segunda-feira, 29 de maio de 2017

Nome de macho


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João mais Durvalina chegaram na boca da noite. Mal apearam já souberam do convite para batismo. A alegria foi comemorada na mesa, ao redor da panela de arroz com galinha.
                     Depois do café:

- Lila descansa no mês. Dona Custódia já chegou prá apará.

- Agora é home, né cumpadre?

- O que Deus mandá. Peço que leve os nome e, quando nascê, mando recado se é home ou muié, e o cumpadre rigistra cum o Climério, no cartório. Quando nóis for batizá, i’eu pego o papel.

E escreveu num papel:
                     Noemi
                     Isidoro
                     Gonçalves

- Se for muié, Noemi Gonçalves e se for home, Isidoro Gonçalves. Entendeu?

- Pois sim, cumpadre.

O mês passou depressa e, no dia 24, nasceu o menino. Dia de muita alegria para Tiburço, era homem.
                      No mesmo dia que o umbigo caiu, passou Baldino com sua mulada.

 - Avisa o cumpadre João que nasceu e é minino. A Lila passa bem e, no cumeço de maio, vamo p’ro batismo.

Foi o positivo.
                     Baldino deu o aviso, mal chegou à rua. João imediatamente bateu na casa de seu Climério, para o registro. Entregou o papel amassado com os nomes, contou que era homem, o filho do Tiburço, e ficou de buscar a certidão para a semana.
                     Assim fez.
                     Mês de maio, Lila feliz da vida com o batistério na mão. Durvalina levava o afilhado no colo debaixo da sombrinha. Mataram um capado e festejaram até tarde.

- Cumpadre, aqui tá o rigistro.

Tiburço desdobrou o papel e, quando leu, levou o maior susto.

- Mas o qui é isso? Tá errado. Pois nome de muié.

Foram ver, o nome na certidão de batismo estava Noemi Isidoro Gonçalves, sexo feminino.
                     Imediatamente procuraram Climério, que os levou ao cartório, já quase de madrugada. Abriu o livro e, na luz da lamparina, era assim mesmo que estava registrado.
                     Climério, falando sem graça.

- Mais eu dei p’ra dona Dita fazê o registro e avisei que era o nome de baixo.

No outro dia, dona Dita toda encabulada.

- Seu Climério, pedi p’ra Salete fazer.

- Seu Climério, dona Dita mandou fazer mas não explicou nada do nome. Eu pensei que fosse mulher, justificou Salete.

Como já havia apontamentos de muitos nascimentos depois daquele, não era possível fazer uma ressalva. Só com ordem de um juiz.
                     Ficou assim combinado, quando viesse um juiz, Climério faria os requerimentos para mudar o nome.
                     Sete anos depois, apareceu o juiz, mas Climério não lembrou do caso, nem avisou Tiburço. E assim ficou no esquecer de todos.

Era no tempo da primeira eleição com o voto de mulher. O juiz fazia a chamada pelo nome, o eleitor respondia a presença, dirigia-se à mesa, declarava o voto e assinava o livro.

- Noemi Isidoro Gonçalves.

- Presente. Respondi. E ele repetiu.

Eu repeti.
                     Ele mandou me prender.

 

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Colcha de retalhos


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Não tinha a lembrança de ver antes. Aquela foi a primeira vez, dali do portão de casa, vi ele passar num cavalo baio.
Nenhuma lembrança tenho, nesse antes, no portão.
Por que não passa todo dia, como é mando dos meus olhos?
Lembro de outros olhares, outros portões, esse não.
Faz tempo ele não passa, mas o povo dele eu vejo.
Será que era uma branquinha bem novinha?
Se não passar hoje, vou perguntar na venda.
Lembrei, era magrinha, não era?
Passou, está mais bonito. Mas nem me olha.
Queria ter reparado mais nela.
Por que tenho que vê-lo com outra na festa?
E ela me queria?
Tantos anos e nunca mais passou.
Se eu soubesse!
Nossa! É ele. Depois de tanto tempo, meus olhos quase esqueceram.
Ia esperar crescer.
Ainda é bonito, mais bonito ainda.
Casava com ela.
Mas é só para os meus olhos, casou!
Como é bonita!
É viúvo? Mas tão novo. Eu o via passar, era menina ainda.
Presta atenção em mim!
Ele trabalha na venda.
- Falta alguma coisa, mãe?
É ela.
Está mais bonito que nunca. Me olhou, será que me quer?
Como é linda. Será que me quer?
- Dois metros de chita.
Que tesoura mais boa!
- Da estampada?
 Ela gostou da tesoura.
Ele passando no meu portão de novo, meu Deus.
Será que me espera? Nem acredito.
É ele. Me viu.
- Tarde.
- Tarde.
- É pesado, ajudo a levar.
- Leva à tardinha.
Ela me quer.
Ele me quer.
- Tarde.
- Entra, põe em cima da mesa.
- Para você.
Meu tesouro, a tesoura cortando as sobras de pano para nossa colcha de retalhos, enquanto ele faz nosso mais novo dormir.

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

Cobre de sino

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Toda dor foi possível suportar, o não-ter e sentir latejar fundo. Também, os olhares perguntando sem perguntar. Exceto o de Alegria, esse doía. Sua presença incomodava. Havia uma tristeza no ar quando ela entrava no quarto, com aquele sorriso que para mim mais parecia  soluço, coisa de amor definhando.

Lembrava do dia em que a conheci, recordava do cheiro da manhã, do domingo, da missa celebrada de fora da igreja em construção. Lembrança dela passando de vestido de organdi, estampado em azul, sapato branco e com o véu já na cabeça. A mãe puxando pelo braço por causa daquele olharzinho que ela me deu. Lembrança do rosto corando e o olhar abaixando.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Aquele sino era o que mais me doía, me enlouqueciam as badaladas, dilacerando por dentro. Como se tivessem cortando meu avesso, dor insuportável e maior ainda com Alegria ali me olhando, disfarçando a tristeza de dentro com sorrisos e afagos nas mãos. Fechava os olhos, fingia dormir. Lembrava de quando a conheci.

Alegria mais Idalina, festa de Nossa Senhora da Abadia, cheiro de pólvora dos foguetes, novena mais demorada, mastro erguido, leilões e meu olhar acompanhando Alegria pedir para o menino Tobias entregar o correio elegante.

 

- Me encontre atrás da igreja.

 

Nem acreditei, emoção correndo no corpo, primeira vez assim. No encontro, Idalina reparando a esquina. Nossos primeiros silêncios, as primeiras palavras. E ali mesmo, tempos depois, minhas mãos entre as suas, também o primeiro beijo, e o compromisso definitivo.

Perdia a noção do tempo, já era madrugada, ela já havia ido embora. E eram as mesmas sensações, a mesma dor. Dor e a ansiedade nos minutos contados até o sino bater de novo.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Era como se tivesse uma chaga dentro do corpo que latejava com o toque. Quando ele parava ia me acalmando e o pensamento voava longe.

 

- O Pedro já é quase um homem, ele dá conta de buscar o sino, seu vigário.

 

Era manhã de finados, lembro do cheiro da paçoca levada na matula, de contar os passos para me distrair no caminho; de Baldino, que me cedeu uma cabaça d’água no meu desprovimento e me ajudou a arrumar o cabeção do carro que soltou numa bacada perto do Inajá. A trabalheira da volta com o sino pesado, forçando a canga de bois, aluindo de lugar em qualquer diferença do caminho.

Lembrança da chegada, minha boca secando no medo de lembrar. E a noção do tempo perdida na dor, o quarto escuro, as badaladas, é agora.

Não era, doía pensar que era. Agora era.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Alegria vinha, não queria. Não queria mais vê-la, não queria mais que aquele sino tocasse, não queria ver ninguém.

Conformação no tempo não achei, repassei todas as lembranças naqueles meses. Não achei sossego em nenhuma. Não ver mais Alegria não aliviou meu sofrimento. O sino continuava tocando todos os dias e era nessa hora que a dor nas pernas rodopiava dentro de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Esperei todos dormirem e fui rastejando até a igreja levando o facão. Foi como tirei a tramela da porta. A escada ficava na boca do alçapão e dava no forro; de lá uma escada menor ia até o campanário. Subi os degraus um a um, sentando-me, de vez em quando, para tomar fôlego, até chegar ao sino. Dor nenhuma sentia nesse esforço. Recolhi a corda, receio de tocar numa distração minha, e fiquei frente a frente com ele.

Era preso no cavalete, bem feito por Joaquim Pirracento, sustentado na parede que apoiava a cumeeira. Fiz dois piques com facão, um em cada lado do cavalete: uma facãozada, um intervalo grande, cadenciado para não acordar o padre.

Enquanto rastejava pela rua na volta, lembrava-me do dia em que cheguei. A festa que foi. Lembrei-me das tentativas de subir o sino para a torre da igreja, de Alegria me falando: Agora podemos marcar o casamento; da teimosia do padre em não esperar Joaquim Pirracento para subir o sino; do cavalete mal feito, que eu mesmo ajudei a fazer, do sino despencando em cima de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Ouvi por sete dias. No oitavo, de madrugada, ele despencou. Fazendo um enorme barulho, caiu na quarta badalada e derrubou todo o telhado da igreja.

No meu canto não sinto mais nenhuma dor, nem tenho a Alegria. Fiquei apenas com o silêncio e a sensação de ainda ter as duas pernas.


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segunda-feira, 22 de maio de 2017

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Zé da Cabaça


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No embornal, levava a paçoca feita por Didinha na véspera; na mala de saco, traspassada na sela, duas mudas de roupa e, no coração, vontade de chegar logo e ver como era ela. Meu olhar ficava perdido nas patas da mula da frente, como se cada passo deixasse para trás um pedaço.

Distraía tanto no pensar que nem ouvi o urro da onça no Capão de Dentro, terras de Cristino da Barreira. Mas a mulada ouviu e se assustou fazendo trote, desorganizando a comitiva. Bem que o pai tinha avisado para esperar o cometa do Baldino; acompanhar a boiada era mais difícil.

Apesar de as mulas com o rancho estarem na frente da boiada, quando elas se assustaram, o gado ficou nervoso e se dispersou pelo mato afora com o descontrole dos vaqueiros de Tertuliano. Juntar a boiada de novo foi trabalho de um dia; mais de dez novilhos desembestaram para o lado do mato contrário ao urro da onça, na juquira pura, terminando no Ribeirão da Concórdia. E foi lá, no contrário do urro, que achamos, na outra margem, a toca da onça.

Foi só contar, que Zé da Cabaça já começou a se arrumar para a espera, apesar da reclamação de todos, fosse pelo carecer do serviço, fosse pelo perigo. Avaliando o urro, era bicho grande, pelo tamanho da toca, então, assustava mais ainda. Mas Zé da Cabaça não labutava com medo, não. Afamado, tanto na mira como pela paciência; caçador de paca sem igual. Capaz de ficar noite inteira em cima do jirau, à espera. O apelido era por causa da cabaça onde urinava nessas horas, para não deixar cheiro e a caça espantar. Matar uma onça era um ato de respeito que, até hoje, ele não havia feito, e agora não ia desperdiçar uma chance daquelas.

Acompanhou a boiada até meia légua do lugar, esperou organizar o pouso e a noitinha chegar e saiu rumo da toca da onça.

A merenda já estava cheirando quando apareceu Zé da Cabaça, cabeça baixa.

 

- Ela num apariceu, disse. E se ensimesmou no resto da viagem.

 

Chegamos ao curtume já no meio duma manhã de domingo; despedi dos companheiros e na casa do padrinho Delmiro banhei, indo, com ele direto para a casa dela.

Conheci primeiro o pai e a mãe. O café. Ela que fez, disse dona Laura. Depois de muito prosear, falando dos teres e haveres, foi que a chamaram. Era muito formosa, mais que podia ser no meu pensamento.

Pouco mais de mês fiquei no Vai Vem, em compromisso do noivado; marcamos data e tive estrada, levando, dentro, o cheiro dela.

Fui, com o padrinho, até a Forquilha no compromisso dele e, de lá, na passada do Baldino, segui com ele.

O pai tinha razão, com o cometa a viagem demorava menos, apesar do descarrego e carrego das mulas em cada dormida, dos pousos demorados por conta dos negócios de Baldino.

Na passagem pelo Capão de Dentro, avistamos ao longe um homem entrando nos matos; quando chegamos perto, era Zé da Cabaça lidando com o almoço. Seis codornas, já assando, pareciam nos esperar.

 

- Suzinho no mundo, seu Zé da Cabaça. Falou Baldino.

 

- Tô na labuta cum onça, seu Baldino.

 

E contou que já fazia mês que estava à espera da onça; passava a noite em cima do jirau e nada da bicha. De dia, distanciava para  o cheiro não acusar. Não a viu  nesse tempo todo, mas as marcas do rastro estavam por todo lado. Já tinha estudado o terreno por onde ela chegava;  tinha entrado na toca muitas vezes para ficar com o cheiro dela. Não tomava banho, só passava as folhas do mato no corpo para não recender cheiro de gente. E nada da onça. Mas que ela estava por perto, ele tinha certeza.

Seu Baldino ria muito e falava para o Zé da Cabaça:

 

- Onça é bicho tinhoso. Ela já sabe que ocê tá tocaiano ela, ela óia mais procê do que ocê prá ela. Ela sabe mais docê que ocê dela. É no dia que ela tá drumino, inganano o amigo.

 

- Deveras seu Baldino?

 

Seguimos viagem, deixando ele resolvido tapear a onça; pondo sentido no de dia e no de noite.

Didinha fez paçoca, almôndega, farofa, piou na vara muitas galinhas e mais um-sem tanto de matula. E dessa vez toda a família, mais dois vaqueiros, num todo de vinte bocas para comer as gostosuras de Didinha, caminho afora. E meu coração querendo chegar logo, saudades dela, cheiro dela cheirando em mim.

Chegando ao Capão de Dentro, quando eu contava ao pai a história do Zé da Cabaça com a onça, o cheiro de perdiz assada, denunciou: era ele.

 

- Seu minino, como vai? Inda num topei cum ela.

 

Quase ano ficou Zé da Cabaça ali, à espera da onça. Até roça ele fez, distância de quarta de légua da toca, com a permissão de Cristino da Barreira.

 

- Seu Baldino tava certo, ela vai no igual que i’eu. Já tive de testa cum ela muitas veiz; quando faço a mira, ela some. Tamém ela quase me cumeu, mas o gaio quebrô e dotra veiz i’eu pulei no corgo e nadei nus debaxo.

 

O tempo passou. Meu mais novo já ia fazer sete anos, quando passei no Capão de Dentro de novo, conduzindo uma boiada, já com minha própria comitiva. Quando lembrei do Zé da Cabaça, toquei o berrante como marcando o lembrar. Senti o cheiro do assado no ar. Era ele mesmo, Zé da Cabaça, ali, no mesmo lugar, com duas codornas e uma perdiz já no ponto de comer.

 

- Seu minino, cumo vai?

 

- Vou bem seu Zé. E a onça, já matou?

 

- Inda não, meu fio. Mais já tá marcada de chumbo. I’eu das unha dela.

 

Abriu a camisa mostrando a cicatriz das garras da onça.

 

- I’eu num mato ela e ela num mata i’eu; custumamo e vamo seguino a lida.

 

 

 
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terça-feira, 16 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Mato Dentro


 
 

Dava medo, o mato ia fechando e fechando mais, até tampar como fosse uma parede, ninguém que ali andasse ia descobrir uma passagem, só se transpondo o emaranhado trançado de cipós enlaçando tudo e com a ajuda de alguém que já conhecesse bem o lugar.  Não era o caso de Dalvo, mateiro experiente, já estivera algumas vezes naquelas brenhas mas nunca tinha achado o jeito de entrar na grota, saber o lugar certo nem supunha. Que vivia alguém lá, menos ainda. Mas ele era muito esperto no distinguir e na falta de quem, declarado conhecesse, ele se ofereceu. Ia com Zé Cosme e o patrão dele.

Já tinham caminhado bem uma hora no mato fechado, avistando por entre folhas a serrinha, e nada de encontrar o trieiro que o benzedor usava. Dalvo, com o facão tentava abrir caminho, cortando os cipós e pela posição do andar, vendo o morro, tinha quase certeza de que era ali, quando chegava perto, não era.

Num prazo, parando para tomar água e enrolar um cigarro embaixo dum pau mais frondoso, ouviram um barulho de bicho andando no mato.

- É onça, gritou Zé Cosme, engatilhando a espingarda e apontando no rumo do barulho. Antes que atirasse, Pai Nanias pulou de cima do galho no meio deles, o silêncio formou no susto que cada um levou. O primeiro a falar foi Dalvo.

 

- É pelo galho que ele passa!

 

E começou a rir assustando o benzedor, desacostumado com gente de qualquer espécie. Seu Laudêmio, percebendo que o susto foi maior nele, se aproximou e contou que estavam procurando um jeito de passar para a grota com o sentido de achar a casa do benzedor, se ele sabia onde era.

Já de cócoras ele perguntou, se mal pergunta fosse, o que eles queriam com o velho? E quem eram? seu Laudêmio explicou que eram do Arraial e precisavam com urgência de ajuda, que sua filha estava, fazia dias, de cama ruim dos peitos. Que tinham tentado de tudo, era grave e precisavam muito que Pai Nanias fosse benzer na derradeira esperança.

 

– Vamo em casa cumigo pegá umas ervas. E foi subindo no pau, afastando a galhada.

 

Era como se fosse uma escada, do galho até a pedra e desta para o trieiro que descia até o fundo do grotão. Aquela figura magra, barba e cabelo para mais de muitos meses sem cortar, jeito cadavérico, de gente que mal comia, dava medo.

Ele foi apanhando, dentro do escavado do morro, suas ervas e distribuindo em duas capangas que cruzou por cima da cabeça, uma para cada lado da cintura.

Voltar foi o mais fácil, ele pediu que alguém tomasse dianteira, e arrumasse um tacho de água quente e um lençol branco. Assim foi que Pai Nanias chegou na cabeceira de Rosinha e lá ficou duma tarde varando a noite até a tardinha do outro dia  com suas rezas, suas infusões com fava de sucupira e seus emplastros.

Na boca da noite, sem que ninguém conseguisse entender, ele saiu do quarto pálido e sem dizer uma palavra,  correu pelo fundo da casa no rumo do Mato Dentro, causando estranheza em Zé Cosme; quando se cruzaram na porteira, Pai Nanias resmungava o nome do diabo, como se esconjurasse o cujo.

No outro dia, seu Laudêmio e Dalvo foram até a grota agradecer Pai Nanias a reza e a benzedura que tirou Rosinha da cama. Levavam, além de muita comida, dinheiro, e por insistência de Zé Cosme, uma mula baia de presente que amarraram próximo à passagem para a grota. Lá não encontraram nem o benzedor, nem uma sobra das coisas dele, só o buraco vazio no Mato Dentro.


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Ojero


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Gostar eu gostava, não só do velho mas da lida toda, dos companheiros, o saber dos caminhos, vida de tropa, gostava sim. Importava com carga muita não, passar nos facões e nos serrotes era pior, mas muito, não.  Às vezes, as bruacas  até rangiam no esforço do descer e subir. Comer, só no bornal, o milho que o velho escolhia para dar trato do de melhor. Assim era o cuidado com a pisadura, na hora de pôr as peias.

Nos caminhos, gostava mais do trato, zelo de Baldino colocar a cangalha no lombo, encabrestar, arrochar a cincha, abotoar o peitoral, descer a retranca e enlaçar as alças no cabeçote dos alções. Arrumar os sacos, bornais, surrões. Fazer os contrapesos e amarrar o ligal no arrocho, com o cambito, e soltar o cargueiro. Depois amarrar os guizos nos peitorais e cabeçadas.

O ruim era o carrego, quando o velho deixava por conta do empregado do seu Vieira. Muito desmazelado aquele sujeito, quantas vezes a carga caiu com o cambito frouxo. E a vez que ele deixou cair ali mesmo uma lata de querosene, e derramou. Quase pôs fogo em tudo, porque o passante estava riscando a binga para acender o cigarro de palha.

O descarrego, esse, Baldino nunca deixava ninguém pôr a mão, por causa do equilíbrio da carga. Quando parávamos no pouso, depois do descarrego, ele escovava um por um, naquele jeito dele de pôr reparo num trote a mais, na guia descuidada ou num descer facão mais brusco.

Eu só desacorçoava quando aparecia um corte para varar. Uma a uma no trieiro e não rendia o caminhar, parecia que estava passando de novo no mesmo lugar. Agora, quando chegava no tope do morro, principalmente no Cobertão, dava gosto enxergar tudo dali de cima. O velho também gostava desse lugar, sempre o preferido do pouso.

Trote era o que ele mais punha reparo.

 

- Só serve prá cansá o animá e num omenta a paga. Dizia.

 

Nesse ponto tinha razão. Só o Pacu achava que não, gostava dum trote. Quando distraía e punha marcha, me passava na cabeçada chacoalhando os guizos mas, quando percebia, emparelhava comigo, no respeito.

Gostava muito não, quando Baldino negociava com pólvora e carga muita, ainda mais que o palheiro num saía da sua boca hora nenhuma. Ou então quando tinha muito negócio com couro, aquilo fedia demais.

Minha preferência era quando carregava fumo com contrapeso de rapadura. O cheiro bom, o peso distribuído melhor e não tinha perigo.

Nos pousos, enquanto Baldino negociava ou contava as notícias da política para os figurões, cada um com a montaria mais bonita que o outro, era o de bom, cada mulinha mais formosa. Aquelas arreatas, muito bem cuidadas, uma boniteza. A companheirada gostava da alegria dos olhos.

Mas meu querer mesmo estava ali, do meu lado, e ela era bonita demais. Nova, castanha, o pêlo brilhava de longe, e os olhos, no jeito de me olhar, minhas pernas bambeavam. Vaidosa na medida da sua boniteza; sabia enroscar seu pescoço no meu, na demonstração de bem-querença. Tão alegre e vezes tão triste.

Quando conheci novinha demais, mesmo assim, pus o olho nela e fui criando, no acompanho dela crescer, o amor todo.

Baldino punha muito gosto em agregar ela na mulada, de vez em quando me falava no ouvido, enquanto escovava meu pescoço:

 

- Um dia nóis agrega ela, Ojero.

 

O dia chegou, e nesse dia foi tristeza demais que chegou junto. Foi dela que Joaquim, melhor amigo de Baldino, caiu. Foram suas patas que resvalaram nas pedras do Vau do Lajeado, derrubando ele.

Nunca vi tanta tristeza como a de Borborema, naquele dia, puxando a carroça de parelha comigo. Desconsolo demais, nem prestou atenção quando Baldino fez a paga para levá-la.

Parecia até, que no enterrar Joaquim, também dela um pedaço ia junto.

Seguindo caminho, ela do meu lado, vez em quando enroscava o pescoço no meu, olhar escorrendo tristeza. No choro dela.

Todas as vezes que a tropa chegava no pouso do Braço, Baldino me desencangalhava primeiro, depois Borborema, abria a porteira e nos soltava no rumo do cemitério, onde passávamos horas, ela meio que chorando. Depois, a volta, bem juntinhos num silêncio só.

Borborema ao meu lado, guiando comigo a mulada no tempo passando. Às vezes, a alegria está toda nela, como antes. Em outras, a tristeza toma conta. Quando a alegria vem, Baldino percebe e fala no meu ouvido.

 

- Hoje Joaquim tá aqui cum nóis.

 
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quarta-feira, 10 de maio de 2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

Baltazar de Das Dores


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Vagava na chapada, havia mais de vinte anos, conhecia ela como a palma das mãos, caminho, atalhos, jeito de chegar. Era Baltazar. Uns diziam que era descendente de ciganos, outros que era dali mesmo. O certo é que cruzava aquelas terras, trabalhando ora aqui ora ali, sempre muito considerado por todos. Da família diziam que só restava ele.

 

- Seu Baltazar, apeia.

 

- Cumo vai dona Filó? Bom dia, seu Aniba.

 

- Dia. Chegô na hora, Filó cabô de passá um café. Achegue.

 

- Cum gosto, seu Aniba, cum muito gosto.

 

Ali mesmo, entre gole e prosa, tratou do serviço. Na preferência de Baltazar, trabalhar ali era o melhor. Fosse pela paga, fosse pelo trato, além de poder pôr os olhos em Das Dores, que quanto mais passada do tempo, mais boniteza acumulava. Em sendo filha única de seu Aniba e dona Filó, ficava no vantajoso da herança, mas isso não era cobiça de Baltazar.

Das Dores, moça donzela, jeito de menina ainda, apesar do maduro nos anos, vivia na conformação de solteira vida afora. Bonita, isso sim, ela era: o rosto, os olhos claros, os cabelos lisos sempre presos para trás, e o corpo escondido naquele mesmo jeito de se vestir. Baltazar não tirava a atenção dela. Coisa que seu Aniba logo avaliou nele foi a bem querença escapulindo nos olhos, nessas horas.

 

- Seu Baltazar, já pensô tomá sussego na vida, pará num canto, radicá?

 

- Dô prá isso não seu Aniba, ponho custumação in lugá ninhum. Ponho gosto é nos caminho, na istrada.

 

- I’eu mais Filó tamo ficano véio, nóis só tem Das Dores e a terrinha. Se nóis fartá é ela só no mundo.

 

Numa pausa.

 

- Faço cumbinação, cunheço ocê prá mais de vinte ano, ponho reparo nos oiá docêis dois, fereço a mão dela e tudo que carecê.

 

- Na honra fico seu Aniba, no acanho de respostá tamém.

 

A conversa acabou ali. No outro dia, nem a paga Baltazar esperou. Ganhou estrada.

 

Dois anos passados.

 

Das Dores estendia as roupas na frente da casa para quarar, quando avistou no longe o cavaleiro, caminhou até o batente da porteira, enxugando as mãos no avental. Distinguiu Baltazar ainda no longe. Seu coração disparou; sem pensar muito, abriu a porteira.

 

- Cumo vai, Das Dores?

 

- No custumá, em como Deus qué.

 

- E seu Aniba, vim tê uma prosa mais ele.

 

- Foi na rua cum a mãe, apeia.

 

Baltazar desceu do cavalo, levou o animal para o cocho e sentou na soleira da porta.

 

- Nem fiz armoço ainda. Se quisé merendá, a mãe dexô quitanda feita. Vô passá um café.

 

- Carece não, Das Dores. Gradeço. Sabe do assunto qui quero pôr trato cum seu pai?

 

- Magino, mania do pai querê rumá casamento de cumbinação, mais quero não, quero só se for de bem querê.

 

Baltazar ficou surpreso e envergonhado, disfarçou o quanto pôde, tentou mudar o rumo da conversa, mas ela insistiu.

 

- Foi pur isso que ocê sumiu, igual fugino, foi o pai?

 

- Cumbinação foi não, ele só falô que punha gosto.

 

- E ocê põe?

 

Ele ficou um bom tempo pensativo, meio encabulado, sem saber o que fazer com o chapéu que tinha nas mãos. Mas respondeu balançando a cabeça afirmativamente.

Das Dores abriu um sorriso e falou bem baixinho, enquanto olhava Baltazar bem nos olhos.

 

- Brigado Santo Antônio.

 

Ele, por sua vez, sentiu o coração bater mais depressa. Nunca tinha sido olhado daquele jeito antes. Conhecia o afeto de muitas pessoas encontradas vida afora por onde seu caminho levava, nada como o que Das Dores demonstrou com aquele olhar. Os dois parados no meio da cozinha, água fervendo no fogo, nem notaram a chegada de seu Aniba e dona Filó que, da porta, os olhavam. Seu Aniba tossiu e pôs o quebrar naquele momento.

 

- Cumo vai Baltazar. Veio recebê a paga?

 

- Vim foi pôr trato de casamento cum Das Dores, se ainda é do agrado do sinhor e dela.

 

- É do seu agrado, minha fia?

 

Ela, baixando o olhar, sem graça:

 

- Se for do seu, pai, do meu é.

 

- Vamo cunversá lá no terrero, seu Baltazar.

 

Estranheza de Das Dores, que conversa seria essa? O pai vivia tentando arranjar marido para ela. 

Tomando o rumo da cerca, seu Aniba foi pensando na conversa que tivera com ele, no seu sumiço de dois anos, e em toda aquela situação repentina, agora.

 

- É de seu querê mesmo? Tá resorvido tomá sussego? Puis reparo no que aconteceu dois ano atráis.

 

- O sinhor sabe da minha andança, que sô respeitadô; nesses dois ano garrei a pensá na vida. Das Dores tá no meu pensá faiz muito. Fugi no acanho de num sabê do gostá dela. Agora sei.

 

O casamento se realizou meses depois. Os dois viveram o primeiro ano sem filhos; no segundo, nasceu o primeiro e, daí em diante, foi um atrás do outro, para alegria de Das Dores. No todo, doze.

Baltazar tomou amor pela lida e, uma vez por ano, levava o gado para vender no curtume. Demorava mais que o necessário, mas era do saber de Das Dores que ele corria a chapada toda matando a saudade das gentes e dos lugares. Mas quando voltava, era como no dia em que pediu sua mão. Tocava o berrante no longe e chegava sempre cantando.

 

quando ando no sertão

careceno pricisão

eito prá invergá o corpo

sei que num farta não

quem me é de valia

ladainha creio

rezei tantas

esqueço não

 

Das Dores largava tudo o que estivesse fazendo e o esperava com a porteira aberta e a quantia de amor que cabia no seu olhar.

 
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