sexta-feira, 26 de maio de 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Colcha de retalhos


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Não tinha a lembrança de ver antes. Aquela foi a primeira vez, dali do portão de casa, vi ele passar num cavalo baio.
Nenhuma lembrança tenho, nesse antes, no portão.
Por que não passa todo dia, como é mando dos meus olhos?
Lembro de outros olhares, outros portões, esse não.
Faz tempo ele não passa, mas o povo dele eu vejo.
Será que era uma branquinha bem novinha?
Se não passar hoje, vou perguntar na venda.
Lembrei, era magrinha, não era?
Passou, está mais bonito. Mas nem me olha.
Queria ter reparado mais nela.
Por que tenho que vê-lo com outra na festa?
E ela me queria?
Tantos anos e nunca mais passou.
Se eu soubesse!
Nossa! É ele. Depois de tanto tempo, meus olhos quase esqueceram.
Ia esperar crescer.
Ainda é bonito, mais bonito ainda.
Casava com ela.
Mas é só para os meus olhos, casou!
Como é bonita!
É viúvo? Mas tão novo. Eu o via passar, era menina ainda.
Presta atenção em mim!
Ele trabalha na venda.
- Falta alguma coisa, mãe?
É ela.
Está mais bonito que nunca. Me olhou, será que me quer?
Como é linda. Será que me quer?
- Dois metros de chita.
Que tesoura mais boa!
- Da estampada?
 Ela gostou da tesoura.
Ele passando no meu portão de novo, meu Deus.
Será que me espera? Nem acredito.
É ele. Me viu.
- Tarde.
- Tarde.
- É pesado, ajudo a levar.
- Leva à tardinha.
Ela me quer.
Ele me quer.
- Tarde.
- Entra, põe em cima da mesa.
- Para você.
Meu tesouro, a tesoura cortando as sobras de pano para nossa colcha de retalhos, enquanto ele faz nosso mais novo dormir.

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

Cobre de sino

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Toda dor foi possível suportar, o não-ter e sentir latejar fundo. Também, os olhares perguntando sem perguntar. Exceto o de Alegria, esse doía. Sua presença incomodava. Havia uma tristeza no ar quando ela entrava no quarto, com aquele sorriso que para mim mais parecia  soluço, coisa de amor definhando.

Lembrava do dia em que a conheci, recordava do cheiro da manhã, do domingo, da missa celebrada de fora da igreja em construção. Lembrança dela passando de vestido de organdi, estampado em azul, sapato branco e com o véu já na cabeça. A mãe puxando pelo braço por causa daquele olharzinho que ela me deu. Lembrança do rosto corando e o olhar abaixando.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Aquele sino era o que mais me doía, me enlouqueciam as badaladas, dilacerando por dentro. Como se tivessem cortando meu avesso, dor insuportável e maior ainda com Alegria ali me olhando, disfarçando a tristeza de dentro com sorrisos e afagos nas mãos. Fechava os olhos, fingia dormir. Lembrava de quando a conheci.

Alegria mais Idalina, festa de Nossa Senhora da Abadia, cheiro de pólvora dos foguetes, novena mais demorada, mastro erguido, leilões e meu olhar acompanhando Alegria pedir para o menino Tobias entregar o correio elegante.

 

- Me encontre atrás da igreja.

 

Nem acreditei, emoção correndo no corpo, primeira vez assim. No encontro, Idalina reparando a esquina. Nossos primeiros silêncios, as primeiras palavras. E ali mesmo, tempos depois, minhas mãos entre as suas, também o primeiro beijo, e o compromisso definitivo.

Perdia a noção do tempo, já era madrugada, ela já havia ido embora. E eram as mesmas sensações, a mesma dor. Dor e a ansiedade nos minutos contados até o sino bater de novo.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Era como se tivesse uma chaga dentro do corpo que latejava com o toque. Quando ele parava ia me acalmando e o pensamento voava longe.

 

- O Pedro já é quase um homem, ele dá conta de buscar o sino, seu vigário.

 

Era manhã de finados, lembro do cheiro da paçoca levada na matula, de contar os passos para me distrair no caminho; de Baldino, que me cedeu uma cabaça d’água no meu desprovimento e me ajudou a arrumar o cabeção do carro que soltou numa bacada perto do Inajá. A trabalheira da volta com o sino pesado, forçando a canga de bois, aluindo de lugar em qualquer diferença do caminho.

Lembrança da chegada, minha boca secando no medo de lembrar. E a noção do tempo perdida na dor, o quarto escuro, as badaladas, é agora.

Não era, doía pensar que era. Agora era.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Alegria vinha, não queria. Não queria mais vê-la, não queria mais que aquele sino tocasse, não queria ver ninguém.

Conformação no tempo não achei, repassei todas as lembranças naqueles meses. Não achei sossego em nenhuma. Não ver mais Alegria não aliviou meu sofrimento. O sino continuava tocando todos os dias e era nessa hora que a dor nas pernas rodopiava dentro de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Esperei todos dormirem e fui rastejando até a igreja levando o facão. Foi como tirei a tramela da porta. A escada ficava na boca do alçapão e dava no forro; de lá uma escada menor ia até o campanário. Subi os degraus um a um, sentando-me, de vez em quando, para tomar fôlego, até chegar ao sino. Dor nenhuma sentia nesse esforço. Recolhi a corda, receio de tocar numa distração minha, e fiquei frente a frente com ele.

Era preso no cavalete, bem feito por Joaquim Pirracento, sustentado na parede que apoiava a cumeeira. Fiz dois piques com facão, um em cada lado do cavalete: uma facãozada, um intervalo grande, cadenciado para não acordar o padre.

Enquanto rastejava pela rua na volta, lembrava-me do dia em que cheguei. A festa que foi. Lembrei-me das tentativas de subir o sino para a torre da igreja, de Alegria me falando: Agora podemos marcar o casamento; da teimosia do padre em não esperar Joaquim Pirracento para subir o sino; do cavalete mal feito, que eu mesmo ajudei a fazer, do sino despencando em cima de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Ouvi por sete dias. No oitavo, de madrugada, ele despencou. Fazendo um enorme barulho, caiu na quarta badalada e derrubou todo o telhado da igreja.

No meu canto não sinto mais nenhuma dor, nem tenho a Alegria. Fiquei apenas com o silêncio e a sensação de ainda ter as duas pernas.


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segunda-feira, 22 de maio de 2017