segunda-feira, 17 de julho de 2017

Breganha

 
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domingo, 2 de julho de 2017

Dozinha e Inácia


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- I’êle sortava vento inquanto fornicava i’eu, fornico froxo, por mode conta da nhandiroba qu’eu passava. Achava qu’era gosto meu. Quando envinha era os modo, fazê num duê, um avantajo daquele quereno... quereno... cruzi crêdo, Suzuca reclamava, Armina tamém. Insinei marrá tripa de porco cum olhim d’nhandiroba, na hora era só moiá um dedo, inludia. Suzuca cuntô pra Nhanjina, i’ela feiz tamém.

 
- Ficô tudo pra i’êle, gostano dele. Nois vigiava os rumo d’ele vim mó num querê o manipanço. Num matá boi, i’ele pegava nóis, uma. Medo de ficá sem coiê o sangue pro sarapatel, inda na bondade dele, procela dum oiá mais teso qu’eu davo.

 
- Ué mia parenta siô ôiava cedo pr’uma, paresque gustá du craro, cum’antão o vaquero Ventura du iscuro... i’êle sim. Caricia tripinha, caricia fingi detono, ‘struvenga firmava us gozo, quan’ele dava diamba, uns mais.

Remavam descendo o rio, com a canoa carregada de cachos, costume que faziam gosto, hora de se tardar, longe dos afazeres, longe da perseguição dos homens de mando. Hora mais feliz das duas.

No repuxo da curva, ouviram a explosão e viram o primeiro sinal de fumaça. Quando deu vista, o velame da embarcação inçado de vento fazia distância.

Temeram! Eram tantos homens que chegaram nos últimos dias, tantas armas e conversas... a cozinha ficava o dia todo com a mesa posta, davam comida a todos que vinham. Sabiam coisa importante acontecendo; o padre junto, muita gente bem vestida, livros e papéis esparramados, ordens pra todo lado; agora aquele silêncio e o sinal de fogo.

Uma luta teria durado mais e a guerra ouvida de longe. Remaram mais depressa e foram distinguindo a destruição, a casa grande, a senzala, o paiol, as moendas, tudo queimando, restado somente a capela com a parede lateral quase destruída

Encostaram na boca do igarapé com medo e desembarcaram cautelosas, se aproximando devagar, procurando avistar alguém que não havia ali. Nenhum corpo. Andaram nos arredores, nenhum cabaneiro, nenhuma criação, nada vivo. Como se tivessem sido engolidos pela explosão que ouviram.

Desnorteadas, as duas escravas dormiram aquela noite no que restou da casa e, na manhã, sem encontrar ninguém, somente aquele silêncio no ar, remaram subindo o rio, margeando entraram no primeiro igarapé, evitando quem fosse.

Enveredaram por muitos caminhos d’água, abandonando a canoa, pensando conhecer a nesga de barranco, e caminharam por horas para descobrir que não sabiam por onde andavam. Com a noite, o medo dos barulhos da mata, Inácia, ferida num resvaladouro e o cansaço, sem saber voltar nem para onde, tinham amarrado a canoa, prostraram embaixo dum enorme angelim.

Ali foram encontradas muitos dias depois Donzinha, fraca, variando e  comendo terra; Inácia com a ferida gangrenada na perna dando os últimos respiros.        

  

segunda-feira, 19 de junho de 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Bendito Benedicto, poeta bendito

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Ateu que sou.
Um dia acompanhei a procissão para viver seu poema.
E vivi.
Palavra a palavra, verso a verso e cada silêncio resignado no ar.
Cantei na melodia instigante que freqüenta cada estrofe.
E dancei na sensualidade do ritmo, argamassa milimetricamente assentando angústia e beleza.
Nesse dia, Benedicto Bendito. Senti fé, fúria e muita esperança.
Desde então, na corda do seu poema, minha alma se amarra e se liberta desesperadamente.
MQ

quarta-feira, 14 de junho de 2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Zelé


 

 

Açodando o passo iam pela madrugada, a chuva fina, de novo, começava a cair encharcando a capa estendida sobre a cabeça dos dois. Ela toda encolhida, com frio, esforçava andar mais depressa e puxava o corpo de Gentil para esquentar o seu.

Passando na porta da igreja, Zelé vinha apagando as luzes dos postes. O claro do dia entrava no Arraial e a chuva engrossando, sobrepunha o fusco, embaralhando o que se enxergava.

Zelé viu aquele vulto estranho passando do outro lado da rua, não distinguiu quem, hora de quase missa o certo era eles estarem indo para igreja, não como saísse dela. Coisa de noite feia, pensou, mas logo esqueceu, continuando a lida.

Na noite seguinte, clara e estrelada, madrugada fria, Zelé lembrou do vulto quando vestia a capa. Foi subindo a rua pensando fosse a parteira Júlia indo aparar alguém ou seu Arcílio da farmácia acudindo algum doente. Nesse pensamento, foi descendo a rua. No terceiro candeeiro, concluiu não ser possível pois nenhum deles morava na direção de onde o vulto vinha e nem para onde ele ia. Um dia, se lembrasse ia perguntar.

Passou mais de mês, até já tinha esquecido daquele assunto, ao apagar o último poste atrás da igreja, viu saindo do cemitério um vulto, mais magro, quase certo o mesmo daquela noite. Zelé, homem sozinho no mundo, já tinha visto tantas coisas no escuro da noite, parecendo ser o que não era, que já nem ficava assustado. Coragem não faltava, lidava com tudo sem assombro, no mais real.

Sem reconhecer quem fosse, mesmo tendo visto ele antes de apagar o último candeeiro, Zelé acabou o serviço naquele dia e, como quem não quer nada, foi visitar seu Zé Coveiro na intenção de descobrir alguma coisa. Conversaram a manhã toda mas nada na conversa dele deu pista de quem pudesse ser. Naqueles mais de seis meses, o único enterro foi o da moça Aurora, filha do seu João Bastos, que morreu de tuberculose. Enterro dos mais tristes, o marido, casado de novo, dava dó. Dizia Zé Coveiro.

Ficou Zelé, dali em diante, por quase o mês vigiando o cemitério, apagava o último candeeiro no fim da rua e se escondia na sombra esperando ver quem entrasse ou saísse. Nada aconteceu naquele tempo, Zelé foi esquecendo o assunto. Uma tardinha ele viu sair do cemitério dona Celeste, mulher de seu João Bastos, e naquela madrugada resolveu esperar mais uma vez.

O céu choveu todo naquela noite, estiando perto do romper do dia, para sua surpresa não era um vulto e sim dois, para seu espanto era Gentil e a moça Aurora entrando no cemitério, o susto foi grande mas Zelé não se revelou escondido.

Hoje, ele vigia a hora de Gentil buscá-la e vai na frente apagando os candeeiros, das ruas onde os dois passam, para ninguém descobrir aquele segredo das madrugadas do Arraial de Nossa Senhora da Conceição.

 

 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

domingo, 11 de junho de 2017

Perdoado Quenzim


 
 
Lá vem me atentar. Já não chega o aborrecimento de ver aquela torre ficar quase mais alta que minha cumeeira, ele, depois que chegou para dar acosto ao vaqueiro Quenzim, não sai daqui do curtume. Pensa que não vou disputar direito. Quenzim já emporcalhei com cachaça e no jeito de matar os bois. Esse tempo perco é não.

Ele que continue vindo aqui, exibindo a torre, fazendo o que quiser. Incomoda não. Pode pôr sino, cruz, mandar fazer afrescos, avisto mas não tenho que levantar a cabeça, nivelo com a altura da cumeeira, perde tempo o colega. Esse vaqueiro é um fraco, basta um gole de cachaça para desarrumar ele. O vivente já vem com a natureza dele. Adianta ir na igreja? Aprender reza nova?

Cerco ele, pego a beleza, cochicho no ouvido:

 

- Depois do gole, é sua...

 

Esse mundo é um de quem quer, de quem sabe pôr arrelia é também. O colega cerca Quenzim. Eu não fico só no de longe esperando a hora de açular no tempo dum gole para destravar o real dele. Com esse lido só quase com cachaça, é o que põe ele no fraco.

Adianta o colega ficar grudado nele? Cochichando caridade no carecer dele, aferro à-toa. Quenzim põe o olho na arroba do boi e eu assopro no ouvido dele.

 

– Leva um pedaço por conta da caridade do patrão, faz guizado...

 

No juízo dele só ponho a favor, o colega põe até perdão, quer de qualquer jeito. Aproveito o ouvido.

 

- Toma pinga, faz de novo...

 

Meu jeito é esse, descubro a fraqueza primeiro. Vou cevando o vivente com coisinhas que o colega nem percebe. Esse de agora, o Quenzim, menino ainda no alambique do Tartulfo, onde o pai trabalhava, quando foi pegar a caneca de garapa, o colega distraiu e eu assoprei:

 

- Prova daquela lá...

 

Descobri a fraqueza. Hoje, só atento com o gole, o resto vem junto na natureza dele. E o jeito dele matar os bois? Não reparou nas maldades que fui bafejando, devagar, anos e anos, daqui da cumeeira.

Agora o colega vem de novo me afrontar com o perdão de tudo? Por que não deixa Quenzim acabar de estrebuchar, sangrando nesse chifre afiado? Por que não larga mão dele? Já não chega o abodego daquela torre ficar mais alta que minha cumeeira?

 

 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O irmão do Rutinho


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O sol já ia nas grimpas do dia, esparramando quentura para todo lado, e o menino ainda no faltar das obrigações com o padre que era teimoso, imagina chamar Zé Bilú na igreja, convencer de quê, meu Deus? O povo falava até que ele tinha parte com o diabo. E agora essa do vigário chamar. Boa coisa não era.

E não era mesmo, o padre exigia de Zé Bilú que ele desse a volta e não passasse na porta da igreja, como fazia toda madrugada, quando voltava do jogo, bêbado, e gritando pela rua. Ameaçava excomungar, mandar prender.

Zé Bilú retrucava que ele num tinha nada com os particulá dele, que ele era home do mundo e num tinha respeito de quem usava saia.

A confusão foi formada, no sermão de todo dia o padre excomungava o ateu; na intendência, dava parte; falava com as gentes da política. Falava, com as carolas do lugar, da qualidade desse cidadão, não tinha profissão, ninguém sabia de onde tirava o sustento. O padre parecia não tirar o Zé Bilú do pensamento hora nenhuma. Esse, por sua vez, fazia parecer que nem era com ele. Fingia não ouvir.

Mas de madrugada sempre achava um jeito de levar um animal qualquer para defecar na porta da sacristia. No outro dia, o vigário fazia queixa para o delegado e procurava durante todo o dia Zé Bilú, sem encontrar.

Zé Bilú não corria dele, mas sempre evitava encontrá-lo, fosse para não ter o bate-boca, fosse para não enfezar o homem.

E assim foi sucedendo, excremento na porta da sacristia, falação no sermão. O delegado não tinha como fazer nada, o intendente era parceiro de jogo do excomungado. E todos foram se acostumando com a arrelia dos dois.

A vida de Zé Bilú não era só no à toa, não. Não era só no jogo o arrisco dele, tinha o garimpo no Veríssimo, no à-meia com o Rutinho, espera de sorte no cascalho, nas águas do rio. Teimosia de anos, de muito baralho partido para o lado do não, de muitos calos nas mãos que ele não dava parecença.

A não ser Baldino, que sabia e fornecia abastecimento, quase sempre no prazo de troca das poucas pedras do de sustento. A maior dava para ano, mas ficou na banca de jogo. Zanga de Rutinho. Mas Zé Bilú tinha o crédito do fornecimento e a zanga acabou aí.

Zé Bilú pôs combinação com o irmão, na evitação da mesa de jogo, enquanto não repartisse as pedras poucas que tirava. Depois disso era os dias na rua, no carteado, na arrelia com o padre, enquanto o cobre durasse.

Rutinho que ficava no pesado da lida não punha importância. O irmão, quando pegava na bateia, trabalhava num dia o que valia muitos. Às vezes, Zé Bilú chegava, sentava no barranco sem nem tirar as botinas e ficava olhando o cascalho para lavar, como naquele dia, com o olhar fixo num rumo, pensando sabe lá o quê. Ficou quase a manhã assim.

Não espantou Rutinho. De vez em quando ficava sentado olhando, já estava acostumado. Mas, de repente, ele levantou, passou a mão na bateia e foi no rumo certo do monte de cascalho para lavar e nem chegou a usá-la. Com a mão mesmo ele pegou a pedra, soltando um grito que foi ouvido até lá no Garimpo do Ligoso. A pedra era do tamanho de um ovo, das mais puras. Logo chegou gente de outros garimpos, tamanha a gritaria de Zé Bilú e Rutinho.

 

- Bamburrei minha gente, segurava o diamante com as duas mãos, punha contra o sol, pulava e gritava com o irmão e a companheirada que foi juntando.

 

A notícia chegou no Vai Vem, primeiro que o vento que estava soprando. Mas os irmãos não foram para lá, não. No medo de queimar a pedra esperaram um mês a passada de Baldino no voltar. Com ele foram para Minas vender o bamburro.

Com os cobres na guaiaca, puseram a labuta nas terra da viúva de Totonho Costa, comprando a parte dela, mais a de dois herdeiros, incluindo a sede. Formando com o ajunte dos pedaços, terra bastante para gado, lavoura e muita criação.

Zé Bilú, passados quase seis meses, voltou para a mesa de jogo como se não tivesse acontecido nada. De madrugada, a mesma algazarra de sempre, a mesma arrelia com o padre, o animal defecando na porta da sacristia. E para surpresa sua, não teve sermão.

O padre nunca mais fez queixa de Zé Bilú para o delegado nem para o intendente. Mas quisesse saber dele, era só passar na porta da sacristia, se tivesse o monte ali, Zé Bilú estava no Vai Vem.

No correr do tempo, Rutinho engraçou com Lonora dos Costa. O irmão tratou do pedido e foi com Rutinho combinar data na igreja.

E aí foi senhor José Belarmino para cá, senhor José Belarmino para lá.

Hoje, dia de Nossa Senhora da Conceição, festejo maior da paróquia, Zé Bilú é o festeiro. Na procissão, Zé Bilú carrega o andor com a fita de congregado mariano no pescoço.

Mas, até hoje, se quer saber se ele está no Vai Vem é só passar de manhãzinha na porta da sacristia e ver se o monte esta lá.

 

 
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terça-feira, 6 de junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Moça Davina


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Davina era só pensamento, de tanto o padre falar em anjos, pensava como seria a vida deles, por que cada um tinha um da guarda? Será que, também, tinha um demônio para cada um, na tentação?

Olhava a figura do santinho que a mãe lhe dera quando pequena, o anjo protegendo a criança quase caindo no abismo. Era tão bonito aquele anjo. Será que cara teria o demônio? Pensava. Será que o padre ia zangar com ela se perguntasse? Será que Lalinha tão sabida, lia tantas coisas, podia explicar?

Davina ficava pelas tardes perdida dentro da imaginação, sonhava com o anjo, com aquela beleza toda, lhe dando a mão como fosse a criança do santinho.

Um dia, pediu que Lalinha explicasse se, como o anjo da guarda, todos tinham um demônio da tentação. Como era a cara do diabo, do anjo da guarda ela conhecia, tinha o santinho. Mas se o demônio aparecesse como ia distinguir.

Lalinha, cheia de mistério, contou que o diabo era a tentação em tudo, tinha qualquer cara que quisesse, ardiloso, era coisa ruim, era o mal. Lembra dos sete pecados? Orgulho é coisa dele, a inveja também, até uma bem pequena. Preguiça era ele atentando, a gula era ele comendo dentro da gente, a ambição e raiva, tentação dele, e a luxuria era a vontade de fazer coisas, sem-vergonhices.

Gostar de doce de leite era pecado? Perguntava Davina. Gostar não era pecado, mas comer mais do que a fome era. Respondia Lalinha.

As duas ficavam nessa conversa por horas, enumerando situações de raiva, inveja, preguiça e ambição, quando chegava na luxuria Davina queria saber mais. Não pode, é desonra, mas quando você casar pode, não é pecado, Lalinha respondia como se soubesse tudo sobre aquilo. Como? E não dói? Perguntava Davina. Não devia doer era abençoado por Deus, deve de ser bom, mas sai um pouco de sangue. Antes de casar é como se fosse o diabo fazendo, dizia Lalinha.

Durante muito tempo era o assunto das duas, onde Davina visse Lalinha sempre tinha uma pergunta. Perguntava se ela já tinha beijado. Se era pecado. Tinha que confessar? Isso era tentação?

Lalinha demonstrava conhecer o que só tinha no curioso, nunca ia contar que sabia bem pouco daqueles assuntos, gostava da admiração da amiga.

 

 

Necão conhecia todos na sala mas, mesmo assim, não se dirigiu a ninguém, foi passando, generalizando o cumprimento.

 

- Tarde.

 

Nem prestou atenção se lhe responderam ou não, foi direto para a cozinha em sorriso nenhum. A mulher do Donato, que fazia o café, foi quem lhe falou.

 

- O senhor acalme seu Necão que não há de ser nada, a mãe está com ela no quarto, a menina já serenou e o padre foi chamado.

 

- Padre, prá quê! E esse povo aí na sala? Que ajuntamento de gente é esse?

 

- O senhor não sabe o que aconteceu com a menina? Se pôs no choro desde cedo e começou a gritar, não deixando ninguém chegar perto, agora que abrandou. Gritava muito e falava embaralhado, sem sentido.

 

- Por que chamar o padre? Perguntou Necão, entrando no quarto onde a mãe e a filha abraçadas choravam.

 

- Foi o diabo, pai. Foi ele sim.

 

Enquanto falava, Davina se encolhia na cabeceira da cama num choro doído, com as cobertas tampando o corpo, ficando só a cabeça de fora. A mãe chamava por Nossa Senhora da Conceição, e Necão, sem reação nenhuma, parado no meio do quarto não entendia nada. Nesse momento o padre chegou, Davina, ao vê-lo, começou a chorar mais alto ainda e a gritar.

 

- Foi o diabo, seu vigário, eu não queria não.

 

O pai, se refazendo do susto, esbravejou com uma raiva que nunca ninguém vira.

 

- Diabo coisa nenhuma, cadê esse safado? Conta quem é, Davina, vou acabar com a raça dele. Quem é o desgraçado, me conta, filha?

 

- Calma, seu Necão, pediu o padre.

 

- Ela está possuída? Perguntava a mãe, chorando.

 

Com muito custo, o padre convenceu o casal a sair do quarto e rezou por mais de hora, enquanto os vizinhos se juntavam pelo resto da casa como se tivesse morrido alguém. Nessa hora, Necão não agüentou e pôs todo mundo para correr, já com a espingarda na mão.

 

- Ela falou o nome do desgraçado? Perguntava ao padre que saía do quarto com cara de pouco adianta.

 

Dobrando os paramentos, disse que ela nem deixava ele chegar perto e que era um despautério essa história de diabo, mas, por via das dúvidas, ele exorcizou a menina e benzeu o lugar.

Necão enfurecido entrou no quarto seguido do padre e da mulher e encontrou Davina, ainda chorando, quase nua, com o sangue escorrendo pelas pernas, tentando esconder o lençol sujo. A mãe ao ver a filha daquele jeito, tirou o marido e o vigário do quarto, chorando, ajudou a filha limpar o sangue do seu primeiro menstruo.

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Olho do boi

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Não queria ir, indo.
Calvário meu.
Puxado pelo laço prendido na argola do focinho, Lambari parecia ter entendido tudo. Caminhava lento, parava toda hora e olhava comprido para trás.
Desassossego meu, e as lembranças cutucando por dentro.
 
Êia, Lambari, êia, Cafuncho...
Milho indo, estrada ficando...
Boi formoso, carro cantando...
 
Sentado no cabeção, enxergando o pai por entre os chifres na entrada da Rua de Cima, provocando cobiça de Zarias pela canga de bois.

- Põe preço, seu Lino...
- O que num tem preço, no preço está, seu Zarias, dizia o pai passando a mão no lombo de Lambari.
 
Não queria fazer, fazendo.
Casa de Dito Cotobó, uma das primeiras da rua, com um pequeno curral na porta.
 
- Só pago 100. É boi véio, inda mais de carro, carne dura, só pago os 100. Ocê me dá ele morto, vivo num negoceio não.
 
Prevalecia Dito da situação. Quem num sabia da seca? Da tristeza do pai com a lida, depois da morte da mãe e de tudo que aconteceu? Nunca mais saíra de casa, falava quase nada o dia inteiro, era a vida da morte estampada na figura definhada, inconformada e sofrida. Desistindo da vida, como se todos os anos de labuta despencassem em cima, duma vez.
Dito sabia disso tudo e agora tirava proveito da minha pouca idade, da necessidade aparecida de dinheiro.
 
- E só compro o boi em consideração ao seu pai, prevalecendo.
 
Quando percebi, já estava com o machado na mão e ouvia Dito recomendar:
 
- Se quiser amarra ele no tronco.
 
Me vieram os pedaços primeiros da infância. Lambari descendo da invernada, garboso, encostando no cocho, esperando pela lida.
Lambari entristecido com a morte de Cafuncho, seu par de junta, picado de cobra.
Lambari, já velho puxando arado, serviço miúdo, não para ele que também nessa labuta tinha garbo.
Tristeza, e aquele machado queimando minhas mãos.
Me veio bem-querença, desde os primeiros alembros.
Calça curta ainda, ver Lambari descendo da invernada todo dia, no raiar, tomar encosto no cocho e esperar Lopoldo acabar de tirar o leite. Depois, o cangar das juntas.
 
Êia, Lambari, êia, Cafuncho...
Milho indo, estrada ficando...
Boi formoso, carro cantando...
 
O machado nas mãos, o lembrar queimando por dentro.
Quando saí na porta do terreiro, o olhar de Lambari me pegou inteiro. O brilho do olho foi se apagando devagar e aquela tristeza resvalou para dentro de mim. Não usei o laço, não carecia. Lambari ficou parado na minha frente, olhar mais triste que o do pai desistindo da vida. Ergui o machado e naquela hora nada se mexeu, nem eu. Lambari se virou em trote pequeno ganhou distância e veio em galope, como se  sua sina fosse só correr. No começo, achei que era em minha direção, mas não conseguia me mexer. À medida que o boi avançava, fui percebendo seus olhos, agora não me olhando mais, parecia fitar um ponto qualquer.
Poeira e o boi se aproximando.... Barulho do galope e o boi se aproximando.
Sentia o suor escorrer pelas costas, o corpo todo paralisado como pedra. Vinha ele.
À pouca distância, soltou as patas dianteiras no ar e cravou a testa no tronco, caindo morto ao meu lado, no meio da poeira que levantou.
Muitos anos já se passaram, hoje não careço precisão, mas não passa um só dia sem que o olhar do boi Lambari não lateje dentro de mim.
 
Êia, Lambari, êia, Cafuncho...
Milho indo, estrada ficando...
Boi formoso, carro cantando...
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quarta-feira, 31 de maio de 2017

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Nome de macho


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João mais Durvalina chegaram na boca da noite. Mal apearam já souberam do convite para batismo. A alegria foi comemorada na mesa, ao redor da panela de arroz com galinha.
                     Depois do café:

- Lila descansa no mês. Dona Custódia já chegou prá apará.

- Agora é home, né cumpadre?

- O que Deus mandá. Peço que leve os nome e, quando nascê, mando recado se é home ou muié, e o cumpadre rigistra cum o Climério, no cartório. Quando nóis for batizá, i’eu pego o papel.

E escreveu num papel:
                     Noemi
                     Isidoro
                     Gonçalves

- Se for muié, Noemi Gonçalves e se for home, Isidoro Gonçalves. Entendeu?

- Pois sim, cumpadre.

O mês passou depressa e, no dia 24, nasceu o menino. Dia de muita alegria para Tiburço, era homem.
                      No mesmo dia que o umbigo caiu, passou Baldino com sua mulada.

 - Avisa o cumpadre João que nasceu e é minino. A Lila passa bem e, no cumeço de maio, vamo p’ro batismo.

Foi o positivo.
                     Baldino deu o aviso, mal chegou à rua. João imediatamente bateu na casa de seu Climério, para o registro. Entregou o papel amassado com os nomes, contou que era homem, o filho do Tiburço, e ficou de buscar a certidão para a semana.
                     Assim fez.
                     Mês de maio, Lila feliz da vida com o batistério na mão. Durvalina levava o afilhado no colo debaixo da sombrinha. Mataram um capado e festejaram até tarde.

- Cumpadre, aqui tá o rigistro.

Tiburço desdobrou o papel e, quando leu, levou o maior susto.

- Mas o qui é isso? Tá errado. Pois nome de muié.

Foram ver, o nome na certidão de batismo estava Noemi Isidoro Gonçalves, sexo feminino.
                     Imediatamente procuraram Climério, que os levou ao cartório, já quase de madrugada. Abriu o livro e, na luz da lamparina, era assim mesmo que estava registrado.
                     Climério, falando sem graça.

- Mais eu dei p’ra dona Dita fazê o registro e avisei que era o nome de baixo.

No outro dia, dona Dita toda encabulada.

- Seu Climério, pedi p’ra Salete fazer.

- Seu Climério, dona Dita mandou fazer mas não explicou nada do nome. Eu pensei que fosse mulher, justificou Salete.

Como já havia apontamentos de muitos nascimentos depois daquele, não era possível fazer uma ressalva. Só com ordem de um juiz.
                     Ficou assim combinado, quando viesse um juiz, Climério faria os requerimentos para mudar o nome.
                     Sete anos depois, apareceu o juiz, mas Climério não lembrou do caso, nem avisou Tiburço. E assim ficou no esquecer de todos.

Era no tempo da primeira eleição com o voto de mulher. O juiz fazia a chamada pelo nome, o eleitor respondia a presença, dirigia-se à mesa, declarava o voto e assinava o livro.

- Noemi Isidoro Gonçalves.

- Presente. Respondi. E ele repetiu.

Eu repeti.
                     Ele mandou me prender.

 

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Colcha de retalhos


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Não tinha a lembrança de ver antes. Aquela foi a primeira vez, dali do portão de casa, vi ele passar num cavalo baio.
Nenhuma lembrança tenho, nesse antes, no portão.
Por que não passa todo dia, como é mando dos meus olhos?
Lembro de outros olhares, outros portões, esse não.
Faz tempo ele não passa, mas o povo dele eu vejo.
Será que era uma branquinha bem novinha?
Se não passar hoje, vou perguntar na venda.
Lembrei, era magrinha, não era?
Passou, está mais bonito. Mas nem me olha.
Queria ter reparado mais nela.
Por que tenho que vê-lo com outra na festa?
E ela me queria?
Tantos anos e nunca mais passou.
Se eu soubesse!
Nossa! É ele. Depois de tanto tempo, meus olhos quase esqueceram.
Ia esperar crescer.
Ainda é bonito, mais bonito ainda.
Casava com ela.
Mas é só para os meus olhos, casou!
Como é bonita!
É viúvo? Mas tão novo. Eu o via passar, era menina ainda.
Presta atenção em mim!
Ele trabalha na venda.
- Falta alguma coisa, mãe?
É ela.
Está mais bonito que nunca. Me olhou, será que me quer?
Como é linda. Será que me quer?
- Dois metros de chita.
Que tesoura mais boa!
- Da estampada?
 Ela gostou da tesoura.
Ele passando no meu portão de novo, meu Deus.
Será que me espera? Nem acredito.
É ele. Me viu.
- Tarde.
- Tarde.
- É pesado, ajudo a levar.
- Leva à tardinha.
Ela me quer.
Ele me quer.
- Tarde.
- Entra, põe em cima da mesa.
- Para você.
Meu tesouro, a tesoura cortando as sobras de pano para nossa colcha de retalhos, enquanto ele faz nosso mais novo dormir.

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

Cobre de sino

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Toda dor foi possível suportar, o não-ter e sentir latejar fundo. Também, os olhares perguntando sem perguntar. Exceto o de Alegria, esse doía. Sua presença incomodava. Havia uma tristeza no ar quando ela entrava no quarto, com aquele sorriso que para mim mais parecia  soluço, coisa de amor definhando.

Lembrava do dia em que a conheci, recordava do cheiro da manhã, do domingo, da missa celebrada de fora da igreja em construção. Lembrança dela passando de vestido de organdi, estampado em azul, sapato branco e com o véu já na cabeça. A mãe puxando pelo braço por causa daquele olharzinho que ela me deu. Lembrança do rosto corando e o olhar abaixando.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Aquele sino era o que mais me doía, me enlouqueciam as badaladas, dilacerando por dentro. Como se tivessem cortando meu avesso, dor insuportável e maior ainda com Alegria ali me olhando, disfarçando a tristeza de dentro com sorrisos e afagos nas mãos. Fechava os olhos, fingia dormir. Lembrava de quando a conheci.

Alegria mais Idalina, festa de Nossa Senhora da Abadia, cheiro de pólvora dos foguetes, novena mais demorada, mastro erguido, leilões e meu olhar acompanhando Alegria pedir para o menino Tobias entregar o correio elegante.

 

- Me encontre atrás da igreja.

 

Nem acreditei, emoção correndo no corpo, primeira vez assim. No encontro, Idalina reparando a esquina. Nossos primeiros silêncios, as primeiras palavras. E ali mesmo, tempos depois, minhas mãos entre as suas, também o primeiro beijo, e o compromisso definitivo.

Perdia a noção do tempo, já era madrugada, ela já havia ido embora. E eram as mesmas sensações, a mesma dor. Dor e a ansiedade nos minutos contados até o sino bater de novo.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Era como se tivesse uma chaga dentro do corpo que latejava com o toque. Quando ele parava ia me acalmando e o pensamento voava longe.

 

- O Pedro já é quase um homem, ele dá conta de buscar o sino, seu vigário.

 

Era manhã de finados, lembro do cheiro da paçoca levada na matula, de contar os passos para me distrair no caminho; de Baldino, que me cedeu uma cabaça d’água no meu desprovimento e me ajudou a arrumar o cabeção do carro que soltou numa bacada perto do Inajá. A trabalheira da volta com o sino pesado, forçando a canga de bois, aluindo de lugar em qualquer diferença do caminho.

Lembrança da chegada, minha boca secando no medo de lembrar. E a noção do tempo perdida na dor, o quarto escuro, as badaladas, é agora.

Não era, doía pensar que era. Agora era.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Alegria vinha, não queria. Não queria mais vê-la, não queria mais que aquele sino tocasse, não queria ver ninguém.

Conformação no tempo não achei, repassei todas as lembranças naqueles meses. Não achei sossego em nenhuma. Não ver mais Alegria não aliviou meu sofrimento. O sino continuava tocando todos os dias e era nessa hora que a dor nas pernas rodopiava dentro de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Esperei todos dormirem e fui rastejando até a igreja levando o facão. Foi como tirei a tramela da porta. A escada ficava na boca do alçapão e dava no forro; de lá uma escada menor ia até o campanário. Subi os degraus um a um, sentando-me, de vez em quando, para tomar fôlego, até chegar ao sino. Dor nenhuma sentia nesse esforço. Recolhi a corda, receio de tocar numa distração minha, e fiquei frente a frente com ele.

Era preso no cavalete, bem feito por Joaquim Pirracento, sustentado na parede que apoiava a cumeeira. Fiz dois piques com facão, um em cada lado do cavalete: uma facãozada, um intervalo grande, cadenciado para não acordar o padre.

Enquanto rastejava pela rua na volta, lembrava-me do dia em que cheguei. A festa que foi. Lembrei-me das tentativas de subir o sino para a torre da igreja, de Alegria me falando: Agora podemos marcar o casamento; da teimosia do padre em não esperar Joaquim Pirracento para subir o sino; do cavalete mal feito, que eu mesmo ajudei a fazer, do sino despencando em cima de mim.

 

Blém, blém, blém ...

Blém, blém, blém ...

 

Ouvi por sete dias. No oitavo, de madrugada, ele despencou. Fazendo um enorme barulho, caiu na quarta badalada e derrubou todo o telhado da igreja.

No meu canto não sinto mais nenhuma dor, nem tenho a Alegria. Fiquei apenas com o silêncio e a sensação de ainda ter as duas pernas.


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