para ir ao necrotério acompanhar o caso de perto, e que não divulgasse a causa da morte sem que ele soubesse primeiro. Queria evitar a todo custo que os jornais fizessem qualquer alarde em suas edições do dia seguinte. Chegou aos ouvidos do governador que até o comandante do navio americano que aportou esta manhã tinha visto a tal visagem. Era necessário falar com ele antes que qualquer repórter o fizesse.
- Lembrem-se, dizia o intendente, não podemos aceitar que uma crendice dessas envolva o navio americano e muito menos que cause qualquer problema em nossa maior festa religiosa.
continua...
MQ
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RIO DO BRAÇO
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Tema carrego das mulas
(Marcos Quinan)
Arranjo Base - Eudes Fraga
Arranjo Sopros – Roberto Stepheson
Violão Nylon - Eudes Fraga
Sanfona - Severo
Clarinete - Carlos Soares
Block (trote) / caxixi - Marcos Amma
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