segunda-feira, 24 de abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rebelião


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Na memória continha o registro de todas as sensações; ao circular, espalhava o que absorvera nos sentidos, célula por célula.

Corpo e alma contidos no líquido viscoso e impregnados de lembranças, sentimentos e saudades transitando por todos os lugares, sustentando o ser imerso em sua intensidade.

Quando fizeram a transfusão, o sangue sintético que recebeu não tinha memória. Precisou ser tanto que as mais insignificantes partes do corpo foram se rebelando e deixando de funcionar aos poucos.

O coração, último rebelde, parou abraçado aos pequenos vestígios de sua alma desfeita no ar e levada pelo vento.

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Valsa Verso

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Fio de tempo

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Todas as metáforas conduziam suas histórias para se tocarem; o olhar de um já tinha o outro dentro, desde quando se conheceram. 

 Hesitavam, mas a atração era verdadeira, era de verdade o cuidado que tiveram. Vinham de lonjuras e entregas sentindo suas realidades solitariamente. 


 Precisavam-se e se pertenceram. ...


 As mãos, o silêncio, o beijo; a coragem e o medo conjugando a excitação, explodindo no querer inteiro. Um viço vinha misturado ao desejo, perfumando as horas.


 Entregaram-se num fio de tempo estendido imperceptivelmente entre a realidade e o sonho. 


 E ficaram em silêncio, um dentro do outro, tentando de verdade se pertencer antes que alguma saudade acordasse o momento.


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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cacimba

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sábado, 15 de abril de 2017

Último encontro


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A revelação não o surpreendeu. Suspeitava desde muito tempo. Na infância, na juventude e agora ali, ouvindo.

Sempre aquela coisa estranha. Espécie de comichão no corpo, um pensamento saliente tomando conta dos sentidos. A atenção redobrava. O raciocínio formulado com muita rapidez, quase aviltava suas interlocutoras.

Ela era bela e sofisticada. Curvava o olhar enquanto falava parecendo querer, confrontada com alguma razão, ser interrompida. Ele não evitava a conversa, disfarçava, não contracenava, ouvia, só ouvia.

A revelação veio entre a intenção das palavras. Claro como aquela tarde quente, estranha como as probabilidades do seu corpo. Ele era um demônio...

Sim, um demônio. Sentia, sentia ser.

Foi como um rastilho de pólvora se acendendo. Seu pensamento correu o passado todo. Era mesmo, lembrava-se de cada momento, de cada transmudação ao longo da vida.

Queria rir, gargalhar, mas se conteve. Impassível, ouviu como uma transgressão confessada, como um desejo de remissão impresso no tom da voz. Viu nos olhos molhados nostalgia, mas nenhum arrependimento.

O esforço que ela fazia para inventar uma história de culpa já não tinha importância. Era só um espectador. A beleza ele já havia roubado. O arbítrio da fé não o interessava. Apenas ergueu o copo.

Em silêncio, brindou ao pecado que a colocara inteira no seu inferno particular.

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terça-feira, 28 de março de 2017

O dramaturgo


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Autor muito aclamado, suas peças sempre faziam sucesso.

Prêmios e reconhecimento por onde passava. Livros publicados, palestras em universidades, seminários, uma unanimidade.

Sempre que lhe perguntavam de qual personagem gostava mais, respondia: ora um ora outro.

Mas na verdade a preferida nunca dissera a ninguém, guardava para si a grande paixão que sentia pela atriz de televisão fracassada, criada para um dos textos de que mais gostava. Um monólogo existencialista engraçado e denso ao mesmo tempo. Seu trabalho menos aplaudido e, em sua opinião, a melhor encenação de todos eles.

A atriz que viveu a fracassada abandonara o teatro, seduzida por uma religião. Nunca mais a vira.

Numa viagem com a trupe, começou a ter sonhos recorrentes com a personagem preferida. Sua melhor criação passava, correndo de uma multidão, na frente do hotel.

A cada sonho distinguia outros atores representando, eram seus perseguidores. O único rosto que identificava era o da atriz que a interpretara.

Resolveu; naquela noite, ficaria sem dormir para quebrar a sequencia daqueles sonhos.

Alta madrugada; estava lendo quando ouviu a gritaria e as batidas na porta; era ela pedindo socorro.

Era ela querendo fugir da ficção.


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segunda-feira, 20 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Quase vida

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Não sabia viver de outro modo, queria o mundo todo, tudo de uma vez. Ávido. Não parava de querer e não percebia o que ia se formando e crescendo, como uma aura acompanhando o corpo.

A mulher era especial, aquela lua também. Ambas fascinavam no imediatismo do momento, mas nenhuma durava em seu sentimento e na lembrança. O enlevo só alimentava seu prazer e mais nada.

Passado, isso é bobagem. Futuro, nem existe ainda, dizia e continuava ávido como se apenas o imediatismo significasse viver.

Cada dia de um jeito, cada dia com uma pessoa que ele encantava com sua beleza. Cada dia com o vazio aumentando como se fosse uma substância.

Numa noite percebeu-se diferente, quis lembrar da aurora e do sentimento pela mulher que amou num amanhecer e não conseguiu.

Sentiu a voracidade do presente que o envolvia, dominando, ditando apenas procedimentos, pedindo mais para crescer e só ai entendeu sua quase vida.

Era um corpo apenas.


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segunda-feira, 13 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Armou o cão

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Estava sozinho em casa, sentado na poltrona de couro, com a espingarda entre as pernas.

Fechou os olhos percorrendo as lembranças, identificando cada momento bom, cada decepção. Sentiu saudade.

Como se fosse um ritual, abriu a caixa no colo, escolheu a ferramenta e começou a cuidar da arma. Desmontou-a peça por peça, lixou as pequenas ferrugens, limpou com a flanela, passando óleo fino em cada encaixe.

Montou e desmontou duas vezes, conferindo a precisão do funcionamento. Levantou-se e foi buscar o carregador de cartuchos manual, escolheu um e calibrou com gestos seguros e carga reforçada.

Terminou a preparação, guardou o material; tomou um copo d’água, tinha a boca muito seca. Olhou contra a luz o cartucho como se o medisse e lhe conferisse uma missão.

Pensou na mulher. Quando chegasse, o quanto se aborreceria.

Desencaixou os dois canos da espingarda e carregou o esquerdo, depois resolveu e mudou o cartucho para o direito.

Um tiro só bastaria.

Depositou a arma carregada no braço da cadeira, levantou-se e ligou a televisão no último volume.

Voltou, sentou-se, reviveu alguns momentos, armou o cão e respirou profundamente antes de puxar o gatilho.

Atirou no tubo da TV.


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quarta-feira, 8 de março de 2017

terça-feira, 7 de março de 2017

Guerra sem fim

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Eram medíocres e inseparáveis no convívio e nos conflitos; o amor era, o ódio também. Um e outro conviviam com muitas diferenças e se precisavam. 

Vaidosos, cuidavam muito das aparências. Disfarçavam-se maquiando o rosto da harmonia e tinham cuidado ao afagar o perdão; de todos o mais casmurro e falso, anotava tudo para pequenas chantagens futuras.


 O egoísmo ora se juntava ao amor, ora com o ódio. A coragem, totalmente malvista, nunca se despia para nenhum dele
s.

 A compreensão, coitada, bem que se esforçava para explicar as razões de cada um, raramente conseguia. A mentira frequentava a cama dos dois, lânguida e discretamente metida.


 O desejo era um aliado, ao mesmo tempo libertário, imediatista e despudorado. O único que conseguia equilibrar, mesmo que por pouco tempo, o que do outro havia em cada um.


 Promíscuos com suas alianças temporárias, seus instantes de trégua e dissimulações, viviam na guerra sem fim que mora dentro dos seres.


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domingo, 5 de março de 2017

sábado, 4 de março de 2017

Bela, séria e sensual


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Transitava por ali todos os dias e naquele, quando foi passando, notou pela primeira vez. Era bela e sensual. Parecia que olhava todos pela fresta da venda com indiferença.

Imóvel e séria.

Sentiu ser olhado como se lhe copiassem o corpo e seguiu em frente. Aquela sensação o acompanhou até o momento de atender seu cliente.

Começou a ouvir vozes todas as vezes que passava por ela. No começo não entendia, pensou loucura. Seriam poemas declamados iguais aos que seu primo fazia? Não, não eram.

Familiarizado com a voz e, mesmo no meio do barulho da rua, foi conseguindo entender aos poucos. Eram leis declaradas uma por uma, com todas as mudanças, parágrafos, artigos e códices.

Loucura. Olhava os passantes tentando comprovar se também estavam ouvindo aquilo.

 Parecia que não.

Em muitos dias ficou observando. Ela praticamente ensinava as leis. A inflexão, as pausas soavam de um jeito diferente conforme a roupa e a aparência do transeunte.

Não podia ouvir a palavra doutor ou ver alguém de terno e gravata que se calava abruptamente. Esperava o passante passar, voltando a declarar suas excelências.

Era por isso que, todos os dias, na porta do Palácio da Justiça, o guardador de carros urinava nos pés da estátua bela, séria e sensual.

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sexta-feira, 3 de março de 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Embriagados


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A conversa se arrastou por mais de duas horas. Mágoas, demandas, traições e ressentimentos. Era um rascunho se desenhando.

Justificavam o que parecia justo. Um afirmava o amor o outro a paixão e diziam isso claramente. Os dois estavam mentindo.

Metáforas tiraram a afiação das palavras. Deslealdades desvendadas e a falta de limites foram imputadas a razões egoístas, como coisa humana convivendo.

Os melhores momentos não eram parte daquele ato.

O que um idealizou do outro não estava mais no jeito dos olhos, tinha se perdido em momentos diferentes e fazia muita falta.

Para um, viver tudo que pudesse. Havia muita vida em si. Para o outro, o melhor do que tivesse, havia muita morte em si.

Na mesa, a toalha manchada de molho, a bebida que não embebedava. Parecia um momento comum.

Quantidade e qualidade provavam da mesma perda, a verdade dizia suas mentiras e a mentira suas verdades.

Em volta, na outra mesa, a decepção começava a beber com o ódio; o perdão pedia a conta e tentava retirar o amor e a paixão embriagados do local.


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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cor da terra

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Cor de terra sobrepondo as gradações como se quisesse ter uma luminosidade propositadamente opaca.

Ficava na parede fronteiriça à porta, de maneira que, quem entrasse, não via imediatamente.

Ela viu, admirou e não conseguiu mais tirar os olhos. Comprou e levou para casa.

Alguns meses se passaram em muitas tentativas de achar o lugar ideal para pendurá-lo. Cada parede que experimentava, sentia que não era ali, parecia faltar alguma coisa. Em poucos dias ele se entortava ou amanhecia de cabeça para baixo muitas vezes a assinatura indecifrável mudava de lugar; não era loucura, ela media e comprovava. Um mistério.

Voltou à galeria, queria saber mais, qual a história daquele quadro? Quem era o artista?

 

- Não sabemos nada dele, quando compramos o negócio, já o encontramos na parede pendurado, ninguém sabe o nome do pintor - responderam.

Foi num dos quartos desocupados da casa que acabou sendo pendurado; quando aproximou o quadro da parede, a impressão que teve foi de um puxão para um encaixe perfeito. Ali ficou.

Para aquele quarto ela acabou transferindo seus afazeres, mudando seu cotidiano. Passava horas olhando a pintura.

Todos os dias aqueles tons alteravam a paisagem retratada, detalhes desapareciam ou iam se trocando, se rearranjando na textura, nas camadas de cores e sombreados.

Cada dia ela se trancava mais até que resolveu não sair mais dali.

Quando deram por sua falta e, ao arrombarem a porta, não a encontraram. Sentiram apenas um cheiro de orvalho recendendo e duas mãos saindo da paisagem cor da terra.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

zaldivar

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para otávio zaldivar arantes

 
na solidão

do sonho

o tijolo

a cena

implodiu

na rua
 

monólogo

perdido

de solidão

diálogo

esquecido

nos sonhos
 

tijolos

inacabados
 

cena

apagada

no espetáculo

de sonhar


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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Último encontro


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A revelação não o surpreendeu. Suspeitava desde muito tempo. Na infância, na juventude e agora ali, ouvindo.

Sempre aquela coisa estranha. Espécie de comichão no corpo, um pensamento saliente tomando conta dos sentidos. A atenção redobrava. O raciocínio formulado com muita rapidez, quase aviltava suas interlocutoras.

Ela era bela e sofisticada. Curvava o olhar enquanto falava parecendo querer, confrontada com alguma razão, ser interrompida. Ele não evitava a conversa, disfarçava, não contracenava, ouvia, só ouvia.

A revelação veio entre a intenção das palavras. Claro como aquela tarde quente, estranha como as probabilidades do seu corpo. Ele era um demônio...

Sim, um demônio. Sentia, sentia ser.

Foi como um rastilho de pólvora se acendendo. Seu pensamento correu o passado todo. Era mesmo, lembrava-se de cada momento, de cada transmudação ao longo da vida.

Queria rir, gargalhar, mas se conteve. Impassível, ouviu como uma transgressão confessada, como um desejo de remissão impresso no tom da voz. Viu nos olhos molhados nostalgia, mas nenhum arrependimento.

O esforço que ela fazia para inventar uma história de culpa já não tinha importância. Era só um espectador. A beleza ele já havia roubado. O arbítrio da fé não o interessava. Apenas ergueu o copo.

Em silêncio, brindou ao pecado que a colocara inteira no seu inferno particular.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

Marabá

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Foi martírio
Boca de mata
Cruzamentos
Chico das cobras
Água no peito
E o bochorno tonteando
As bordas do rumo
 
O olhar de nível
E o suscetível
Grudando no barro
E na fornalha
Dos peixes
Enchendo quintais
 
, era de ouro
foi dos cristais
Lugar tão mestiço
De águas e nichos
E muitas mulheres
De olhares mortiços
Desluzindo verdades
Por entre a calamidade
Juntando mortais
 
E no silvo do ouriço
O encardiço do corpo
Coberto de noites
Descobrindo no léu
Do pensamento
Um jeito sedento
De pensar amor
 
 
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Apartório


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Foi que misturei meu suor
Na solidão que me frequentava
Em todos os dias sonhei
E me vi em tamanhos
Vivificando lonjuras
 
Foi que aprendi a saudade
E garrear meu destino
 
A lindeira que dividia
O poeta do obreiro
Presenciou meus medos
E abafou as batidas
Do abandono na minha porta
 
Foi que construí o caminho
Com o que me sobrou no andar
E tudo que não sonhei, é verdade;
E o que mais sonhei
É o que hoje me reparte
 
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Baia de Guajará – primeira travessia


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Sensação de mundo
De imensidão
 
Os dias doíam
A água era o chão
 
O barro agarrava
Como saudade
E a noite sentia
A primeira verdade
 
O mais rústico
Pôs-se no olhar
O cansaço
Desejou se largar
 
Emoção de aldeia
Tantos sons no ar
 
Começar de novo
Renascer, sonhar
Engenhando a vida
No novo plantado
Lambendo as feridas
Do velho lembrado

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fotografia

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Fotografias

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