quinta-feira, 23 de abril de 2009

O POVO DO BELO MONTE XIV - Brás Teodoro

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Mal abri os olhos e eles estavam na minha frente, mais velhos do que na vez anterior. O semblante preocupado, mas sem a tristeza e a curiosidade das outras vezes. Ana das Letras parecia querer me falar alguma coisa e não sabia como começar. Ao seu lado, Quilimério quase sorria. Minhas mãos não atiraram, pensei. Ela assentiu com um movimento quase imperceptível e me tomou as duas. De pé nos aproximamos do quadro quase pronto de Quilimério.


“ - Agora que já estamos partindo, quero te falar de Quilimério. É teu pai... foi o derradeiro a tombar. Tua mãe, Laurina, é aquela ali cantando loas. Foi no Belo Monte que nasceste. Nos últimos dias estavas comigo... eras muito pequenino, e teu pai, altivo demais, lutou até as últimas forças na frente da Igreja Velha.”

Olhei a tristeza nos olhos de Quilimério, secos como a caatinga e ao mesmo tempo irradiando uma luz que era o mais puro amor.

“- Tua mãe entregou a derradeira quarta de farinha uns dias antes. Eles casaram no Cumbe e vieram desde os primeiros do Belo Monte.”

As lágrimas escorreram fartas e silenciosas. Queria, e a criação se punha em posição de mostrar o horror de tudo que tinha visto, no primeiro movimento que fiz com a espátula senti seu olhar me pedindo e depois sua voz calma.

“- Deixa o povo do Belo Monte assim. Termina tudo e vai com teu pai, ele veio te buscar.”

***

No pender do sol, sombrando debaixo dum mulungu seco era como se fosse melúria; o terrento me viu e veio trambecando com a viola encostada no rosto. Ouvindo o sintoma das cordas, o opinoso cego gritava estridente nos meus ouvidos: “- tirante o susto; estás achado, mofino... Disse-me. E gritou sua cantoria:

Recolham as armas
E salguem os punhais
Que a aurora seja perfumada
E a lua nasça nos quintais
E nas ruas corram proclamas
Desobrigando os leais
É chegada a hora
Da confiança nos beirais
Uma nova lei escrita
Nas canções dos desiguais
Deixando o amor nascer
Na verdade dos mortais
Recolham as armas
Selem os sinais

Ia cantando e as cordas da viola se enroscavam no meu pensamento, puxando por cada ponta a ignorância e a prepotência. Um medo ajudava a tensar o aço e chicotear talhos pelo meu corpo. O sangue esguichava pedaços de corpos, gritos tomavam formas em volta e o cego continuava tocando e cantando enquanto me fazia, com as duas mãos esticando os braços, um sinal de dedos me chamando para junto dele. Num mesmo tempo que chamava, tocava o canto da loucura das palavras penetrantes e sãs.

***

O ódio tomando conta, não cansava a guerra. Ia desfibrando em demônios arranjados com tantos assaques. Andava de um lado a outro entre o insultuoso, maculando vontades, parecendo um rio cavando e engolindo, ou aleijando o Deus daqueles todos; a gargalhada do cão ressoava sem repugnar ninguém. Velhas vaidades temendo olhar, tentando submeter, entendendo o sinistro nos benditos que a morte não tirava da voz.

O menino pegava dos corpos estendidos os clavinotes e qualquer outra arma; o polvarinho, as cartucheiras e a pouca munição de boca que encontrava. Andava por entre os mortos como se cumprisse tarefa de limpa; o que recolhia carregava por entre as casas e amontoava na escola. Parecia brincar denodado mal, sem dar importância ao peso que carregava.

Mal dei conta do estilhaço cortando sua carne; só vi a fumaça misturada com a poeira encobrindo tudo. Quando dissipou, jazia seu corpo e o cachorro dando voltas; ora lambia chorando o rosto, ora uivava olhando pro céu e me olhando. Tiros a esmo pareciam cerzir a morte na vida e me costurar naquele momento.

Crianças não sabiam quem eram, nem choravam mais e giravam em volta de mim. O estupor pairava por entre ruas e casebres. Sentia isso mas, na verdade, só enxergava o cego fazendo sinais. Cadáveres se amontoavam diante dos meus olhos, sem túmulos pelos aceiros e os gritos daquela música tocavam dentro dos seus ouvidos e aclaravam o silêncio da morte. O vago entrava no meu cansaço; os membros crispavam e meu tempo voltava numa sensação de terra molhada de sangue.

Estava vivendo momentos que imaginava, mas sabia serem reais. Estavam lá nas fisionomias, passando devagar por entre os cães comendo cadáveres, gente que reconheci, acompanhei em seus sonhos, botando o simples no fazer.

Mulheres estupradas entre corpos mutilados exalando odores, atraindo todos os seres de rapina. Famintos, arrimos de milhares de outros famintos entre caatingas e carrascais. Sortilégio de mãos sem o decoro das palavras apontando quem vivia nas liberdades.

Crianças chorando silêncios, sede e fome, sem entender o Deus e os homens; sendo levadas sem intrujir a caridade naquelas mãos ofensoras, disputando os pequenos seres sem lágrimas; olhares esbugalhados no vácuo, como troféus distribuídos na aparência dum patriotismo de fardamento e sotaina, louvando arrogo.

No meio das crianças, mulheres e velhos, me vejo com dois anos, sem entendimento, sendo amparado por Ana das Letras. Sou tomado na minha frente, como um jaguncinho e não como criança indefesa gritando fome e sede, com a irrealidade da morte impregnada no olhar enquanto a professora conhece a Gravata Vermelha ao lado de Antônio Beatinho.

As imagens estão sobrepostas. Inanido vejo-me seduzido pela boca por um oficial e sou levado pela mão pra distanciação da minha gente e da minha ausência de entendimento. Olho uma única vez para trás. A cena produz um abafamento no ar. Denso, meu corpo toma a dor, a terra seca, esturricada e a caatinga acinzentada se põem em silêncio para assistir, junto comigo, eu menino, ser levado para a adoção junto com outras crianças escolhidas como gado no meio de quem não resistiu e se entregou.

Daquele oficial não me lembrava. O que vinha forte era o casarão sempre em festa, o meu quarto no porão dos fundos com o cheiro pesado da falta de ventilação e do mofo... os doze anos passados, servidão cobrada todas as horas antes de fugir para a vida, deslembrando, cada dia, aquela gente poderosa.

***

Quando me dei conta ela já tinha cortado o pescoço, e o sangue esvaía-se caudaloso empapando a roupa, mal cobrindo seu corpo; o espelho quebrado estilhaçando fisionomias restava no chão... uma ponta em sua mão pingava sangue. O corpo tremia espasmos desenganando a vida. Da porta, uma cortina de panos sujos, os rostos assonsados olhavam sem ação. As fuampas e suas doenceiras olhavam a menina ainda botando corpo, bulida na noite anterior e não acudiam o último instante. Ela era muito nova e dada, sorria por qualquer coisa, diziam sem entrar no cômodo. Minhas mãos tocavam no corpo quietando; na validade daquele desespero, ouvia o balbucio saindo do corte: “... mãe...!”

Naquele lugar sem luxo ou vaidades, o ludibrio tocava na ignorância e na força das tropas carregando negociatas e usuras; impondo fome, doenças e maus tratos às mulheres de todas as idades que conduziam prisioneiras. Vi muitas restando no caminho pelos bordéis.

A fumaça arde, a sede queima, o calor abrasa, a poeira sufoca e tudo sofre. É quando me sinto na sala e vejo Ana das Letras arrumar quadro por quadro e ficar ao meu lado enquanto termino de escrever essas palavras. Só agora sei que as escrevo pra você, Anabel, e o amor que juntei das lembranças e só lhe dei em meu pensamento e o que mais existiu dentro da vida.

Meu pai Quilimério sorrindo estende a mão; vejo na mãe um contentamento e sei que não volto mais. Vou com meu povo para um lugar novo, um silêncio. Agora sei minha história que te deixo junto com meu amor. Vou na imensidão da loucura levando o estandarte de um reino e a carne do meu corpo em vão.

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6 comentários:

  1. "Uma nova lei escrita
    Nas canções dos desiguais
    Deixando o amor nascer
    Na verdade dos mortais"
    Isso é lindo demais, Quinan.

    Por outra,
    Gosto tanto de Ana das Letras que me vejo na sua calmaria atada na bravura dos tempos em que viveu (ou vive). É um personagem feito a fio de meada.

    Afagos pra você.

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  2. Amei esse diálogo...

    'Um personagem feito a fio
    de meada'

    Não deve ser fácil encontrar...

    Beijos para os dois.

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  3. Quinan, a Jac precisa ler as páginas de barro do Sertão do Belo Monte.

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  4. E mais, quero te falar de uma descoberta boba. Acho que um dia disse que não sabia terminar minhas histórias e que isso me angustiava.
    Então, com Guimarães Rosa, que me se remove nos mesmos sertões que você, entendi que o fim é o menos importante. Lindo é o caminho das palavras.
    Acho que você disse na ocasião, o fim não vem antes, vem no fim... rsrsr

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  5. Márcia,

    Espero que ela (Jac.)esteja acompanhando desde o começo.
    Fico muito feliz de estar lendo Guimarães, ele é o mestre.
    Mais ainda de você se lembrar das nossas conversas sobre isso(são minhas pequenas revoluções).

    Te abraço

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