sábado, 24 de setembro de 2016

Carta a Dali - Marco Antonio Quinan


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Mougins, 2 de dezembro de 1968

 
Caro amigo Dali,

Estou lhe escrevendo, pois nestes tempos estava revisitando minha vida. Acho que está chegando a hora. A saúde não anda boa. Aquela coisa que você, Miró e eu chamávamos de “insanidade de Deus”, lembra? Essas moléstias... Como pode alguém construir algo que deveria ser eterno, mas que é bastante perecível? Estou fazendo um projeto com gravuras agora, nada de pincel para não dar aos críticos engraçadinhos a possibilidade de analogias simplórias com meu último nome. Ou cansar este braço por demais cansado. Estava lembrando a infância, e outros caminhos que percorri. Muitos momentos. Em alguns deles estava você. E no mais marcante também. Ainda não consigo me perdoar por aquilo. Aquilo me persegue até hoje. Comecei a planejar uma nova obra, composta de 347 gravuras. Pois bem, nos temas novos o circo, as touradas, situações eróticas, claro. Esses 87 anos me ensinaram a gargalhar em silêncio. Situações eróticas... Que coisa! Chega de pintar a pobreza, a cegueira, a alienação e o desespero. Gilot não gosta muito deste assunto erótico propriamente dito. Ela insiste que eu volte às raízes. Mas sabe como é mulher, acha que somos sempre completos como no começo de toda relação, e não sensivelmente fracos a nos apaixonar por novos hábitos, novas idéias. Lembra das litografias e cerâmicas? Queria ser somente um artista na perecividade da vida. Mulheres... Passei a chamá-la de “Gilotina”. Cortante assim.

Lembrando estes dias moribundiantes, consegui colori-los com as memórias. Lembro-me de quando foi me ver antes de ir ao Louvre. Daquele seu olhar asfixiante, reverenciando-me de uma forma que não esquecerei. Essa loucura que você sempre teve, e que as pessoas achavam que era fazendo tipo. Quem sabe até Leonardo estivesse realmente a frente de nosso tempo, e na antítese de Mona Lisa estivesse essa loucura que falo do seu olhar. Nós em Paris, discutindo seu anarco-monarquismo. E boas doses de álcool. Ah, estas doses, com tantos goles... Nós na inebriante Catalunha, cambaleando por aquelas ruas, anônimos. Você, Miró e eu. Da Passagem Saint-Lorrane, aquela dos prostíbulos. Eu só de lembrar que você fazia aquela brincadeira de mexer as orelhas, assustando as moças. Uma veio correndo em minha direção dizendo que seu bigode estava batendo asas. Miró já atordoado, inebriante e gritando: “Corre senão ele abre a boca e solta o pássaro que está lá dentro pra te pegar”. Lembra? Aquela epidemia espanhola que se espalhou, dizem, pelos pássaros. As brincadeiras que você fazia com as moças. Ah, este tempo que não volta. Estas mãos trêmulas, em tinta viva. A carne ficou nos quadros. E quando lembro dos seus não me perdôo. Ah, Dali, sei que a inspiração de um artista sobrevive de tragédias. Pode ser no amor que ela aconteça, mas é pela tristeza e pela tragédia que a inspiração permanece.

Nao sei se escrevo me despedindo, ou se de certa forma tento me desculpar por algo que nao consigo voltar atrás. Perdoa seu amigo. Não consigo me redimir daquilo. Aquela noite que fundamos algumas bases que estes novos artistas usam até hoje. Aquele papo do Miró de técnicas de tracejamento. Eu nao consigo esquecer aquela sua coleção de relógios. O que fiz foi imperdoável, mas você imortalizou em sua obra. A sala de sua casa era magnífica, com todos aqueles relógios, dos mais diversos lugares do mundo, de presentes de diverso governos, alguns até mantidos na família por gerações. Eu e este meu sono profundo, pesado, causamos tudo aquilo. A forma como virei, sonambulamente na madrugada, e bati com força naquela frágil parede derrubando e quebrando a maioria dos relógios da sala. Eu sei que voce conseguiu salvar apenas dois, mas me penitencio pelos outros cinquenta. Até entendo que nossa relação naquele momento rachou, embora tenhamos conseguido retomar de um ponto que me orgulho. Mas hoje choro por lembrar da forma contemplativa como me olhou naquela primeira vez. Você diz que meu trabalho lhe inspirou bastante, que fui seu mestre em alguns momentos de indecisão no processo criativo. Que ter destruído sua coleção de relógios lhe marcou muito, mas quando vi seu primeiro quadro, onde eles aparecem, nao parei de chorar por muitos dias. Os relógios “escorrendo”. Aquele tempo que não volta. E que nao pára. Perdoa-me neste fim da vida. Perdoa-me por ter te inspirado tragicamente a retratar estes relógios esvaindo pelo chão, este tempo que escorre ainda hoje de minhas mãos. Perdoa-me por um prejuízo que lhe pago de uma outra vez. Numa outra insanidade de Deus.

  

Eternamente
 
Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santissima Trinidad Ruiz y Picasso.

 

Marco Antonio Quinan

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