terça-feira, 26 de maio de 2015

Rua de Cima - MQ


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O cavalo de judeu pousou no balcão da venda. Dé Cristão bateu a mão em cima, arrancou a cabeça, jogou fora e comeu o resto, jogando a pinga por cima. Ninguém nem reparou. Todos já estavam acostumados ver ele sentar na venda, beber e comer tudo que andava, voava, nadava ou rastejava. Era nojento, mas era o costume dele.

De cristão só o nome. O resto não tinha nada. Era um sujeito que, diziam, aprendera com a mãe, dona Filinta, a ter governo só pela paga. A viúva, não se sabia de quem, morava na última casa da rua. Um lugar que dava medo em qualquer um.

Dele, se dizia de tudo. Que nunca dormia, que comia de um tudo, mas só cru. Que tinha parte com o diabo e não dava conta de contar quantos já tinha despachado para o inferno ou para o céu; vai lá saber o merecimento de cada um. Não escolhia ferramenta para o serviço, isso era só na hora. Única coisa que aceitava combinação era na paga, o jeito de fazer o serviço, esse não.

Quando perguntado pelo oficio, respondia.

 

- Ninhum.

 

Calado demais, rir ninguém ainda vira. Quando estava à toa, era na venda do Manco, bebendo cachaça. Chegava, batia no balcão.

 

- Como vai, seu Dé?

 

- ...

 

Pegava a garrafa no balcão e dali não saía prosa nenhuma.

Dos poderosos, não havia quem não tivesse tido Dé Cristão a seu serviço por algum tempo, e era isso que garantia ele andar por onde quisesse. Até o delegado chamava ele de seu Dé.

Fora do ofício, não fazia mal a ninguém. Era até respeitador: o medo que tinham dele ajudava muito, apesar de saberem que ele não tinha luta sua, só labutava na dos outros.

Em qualquer lugar que fosse, não ia só. A uns cinqüenta metros acima de sua cabeça, sempre o urubu-rei, voando em círculos. Se parado, ele pousava no perto, vez ou outra no ombro de Dé. A noite, na casa, diziam que ele dormia empoleirado na guarda da cama. Mas quem conversava com o urubu-rei era a mãe. Ele era os olhos dela.

Quando em serviço de passamento, tocaia ou coisa carecida de despiste, o bicho sumia; mas não sumia não, voava muito alto para ninguém ver. Na morte semeada, chegava logo. Bicava a melhor parte e seguia no depressa do acoitamento com Dé. Quando era serviço de guarnição, com companheiros, tomava a dianteira ou a traseira para dar os avisos de que carecessem.

Mês de maio, Dé Cristão voltando da empreita, tendo que margear o Corumbá, no rumo contrário do rumo para misturar rastro. Serviço feito com gente de família grande e importante, carecia cuidado melhor em acoitar nos caminhos.

Urubu-rei deu aviso; era a tropa do Baldino seguindo estrada com uma moça. Entrou no mato, se escondendo. Baldino parou para pouso. Dé Cristão ladeou subindo no corte do morro até varar doutro lado, no emparelho do caminho.

Chegou madrugada minguando no dia. Esperou o Manco abrir a venda, bebeu sua cachaça até o meio da manhã. E foi para casa.

À medida que ia subindo a Rua de Cima, começou a notar os urubus nas taquaras das cercas, nos telhados, nas mangueiras dos quintais. Pôs atenção, não viu o urubu-rei. Voltou à venda e não achou o bicho. Desassossegou, foi no trote rua acima. Ao se aproximar da casa, eram mais urubus assentados nas cercas, nas casas e nos lugares. Quando deu na vista a casa da mãe, o telhado estava preto, a cerca, o terreiro também. Nunca vira tanto urubu. E o urubu-rei voava em círculos, baixo, soltando um grito estridente. Dé Cristão chegou no galope e apeou correndo antes do cavalo parar. Os urubus assentados nem se mexeram. Dé entrou pela porta da casa gritando:

 

- Mãe...

 

O corpo estava estendido no rabo do fogão; fogo ali não havia há dias, o corpo já exalava cheiro. Dentro da casa, nenhum urubu, a não ser no batente das janelas abertas. Dé Cristão enterrou a mãe ali mesmo no quintal. Quando acabou, nenhum urubu.

Antes de entrar pela porta da cozinha, ainda com a enxada na mão, quatro tiros acertaram seu peito.

E o urubu-rei soltou um grito estridente ao longe.

 

 

 

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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Zelé - MQ


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Açodando o passo iam pela madrugada, a chuva fina, de novo, começava a cair encharcando a capa estendida sobre a cabeça dos dois. Ela toda encolhida, com frio, esforçava andar mais depressa e puxava o corpo de Gentil para esquentar o seu.

Passando na porta da igreja, Zelé vinha apagando as luzes dos postes. O claro do dia entrava no Arraial e a chuva engrossando, sobrepunha o fusco, embaralhando o que se enxergava.

Zelé viu aquele vulto estranho passando do outro lado da rua, não distinguiu quem, hora de quase missa o certo era eles estarem indo para igreja, não como saísse dela. Coisa de noite feia, pensou, mas logo esqueceu, continuando a lida.

Na noite seguinte, clara e estrelada, madrugada fria, Zelé lembrou do vulto quando vestia a capa. Foi subindo a rua pensando fosse a parteira Júlia indo aparar alguém ou seu Arcílio da farmácia acudindo algum doente. Nesse pensamento, foi descendo a rua. No terceiro candeeiro, concluiu não ser possível pois nenhum deles morava na direção de onde o vulto vinha e nem para onde ele ia. Um dia, se lembrasse ia perguntar.

Passou mais de mês, até já tinha esquecido daquele assunto, ao apagar o último poste atrás da igreja, viu saindo do cemitério um vulto, mais magro, quase certo o mesmo daquela noite. Zelé, homem sozinho no mundo, já tinha visto tantas coisas no escuro da noite, parecendo ser o que não era, que já nem ficava assustado. Coragem não faltava, lidava com tudo sem assombro, no mais real.

Sem reconhecer quem fosse, mesmo tendo visto ele antes de apagar o último candeeiro, Zelé acabou o serviço naquele dia e, como quem não quer nada, foi visitar seu Zé Coveiro na intenção de descobrir alguma coisa. Conversaram a manhã toda mas nada na conversa dele deu pista de quem pudesse ser. Naqueles mais de seis meses, o único enterro foi o da moça Aurora, filha do seu João Bastos, que morreu de tuberculose. Enterro dos mais tristes, o marido, casado de novo, dava dó. Dizia Zé Coveiro.

Ficou Zelé, dali em diante, por quase o mês vigiando o cemitério, apagava o último candeeiro no fim da rua e se escondia na sombra esperando ver quem entrasse ou saísse. Nada aconteceu naquele tempo, Zelé foi esquecendo o assunto. Uma tardinha ele viu sair do cemitério dona Celeste, mulher de seu João Bastos, e naquela madrugada resolveu esperar mais uma vez.

O céu choveu todo naquela noite, estiando perto do romper do dia, para sua surpresa não era um vulto e sim dois, para seu espanto era Gentil e a moça Aurora entrando no cemitério, o susto foi grande mas Zelé não se revelou escondido.

Hoje, ele vigia a hora de Gentil buscá-la e vai na frente apagando os candeeiros, das ruas onde os dois passam, para ninguém descobrir aquele segredo das madrugadas do Arraial de Nossa Senhora da Conceição.

 

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domingo, 24 de maio de 2015

JOÃO PERNAMBUCO - O POETA DO VIOLÃO

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Donga, não identificado, João Pernambuco e Pixinguinha (1913)


JOÃO PERNAMBUCO - O POETA DO VIOLÃO



João Teixeira Guimarães nasceu em Jatobá, sertão pernambucano, em 02/11/1883 e faleceu no Rio de Janeiro em16/10/1947.

Com uma muda de roupas, seu violão e muitos sonhos, desembarcou João, aos vinte anos de idade, na então capital da República. Trabalhava como ferreiro em jornadas de até dezesseis horas diárias. O pouco tempo que lhe restava era dedicado ao violão. Para os seus amigos e admiradores, em número sempre crescente, contava e cantava coisas de sua terra, daí o apelido de João Pernambuco.

Já em 1908 era considerado um dos bambas do Choro, ao lado de nomes como Quincas Laranjeiras, Ernani Figueiredo, Zé Cavaquinho e Satiro Bilhar. Paralelamente ao Choro, desenvolvia seu trabalho nas canções regionais através de composições suas e de violeiros e cantadores nordestinos. João Pernambuco também cantava e cantava bem. Nas cordas, além do violão que manejava com maestria e no qual desenvolveu uma técnica peculiar, era hábil na viola. Compôs mais de cem músicas entre choros, valsas, jongos, maxixes, emboladas, toadas, cocos, prelúdios e estudos. Suas composições mais conhecidas são Luar do Sertão(parceria com Catulo da Paixão Cearense) e Sons de Carrilhões.

É a obra deste grande homem, grande em estatura (1,84 m) e em caráter e que traz em seu apelido o compromisso com o seu povo que iremos agora focalizar. Esta obra possui duas vertentes bem distintas: a violonística e a sertaneja.

A Canção Sertaneja foi consolidada a partir da aceitação popular da toada Caboca de Caxangá, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense e da importância que teve a participação de João Pernambuco apresentando canções folclóricas no Ciclo de Conferencias sobre Temas Folclóricos organizado por Afonso Arinos de Mello Franco e realizado em São Paulo em 18/12/1915.

João Pernambuco organizava grupos cujos integrantes usavam trajes típicos e adotavam nomes de famosos cantadores nordestinos como p.ex: Grupo Caxangá, Troupe Sertaneja e Trio Viriato Correia/ Storni/ Pernambuco. Participou também,entre 1919 e 1922, do conjunto Oito Batutas que mais tarde alcançaria fama ao excursionar pela Europa. Antes disto Arnaldo Guinle financiou uma excursão deste conjunto pelo interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo e ao Nordeste, com o intuito de recolher material folclórico. A presença de João, já reconhecido como autoridade no assunto, foi de fundamental importância nesta empreitada.

Graças a influencia de João Pernambuco, vieram ao Rio de Janeiro na década de vinte do século passado os conjuntos Turunas Pernambucanos, Turunas da Mauricéia e A Voz do Sertão. Com estes conjuntos vieram músicos maravilhosos que alcançaram grande projeção por aqui, como foi o caso de Luperce Miranda, Augusto Calheiros, Jararaca e Ratinho. O cego Manoel de Lima e Jaime Florence, mais conhecido como Meira. O sucesso destes grupos acabou por influenciar grupos formados no Rio como o Bando dos Tangarás(Integrado por Noel Rosa, Almirante e João de Barro dentre outros), e em São Paulo principalmente, onde a partir de 1927 viveu a canção sertaneja o seu apogeu, que duraria até 1935. Surgiram então os Turunas Paulistas, os Batutas Paulistas, o Conjunto Verde-Amarelo, os Chorões Sertanejos, a Orquestra Colbaz e o Sexteto Bertorino Alma.

Os interpretes mais representativos desta fase foram Paraguassú, Raul Torres, Jaime Redondo, Januário de Oliveira, Stefana de Macedo e Elsie Houston-Péret.

Integrava estes grupos uma geração de músicos do mais alto nível como Gaó, Alberto Marino, Atílio Granny, Zezinho do Banjo(que seria conhecido depois como Zé Carioca), Jonas Aragão, José Sampaio, Aymoré, Nestor Amaral e Garoto.

Como retribuição àquele que tanto fez pela divulgação desta música, foi justamente em São Paulo que João Pernambuco gravou a parte mais expressiva(em qualidade e em quantidade) de sua obra em ambas vertentes. Nestas gravações foi acompanhado com extrema competência por Zezinho(Zé Carioca) e teve em Stefana de Macedo uma graciosa intérprete de suas músicas.

A santíssima trindade dos precursores do violão brasileiro é constituída por Quincas Laranjeiras, João Pernambuco e Levino Albano da Conceição e a obra violonística de João era de tal densidade e profundidade que a ela assim Villa-Lobos se manifestou: “...Bach não se envergonharia em assinar os estudos de João Pernambuco como sendo seus...”. O renomado musicólogo Mozart de Araújo não fez por menos: “João Pernambuco está para o violão assim como Ernesto Nazareth está para o Piano”. Reza a lenda que o notável Agustín Barrios numa de suas vindas ao Rio de Janeiro emocionou-se ao ver João tocar e dedicou-lhe o seu Choro da Saudade.

A edição em partituras de várias músicas de João Pernambuco,através do esforço do grande violonista Turíbio Santos, acabou por despertar o interesse de muitos violonistas sobre esta obra. Em pouco tempo, estas peças seriam obrigatórias no repertório violonístico.
Importantes na divulgação desta obra foram os trabalhos “Caio César interpreta João Pernambuco,vol 1”; “João Pernambuco, o Poeta do Violão” e “Descobrindo João Pernambuco”, estes dois últimos devidos a Leandro Carvalho. Por ocasião do centenário de João, a Funarte produziu um LP com Antonio Adolfo e o Nó em Pingo Dagua, uma biografia “João Pernambuco-Arte de Um Povo” de José de Souza Leal e Artur Luiz Barbosa e um caderno de musicas com arranjos de Maurício Carrilho e Antonio Adolfo.

João Pernambuco possuía muitos amigos, como Quincas, Patrício Teixeira, Rogério Guimarães, Zé Cavaquinho, Levino Albano, Aymoré, Armando Neves, Donga e Pixinguinha, Meira, Luperce Miranda , Almirante, Villa-Lobos,Dilermando Reis, enfim, uma lista interminável! Mas não se deve esquecer a importância que João teve na formação artística de um gênio de nossa música chamado Pixinguinha. Amigos desde 1912, Donga, Pixinguinha(este com quatorze anos) e João moravam numa república na rua do Riachuelo 268. Era de lá que saia nos carnavais o Grupo Caxangá e foi também nesta época que produziram Sabia, Os Três Companheiros e Estou Voltando. Estiveram juntos de 1914 até 1919 no Caxangá e de 1919 até 1922 nos Oito Batutas, que nesta fase era um conjunto predominantemente sertanejo.

De 1928 até 1935 morou João Pernambuco no casarão da Av. Mem de Sá 81, onde funcionava uma republica que abrigava, em sua maioria, a músicos e jogadores de futebol. Lá João organizava animadas e concorridas rodas de choro que contavam com a participação de Donga, Pixinguinha, Patrício Teixeira, Rogério Guimarães e, ocasionalmente, Villa-Lobos.

Foi também neste lugar que João conheceu, por intermédio de seu amigo Levino, um então jovem e promissor violonista chamado Dilermando Reis.

João Pernambuco foi reverenciado por grandes violonistas como Garoto, Baden Powell, Paulinho Nogueira, Rafael Rabello e hoje em dia suas músicas são executadas por violonistas de várias nacionalidades.

Este é João Pernambuco, o Poeta do Violão!


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Rudiei Arrependidos - MQ

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Rudiei Arrependidos evitano conferição. O sol no alto da tarde num deixava firmá as vista e no arrodeio me vi perdido. A mulada no desassussego de caminho novo, agitada, andava no ponto do disparo.

I’eu num avuliava nada não, o senso ficava só no pensá em Mundica, filha mais nova de seu Tertuliano e dona Idalina, primor de donzela, fosse nas prenda ou nas anca farta, era toda buniteza vazada nos zói noturno, mostrano só iscundição.

Quando dei fé, Toconha já tava atolada pelo meio das pata da frente e lutava prá saí do atolo.

 

- Êia, Ojero.

 

Gritei p’ro guia, parando a mulada.

Labuta de mais de dia prá tirá ela da grota e mais otro no secá da porva. Inda sem sabênça do caminho.

Subia corte, descia grota, indo pur onde o intuí apontava e era como cumulá cordão em novelo, marrando ponta de caminho em cumeço de caminho, era só disguverno, o rumo. Num achava o Veríssimo nem topava cum o Braço.

Nos contá mais de trinta légua, pelos dia passante, e nada de vê o do cunhecimento. Nem grota, nem campo, siqué um buriti, nada duma barranca de rio. E o mato ingrossano em toda ponta de caminho. As mula tudo cansada sem custumá cum essa modalidade de istrada.

Assombro de noite sem lua, medo de onça, d’eu e das mula, quando a dita urrava no em longe.

Às veiz Mundica paricia, nos lembrá, sustentano a corage.

Cunhicia tanto os caminho, num dava prá criditá tamanho ismazelo meu, nos rumo da evitação.

Tava no entremeio dos pensá quando Ojero istancô e oiô prá trais como pedisse silenço. Inrolei meu cigarro de paia nesse tempo. Ojero, num balangá de cabeça, mudô de caminho, quase no trote, até chegá na bera do Braço. Agora era rio acima até Tertuliano.

Chegamo era noite formada, descarrego e sossego na durmida. Paricia até que num levava aquela carga; medo tinha não, receio de luta era só pur Mundica, i’eu robava ela quando a jagunçada cumeçasse a chegá. Ela havia de querê.

Engano meu, no manhecê a jagunçada já tava toda lá. Firmino contô que eles pois reparo n’eu chegá, mais sabia que era a porva e num parecêro prá num ajudá no descarrego. Quando fui recebê a paga, pude vê por entre o vurto de seu Tertuliano, encostado no batente da porta, que dentro da casa só tinha jagunço, de Mundica, a irmã e dona Idalina, nem sombra.

Me dispidi e tive istrada, caminho de Entre Rios, na esperança de sabê de Mundica, sem fazê perguntação.

Já num bom prumo de caminho, no bebe água no Lajeado, me cercô uns deiz jagunço, puis atenção só num, que vi logo, era agregado dos Costa. Mais num era o comando não. O das orde cunheci logo, ficô mais à distança e foi logo pirguntano.

 

- Que qui o cristão deixô p’ro Tertuliano?

 

Minhas perna trimia, era o falado Dé Cristão.

 

- Incumenda de porva, seu moço. Falei cum toda firmeza que achei.

 

- Acumpanha nóis, ixigiu Dé Cristão.

 

I’eu dentro dus pensamento, no meio da guerra e sem nem sabê o purquê da rilia. Mais perguntá, perguntava não.

Na chegada, seu Germano Costa na porta da casa cum as perna afastada e as mão na cintura, jeito de gente infezada.

 

- Esse um que troxe a porva, pode sangrá ele? Disse Dé Cristão.

 

Num abri a boca, esperei seu Germano falá.

 

- Quanto de pólvora o senhor trouxe e como passou Arrependidos?

 

- Seu Germano, vim cum a mulada toda carregada e, no Arrependidos, arrudiei, como fiz p’ro sinhô quando careceu. Num puis sabença na rilia de ninguém, labuto só cum o ofício, sem carecê perguntação.

 

Respondi juntado toda corage.

 

- Deixa ele ir. Falou seu Germano

 

Só virei a rédia da mula passando rente a jagunçada, juntei a tropa e ganhei istrada. A parada foi só na venda do Manco, cum o abrando do susto tirado no sigundo gole.

A nutiça da briga já varava mundo no contá do povo e parte pur falação do Manco que, mal cheguei na venda, já foi logo contando o mutivo da disavença.

 

- O povo pensa que a rilia é pur causa da Aguada do Buriti, mais num é não, é coisa mais antiga. A Aguada do Buriti foi o intorno da réiva dum cum otro. Isso cumeçô purque Germano quiria casá cum dona Idalina e o pai dela num pois gosto. Tertuliano cabou casano cum ela; Germano nunca conformô e cumeçô a riliação. Primero, foi pur causa dum boi dele que pareceu no manguero de Tertuliano, Germano deu parecença de robo. Depois na festa de Nossa Senhora da Conceição, os dois era festero, rumação do padre Crispino, que Deus o tenha, no criditá que acabava cum a disavença. Que nada, os dois brigava até dentro da igreja, o padre ficava doido. Quando Mundica imoçô, abrandô a confusão; diz que Germano, já viúvo, punha muito gosto nela; no passá do tempo até agrado os vizinho trocô.

 

Meu sangue nessa hora freveu, mais num dei demonstra. O Manco recomeçô.

 

- Ele pois o olho em Mundica e dona Idalina, cada dia, punha mais reparo nos oiá dele. Um dia falou cum Tertuliano e ele brabo perguntô à Mundica se era do gosto dela, a agradação daquele véio. Mundica assustada disse que não e ficou desacorçoada num canto da varanda, medo do pai casá ela. Antes que Tertuliano pudesse ir tirá satisfação, Germano apareceu e pediu Mundica em casamento. Foi muito desassussego p’ros dois, mas na iducação, num teve cunsintimento e Germano saiu de lá nos pur fora em paiz mas, no de dentro, a réiva cunsumia.

Alívio meu.

 

- Desse dia em diante, num houve sussego. O negá da mão de Mundica foi agravo difinitivo, até cerca teve que fazê na Aguada do Buriti que agora é chamada de Buriti Cercado. Nunca ninguém viu tanta brigaiada.

Agora, dum mais de mêis prá cá, é essa ajuntação de jagunço. Tertuliano já mandô até dona Idalina mais as mininas cá p’ra rua, na casa de Anacleto.

 

Era só o que carecia sabê.

Fui pôr trato nas incumenda de seu Anacleto e dona Fia e lá, entre o proseio e os apontamento, pude vê Mundica, mais sinal num fiz. Quando o coração intende, o resto do corpo acumpanha. Desse dia em diante, passei a ficá pela madrugada na frente da casa, fumano um cigarro de paia atráis do otro p’ro lume apontá p’ra Mundica minha isperação. No tercero dia, um sinal de lamparina. Fui lá e na janela cumbinamo o dia.

E nesse, robei a moça.

 

 

 
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sábado, 23 de maio de 2015

ENQUANTO ISSO... - MARCO ANTONIO QUINAN


Enquanto isso...

O silêncio vence o zunido dos projéteis num morro no Rio.

O gerúndio se transforma em particípio.
O relógio anda uma casa e milionários do petróleo ganham mais três, antes da vírgula.
Parte da geleira no Ártico se desprende, trazendo de novo toda a discussão do aquecimento global.
O portuga da padaria nega um pedaço de pão a um aidético maltrapilho. A mitocôndria respira.
Descobre-se mais uma cura para a doença, e a indústria farmacêutica a compra silenciando de imediato.
Enquanto isso é estourado mais um cativeiro no interior do Mato Grosso.
Alguém joga fora o comprovante de compra de algo que irá reclamar depois.
Muita gente ainda acredita em Reforma Tributária.
Uma criança cai da cadeira tentando espantar um louva-deus.
No Nordeste, o Rio São Francisco está morrendo em certas regiões do país, onde moradores nordestinos não conseguem simplesmente sobreviver.
Um mendigo cambaleia na Avenida Paulista com uma rosa vermelha na mão e, poeticamente na paisagem cinza, colore a foto.
Um pai sorri para o próprio filho depois de perder o tio, que tanto adorava, pras falências da carne.
Enquanto isso, a cultura do ódio se instala paulatinamente numa sociedade, livre de expressão e aprisionada em sua liberdade de desenvolver.
Enquanto isso, alguém esfaqueia outro semelhante, num crime hediondo, e, agindo naturalmente, como quem quer um pedaço daquilo que o outro tem como se fosse seu por direito.

Enquanto isso...

Meu filho dorme e quando acordar eu preparo um mundo novo a ser descoberto, uma distopia de um universo paralelo, onde a felicidade não é tamanha, e sim pequena, fracionada, e acontece em cada momento que estivermos juntos.

MAQ

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ENTÃO, FOI ASSIM? - RUY GODINHHO

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O programa Então, Foi Assim? deste sábado, será inteiramente dedicado à parceria do compositor fluminense Ronaldo Bastos com o cantor e compositor carioca Celso Fonseca, que rendeu músicas memoráveis.
 
Na ocasião eles revelarão as histórias de:
 
- Sorte;
 
- Satélite bar;
 
- Ledusha com diamantes e
 
- Polaroides.
 
 
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde na Nacional FM com retransmissão para mais de 240 emissoras em todo Brasil.

 
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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sexta-feira, 22 de maio de 2015

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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No 1º bloco o destaque vai para o Turíbio Santos e o Conjunto Choros do Brasil e o som do CD Valsas e Choros, de 1979.
 
No 2º bloco, o destaque vai para o veterano cavaquinista carioca Valmar Amorim e seu primeiro CD autoral Um Cavaquinho Para Todos os Gostos, lançado em 2007.
 
No 3º bloco a tônica vai para o duo paulista formado pelo violonista Alessandro Penezzi e pelo saxofonista Proveta e o som do CD Velha amizade, lançado em 2011.
 
No 4º bloco vamos destacar a o lançamento do CD homônimo do cantor e compositor piauiense Clodo Ferreira;
 
E para finalizar, o destaque é o multi-instrumentista paraense Luiz Pardal e o CD Luiz Pardal - Projeto Uirapuru.
 
 
 
 
Roda de Choro, sábado, meio dia pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz, de Brasília, retransmitido em mais 205 emissoras pelo Brasil, Japão e Angola.

Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Perdoado Quenzim - MQ


 

Lá vem me atentar. Já não chega o aborrecimento de ver aquela torre ficar quase mais alta que minha cumeeira, ele, depois que chegou para dar acosto ao vaqueiro Quenzim, não sai daqui do curtume. Pensa que não vou disputar direito. Quenzim já emporcalhei com cachaça e no jeito de matar os bois. Esse tempo perco é não.

Ele que continue vindo aqui, exibindo a torre, fazendo o que quiser. Incomoda não. Pode pôr sino, cruz, mandar fazer afrescos, avisto mas não tenho que levantar a cabeça, nivelo com a altura da cumeeira, perde tempo o colega. Esse vaqueiro é um fraco, basta um gole de cachaça para desarrumar ele. O vivente já vem com a natureza dele. Adianta ir na igreja? Aprender reza nova?

Cerco ele, pego a beleza, cochicho no ouvido:

 

- Depois do gole, é sua...

 

Esse mundo é um de quem quer, de quem sabe pôr arrelia é também. O colega cerca Quenzim. Eu não fico só no de longe esperando a hora de açular no tempo dum gole para destravar o real dele. Com esse lido só quase com cachaça, é o que põe ele no fraco.

Adianta o colega ficar grudado nele? Cochichando caridade no carecer dele, aferro à-toa. Quenzim põe o olho na arroba do boi e eu assopro no ouvido dele.

 

– Leva um pedaço por conta da caridade do patrão, faz guizado...

 

No juízo dele só ponho a favor, o colega põe até perdão, quer de qualquer jeito. Aproveito o ouvido.

 

- Toma pinga, faz de novo...

 

Meu jeito é esse, descubro a fraqueza primeiro. Vou cevando o vivente com coisinhas que o colega nem percebe. Esse de agora, o Quenzim, menino ainda no alambique do Tartulfo, onde o pai trabalhava, quando foi pegar a caneca de garapa, o colega distraiu e eu assoprei:

 

- Prova daquela lá...

 

Descobri a fraqueza. Hoje, só atento com o gole, o resto vem junto na natureza dele. E o jeito dele matar os bois? Não reparou nas maldades que fui bafejando, devagar, anos e anos, daqui da cumeeira.

Agora o colega vem de novo me afrontar com o perdão de tudo? Por que não deixa Quenzim acabar de estrebuchar, sangrando nesse chifre afiado? Por que não larga mão dele? Já não chega o abodego daquela torre ficar mais alta que minha cumeeira?

 

 

 
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quarta-feira, 20 de maio de 2015

São Jorge - MQ

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- Soçobro de rompê essa légua no passo lento. Duas junta. Teimosia de seu Eulálio, magina querê que tocasse os animá no vagar, sem afobo, mais querê tamém que andasse ligero, cum coisa que ia adiantá muito chegá antes do armoço, sei do afobamento dele, entrante o mêis de coiê, mais sei tamém da preguiça de Damin mais Nestor em lidá com o que fosse em meio de manhã. Essa hora pr’eles é de esperá Mazinha chamá prá cumê.

- Andá em recumendo de patrão nem ataio posso fazê por dentro das terra do Sapindó. Recumendô pr’eu pará nus cubertão de mato prá descanso dos animá, nos prazo, de hora em hora. Ê lida! Envou nesse mole... lerdera. E se os boi amuntá no barranco? Mania essa de seu Eulálio tocá boi cum canga, só prá omentá o sirviço, fosse ele o boi, ia vê.

- Nem mei de caminho ainda, diacho, mormaço cansa mais nesse andá lerdo. Quando chegá, banho no poço, armoço e me deito todinho no paiol.

- Que é isso, meu boi? Serena a brabeza, vem cá, meu boi, êi, êi ...

 

Nessa hora, no tanger as duas juntas, amarradas uma na outra, subiram no barranco, Felício desgovernou o corpo amolecendo o equilíbrio, jogando cavalo, cavaleiro e os bois encangados na grota coberta pelo mato fechado. Ao cair, a barrigueira do arreio rebentou ficando o pé de Felício enganchado no estribo, enlaçado pelos pedaços, misturado com os galhos e cipós daquela beira. De cabeça para baixo, pendurado, tentando se erguer, Felício via a agonia dos animais, mal cabendo no buraco, sem ter por onde sair. Procurava um jeito de erguer a cabeça, já não agüentando a posição. Não tinha como cortar o estribo, a faca, com o tombo, caiu da bainha. No braço e no rosto uma ardência que mal deixava ele pensar, como que paralisado, rezava para São Jorge.

 

- Meu Santo cavalero, ajuda i’eu.

 

Nem bem acabou de invocar o santo, ouviu um barulho de mato e viu aquele homem com a espingarda na mão e o cachorro cheirando tudo ao redor.

 

- Precisa de ajuda?

 

- Sim, tira i’eu daqui que envou caíno... o sôr chega naquele pau faiz firmeza com uma mão e me dá a otra. Vou ficá no gradecido, seu moço.

 

Ajudado, Felício conseguiu com muita dificuldade retirar os animais da grota para seguir viagem. Agradeceu ao caçador e depois de explicar como aconteceu aquela situação pôs os animais para andar. Já na distância, agradeceu ao santo em pensamento.

 

- Obrigado São, Jorge.

 

O estranho respondeu, gritando de longe.

 

- De nada, seu moço.

 

 

 

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