terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pantaco e Buiú - MQ

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Vinha no rebojo do braço de rio que crescia e minguava solavancando as águas, remoinhando como numa bateia, fúria de vento encanando rodopio, hora tardia de margear, pensou antes de avistar o mandiocal.

A riqueza estava ao seu alcance, podia tocá-la; com a moeda entre os dedos, pensativo, passou o polegar no serrilhado como se conferisse o valor, pôs-se na direção até enxergar a casa.

O silêncio conferiu, todos dormindo; no claro da noite escolheu onde esperar a melhor hora. Na aurora ouviu os primeiros movimentos, se aproximou vendo Vicente Martins Lopes sentado na rede calçando as botas, subiu dois degraus da varanda e disparou. O estampido ressoou pela casa na primeira hora da manhã, quem correndo chegou perto ainda viu o último sangue esguichando, estava morto. 

Pantaco, sem que ninguém o visse, entrou pelos matos, mesmo caminho que veio, atravessou a calma das águas naquela hora, ia buscar sua riqueza com os irmãos do morto.

Vicente Martins Lopes era o primogênito, filho de reinóis, nascido na Cidade do Pará, beneficiado com o morgado do pai, herdade, escravos, casa comercial e outras rendas.

A irmã, Constância, viúva sem filhos, vivia com ele no casarão da Rua dos Mártires; seu irmão, Jorge sempre em viagens pela Europa, custeadas por Vicente que nunca se casara, passava muito tempo na fazenda desde que se unira aos foreiros para se opor aos sucessivos governos portugueses e seus simpatizantes que menoscabavam o valor dos brasileiros.     

Pantaco, de mãe africana e pai mameluco, moreno claro, forte, bem vestido e calçado por exigência de sinhá, parecia um alforriado bem sucedido quando andava pelas ruas. Mas vivia junto com os outros quatro escravos no casarão, era o preferido da senhora e a servia como se fosse uma mucama.

Jorge, sempre que voltava de suas viagens, manifestava à irmã o descabido; não dividirem os cabedais deixados pelo pai. Precisavam fazer alguma coisa, não podiam ficar à mercê do irmão que vivia metido com foreiros, pregando idéias de infames. Queria vê-lo morto, já que não aceitava falar em dividir os bens.

Observava a dedicação do escravo à irmã com malícia no olhar mas também com a naturalidade de homem muito viajado, freqüentador da corte, acostumado com o predomínio da vontade dos mais poderosos. Via em Pantaco, escondida, a mesma ambição que sentia. Aliciá-lo, para seu propósito, foi mais fácil que convencer Constância.

Pôs em sua mão a primeira moeda portuguesa das muitas que receberia; instruiu, junto com a irmã, a alforria. Combinaram esperar seu embarque para Portugal, a animosidade aumentar na política da província e os outros da casa acostumarem com Pantaco dormindo, de vez em quando fora, em serviço de aluguel na marinhagem. Constância concordava em acompanhar pelo pasquim pregado na porta da Lopes & Filhos, a situação política e dar o dia certo da consumação.

A notícia chegou do Acará junto com o corpo, um casal de escravos e o velho tapuio Buiú. Espalhou-se entre os políticos rapidamente levando muitos deles, consternados, a se reunir, partidários e oponentes culpando uns aos outros.   

Pantaco providenciou, na igreja, o sepultamento, a mortalha, a música fúnebre e o pagamento das mortuárias. As exéquias, no mesmo dia, foram assistidas na igreja, cheia de partidários do morto, muitos comerciantes e algumas autoridades, num ambiente tenso de olhares acusadores e de muita tristeza da irmã.

Na cerimônia, o comandante das armas fez a promessa de todos os esforços para encontrar o assassino que já estava sendo procurado pela milícia desde aquela manhã. Tropas tinham sido enviadas à Vila do Acará para investigar junto com as autoridades de lá.

Sem testamento, o espólio foi arrolado, enquanto Jorge voltava de viagem, os negócios tocados por Constância, com ajuda de Pantaco, na cidade, e do tapuia Buiú, na fazenda, pois mais entendia das ocupações já que vivia lá desde menino, sempre o braço direito do patrão.

No mesmo dia em que o navio aportou trazendo Jorge, Buiú chegava do Acará. Vinha trazer a farinha e buscar o de prover. Encontraram-se na Rua do Norte e seguiram juntos até o casarão onde o tapuia sempre dormia junto com os escravos.

O encontro de Jorge com a irmã e Pantaco foi mais de silêncios do que de cumplicidade; alguma coisa estava diferente, o escravo aumentara a intimidade com a irmã que parecia se submeter ao olhar dele. O acerto se deu poucos dias depois, venderiam e dividiriam tudo. Jorge queria viajar pelo mundo, Pantaco receberia sua pequena fortuna em moedas portuguesas como combinado e teria oficializada sua alforria. Constância sonhava morar na França.          

Começou desconfiar no dia do enterro, passada a cerimonia. Pantaco pareceu inquieto demais; nos dias em que ficou no casarão Buiú notou as pequenas coisas que aconteciam, incomuns antes da morte do patrão: o escravo dando ordens com voz autoritária, vestindo roupas que só poderiam ser do morto e recebendo incumbências da senhora sempre de portas fechadas. Quando acompanhou Jorge pela rua, no dia de sua chegada, viu a pouca bagagem que trazia, estranhou. Conhecia seus hábitos elegantes desde pequeno, ao contrário do irmão, um rústico, vivia folgazão, desfrutando do nome da família pelas altas rodas, sustentado como estudante, sem nunca ter pisado na escola em Coimbra.

Na casa, mal se via Constância, sempre pelos quartos trancada numa tristeza maior que o luto quando o pai morreu.

Buiú andou pelas ruas, nas bodegas e terreiros. Entre remeiros, aguadeiros, soldados, procurando saber o que comentavam. Nos ajuntamentos de escravos, apesar de proibidos, ouviu muito sobre política e deserções, nada do crime.

Procurou os conhecidos alugadores que viviam se gabando das mortes executadas, ninguém sabia de nada e, entre eles aquele caso era tido como coisa de família, muito escondida. Falavam que se fosse política saberiam, quem contrata vingança quer que todos saibam, modo produzir o temor. Fosse política, mais temor ainda.

O tapuio passou dias vigiando Pantaco até ficar, sozinho, frente a frente, sustentou apenas o olhar no susto dele, não disse uma palavra sequer. O negro, com o deixar cair dos ombros e o semblante, confessou. Foi a reação esperada, Buiú estendeu a mão esquerda espalmada e com a outra em perpendicular a palma estendida, fez pequenos movimentos batendo a direita rapidamente, próximo dos dedos, próximo do punho até ouvir no silêncio de Pantaco, concordância.

Dividiram a pequena fortuna e nunca mais foram vistos.   
 
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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

CURITIBA - MQ

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domingo, 13 de outubro de 2013

BERRANTE - MQ


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sábado, 12 de outubro de 2013

Danduca - MQ

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Os dois mastros da gambarra já apareciam ao longe, no lusco-fusco do dia. As carniceiras preparavam seus amanhos, sabiam dias longos pela chegada dos navios. Danduca, a mando de ganho, primeira a chegar, ficava no barranco esperando tarefa com os olhos compridos postos no horizonte, sempre assim.

Dela diziam fazer mandê escondida, por isso andava sempre com os olhos baixos, postos no chão; era arredia nas conversas, mas sabia ganhar na rua mais que todas. Retalhava uma dianteira com talhos rápidos, garantindo o serviço, esperava dia após dia e a cada um a destreza lhe garantia o lugar no açougue e a inveja das outras.     

Na verdade, esperava o remeiro Pycuryauá buscá-la. Viria cedo, antes do sol tingir a barra do Rio Pará. Tinha fé na santa, não nos rituais que lhe atribuíam fazer escondida; rezava todos os dias para que ele viesse logo e para que a santa perdoasse sua fuga.

 O combinado era Pycuryauá voltar à aldeia Urubu, derrubar a itaúba e lavrar a canoa para buscá-la; viria sem ser visto, escondido na noite, margeando até o barranco; dali remariam subindo pelo Acará, até encontrar as terras do Abaribó, sonho de todo escravo e de muitos servos.

Nos primeiros dias de espera, Danduca rezava quanto podia, assustada com a decisão tomada; depois mais ainda pela demora dos dias todos. Ouvia, na rua e no adro da igreja, as conversas sobre fugidos capturados. Ouvia sobre o temido João Cafute, descendente do cego Bocovó, famoso na memória dos mais velhos que usavam seu nome para amedrontar, principalmente os escravos novos.

Contavam dele histórias de muita valentia e ferocidade. Senhor de teres, escravos e haveres; sobreviveu ferido, trancado como comida, depois de uma emboscada; conseguiu fugir e acabou vagando e envelhecendo pelas ruas arruinado e louco,  dizendo-se o único a escapar vivo dos abaribós.

Danduca tremia de medo só de pensar na captura, pondo alcance, mandando aquele homem cuja alcunha, ascendência e fama atemorizava todos. Imaginava do que era capaz o neto do cego Bocovó;  via-se arrepiada, comutando o que destemia.

 Pycuryauá demorando mais que o tempo marcado... pensava desistir, conformar, mas queria mais ser livre. Rezava e esperava no barranco todos os dias antes do claro. Talhava a carne com a mesma rapidez que desejava, quando em fuga, impor aos remos e esperava pela outra manhã.   

Acompanharam, quando saíram do Açougue Grande, as pessoas se juntando nas ruas, formando uma multidão para ver o desembarque dos presos de Muaná, passando nas ruas, o escárnio da população, os reinóis  incentivando com imitações obscenas das janelas e portas do comércio, paramentadas como para uma procissão, as toalhas ornando chicotes, palmatórias e grilhões, numa atitude de desprezo com os mestiços e com os que queriam se juntar ao império brasileiro independente.

Danduca, desinteressada, mal passou os olhos pelos presos, nem se deu conta do olhar penetrante como lâmina afiada que João Cafute lhe dava enquanto vinha se aproximando por entre as pessoas que se afastavam, dando caminho. Ao vê-lo em sua direção, as pernas tremeram, a boca secou e a vista embaralhou. Acordou sendo abanada por ele embaixo duma sombra. Sobressaltada, se desvencilhou, correu como nunca. Foi como se visse o diabo em pessoa.

A vida passou a ser um tormento; esperar Pycuryauá todos os dias e nos mesmos fugir do diabo que a perseguia, e ele chegava cada vez mais perto, só não desrespeitava na rua por ser ela escrava de ganho de padre importante e influente. Rezava agora também para não vê-lo nunca mais no seu caminho, que fosse cuidar dos vezeiros de algum senhor.

 Mal a noite acinzentou o dia, ela já estava na sua vigília. A aragem trazia um frio no perfume da aurora que fazia o corpo de Danduca arrepiar. Olhava o horizonte, desesperançada quando ouviu um barulho farfalhento de remo batendo capim. Procurou seu rumo com o coração em disparada, sabia ser ele encostando a canoa nova no lugar combinado. Desceu o barranco apressada e deu de cara com João Cafute que a agarrou e dominou ali mesmo.

Seu corpo não apareceu, dada como fugida, nunca mais foi vista, seu dono nenhum anúncio pôs e nem contratou a captura. 

João Cafute passou a vida toda escondendo com os cabelos, a falta da orelha esquerda, enterrada dentro do corpo de Danduca.

 
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 12.10.13

ESPECIAL CHORO DAS 3

O RODA DE CHORO deste sábado será especial. Vai dedicar-se integralmente ao talento, ao virtuosismo e à graciosidade do CHORO DAS 3, originário de Porto Feliz, interior de São Paulo, formado pelas irmãs Corina (flauta, flautim), Lia (violão de sete cordas), Elisa (bandolim, clarinete) e ainda pelo pai delas, Eduardo Ferreira (percussão).
Na parte musical, composições dos CDs Escorregando e Boas Novas, lançados em 2012 e 2013, respectivamente.


Produção e apresentação: Ruy Godinho

Transmitido pela Rádio Câmara FM 96,9 Mhz - Sábado 12h [Brasília – DF] (www.radio.camara.gov.br)

 
Retransmitido por 148 rádios parceiras
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

ENTERRO - MQ

 
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

GESTOS DE CADA LUGAR - MQ

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Leia a obra completa aqui:
 
 
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

CANÇÃO DOS QUARENTA ANOS - RUY BARATA

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Poema, suspende a taça
pelos dias que vivi.
Espelho, diz-me em que jaca
mais fiel me refleti.
Quarenta anos correram
e neles também corri.
 
Quarenta anos, quarenta!
(Quantos mais inda virão?)
Morrerei hoje de infarto
ou amanhã de solidão?
Serei pasto da malária?
Serei presa do avião?
 
A morte engendra esperança
A morte sabe fingir.
A morte apaga a lembrança
da morte que vai ferir.
E em cada instante que passa
a morte pode surgir.
 
Quem pode medir um homem?
Quem pode um homem julgar?
Um homem é terra de sonhos,
sonho é mundo a decifrar :
naveguei ontem no vento,
hoje cavalgo no mar.
 
Hoje sou. Ontem, não era.
Amanhã de quem serei?
Um homem é sempre segredos
(Por qual deles purgarei?)
Dos meus netos, qual o neto,
em que me repetirei?
 
Que virtudes foram minhas?
Que pecados confessar?
Que territórios de enganos
a meus filhos vou legar?
A quem passarei meu canto
quando meu canto passar!
 
Ah! como a vida é ligeira!
Ah! como o tempo deflui!
Este espelho não mais fala
da criança que já fui,
das minhas rugas ruindo
apenas um nome rui.
 
Quede rede balançando?
Quede peixinhos do mar?
Quede figo da figueira
pru passarinho bicar?
E o anel que tu me deste
em que dedo foi parar?
 
Dezembro chama janeiro,
(fevereiro vai chamar?)
Monte-Cristo se me visse
não iria acreditar.
Como está velho, diria
a donzela Dagmar.
 
Um homem cresce espalhando
— o reino em que foi feliz. —
Onde Athos? Onde Porthos?
Onde o tímido Aramis?
Um homem cresce querendo
e cresce quando não quis.
 
Crescer é rima de vida
mas também é de morrer.
Crescer é terna ferida
que só dói no entardecer.
Em cada raiz da morte
há sempre um verbo crescer.
 
E cresço: macho e poeta.
(Subo em linha, volto em cor)
cresço violentamente,
cresço em rajadas de amor,
cresço nos filhos crescendo,
cresço depois que me for.
 
Cresço em tempo e eternidade,
cresço em luta, cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor,
cresço no povo crescendo,
cresço depois que me for.
 
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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ANTONIO POTEIRO - AIDENOR AIRES

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Ah, velho mago,
enfeitiçaste o barro!
Bom e antigo barro
que sonhava ser cova de semente
e corpo de tijolo.
Ao teu toque
e riso de Merlim caboclo
o barro se fez gloria,
o barro se fez riso,
o barro se fez dor.
 
Enfeitiçaste
com teus sortilégios
a cor que espreguiçava
no mundo.
 
Agora, vê o espelho
de tua traquinagem!
A cor não se contenta
em ser primavera, em ser manhã,
em ser noite ou floração;
toda a cor do mundo se rebela
e vem virar milagre
festa e pão
no território de tua casa,
no latifúndio de tua mão.
 
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domingo, 6 de outubro de 2013

Cidadania fugidia - Brasil Barreto

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Elites brancas
negras elites
brancos e pretos
fazem conversações.

Enquanto findo
sem cor, sem raça
híbrido como o sapo
sou povo na praça.

Sou sonho mestiço
mística mistura
como feitiço.

Sou moreno,
sem antídoto
para o veneno.

Sou mulato
meio tom
tom exato.

Sou a fuga
no meio da noite
sem disfarce.

No próximo ato
pardo me desfaço
em novo salto.

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sábado, 5 de outubro de 2013

Isabel - MQ


 
 
Isabel, seu nome. Descendia dos açorianos da Rua São Vicente, na Campina; daí a beleza vinha, retida na maneira elegante de se vestir; esparramava por onde passasse uma sensualidade impossível de não perceber. Viúva na flor da idade,  provocava a atenção dos homens e uma enorme inveja nas mulheres. Eles não perdiam a oportunidade de cumprimentá-la com cortesia e aquele ar malicioso de oferecimento que ela respondia com a indiferença de um leve movimento e um disfarçado sorriso no rosto.

Vivia na Rua de Santana, no casarão construído pelo finado engenheiro e botânico alemão Hans Wannier, seguidor das idéias do conterrâneo Grunfelts de transformar a cidade numa nova Veneza. Vivia só, pois filhos nunca tiveram. Do marido herdou a casa, alguma renda, o pomar farto, uma coleção de livros, pinturas e máscaras e os dois escravos: Luluce, a mucama e o negro de ganho Rafael.

Saía de casa todos os dias somente para a missa, olhar de viúva, discreto mas penetrante, sempre acompanhada pela mucama, sua sombra até na janela onde costumava ficar toda tarde, nos primeiros sinais de noite chegar. Com o tempo muitos desses hábitos foram mudando

O negro de ganho Rafael sempre chegava da olaria quando as duas estavam na janela e mal entrava recebia as ordens domésticas ou a incumbência, sempre de Luluce, levar carta para algum cavalheiro já conhecido, ou sair com ela para apontar o destinatário pelas ruas. Entregue o convite voltava pra casa e se recolhia nos fundos de onde era proibido sair.

Luluce preparava o banho com cheiros e óleos e assistia à sinhá se preparar com languidez. Ajudava a colocar a máscara de couro colada ao rosto, prender o cadeado, vestir sobre o corpo totalmente nu a capa preta e o capuz. Era como uma sombra no meio da noite, saindo pelos fundos para o ermo; ia sempre só se entregar ao cavalheiro escolhido naquele dia entre os que passavam em frente à janela do casarão ou aos que encontrava no caminho, quando ia à missa e mostrava alguém de seu interesse à escrava.

Foi assim desde o terceiro mês de viuvez, quando começou a experimentar as máscaras que o falecido deixou e encontrou aquela de couro que lhe cobriu o rosto como uma segunda pele despertando sensualidade e a volúpia que escondia no corpo e na alma.

Com a máscara no rosto e a noite entrando pelas janelas, desceu os degraus da cozinha, ouvindo os gemidos abafados, era Luluce e Rafael enleados em carícias e suores. Isabel apagou a vela, aproximou-se da fresta, e dali ficou olhando extasiada, parecia um sonho, cada movimento deles  fazia seu corpo vibrar, sentia rubor no rosto por debaixo da máscara, as pernas tremiam de desejo. No despudor se possuíam, nunca pudera imaginar possível ferocidade, ao mesmo que aquela suavidade os levando a uma espécie de delírio.

Voltou na escuridão para seus aposentos onde passou a noite quase toda acordada lembrando do marido, do quanto era doloroso não tê-lo em seu corpo. Nunca o vira nu, ele a ela também não; nos dois anos de casamento a usara calado, sempre às mesmas horas da noite, sem palavras, do mesmo jeito. Ela contida gostava, queria mais; ele não, era sempre assim, igual, mas gostava.

No outro dia, ficou na janela, esperando a noite chegar inteira, para espiar o casal.  Encontrou-os no escuro, dormindo. Voltou ao seu quarto, ansiosa, e começou a mexer nos livros do marido. Botânica, engenharia... folheando um por um sem qualquer curiosidade, apenas passando as páginas, ajudando a consumir o tempo.

Absorta, quase não percebeu aquele de capa vermelha, lisa, sem nenhuma identificação. Abriu ao acaso e começou a ler as histórias da corte veneziana que lhe chamaram a atenção pela descrição de formosura das cortesãs, a liberdade que tinham. Pôs-se a ler sem parar, só se dando conta do dia já estar claro com as batidas de Luluce na porta.

Passou o dia revirando os livros, ansiava encontrar outros, queria ler mais, saber mais, o assunto a interessava muito. Não foi à missa, esperou com ansiedade a noite para espiar os escravos, mal se continha para não fazer perguntas a Luluce.

Como na primeira noite que os viu, vestiu a máscara se olhando no espelho, sentindo-se a própria cortesã mascarada dos contos lidos, tirou toda a roupa e, nua como no livro, vestiu a capa preta com capuz. Esperou pelo silêncio das horas, apagou a vela na cozinha e desceu os degraus até os fundos.

Os dois se tocavam embevecidos com seus corpos, emitiam sons indefinidos, se cheiravam, se lambiam como animais. Seus corpos, molhados de suor, luziam nas sombras mortiças da vela. Isabel, na posição que estava, via Rafael por trás, o dorso, as nádegas sustentadas pelas coxas musculosas, passeando pelo corpo de Luluce que delirava de prazer. Naquela noite, viu o negro de frente, enorme, túrgido, com um vigor assustador, tomar a negra de todas as maneiras. O suor molhou Isabel, o corpo ardeu em desejo, relembrado em todos os instantes do dia seguinte.

Acostumou-se àquele ritual, de se preparar para vê-los todas as noites; numas apenas os encontrava dormindo vestidos, noutras os via nus se confundindo com a escuridão. Mas, quando a vela no quarto estava acessa, os momentos eram de êxtase. Isabel bebia com o olhar o corpo de Rafael e cada instante de lascívia dos dois.

Nunca poderia imaginar o que lia nos livros encontrados e o que via nas noites de Rafael e Luluce. Seus pensamentos agora obedeciam às sensações que sentia, olhava discreta, imaginando os homens nus, mesmo na igreja onde passou a ir menos. Olhava o padre celebrando a missa e se imaginava em Veneza onde os mais abastados, fossem do clero ou não, tinham seus encontros com as cortesãs.

De Luluce queria saber mais sobre os negros, ensaiava perguntar por que não apagavam a vela, qual a sensação de algumas carícias que presenciava. O animalesco do que via ao mesmo tempo que a assustava, a atraía. Queria viver aquilo sem se sentir em pecado. Pensava na luxúria dos venezianos, lia no livro cenas da cortesã com seu confessor e se sentia roubada de uma parte da vida, talvez a que quisesse mais ter vivido.       

Escolheu o primeiro, moço ainda, um vigor que nunca experimentara. Escreveu a carta com o convite recomendando ao escravo que nunca revelasse o missivista. Naquela noite, sem que o casal de escravos soubesse, o encontrou na grande samaumeira das matas de Nazaré. O jovem, ao vê-la abrir a capa, sua nudez perfumada de um desejo profundo, a perfeição do corpo e o rosto coberto com a máscara, assustou-se e correu como um louco. Ela voltou para o casarão certa de que nas cartas deveria mencionar que usaria uma máscara, para não assustá-los que assim o fazia para não ser reconhecida por ser casada e recatada.    

O rapaz no outro dia perguntou ao negro Rafael quem lhe enviara a carta. Este respondeu, como recomendado, não conhecer a dama, apenas entregava recados para quem se dispusesse a pagar alguns tostões.

 Daí, sem que nunca se dissesse nada, Luluce e Rafael foram conhecendo o segredo de Isabel, lutuosa na igreja, na janela do casarão e aos olhos de quem a visse mas, em algumas noites, era a dama nua, mascarada que se encontrava nos braços de quem escolhia para se ter.

Os escravos, sem nenhuma demonstração de conhecer seu segredo, foram ajudando a enumerar lugares ermos onde Isabel pudesse marcar os encontros, falavam no correr do dia de um lugar assim para que ela ouvisse. Comentavam a chegada dos navios, os negociantes, militares e cavalheiros que desembarcavam como se ela não estivesse prestando atenção. Com o tempo, Rafael a seguia de longe como o guardião do querer da ama.

Perto do Sumidouro, no fim das ruas do Rosário, da Alfama, da rua dos Cavaleiros, na casa abandonada na rua Formosa e, nos casos mais especiais, na samaumeira das matas de Nazaré; alternava os encontros para lugares diferentes, era sua segurança, depois do francês que passou muitas noites tentando surpreendê-la nas imediações do Sumidouro.

O tempo passava e Isabel com a cumplicidade do casal de escravos ia ousando cada dia mais na escolha dos destinatários de suas missivas, ao mesmo tempo que se acautelava no conteúdo delas; ora escrevia em francês, ora se dizia uma dama passando temporada na cidade, que era filha de reinóis. Ora pedia a Gabriel que desse a mensagem para outro escravo entregar.

A segunda carta que mandou, escolheu outro rapaz bem jovem, filho de ingleses, de olhos claros e penetrantes. Ao se aproximar, o viu caminhando de um lado a outro, sem percebê-la. Sentiu a sensualidade tomar posse, abriu a capa forrada de cetim vermelho deixando-a presa somente no pescoço. A curiosidade dos olhos do rapaz nem pôde se deter na máscara, o corpo de Isabel, contrastando com o vermelho do forro da capa e a generosidade do luar, o enfeitiçou. Em minutos, com o refinamento das cortesãs ela o deixou nu, com a intensidade e despudor que vira nos seus escravos o possuiu entre gemidos e soluços, beijando e cheirando seu corpo todo, cobrindo a carne rija e jovem com a sua volúpia e mistério.

Isabel vivia para aquelas noites, andava com desenvoltura pelas sombras das ruas, evitando as ratazanas, o escravo lhe seguia os passos mas nunca se aproximava muito do local dos encontros, ficava a meia distância, pronto para protegê-la.

A cumplicidade aumentava a cada dia que passava, os escravos percebiam quando a senhora não gostava do encontro, era quando ela mais os espiava, às vezes noites seguidas e, quando mais se mostravam, mais a luxúria impregnava nela e neles. Cada  carícia, cada olhar, o desejo ardia por horas, num prazer constante.

Luluce quem primeiro viu o ajudante do comissário das demarcações hospedado da fazenda Val-de-Cans, discretamente o apontou. Isabel lhe escreveu em perfeito espanhol. Os dois se tiveram madrugada adentro, o único com quem ela esteve mais de uma vez para estranheza dos serviçais, acostumados aos inúmeros destinatários das cartas. Intrigados, uma noite, Luluce resolveu ir junto a Rafael, de longe, acompanhando a ama.

No casarão abandonado da rua Formosa, a escrava quis chegar mais perto e espiar. O que viram os deixaram extasiados. Isabel sem a máscara e a capa, o cavalheiro nu a amava com energia e ao mesmo tempo com tanta suavidade que seus corpos pareciam exalar uma luz entrecortando o luar vazando do telhado arruinado. Parecia uma pintura, na verdade era um nascimento.

Poucos dias se passaram até ser encontrado o corpo nu, sem um vestígio de quem fosse. No embarque dos espanhóis  para o Equador, deram falta do oficial, desenterraram o desconhecido, era ele, comprovaram.

O negro Rafael que voltava todo dia com a carta a ele destinada, trouxe a notícia. Isabel, em prantos, ficou trancada por muitos dias, lembrando cada instante com o amante espanhol. Desgostando de olhar os escravos pela janela, desinteressada de escrever outras cartas, entristecia um pouco todo dia.

O casal de escravos procurava agradá-la nas menores coisas, mas entristecia com ela. Para eles, a alegria veio com a gravidez de Luluce e contagiou Isabel. Um vestígio da cumplicidade voltava a rondar, uma carta foi escrita mas o encontro não se deu. O cavalheiro não apareceu. Outras houve, mas nenhum dos destinatários foram encontrá-la.

Isabel nem importava, voltou a espiá-los. Os dois não eram os mesmos, ou seus olhos não viam igual antes, pensava. A tristeza voltava. Olhava Rafael com desejo de vê-lo com Luluce no despudor que a incendiava de desejo. Não via. Acostumou a não escrever mais, não usar a máscara e raramente ir vê-los.

Já era muito tarde da noite, quando ouviu chamar. O archote na cozinha aceso fazia as sombras da parteira, bruxuleando, parecer mau agouro. E era. A criança tentava nascer do corpo morto da mãe. Luluce parecia dormir serenamente. Rafael encurvado num canto chorava sem lágrimas. A criança viveu um instante apenas.

Foram tempos de muitos silêncios, nem a estabanada tapuia trabalhando na cozinha com a escrava alugada conseguia um ralho da senhora. Rafael chegava e dava contas a Isabel cabisbaixo, sem palavras. Um dia, surpreendeu o escravo a olhando de maneira diferente, enxergou desejo. Sentiu desejo.

Sozinhos, uma noite, pediu vinho do porto e lhe ofereceu uma taça; pediu que sentasse e começou a ler a história da cortesã mascarada visitando o príncipe mouro. Nem chegou a metade, olhou para o escravo tentando ver sua reação. Ele estava dormindo sentado com a taça quase vazia na mão; parecia que o cansaço e uma tristeza estranha o possuíam.

Isabel fechou o livro, olhou por instantes Rafael adormecido e, sem acordá-lo, foi se recolher com uma ponta de malícia sorrindo nos lábios, depois de buscar a máscara e a capa de cetim e deixá-las do lado dele.

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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 05.10.13
 
ESPECIAL ROGÉRIO CAETANO
 
O Roda de Choro deste sábado será especial. Vai dedicar-se integralmente ao talento, ao virtuosismo e à criatividade do violonista goiano Rogério Caetano, que teve sua formação musical em Brasília e hoje brilha no Rio de Janeiro como um dos mais requisitados violonistas sete cordas do Brasil.
Na parte musical, composições dos CDs Pintando o Sete e Só Alegria.
  
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
 
 
  Transmitido pela Rádio Câmara FM 96,9 Mhz - Sábado 12h [Brasília – DF] (www.radio.camara.gov.br)
 
Retransmitido por 148 rádios parceiras
 
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

FRATERNIDADE EMBRIAGADA - WANDA MONTEIRO


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Na fumaça dos cigarros
Há uma música triste
Tons de cinza
E uma aroma de nicotina

Na conversa com gosto de álcool
Há um quê de esquecimento no mofo de cada palavra cuspida no chão
Há o peso da voz
Línguas afogadas em impropérios
Gestos trôpegos
E um salmo profano de risos cínicos e frouxos
Riem
Como se sorrir fosse enganar a morte

Na mesa úmida de histórias
Um prato gordo de pecado
Copos cheios de ilusão
Doses diárias de anestésicos
E um colóquio de olhares selando a cumplicidade

O ranger de cadeiras sangra um chão sujo de cinzas e de palavras

A fraternidade embriagada senta-se à mesa para negar a realidade
E vomitar sobre a lucidez

Há vermelho e calor
É o escárnio da dor travestida de alegria
Que subverte e resvala na madrugada dos homens

É a madrugada dos homens
E o soturno de sua solidão.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013