terça-feira, 30 de setembro de 2014

TAPAJÓS

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Pedro Viriano e João Mutaba - MQ

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Acordou muito cedo, precisando das primeiras horas do dia, a memória espalhava calor de luta no corpo, sentia-se alquebrado pela idade e solidão, mas não se deixava quedar. Da janela, olhava a curva do rio, os paus-d’arco floridos no meio da mata e se punha no passado, esperava João Mutaba como fazia todos os dias. Parte do que contava estava na lembrança dele também. Queria manuscrever tudo e iam se recordando pouco por pouco.

Quem escreverá nossa história senão os poderosos que sabem ler e escrever. Como saberão o quanto queriam a Amazônia européia e que só o sangue derramado evitou que ela não fosse brasileira.

Supria o pensamento, enquanto Mutaba preparava o papel e o tinteiro.

Remanesciam dos que não quiseram anistia, preferindo a vida nos ermos do Abaribó, lugar agora quase despovoado, escondido na mata fechada e na fama da valentia secular dos cafuzos que um dia dominaram aquelas terras.
Não se conheciam até o dia que se encontraram fugindo, cada um com sua família. Pedro Viriano, oficial calafate quebrado na virilha esquerda e com o rosto marcado de pólvora, remava subindo o Guamá com mulher e filha. Mutaba, negro, descendente de escravos vindos de Goiás com seus donos, nos primórdios de Cametá, nascido forro sem saber por quê; nadava tentando atravessar o rio com o filho nas costas. Dali nunca mais se separaram, subiram todas as águas procurando o Abaribó por mais de ano.

No sertão Abaribó quase deserto e desolado, a maioria dos que chegavam, vinham com esperança de encontrar, no mistério daquelas águas que o cortavam, ora afluentes, ora confluentes, ora defluentes, confundindo qualquer perseguição, o refúgio que a bravura pedia e se impunha sobre a anistia pedida, com honradez, por patriotas e concedida, como espórtula, com descaso por improficientes.

Pedro lia para Mutaba. De olhos úmidos, brilhando no reflexo do sol da manhã. Narrador e personagem ao mesmo tempo, empunhando com as mãos trêmulas a arma da palavra escrita, aprendida com a mãe e afiada pelos livros que o Cônego lhe recomendava ler. Sabia a última batalha travar, contava com os lampejos de Mutaba, com a tinta que ele extraía; devoção na tarefa de manter o tinteiro sempre cheio. Demorava olhando o chão de terra batida, macambúzio. Lembrava a mulher e a filha mortas pelo escorbuto em meio à falta de recursos.
O corpo ia cedendo aos anos e à pobreza do lugar. As palavras iam ficando no escasso papel, nas letras meio borrados em tecidos de algodão e nos ouvidos de Mutaba que pedia quase todo dia a Pedro Viriano ler o poema da liberdade, se sentia importante ouvindo tantas palavras bonitas que ele não conhecia e nem entendia, mas sabia ter ajudado escrever; seu orgulho, lutar aquela luta, preparar a tinta desde a extração do anil-trepador até o preparo com gotas de óleo de andiroba, carvão e ervas sicativas, receita que a intuição cabocla, logrou. Daquela aguada escura saía também beleza na entonação da voz.
Pedro lia :

tudo por fazer
na terra nova
encontrada aqui

tudo por entender
do braço índio
nascido aqui

vida viva
de vencidos e vencedores
vivendo livre
sobejando aqui

encontro das culpas seculares
aprendidas de joelhos
e mãos postas em armas
com a vida viva nascida aqui

contrição e a rubra mordaça
desnudada nas batinas
entalhes lúbricos
resultados sem lavor

traço negro trazido à força
para empenho e labor

vida viva
mutilada da altivez
restada nos porões
pútridos do estanco

manumissão de libertos
juntos
calados e misturados
às conquistas que o deszelo
cobriu com hipocrisia
sobrepondo lenitivo à vida

do braço índio cativado aqui
do braço negro exilado aqui
do braço branco renascendo aqui

verdade mestiça de dores
esparramadas em subserviência
findando no descaso com a terra
que se fingiu descobrir

o gentio se misturando
mesmo curvado

quimeras prenunciando salvação
imitando de mão em mão
um deus
um rei

mas sonhos podem ter
as mãos quando ganham
os espertos com seus grilhões

mas sonhos podem ter
as mãos quando tocam
a verdade nos sonhos
de outras mãos e somam
a escolha da liberdade
de mão em mão


óbolos de fel que põem
solenemente acima
falsos e vazios
circunspectos sujigando

em leis que moem
e subtraem apenas

estugando o ódio
nas entranhas
da morte em cal
sangue e fezes

embriagados na loucura
dos boticários
punindo em vão
segregando o respeito

dor
adornada de dor
adonando todos

desencadeando vala comum
e rasa do Penacova

valimento dos restos
de menos valia


rompâncias e sujeição
assomados nas ruas

iniquidade torturando
calma e silêncios
no ecôo da concertina
no sibilo das balas

polução
na calma da noite
na soberba das alforrias

cordura com os atos
exéquias pequenas e tristes
nos arrabaldes do sonho
mourejados
só com a vida

cabedal que se doa
com zelo, sem datação

ressôo de bombardino
sibilo das ordens
entrando pelas gelosias
das janelas abandonadas
pelos senhores intolerantes

sobrecarga da ira
no gentio apartado
vagando erradio
pelos mocambos
deixando rastos
imperceptíveis
nos bivaques e caminhos

no negro amolegado
pela chibata
homiziado nas quilombolas

no branco tocado
pela liberdade sem laços
rompendo desígnio

detração pelos adros
e palácios como vômito
no linóleo impregnado

o esgar dos brasões
enrijecendo a verdade
pelas ruas e caminhos
espalhando a vontade

o gesto
lesto
esmiuçando os arredores
até o suburgo na beira do rio

onde folga homens
embaixo dum pau copado

deslindando seu relato
parte por parte
para entender melhor
o dédalo das leis promulgadas

postergando e emudecendo
o ventre tenro
onde a liberdade
queria nascer


João Mutaba não movia um músculo do corpo, ficava tempo olhando o longe. Pedro Viriano, cada dia que passava, terminava a leitura com a respiração mais cansada. Ensimesmado como o ouvinte, se perdia das palavras, ficavam horas trocando seus silêncios.
Enganava o tremor das mãos com a tarefa que se impunha, pedia a Mutaba tinta e a lembrança da chegada do mestiço Visgo Rei e sua gente, anistiados e depois fugidos do Corpo de Trabalhadores.

Nossa verdadeira derrota foi na calada das leis que perdoam e aprisionam a um só tempo: os braços e os sonhos, desespero dos precitos, trabalho livre em grilhões, dispostos. Servidão paga com moedas esvaecendo direitos, cortando fio por fio a teia que a liberdade ousava tecer.
Escrevia traduzindo a voz cansada. Escrevia...

Pedro Viriano foi encontrado por Mutaba sentado no banco, na mesa, em frente à janela onde costumava ficar olhando as águas, a cabeça tombada sobre o ombro direito como se as visse. Nas mãos, segurava o maço com seus escritos, os braços esticados pareciam querer entregá-los a alguém.
João Mutaba sentou no chão batido da soleira, olhou os caminhos do Abaribó entrando pela mata, findando nos barrancos, ligando as cabanas; um abandono, somente velhos esquecidos e esquecendo, pensava em silêncio, ouvindo a voz do morto recitando:

... postergando e emudecendo
o ventre tenro
onde a liberdade
queria nascer



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domingo, 28 de setembro de 2014

Amastor e Luzia - MQ

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Na porta era a maior confusão, dentro pior ainda, apesar de nenhum negro entrar naquela sala, senhores, viúvas e até padre Laffaiete com seus quatro escravos vinham tratar, dar-lhe alforria mediante os papéis de credito que estavam valendo mais do que moeda cunhada.
Para Amastor, olhar zambro de permeio com os alforriados e voluntários como ele, ajuntados para embarque, procurava se esconder das vistas do oficial. Matara-lhe o pai quando muito mais novo.
Aproveitara o ataque, a primeira confusão com os alemães nas matas de Nazaré para tomar dianteira e entrar na casa do português. Sorrateiro, acordou e deu fuga aos escravos que quiseram fugir. Os demais, na ponta da arma, esperaram o dia clarear. Entre eles o menino, mulato, de olhos saltados como os do pai, segurando no cós da saia da avó, mãe de Luzia.
Amastor, enquanto esperou, pôs Luzia em seu pensamento, sua lembrança passeava, vendeira mercadejando pelas ruas, com os cabelos presos pelo pente de casco, marrafa, adornos e um ramo de jasmim emprestando cheiro. Saia rodada pelos tornozelos, corpete de mangas curtas e tufadas e o cipó catinga recendendo. Rés ao chão, seus pés pisavam passos de dança. Ela dançava.
A voz do menino perguntando à avó quem era, trouxe-lhe ao grave da hora e à imagem de Luzia, escrava de estimação, inerme nas mãos do dono, abastado, sovina, reinol influente na política que a tomava quando quisesse e espancava com as próprias mãos.
A resposta na voz da velha, quase um murmúrio, colocou-o na cabeceira de Luzia, uns últimos suspiros em meio ao seu nome falado baixinho, sem forças. O pedido sussurrado:

– Mata ele.

As pessoas chorando, gritando, a parteira tentando tirar o filho. O corte a facão, a mão puxando por um fio, e a criança retirada do ventre morto da mãe, um corpo quase mutilado a pancada, esbulhado da vida e do seu amor, Amastor sentiu desejos de acabar ali mesmo com o nascido. Foi contido e, naquela mesma madrugada, fugiu depois de tentar matar o português.
Ficou o mais procurado fugido pelo Corpo de Ligeiros, vagou por aldeias e quilombolas até encontrar os primeiros sinais do povo Abaribó. Eram poucos. Índios, cafuzos e alguns negros como ele. Seguiu-os se achando despercebido até ficar cercado por mais de uma dúzia. Foi levado, misturado a eles sem nenhuma hostilidade, para a principal aldeia. Deram-lhe de comer e ouviram sua história sem fazer muitas perguntas.
Olhava o menino com a avó e relembrava sua vida no Abaribó, dia a dia sonhando voltar e cumprir a promessa feita a Luzia. Queria dizer alguma coisa, quando ouviu o barulho da porta da casa se abrir, era o português aos gritos, reclamando não ter ninguém na cozinha. Amastor esperou ele dar os primeiros passos e se revelou de arma abaixada para que fosse bem visto, tomou mira e acertou o balaço no peito. O português estrebuchou aos seus pés, sem ais.
Apenas um instante durou sua hesitação, a avó e o menino se colocaram na sua frente fazendo com que desistisse de entrar na casa e fugisse pelo mato. A cidade já estava quase toda tomada pelos companheiros, a euforia contaminava quem saísse pelas ruas, havia balbúrdia e confusão, nelas Amastor não queria concorrer, para o Abaribó não voltou, viveu vagando de um lado para outro, primeiro com os cabanos em Luzéia, até aceitarem a anistia, depois entre os anambés e mundurucus, fugindo do Corpo de Trabalhadores, envelhecendo. Acostumado à vida errante, nem sabia onde era o Paraguai, mas era pra lá que queria ir.
Foi interrompido nos pensamentos pela ordem de embarque, sentiu-se descoberto. Procurou com as vistas fracas e viu o oficial vindo em sua direção, esperou ser acusado, depois de tantos anos, de assassino. Tal não aconteceu, o jovem militar só se aproximou o suficiente para um profundo olhar, olho no olho. Era gratidão, era o olhar de Luzia que o filho herdara.




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sábado, 27 de setembro de 2014

ENTÃO, FOI ASSIM?

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O programa Então, Foi Assim? deste sábado, será inteiramente dedicado ao talento e à criatividade da  cantora, compositora e cavaquinista carioca Luciana Rabello.  

Na ocasião, ela nos contará as histórias de:

- Candeia branca (c/Paulo César Pinheiro);

- Martelo da Justiça (c/Paulo César Pinheiro);

- Seu Catirino (c/Paulo César Pinheiro);

- O teu amor e

- Estigma (c/Paulo César Pinheiro)
 
 
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde na Nacional FM com retransmissão para mais de 240 emissoras em todo Brasil.
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O Roda de Choro deste sábado traz no 1º bloco Alfredinho Flautim e Armando Faria, compositores dos primórdios e as primeiras gravações do selo Zon-O-Phone, de 1902;

No 2º bloco teremos a revisita do saxofonista carioca Zé Nogueira e o som do CD Disfarça e chora, lançado em 1995.

No 3º e 4º blocos o talento e criatividade do violonista e compositor carioca Chico Saraiva, que nos apresenta o CD Trégua, lançado em 2003.

E para finalizar, a presença primorosa do bandolinista maranhense Chiquinho França, e o som do CD Solos - Bandolim, lançado em 2004.
 
Roda de Choro, sábado, excepcionalmente a uma da tarde pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz, de Brasília, retransmitido em mais 205 emissoras pelo Brasil, Japão e Angola.

 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 

Pantaco e Buiú - MQ


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.Vinha no rebojo do braço de rio que crescia e minguava solavancando as águas, remoinhando como numa bateia, fúria de vento encanando rodopio, hora tardia de margear, pensou antes de avistar o mandiocal.

A riqueza estava ao seu alcance, podia tocá-la; com a moeda entre os dedos, pensativo, passou o polegar no serrilhado como se conferisse o valor, pôs-se na direção até enxergar a casa.

O silêncio conferiu, todos dormindo; no claro da noite escolheu onde esperar a melhor hora. Na aurora ouviu os primeiros movimentos, se aproximou vendo Vicente Martins Lopes sentado na rede calçando as botas, subiu dois degraus da varanda e disparou. O estampido ressoou pela casa na primeira hora da manhã, quem correndo chegou perto ainda viu o último sangue esguichando, estava morto.

Pantaco, sem que ninguém o visse, entrou pelos matos, mesmo caminho que veio, atravessou a calma das águas naquela hora, ia buscar sua riqueza com os irmãos do morto.

Vicente Martins Lopes era o primogênito, filho de reinóis, nascido na Cidade do Pará, beneficiado com o morgado do pai, herdade, escravos, casa comercial e outras rendas.
A irmã, Constância, viúva sem filhos, vivia com ele no casarão da Rua dos Mártires; seu irmão, Jorge sempre em viagens pela Europa, custeadas por Vicente que nunca se casara, passava muito tempo na fazenda desde que se unira aos foreiros para se opor aos sucessivos governos portugueses e seus simpatizantes que menoscabavam o valor dos brasileiros.

Pantaco, de mãe africana e pai mameluco, moreno claro, forte, bem vestido e calçado por exigência de sinhá, parecia um alforriado bem sucedido quando andava pelas ruas. Mas vivia junto com os outros quatro escravos no casarão, era o preferido da senhora e a servia como se fosse uma mucama.

Jorge, sempre que voltava de suas viagens, manifestava à irmã o descabido; não dividirem os cabedais deixados pelo pai. Precisavam fazer alguma coisa, não podiam ficar à mercê do irmão que vivia metido com foreiros, pregando idéias de infames. Queria vê-lo morto, já que não aceitava falar em dividir os bens.

Observava a dedicação do escravo à irmã com malícia no olhar mas também com a naturalidade de homem muito viajado, freqüentador da corte, acostumado com o predomínio da vontade dos mais poderosos. Via em Pantaco, escondida, a mesma ambição que sentia. Aliciá-lo, para seu propósito, foi mais fácil que convencer Constância.

Pôs em sua mão a primeira moeda portuguesa das muitas que receberia; instruiu, junto com a irmã, a alforria. Combinaram esperar seu embarque para Portugal, a animosidade aumentar na política da província e os outros da casa acostumarem com Pantaco dormindo, de vez em quando fora, em serviço de aluguel na marinhagem. Constância concordava em acompanhar pelo pasquim pregado na porta da Lopes & Filhos, a situação política e dar o dia certo da consumação.

A notícia chegou do Acará junto com o corpo, um casal de escravos e o velho tapuio Buiú. Espalhou-se entre os políticos rapidamente levando muitos deles, consternados, a se reunir, partidários e oponentes culpando uns aos outros.

Pantaco providenciou, na igreja, o sepultamento, a mortalha, a música fúnebre e o pagamento das mortuárias. As exéquias, no mesmo dia, foram assistidas na igreja, cheia de partidários do morto, muitos comerciantes e algumas autoridades, num ambiente tenso de olhares acusadores e de muita tristeza da irmã.

Na cerimônia, o comandante das armas fez a promessa de todos os esforços para encontrar o assassino que já estava sendo procurado pela milícia desde aquela manhã. Tropas tinham sido enviadas à Vila do Acará para investigar junto com as autoridades de lá.
Sem testamento, o espólio foi arrolado, enquanto Jorge voltava de viagem, os negócios tocados por Constância, com ajuda de Pantaco, na cidade, e do tapuia Buiú, na fazenda, pois mais entendia das ocupações já que vivia lá desde menino, sempre o braço direito do patrão.

No mesmo dia em que o navio aportou trazendo Jorge, Buiú chegava do Acará. Vinha trazer a farinha e buscar o de prover. Encontraram-se na Rua do Norte e seguiram juntos até o casarão onde o tapuia sempre dormia junto com os escravos.

O encontro de Jorge com a irmã e Pantaco foi mais de silêncios do que de cumplicidade; alguma coisa estava diferente, o escravo aumentara a intimidade com a irmã que parecia se submeter ao olhar dele. O acerto se deu poucos dias depois, venderiam e dividiriam tudo. Jorge queria viajar pelo mundo, Pantaco receberia sua pequena fortuna em moedas portuguesas como combinado e teria oficializada sua alforria. Constância sonhava morar na França.

Começou desconfiar no dia do enterro, passada a cerimonia. Pantaco pareceu inquieto demais; nos dias em que ficou no casarão Buiú notou as pequenas coisas que aconteciam, incomuns antes da morte do patrão: o escravo dando ordens com voz autoritária, vestindo roupas que só poderiam ser do morto e recebendo incumbências da senhora sempre de portas fechadas. Quando acompanhou Jorge pela rua, no dia de sua chegada, viu a pouca bagagem que trazia, estranhou. Conhecia seus hábitos elegantes desde pequeno, ao contrário do irmão, um rústico, vivia folgazão, desfrutando do nome da família pelas altas rodas, sustentado como estudante, sem nunca ter pisado na escola em Coimbra.

Na casa, mal se via Constância, sempre pelos quartos trancada numa tristeza maior que o luto quando o pai morreu.

Buiú andou pelas ruas, nas bodegas e terreiros. Entre remeiros, aguadeiros, soldados, procurando saber o que comentavam. Nos ajuntamentos de escravos, apesar de proibidos, ouviu muito sobre política e deserções, nada do crime.

Procurou os conhecidos alugadores que viviam se gabando das mortes executadas, ninguém sabia de nada e, entre eles aquele caso era tido como coisa de família, muito escondida. Falavam que se fosse política saberiam, quem contrata vingança quer que todos saibam, modo produzir o temor. Fosse política, mais temor ainda.

O tapuio passou dias vigiando Pantaco até ficar, sozinho, frente a frente, sustentou apenas o olhar no susto dele, não disse uma palavra sequer. O negro, com o deixar cair dos ombros e o semblante, confessou. Foi a reação esperada, Buiú estendeu a mão esquerda espalmada e com a outra em perpendicular a palma estendida, fez pequenos movimentos batendo a direita rapidamente, próximo dos dedos, próximo do punho até ouvir no silêncio de Pantaco, concordância.

Dividiram a pequena fortuna e nunca mais foram vistos.



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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Celeste - MQ

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Nenhuma lágrima verteu, apenas a sensação de todas elas dentro de si. Não demonstrava o sofrimento, gemendo no corpo junto com o cansaço dos últimos dias na cabeceira da cama. Dor tecida com a ausência que foi se consumando pela madrugada até o passar de Rosário.
O banho solitário, possuído pela ausência, a escolha do vestido que havia de ser belo e discreto como o corpo macio e quente que fora seu, só seu, durante toda a vida.
Um silêncio maculado pelo Corpo de Pedestres desfazendo o ajuntamento na porta da frente, as frases distantes:

- Dispersar...

- É um veloro.

As mãos seguravam o cabo do espelho e o pente sobre as coxas, como se estivessem mortos e insepultos, sentia um calor diferente tocando naqueles objetos.
No mesmo dia, embaixo da janela do quarto, cavou com suas próprias mãos e enterrou o espelho e o pente sob olhares espantados de todos da casa. Em silêncio, esperou duas lágrimas caírem, secando na terra, passou com suavidade as costas da mão direita no lugar e chorou outras mais.
O vestido preto com mangas compridas e gola alta cobria seu corpo todo. Na cabeça, a mantilha preta com as pontas perpassadas e presas por um nó por cima da cabeça, cobrindo as orelhas lhe dava um ar de tristeza que fazia chorar pelos cantos os serviçais espantados com aquela tristeza.
Nas mãos luvas pretas quase transparentes, mantinha o anel no dedo da esquerda envolto em fita fina de seda, os grandes brincos encapados com o mesmo tecido preto, luto por todos os objetos do quarto conservado fechado, um tom de ausência, proibindo a luz do dia.
Passava dias e noites sentada na marquesa sem se alimentar, entre suspiros murmurando:

– Quero morrer também...

Do quarto nunca mais saíra, recebia as poucas visitas ali mesmo. Não falava com elas, só se deixava observar, olhando o vazio. O desatino que os da casa e quem a visitava não compreendiam, ia sendo falado por todos, seu corpo perdendo as carnes, o mal cheiro exalava a falta de asseio. Era triste.
O tempo passava e passava seu silêncio. Dera de falar muito lembrando a infância, os pais, a convivência com as notícias de morte, as perseguições dos conhecidos, o surto de bexiga e um muito de coisas, algumas até, que ninguém entendia. Mas continuava recusando comida, dizia:

– Onde está, ela não come...

Os móveis cobertos de poeira e abandono, o lugar da casa onde ninguém mais entrava, um quarto abafado, sem uma réstia de sol, proibido a todos.
Foi encontrada já em estado de putrefação, sentada com a cabeça reclinada, na mesma marquesa, com o traje de seu luto puído pelo tempo, seu único alimento, a ausência, em restos espalhados nos detalhes da mobília do quarto enlutado.



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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dourado, Tumida, os filhos, Amélia, Acapoúca, João Mão Cega e padre Demerval - MQ

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Aferventando a farinha, Manoel Douro, mais conhecido como Dourado, português de nascimento, brasileiro por vontade sua, mexia a colher de pau desgrudando a rapa do fundo da panela, pensava na demora da marcha, pensava no padre doente.
Tumida preparava os nacos de peixe salgado para a fome de cada um. Ela, cafuza, filha de escrava mandê e índio paracanã, sumidos há mais de vinte anos, foi criada por ingleses, abastados comerciantes, na rua do Norte.
Fugida, confusa, vivia com Dourado, dois filhos, nenhum dele, de quem? não sabia dizer, acompanhava-o pelos sítios onde se travavam escaramuças e combates, indo de freguesia em freguesia, de vila em vila. Sempre em armas. Atiradores de pontaria certeira e rápidos no recarrego das armas, auxiliados pelos dois meninos que carregavam o cartuchame. Igual, preocupada em ter se perdido dos outros na retirada dos que iam continuar a luta.
Amélia, escrava parteira, alforriada na bondade do pai do menino que aparou, cantando reza banta, salvando a mãe e a criança, sentada na raiz do pau d’arco, olhava distante com a mão posta na testa do padre que ardia em febre. Além de parteira, conhecia o segredo das raízes e plantas de cura. De benzimentos e rezas. Assistia o padre e esperava qualquer destino fosse.
Cortando o pau preto, Acapoúca, mameluco do Bujaru, mestiçado com gente do Abaribó, cuidava tirar reto. O mais calado de todos, anhoto como cobra antes do bote, de força descomunal, atado em destino e na bruteza a João Mão Cega que olhava as águas receberem os primeiros raios da manhã, desprendendo vapor, como se o sol pudesse esquentá-las.
Foreiro do Acará, o mais chegado aos Vinagres, cabano de primeira hora, valente e preterido sempre do comando de algum grupo, por não ter nunca domínio de si, mas preferido, junto com Acapoúca, por todos em qualquer tipo de luta.
Seguiam, desde três dias, subindo o Guamá, o casal com os filhos na canoa ligeira, farta de farinha e peixe salgado, quando a chuva forte caiu e buscaram a margem. Mão Cega e Acapoúca vinham do mesmo rumo por dentro da mata procurando os que queriam continuar lutando.
As batidas na samaumeira ecoaram, pancadas ocas perdidas na mata juntaram os dois grupos à raizeira e ao padre, prostrado no chão, ardendo em febre. Padre Demerval, desde o segundo dia de marcha juntos, vinha carregado na rede de varão, cuidado por puçangas e rezas. Revezavam entre remar a pequena canoa carregada próximo à margem e ombrear o varão.
O dia todo mais a noite foi a espera ao lado do padre, em convulsões até a derradeira. Acapoúca viu Amélia cruzar as mãos do morto no peito, cantando baixinho, chamou os outros. Encomendado na liturgia africana pela negra, enterraram padre Demerval em silêncio.
Vinham fugindo da perseguição que faziam ao padre, desde que ele se opôs ao recrutamento dos meninos do orfanato para o corpo de voluntários, contava Amélia. Ficaram muitos dias nas matas de Nazaré, mas não foram descobertos e saíram a esmo, até a febre o padre sabia para onde ir, mas depois ficaram perdidos, vagando.
Dourado propunha ficarem juntos, formar força própria, juntar os desgarrados e seguir pro Tapajós. Sabia de muitos que pensavam assim, contava mais de cem.
João Mão Cega nem chegou a dar opinião do que achava, deviam fazer. A bala atingiu o pescoço, caiu sem vida. O estralejar começou intenso, estavam cercados e sendo caçados como animais.
Foi uma luta breve e desigual. Eram mais de quarenta homens fardados e fortemente armados que deixaram a morte espalhada nos corpos nus e mutilados em volta da cova rasa com o religioso restando, desenterrado, sem as orelhas.




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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Tomásia - MQ

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Alforriada por destino de testamento, Tomásia, caneluda, beiços desmaiados, olhar comprido, vestindo corselete e cabeção, com os cabelos ornados na beleza e cheiro de ervas, margeava o Piri com a canada de óleo de copaíba.


Primeira vez, saía mercadejando para si mesma, sumariava beleza, ao mesmo tempo que não sabia o que fazer dali em diante, sentia falta de Nhá Belizária, das normas da casa onde tinha de tudo.

Olhava o guarda-escravos na feira, gente pronta para troca, compra e aluguel; os fugidos, cujos donos não apareciam, oferecidos a menos preço. Não sabia o que fazer com sua liberdade, serviço não havia para os forros, ainda mais para uma mulher sem beleza que ninguém cobiçava ter, sabia fazer o da casa e cozinha, nunca fora alugada para serviço nenhum. Sentia-se perdida naquela liberdade.

O benefício pegou Tomásia de surpresa, maior ainda foi a de receber do resto da família roupa nova, uns objetos de Nhá Belizária e uma canada de óleo pra vender. A família não deu intenção de ficar com seu serviço na paga de quase nada, tinham muitos escravos e com a morte da matriarca não havia muito o que fazer.

Saiu do casarão uns dias depois do enterro; em lágrimas, foi se juntar aos mamelucos que viviam embrenhados no mato próximo da Pedreira do Guamá, na cabana de Nhanduca, seu conhecido desde criança - era filho de serviçais que passaram a vida quase toda servindo sua finada ama.

Tomásia perambulou muitos dias até vender o óleo de copaíba, nessa lida pelas ruas, ouvia coisas que não entendia, via o que tinha restado da cidade e o movimento de fardados em tudo que é lugar. Renovamento, recrutamento, perseguições, corpo de voluntários... iam ter serviço? Exibia a carta de alforria, esperava ser chamada todos os dias para o calçamento ou qualquer outro trabalho, procurando, batendo de casa em casa, só ouvia descaso.

Duca, como era mais conhecido, lidava com carvão, muitas cafucas produziam dia e noite, como os de sua raça, falava pouco, enquanto ia de cova em cova fazendo o abafo, ouvia tudo que Tomásia contava.

Preguiçando na rede entreliçada de tucum e caroá, sem demonstrar nenhum medo, apesar das perseguições aos mais graduados. Medo? Ele não. Lutou no segundo ataque e, assim mesmo, só carregando cartuchame junto com o irmão, passado numa descarga no alçapão do Arsenal, quando atreveu mais, na euforia da vitória.

Tomásia conversava sem parar, deixando o mestiço meio zonzo, falava da boa vida que tinha, que não queria ser mais uma curumba cruzando caminho com assassinos, cortadores de orelhas, toda hora tendo que mostrar a carta de alforria. Fazia munganga para a indiferença de Duca. Arrumava os cabelos, jeitosa, provocante e oferecida. Ele nem prestava atenção, era fidúcia à-toa.

O palhiço quase veio abaixo com o barulho da tropa espingardeando tudo, Duca sentiu duas picadas e a vida sumindo. Embaçado pela névoa nos olhos ainda viu, antes de restar; Tomásia, esbagachada, segurando sua carta de manumissão, passando de mão em mão, seviciada numa dança macabra.


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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Tarcisa e Fronho - MQ

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- Tu cumeu Juin, Tarcisa?
- In não, turumbamba dê Januba cum’eu, um disforço dê só muxinga dá jetu.
- Cume, s’equenta quirica pru Cosme, uns agrado.
- In’heim, sôr nu rena, iêu. Sô Fronho.

Falava e abanava o flabelo, sentindo o calor de dentro pra fora, gostando. Ele, um fogo de nunca apagar, muitos dias na batição, uns montado, outros puxando o animal no enxurro, que no sujo não vaporava, o corpo cansado querendo comer só o quente do ensopado de Juins e da carne macia de Tarcisa, querendo.

- Ocê malda? Quiese, Januba e Cosme heñ, heñ.
- Num vi i’ele pegadu jacumã, chamá Januba, s’cundido na casca de jutaí.
- Tu resta p’resse Fronho, Tarcisa?
- Heñ.

Os dois rafiaram a tarde toda, desobrigando os fazeres, tomando a cabaça de pajauaru, no aceiro, atrás do canavial, pondo a ressoca. Tontos da bebida e do enleio, voltaram rindo alto por rente o curral, despreocupados que fossem vistos por Cosme.
Januba olhava no escuro por entre os vãos do treliçado da porta, certa de agora ter um homem só pra si. Cosme, de sua rede, ouviu quando chegaram, nem se mexeu.
Os comborços conviviam como se aquele dia não tivesse existido. Tirando Fronho, retireiro em lida pelas abertas, destorcendo rumo todo dia, só fazendo fechação vez por mês, esse não esqueceu nenhum minuto daquele dia. Cosme e Tarcisa continuavam viver juntos, ela tolerando a quizila de Januba mas se deitando noite ou outra com os restos dela.
A meninada pulava seio de corda em meio da poeira que a palha da vassoura levantava. Nas palhoças, o preparo do batuque de São Benedito ocupava todas as horas. Nem a notícia da entrega do governo embotou o dia, a fogueira foi acessa, o toque do couro e dos maracaxás tomou conta do terreiro. No final dos cantos chegou Fronho, vinha entesado sem entender o que ouviu contar pelo mateiro, arrancando raiz de mangarataia e, menos ainda, vendo Tarcisa e Januba tomando caiçuma em conversa sem comadrice ao lado de Cosme, enchendo a cabeça do cachimbo.
Mal chegou perto, o silêncio dominou e todos olharam em sua direção, jeito de acato como se ele vestisse farda ou sotaina, nem deu tempo de perguntar se o que ouviu do mateiro era acontecido. O riso se perdeu quando deu conta dos soldados nas suas costas, chegando junto.
Comprovado, todos negros libertos, Fronho retireiro em sustento de mãe e irmãos pequenos, escapou. Cosme e os outros acima de treze anos foram alistados e levados em meio do choro das mães, mulheres e crianças, na bruteza dos soldados.
Quebrando a quietude da noite, os latidos, o estralar do tição no fogo sem avivar e o coaxar das rãs. Fronho, ao lado das mulheres e das crianças chorando, olhava o vago. Ia falar com o patrão, pensava. Cosme era pescador, seu cunhado tapuio, também. Os outros, todos meninos, ajudavam fazer farinha, ninguém do Lenhado era à-toa, não.
E chorou junto com elas.




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domingo, 21 de setembro de 2014

Cumará e Nheiú - MQ

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Remava bem, fosse de proeiro ou na remadura. Saber vinha dos tempos dos antigos, passando o jeito de olhar as maretas, desvendando marés, rasuras e funduras, passando o conhecimento das águas e do enrediço de furos e igapós.
Cumará ia com Nheiú. Na empanada, os destribados levavam farinha, cutite, muitas varas de capim flecha, e uma enrodilhada trança de caroá.
Remavam, entrando na larga do Carnapijó, o sol, ressumando por trás do mato, punha o dia em volta e deixava ver o patacho fundeado, rente à margem, quase embocando no igapó.
Cumará, do vê-lo, fez remo contra, ficando fora das vistas, no entremeio da ramagem. Foram muito recomendados para evitar qualquer camaradagem, mesmo de conhecidos, sabia seu Tomé das Letras, dono da farinha, da tomadia que faziam: do Carnapijó até Tatuoca, não deixando ninguém passar com nada que fosse de comer e em muitos casos apresando até os remeiros, que podiam escolher entre se alistar como voluntários ou serem presos.
A maré estava virando em vazante, desfavorecendo ainda mais o patacho encalhado, sem força de vento que o tirasse. Cumatá, quando percebeu a vaza prendendo o navio que pensou fundeado, fez sinal pra Nheiú, comandando sair remando na larga e entrar no igapó, cortando a face do costeado, pelo mucruará que sabia, ficava emprenhado na vazão.
Em manobra rápida, bordejaram quase riscando a madeira do casco, em remado silente e ligeiro, pondo surpresa no convés que reagiu só com muita gritaria, sem nenhum disparo. Embrenharam com outra manobra pelo caminho d’água, varando ilesos no caudal jusante.
Margearam, enquanto a sombra do mato pôde encobri-los, fazendo render as remadas até o sol dar sombra de quarto de dia, quando entraram pelo primeiro igarapé e ficaram esperando a noite.
Esta veio; juntando negrume e sacolejo de vaga, no rumo tortuoso que Cumatá traçou para evitar os navios fundeados e chegar à boca do Piri.
Mas tal não aconteceu, a canhoneira saiu de trás do brigue, numa manobra rápida, lançou o arpéu e pôs-se casco a casco, acendendo o lume das lanternas. Descobertos, farinha e canoa, Cumatá e Nheiú foram levados para Tatuoca e incorporados à frota, à despensa e ao corpo de voluntários.
Dali nunca saíram, a primeira ferida que Nheiú coçou, apareceu depois de muitos dias de tosse e febre, viraram manchas e pústulas por todo corpo. Em Cumatá, as pápulas chegaram junto com a prostração da febre. Quiseram fugir, mas as forças faltaram, as feridas roubavam a vida vagarosamente.
Os dois foram separados junto com um sem número de outros infectados. A correria era grande, a febre pútrida não poupava ninguém, nem os principais, as autoridades, os estrangeiros; homens, mulheres e crianças, fazendo mais vítimas entre os presos nos porões da corveta Defensora e as forças militares.
Os escravos cavando valas e enterrando corpos com as mãos embrulhadas e o pano cobrindo o nariz e a boca, os objetos sendo queimados em grandes fogueiras, foi a última visão de Cumatá.
Nheiú durou mais um dia dentro da escuridão com os olhos comidos pela varíola.




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sábado, 20 de setembro de 2014

João Fandro e Francisco Rugoso - MQ

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Ajudante ponçador, com a mão suja no esbulho urdido nos dias, João Fandro, funcionário encarregado da impressão dos títulos, separava desadorada quantia para o bolso.


Avaro sabido por todos de sua convivência, possuía escravos comprados em muitas pagas mensais, disfarçando seus atos. Eram só machos, fugidos maltratados pela captura; peças rejeitadas, com cacundas, dentes apontados, sinais de açoite e toda sorte de defeitos.


A escravaria alugada aparentava se sustentar e sustentar o seu aumento, mas, na verdade, era um negócio sem renda que acobertava o espoliado dos cofres da província.

João Fandro levava a sério o fingimento, parecia o que fingia, brigava pela menor diferença no preço do serviço ou em qualquer negócio, e cuidava dos negros com zelo, muita farinha e peixe seco. Viviam longe de assuadas e feitiçarias, nenhum escravo seu era visto desocupado ou com a roupa molhada. Chamado para, com eles, aumentar uma multidão, levava uma metade parecendo ter só aqueles.

Gastava devagar os títulos que circulavam como moeda, fingia alheamento com as demissões e nomeações, ora o tirando do cargo, ora nomeando para um outro.

Com o depresso, tantos querendo vender para fugir, o medo dos cabanos dominando a província, ele não acreditando no que os revoltosos pregavam sobre a libertação dos escravos; adquiria todos que lhe surgiam em modalidade de preço conveniente a sua conhecida sovinice. Em poucos dias, comprou mais negros que os mais abastados comprariam em muitos anos, gastando tudo o que tinha. Esperto que era os ofereceu em aluguel, parte ao comandante das armas do governo cabano, e a outra à marinhagem nos navios que lhes opunham.

Francisco Rugoso, seu mais antigo escravo, velho de orelhas cortadas em castigo, carapina de olhar limpo e bom remeiro foi o único que ficou com João Fandro.

Quando iam aos navios, Rugoso sentia vontade de delatar João Fandro aos oficiais, entendia pouco o que se passava mas, os cabanos não cumpriam a promessa de liberdade, então era mais vantagem ser escravo de abastados senhores do que dos foreiros e arrendados. Pensava.
Quando andava pelas ruas, sentia a mesma vontade de falar com os chefes cabanos da esperteza do dono. Ouvia entre os negros e mestiços dizer que estavam organizando o governo da província para depois cumprir as promessas. Pensava em João Fandro contando tudo que via em terra aos oficiais da esquadra, dando detalhes do que se passava. Sentia raiva de não delatar, se misturava aos valentes, ouvindo contar a vitória, era um deles nessa hora.

Uma noite, remando de volta, fez um barulho a mais e recebeu a vergasta no rosto, a raiva o ajudou a decidir, ia denunciar João Fandro aos cabanos. A rapidez dos acontecimentos adiou sua decisão, em poucos dias o governo mudou. Em meio àquela confusão, Rugoso não sabia mais que partido tomar, os cabanos brigando entre si, a esquadra fundeada no largo em alerta, recebendo pessoas fugindo da desordem. Resolveu esperar.

João Fandro não notava no escravo qualquer possibilidade de insubmissão. Para ele, Rugoso era cúmplice devotado e incapaz de sair do seu mando. Achava que os comentários que fazia sobre estar dos dois lados e o tratamento zeloso fosse o suficiente para mantê-lo fiel. Acenava com vida boa, sonhando com a nomeação para a provedoria da fazenda, fosse num governo ou em outro, cortejava e tinha promessas dos dois lados, dizia ao escravo, acreditando fazê-lo lembrar os tempos passados de muita fartura.

O dia que Rugoso decidiu e denunciou João Fandro, os cabanos entregaram o governo da província, nem prestaram atenção nas acusações. Rugoso morreu como um desconhecido, pouco tempo depois, fugido e em armas junto com os mais radicais que atacaram e massacraram a Vila de Vigia.

João Fandro perdeu muitos que seguiram o mesmo caminho de Rugoso; foi nomeado funcionário pelo novo presidente da província e manteve o que restou deles no ganho pelas ruas. Nunca entendeu o velho carapina ou fez queixa de nenhum dos fugidos.




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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Murtinho e Rosina - MQ

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Os dois se acostumaram a entrar nas casas abandonadas, sorrateiros e silenciosos, parecendo ratos, cada dia escolhiam uma.


Murtinho, negro cambaio, quando ficava nervoso ou ao andar, balançava muito os braços, Rosina muito gorda, bochechuda, ria por qualquer coisa. Ambos filhos de escravos brutos, desde pequenos viviam juntos, primeiro no engenho Salvador, ela puxando canga de bois na moenda, ele engarrafando a aguardente destilada. Considerada desde nova fêmea de Murtinho, Rosina fazia por onde, estava sempre perto dele, rindo e fazendo rir.

Arrematados em leilão judicial, por pendência de separação, foram fazer farinha na fazenda Mucucuri, lá trabalharam a mocidade toda, ele na lavoura, ela no poço tirando casca, amassando, ralando mandioca puba e dando curera às criações.
Os novos donos, muito católicos, não aceitavam nenhuma prática africana entre os poucos escravos que tinham. Todos eram batizados e freqüentavam a missa aos domingos. Com o tempo, deram conta da idade já chegada e oficializaram, na igreja, a união de Murtinho e Rosina.

Dali só saíram quando a moça Deodora casou com o diplomata e importador francês Philipe D’artang e os recebeu como presente de casamento.

Nunca tinham visto uma cidade grande na vida, a banda de música tocando na frente do Palácio foi o primeiro deslumbramento dos dois que riam como duas crianças, chegando a perturbar a apresentação dos músicos. Andaram pela rua dos Açougueiros, no caminho da casa nova, assombrados com o tanto de gente, mais ainda com o mascarado tocando tambor e fazendo seus anúncios. A sinhá na frente com o marido, se divertiam com a alegria deles.

Foram anos de brandura na vida de Murtinho e Rosina, serviço só o da casa, os donos sem filhos, sinhá vaidosa, ia muito com o marido a festas, recepções e reuniões elegantes, às vezes os deixava sair para ver a banda, maior felicidade não havia.

A política fervilhava em volta do casal, fosse na casa dos donos, na rua ou na conversa de escravos e mestiços, eles alheados, viviam rindo, nem prestavam atenção. Gostavam mesmo era de imitar o jeito de falar e os gestos das pessoas importantes que viam de longe no Largo das Mercês, na missa. O jeito de comer e de andar dos donos.

Murtinho, apesar do desinteresse, ouvia quando ia buscar, na casa importadora, o da despensa, falar, pelos outros escravos que faziam mercância ambulante, carregadores, entregadores, mensageiros, alugados e até pelos mestiços, o que acontecia, política de uns e de outros – exílios, demissões, alistamentos, anistias, leis do reino, abolição, deserções, roubo de armas. Fingia interesse, contava tudo a Rosina e incorporavam o que ele ouvia nas brincadeiras que faziam imitando os abastados ditando as leis.

Souberam pela gritaria na rua, os cabanos tinham tomado a Província, sinhá andava de um lado para outro, preocupada com o marido que saíra de madrugada, parecendo saber da invasão. A assuada tomava conta das ruas, entre vivas, o povo saudava seus líderes. Murtinho e Rosina custaram entender a seriedade da hora. O saque na casa importadora fez com que fossem parar no convés do brigue Conquista, para estranhamento da escrava - apesar da novidade, tinha medo do balançar nas marolas. Assim que sinhô soube, escreveu ao novo presidente por via do consulado francês. Em menos de um mês, estavam todos de volta, o prejuízo ressarcido e a vida no normal.

Durou pouco tempo a calma nas ruas, Murtinho vinha contando que nada mudara, a conversa era a mesma - prisões, demissões, perseguições e nada da abolição, os poderosos iam voltando, os reinóis continuavam nos principais cargos do governo, muita gente descontente com as brigas entre os cabanos. Sinhá ouvia atenta e preocupada.
A invasão da casa do vice-cônsul francês, ato ilegal, cometido como se houvesse ali uma reunião de conspiradores, pôs outra vez todos no convés do brigue Conquista. Dali viram o bombardeio que os navios em manobra despejaram sobre o casario.

As notícias vindas da terra confirmavam os desentendimentos e brigas entre os cabanos - o presidente, deposto e assassinado, os revoltosos aclamando o comandante das armas como novo governante. O assunto no brigue era a interpelação diplomática que o cônsul faria ao governo assim que chegassem os navios franceses.

O esclarecimento da afronta e o pedido formal de desculpas pelo novo presidente foi aceito. Permitiu a volta à normalidade e o desembarque de todo o corpo diplomático e suas famílias.

A vida de Murtinho e Rosina mudou pouco, continuavam risonhos por qualquer coisa, imitando o cotidiano do navio, como fossem marinheiros, oficiais graduados dando ordens ou as outras pessoas importantes que viram, mas uma pequena mudança tiveram, com a sinhá preocupando-se cada vez mais com os acontecimentos, deixando de sair e não os deixando também. Apenas Murtinho ia à casa importadora buscar encomendas e mantimentos, na volta, contava o que ouvia na rua – iam entregar o governo, ninguém queria deixar as armas, não confiavam nos portugueses, muitas desavenças que só Angelim dava jeito e nada da abolição e da igualdade prometida.

Na cozinha, Rosina ria do jeito de ele imitar o novo presidente nomeado, que viram na missa quando ouviram sinhô contar na sala, do ataque na vila da Vigia e das conseqüências – prisões e perseguições aos cabanos, muita gente fugindo para o interior e para os navios surtos no porto.

A luta não demorou, o ataque foi violento com muitas mortes, saques, algazarras e vinganças. A perseguição aos estrangeiros foi intensa. O descontrole com a morte do ex-presidente Vinagre foi grande, e a transferência do governo para a ilha de Tatuoca provocou muita confusão, quem não fugiu logo nos primeiros dias para os navios, ficou à mercê de violências, que nem o presidente cabano aclamado conseguia controlar.

Uns poucos, na boa vontade do Presidente Angelim, cuja família era mantida reclusa em Tatuoca, conseguiram ainda fugir com a ajuda do bispado, em meio a euforia desmedida dos revoltosos.

Os escravos levaram, um pouco de cada vez, os pertences necessários até o bispado, passavam despercebidos pelas ruas. No começo da noite, ajudaram os donos a vestir as batinas que o bispo mandou e os acompanharam com archotes de pouco lume até o local do embarque.

Murtinho e Rosina quando se viram sozinhos na casa, entre risos e mesuras tomaram conta como se fossem os senhores, roupas, objetos e adornos serviam para suas imitações e brincadeiras. Vestiam-se como os senhores e ficavam pelas frestas das janelas olhando a rua, tentando descobrir as casas da vizinhança que tinham sido abandonadas. Ficaram obcecados pela possibilidade de entrar na casa alheia e ver o que tinha lá. E assim faziam. Murtinho saía para descobrir qual a casa que estava abandonada, e lá entravam, sorrateiros e silenciosos, para suas brincadeira de imitar os poderosos.




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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Eneu - MQ

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Acompanhava presa na pele a titinga. Comendo sem dor, a lepra; sua desdita.

Por mais de dois anos, vivia num depósito de enfermos que a Santa Casa recusava tratar, o medo de contágio os excluía. Isolados, nas palhoças escondidas, entre moléstias diversas, vestindo muafos, viviam como bichos, mesmo os que tinham pouca manifestação das doenças eram abandonados pelas famílias. As mulheres davam os filhos aos abastados para se recolherem naquele lugar à espera da morte. E ela vinha, quase todos os dias, sem cerimônias, sem tristezas, era um alívio.

Eneu, com os olhos cada dia mais esbugalhados; perdida a condição de esmoleiro por cauda das chagas, vivia naquele mato quase sem as mãos.

Se diferençavam dos animais somente por não se proverem de comida, recebiam restos da Fortaleza da Barra, na bondade não sabiam de quem. Apenas encontravam os alimentos num ponto do mato.

Das terras da fazenda Val-de-Cans, apenas sinais do antes uma cerca, separavam-na das misérias pútridas se misturando. Cuidados apenas no pouco conhecimento que cada um tinha de alguma erva, ilusão enfraquecida todo dia.

No tempo que ali estava, Eneu nunca tinha visto um médico, aquele era o primeiro. Chegou acompanhado de duas carmelitas, visitando palhoça por palhoça. Daquele dia não ficou sem vê-lo nenhum outro, sequer.

Remédios, roupas, comida e a organização começou a mudar o lugar. Quem chegasse era examinado cuidadosamente e muito poucos ficavam, a maioria voltava medicada ou era encaminhada à Santa Casa.

O médico era um abnegado, em pouco tempo transformou as cabanas isoladas onde viviam sós, sofrendo suas mazelas, em pequenas enfermarias onde cada um convivia com quem tinha sua mesma moléstia. A convivência lhes dava conforto, abrandando o que sofriam. A fome não existia mais, se eram restos que ainda comiam, eram agora colocados no jirau, não mais como se fosse comida de porcos esparramada pelo chão.

Eneu, de onde estava, viu a chegada dos soldados fortemente armados, astuto, escondido no mato, ouviu toda a conversa. Tinham ordens de esparramar todos que ali estavam para que fossem finar os dias espalhando suas moléstias contagiosas pelos cabanos no interior.

A reação do jovem médico foi violenta, disse não permitir, teriam que passar pelo seu cadáver, seus muitos anos de estudo para aprender salvar vidas se impunham contra quem quer que tivesse dado aquela ordem, que o fizessem saber. Nenhum tiro foi disparado, o silêncio foi quebrado apenas pelos passos do médico lhes dando as costas.

Em seu dia, Eneu pediu para ser levado pra fora. Seus olhos pareciam saltar, do esbugalhado que aumentava, para dentro das árvores copadas, sem as mãos que pudessem apontar, parecia querer fazê-lo com os olhos. Sem nenhum movimento que não fosse esse, exclamou:

– Minha mortalha... doutor... vencemos eles.

E se foi.




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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Celeste e Rosário - MQ

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Desde muito nova, sentia aquele desconforto, uma sensação que foi aumentando com o passar dos anos e acabou naquele calor espargindo pelo corpo, tomando conta e só passava com os banhos e a mão da mucama Rosário, esfregando devagar sua pele. Uma luxúria tomava conta, invadia. Deixava-se ficar por horas na intimidade cada vez maior: as mãos da escrava e a água fria lhe davam um prazer cada vez maior.

Naquele dia, acordou com uma sensação diferente, sentou-se na cama assustada, pensando ter se urinado. Gritou à mucama que dormia no pisador, quando se viu toda suja do sangue da escorrência. Rosário tomou uma bacia de rosto e pôs-se a lhe fazer o asseio. Celeste foi se acalmando, ao mesmo tempo que sentia a pele em brasas e a vontade de que a mucama nunca parasse de lhe tocar as coxas. Levantou-se para que os lençóis fossem trocados e não resistiu ao desejo de se despir por completo.

Enquanto o fazia, olhava a negra por entre o avoar do lençol que vestia o colchão. Sentou-se na cama e pediu a Rosário que lhe escovasse os cabelos. Parecia um ferro em brasas, a cada escovada, a pele arrepiava, como se o gesto de Rosário fosse sopro avivando brasa. Apertava o cabo do espelho com força, quando percebia a respiração da escrava se alterar mas a coragem de lhe mandar fazer as coisas que começou a imaginar naquela hora, não teve.

Seu quarto ficava na parte da frente da casa, com a janela protegida dos olhares de quem passava, por um caramanchão, de tal modo que conseguia ver a rua por entre as folhas sem ser vista. Naquele dia, a confusão era das maiores, um sem número de soldados passava toda hora. A mucama dava notícias da luta, no longe se ouvia os estampidos. Era curiosa Celeste e gostava de ficar espiando na janela, segurando Rosário por trás com o corpo encostado no dela, protegendo.

Ignorando os acontecimentos e o alvoroço, pediu um banho e se desnudou toda, buscando novamente a reação da serviçal. Sua respiração ficou quase ofegante, as mãos esfregavam devagar as costas. Rosário sentia a mesma coisa, tornou-se ousada quando os mamilos da ama foram crescendo, ao mesmo tempo que os seus, sentiu-se úmida, com o olhar bem dentro dos olhos que Celeste lhe deu antes de puxá-la para junto de si, rosto com rosto, boca com boca, corpo com corpo; os cheiros se misturando, a luxúria tomando conta das duas que se amaram enquanto a fuzilaria tomava conta das ruas da cidade.



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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Tranca de Rio - MQ

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E muitos vinham tirar água do manadeiro, escravos, alugados, de ganho, forros, mestiços curibocas, mamelucos e cafuzos. No lugar, quase ermo, próprio para bebedice, fartavam-se de cachaça, taniça e achavam tempo para emboança e arrelias.

O mais antigo aguadeiro, Tranca de Rio, negro congo, pés grossos e disformes, alforriado em recurso de compra, à noite, fazia babaçuê no mato perto do Sumidouro onde evocava elementos, orixás e calungas, num batuque remedado das matracas, dali tirava pagas em aguardente e fumo que vendia aos demais. Durante o dia, mantinha a freguesia de água, alugando braços ou cobrando favores dos iguais.

Das imediações do Pau Água quase nunca saía, era também uma espécie de conselheiro para qualquer assunto. Sabia ouvir e, com muito jeito, arrancar e contar segredos. Nada se passava na cidade sem que soubesse com detalhes. Ria muito, por qualquer coisa e seu riso parecia contaminar o corpo todo num tremor que findava nos pés desproporcionais, batucando o chão como tocasse tambor de revira.

O respeito foi adquirindo quando comprou a alforria e nas todas vezes que socorria quem necessitasse. Paravam na rua para falar com ele como fosse um principal. Padre Batista o chamava pelo nome. Não recusava nenhum convite pra esmolar, até conduzia a imagem do santo, puxando as rezas da igreja. Sabia todas, parecia professar a fé católica.

Tranca de Rio ouvia contar da política, das perseguições e deserções com atenção disfarçada, comendo farofa de manicoaras que levava pronta no farnel surrado, sempre amarrado na cintura. Dali abastecia, do que descobria acontecer entre os reinóis e os estrangeiros abastados, sua gente que se armava para lutar contra a escravidão e a miséria.

Fazia delato na conveniência de sua justiça, sempre dizendo ouvir dizer, confidenciando ilícitos de funcionários, militares, meirinhos, desonestidade de grandes comerciantes, lascívia de senhores com índias e escravas. De suas conversas saíam fel e mel, nunca diretamente ao interessado, sempre por intermédio de algum aguadeiro familiar às partes envolvidas.

Se arvorava arrumar o errado por via das rezas que dominava e de fazer correr a verdade no meio dos enganados, prevalecia seu julgamento. Ninguém percebia, que seu jeito simples e risonho, esmolando nas casas, ouvindo escravos, disfarçava um zeloso seguidor do padre Batista.

Ao mesmo tempo que servia a todos, obtinha, com seu riso, parecendo um cacoete, informações importantes que fazia chegar à casa do padre através do velho Bartolo.

As armas começaram a surgir em meio a deserções, no escuro das madrugadas, provinha do alistamento obrigatório, da perseguição ao padre Batista em fuga pelo interior, dos foreiros chamando quem quisesse lutar. Sem que ninguém soubesse, Tranca de Rio aliciava os descontentes, falava da abolição prometida, induzia escravos a fugir, índios e mestiços a se juntarem no interior com os pequenos grupos que iam se formando.

O repicar fúnebre dos sinos começou junto com a manhã em todas as igrejas. Tranca de Rio recebeu a notícia sério demais, como não era seu costume ser. Padre Batista era a esperança de tanta gente, quem iria se opor as injustiças, quem iria lutar nos corredores dos palácios contra os reinóis. Queria pôr-se a caminho das matas de Nazaré, mas foi incumbido ficar por Bartolo. Mais que antes, precisavam juntar gente para a luta que estava próxima, ficar atento nos sinais combinados, marcado o ataque, saberia e se incorporaria à luta.

Os dias passavam com uma lentidão medonha, quase ninguém aparecia para tirar água, alguns largavam o pote e se embrenhavam no mato sem falar nada, prenunciando um conflito como nunca visto. Por ali passavam famílias inteiras carregando seus poucos pertences, pedindo rumo a Tranca de Rio, falando no assassinato do padre, mesmo depois de se confirmar sua morte natural, imputavam culpa aos reinóis pela perseguição que lhe faziam, obrigando a vagar, sem recurso, pelo interior da Província.

As milícias se postavam na saída das igrejas prendendo qualquer um que tivesse idade de lutar, alistamento obrigatório ferindo leis de exceção, exacerbando as famílias. Nos navios fundeados, uma movimentação nunca vista. Foram os primeiros efeitos que aquela morte produziu. Com os dias passados, tudo voltava ao normal na Cidade do Pará, mas o interior fervilhava, lideranças apareciam em todos os lugares. Armados do que dispunham, foram se concentrando e formando pequenos grupos, encorajados pela indignação de suas misérias.
No escuro, Tranca de Rio esperava amainando a impaciência com goles cada vez mais fartos de aguardente. De repente, a fuzilaria começou, seguida de ordens e assuadas. Com a borduna em riste, partiu para o rumo do embate, rindo com todo o riso do seu natural, o corpo dançando no meio do fogo cruzado, num sapateio envolto por fumaça, cheiro de pólvora e gritaria, mais bizarro ainda quando as primeiras balas quebraram seu corpo, acelerando os movimentos do tronco, atingido muitas vezes, não parou de bater os pés, como se dançasse dois ritmos diferentes ao mesmo tempo. Parte do corpo dançava seu riso e o outro sua morte. Tranca de Rio findou estendido, estrebuchando, mexendo os pés como se estivesse rindo.
 

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Lunaiá e João Tungo - MQ

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Eram quase trinta, entre alugados e forros, amontoados na porta. Serviço, o de sempre; coveiro, carregador de excrementos, de estivas e do mercado, vez em quando carrasco ou surrador.

O oficial apontador escolhia entre eles quem melhor o favorecesse. Destacava o trabalho com o mesmo critério. Reclamar a quem? Ficar perseguido? Tudo era aceito.

Lunaiá, João Tungo e os filhos, negros de ganho da viúva do oficial Antônio Dalgosto, agradavam ao apontador para limpar os excrementos e carcaças de animais, modo andar pelas ruas e lugares, encontrar os iguais sem despertar atenção dos soldados. Podiam parar em qualquer ajuntamento e tentar convencê-los a largar seus donos, sabiam todos os movimentos no interior, ensinavam caminhos mas, o mais importante era transportar no bangüê as armas e munições roubadas, de um lugar pra outro, principalmente a pólvora que era ensacada em pequenos bornais e facilmente escondida em meio aos excrementos . Recebido o sinal de que tinham alguma coisa pra levar, baixavam a padiola pra descanso em lugar conveniente. Para entregar, puxavam o canto de trabalho perto do destinatário:

paresque i’ele
pissuía curuba
iu’oto caxingava
tucavum caracaxá
tambur punga
i ganzá...

c’us ói de jetatura
nhanga vi’u buzugo
lundu d’ele suzinho
gingando inroda
na patra dutro mundo

Serviam de ouvidores das conversas de soldados e mestiços se gabando de crimes e delitos - iam lá saber o que eram farrambandas ou não? Relatavam tudo que ouviam, os nomes dos contrários, os comentários dos políticos, o que mais pudesse ajudar os cabanos nas matas de Nazaré.

O casal passava despercebido pelas ruas, cumprindo serviço público e lutando pela liberdade. Eram a maior ligação entre os que simpatizavam com a causa, mas queriam ficar no anonimato, e os grupos que se organizavam. A pólvora mudava de mão em quantidades cada dia maiores. Mas o dia chegou, foram surpreendidos pelo oficial inglês que queria saber que canto era aquele.

paresque i’ele
pissuía curuba
iu’oto caxingava
tucavum caracaxá
tambur punga
i ganzá...

c’us ói de jetatura
nhanga vi’u buzugo
lundu d’ele suzinho
gingando inroda
na patra dutro mundo

Em conhecer o significado, descobriu os pequenos sacos de pólvora no bangüê, entre o mal cheiro e as fezes dos animais.

Os escravos, na frente da dona, explicavam ter encontrado aquilo na rua e que, como fedia, fizeram seu serviço. A viúva ameaçava o oficial, acreditando nos negros; ele querendo fazer cumprir castigo, levou-os presos.

O castigo foi dado exemplarmente em público. O casal foi açoitado pelo algoz encapuzado, em meio das risadas de quem assistia.

Quem observasse pelo furo do capuz, os olhos do algoz, veria as lágrimas correndo. Lunaiá e João Tungo estavam sendo chicoteados pelo próprio filho que ganhava como surrador naquele dia.




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domingo, 14 de setembro de 2014

Antoíno Boi - MQ

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Ordenhou a vaca, escolhida no zelo da confiança, tirou tipuca separada na cuia ornada que Dedé Peixada trouxe da Vila de Monte Alegre, esperou o terço canto de galo e caminhou pra cozinha, certo do cheiro, café acabado de coar. Acocorou no batente da porta, depois de deixar a cuia em cima da mesa grande, enredando capim-açu, formato laço como de cabelo que deixava todo dia secando na ponta do varal das lingüiças - pra acendê fogo, dizia a Deralda.

Era assim, não parava quieto, lidava com o gado de curral ainda escuro. Quando recendia o cheiro do tição, apagado na véspera, sendo acesso junto com lenha nova, as vacas paridas já iam longe das vistas. A bezerrada berrava miúda no cercado. O tempo de esperar Sinhá comer biju e notar a cuia cheia, de ele tomar a bênção; era o de trançar um laço.
Conhecido no nome de Antoíno Boi, dado por dizer ser boi quando, no meio deles, conhecer o que pensavam os muitos. Seu modo de lida, apreciado pelo dono, o distinguia dos outros escravos, quase todos filhos dos dois casais comprados de um arruinado, vindo da Guiana.

Benquisto desde menino, cresceu levando o gado para pastar capim-da-praia e ajudando no curral. Rapaz, ajudava nos aceiros, alotava e acunhava o gado no embarque nas gambarras. Agora cuidava de tudo, até do leite gordo da Sinhá.

Ouviu falar por Dedé Peixada numa salga de pirarucu. Era coisa séria, logo iam tomar a província, alforriar todos, expulsar os estrangeiros, todos iam lutar; contou que a Vila estava cheia de soldados, oficiais estrangeiros, viu descarregar pólvora, armas e até uma canhoneira, fundeada.

Antoíno pensava na vida que tinha, a fartura; nunca faltava nada pra eles, podiam plantar o que quisessem, até fumo, todos muito sadios, cuidados em qualquer doença, a bondade do Sinhô e a Sinhá rezando junto, rezou quando o pai morreu, rezou e também chorou quando a mãe morreu. Cuidou a febre de Deralda quando cobra ofendeu. Ali nunca viu usar o ferrete, a não ser no gado. Aceitavam a alegria deles, vinham ver dançar lundu e batuque.

Conversava com os outros, cada um pensava dum jeito. O irmão mais velho ia embora, junto com outros dois parentes, pro Acará; diziam juntar pra fugir mais de trinta. Sonhavam ser brasileiros livres.

Nunca lembrava do pai achar a vida ali ruim, ou falar de onde veio; lembrava sim, de vê-lo com a mãe, ajoelhados, rezando junto com Sinhá. De falar dos franceses da Guiana, nunca da África onde nasceu. Da liberdade, dizia que era pra cada um, uma coisa diferente, era o que convinha. Se sentia livre sendo escravo de quem era, provido de tudo, nunca fora humilhado como sabia muitos, para esses sim, a liberdade era outra coisa.

Desde menino, Antoíno via os principais, reunidos na mesa grande do salão, falando dos reinóis explorando tudo na província, o preço da carne e o transporte, seus armazéns sobrepondo preço para os foreiros e mestiços sem trabalho de renda.

Naqueles dias, muita gente apareceu em conversas demoradas, Sinhô passava tempo com o cenho franzido. Todos falavam do movimento dos navios, vistos de longe entrando pelo Rio Pará.

Dedé Peixada encostou trazendo recado; era chegada a hora; quando fizesse noite iam desarmar a Vila, tirar as armas e remar pro Acará. Num meio de dia, começou a chegar gente de todo lugar, muitos armados, outros com machados, facões e outras ferramentas. Antoíno nunca tinha visto tanta gente reunida, nem no pátio nem na cozinha onde preparavam a munição de boca. Até Sinhá ajudava Deralda dar as ordens.

Na varanda, Sinhô esperava por ele. Ia ficar só com Sinhá, as mulheres e crianças, disse-lhe. Elas ajudam lidar com o gado. Recomendava o manejo, a caça aos morcegos e o cuidado nos embarques. Enquanto ouvia, pôde ver o irmão mais velho distribuindo os poucos cartuchames, não precisou fugir, ia lutar junto com Sinhô. A liberdade para os dois era parecida.

Nos dias, Sinhá pedia conta de todo o serviço, ouvia atenta, perguntava. Punha ordens. Contava na cozinha histórias da mocidade, perguntava casos. Antoíno e a meninada ficavam sentados no chão, ouvindo também, era o que mais gostava, depois de agradar a Sinhá com tipuca.

Empaiolava o milho, as poucas braças colhidas por Severa e os filhos, quando a notícia chegou. Na cozinha, o vozerio abafou os mugidos dos bezerros, passando de hora de serem desapartados. Deralda gritou da porta chamando. Tinham tomado o governo, estavam todos vivos.

Antoíno tocou os bezerros na aberta, margeando o canavial, até a eira velha, sentou na areia, enquanto a bezerrada lambia sal, olhou a larga do Marajó, respirou fundo e lembrou o pai, liberto como ele.




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sábado, 13 de setembro de 2014

Zé Bugio - MQ

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O grupo se reuniu naquela noite. Combinaram resistir à sobranceria da coroa. Dali saíram emissários para todo lugar na urgência dos fatos.

De couto, no camboqueiro, às margens do Bujaru, Zé Bugio, sungando as calças toda hora, esperava notícias com os homens reunidos. O lugar, vigiado em todas horas, fervilhava de fugidos, tapuios, cafuzos e os curibocas enviados do Acará. Estavam prontos, era a força formada em poucas armas tomadas em escaramuças, nos caminhos e na revolta fermentada pela exploração portuguesa.

O mensageiro foi chamado de madrugada para levar a mensagem, passou mal e finou no caminho. Pediu ao remeiro entregar a carta mas não deu tempo de contar do conteúdo. Começou a falar de um grande ataque para assumir a província, mas não conseguiu completar, ficou sem falar do dia, e dos procedimentos.

Zé Bugio, ao receber a mensagem, pediu ao portador que a lesse, mas o rapazote não sabia. Ninguém ali sabia ler para desespero do destemido Zé Bugio.

Juntou um grupo de seguidores, que municiou com as melhores armas para buscar no engenho, léguas acima, quem soubesse, qualquer pessoa, fosse escravo ou não, por vontade ou à força se preciso.

Ele mesmo ficou andando de um lado para outro, o dia inteiro e, à noite, passou horas em volta da fogueira olhando as letras daquela caligrafia bem traçada; vez em quando esbravejava por ninguém saber ler. Dali não arredou até amanhecer.

Gastou a madrugada chamando, ora um, ora outro, como se inventariasse as condições de cada e suas armas. Uma inutilidade aquilo, pensava nos homens, consumia-se naquela providência sem saber o que fazer do tempo, na impaciência de esperar.

O dia clareava, já nascendo mormacento, quando ouviu, enfim, o barulho dos homens, chegando com o feitor do engenho, amarrado pelas duas mãos num pau atravessado no pescoço, como se canga fosse. Vinha coxeando, com um riso esquecido no canto da boca, de cabeça erguida, numa altivez que dava raiva; limpava no ombro, toda hora, o filete de sangue que escorria no canto da boca.

Trocaram ásperas palavras no meio da roda formada, Zé Bugio estendeu o papel que o feitor leu quase à força, tal qual estava escrito; a convocação era para que tomassem pelo Acará, o rumo de Murutucu em grupos de poucos homens, levando toda arma e toda pólvora que conseguissem, terçados, cacetes e o que mais tivessem, deveriam chegar em dois dias, iam tomar a cidade de surpresa.

Ali mesmo, depois de ler a mensagem, o feitor foi morto a pancadas. Um sofrimento que lhe impingiram num ritmado igual se tivesse no tronco, vingando castigos e maus tratos.
Traçaram o rumo, espaçando a saída de cada grupo, na recomendação de margear os caminhos e evitar serem vistos ou qualquer confronto. O prazo de se juntarem de novo era o ponto da Biqueira onde as canoas esperavam para atravessarem o Acará.

Zé Bugio seguia com o negro Fitada e João Camboa quando este exclamou:

– Leu errado! O desgraçado leu errado, sabia que ia morrer.

Disse como se tivesse certeza e contagiou os companheiros. Zé Bugio esbravejou em demônios, travou a marcha, enquanto pensava e tomava a decisão de seguir, mesmo que o rumo fosse o contrário. Pensou alto que a cidade não ia sair do lugar, por qualquer lado que chegassem ia ser igual, estavam prontos para qualquer luta.

Mal pensamento restou, e se os remeiros estivessem esperando na baía e o combate que lhes destinaram fosse na armada? Avaliava nervoso, caminhando, mesmo na indecisão, quando ouviu o barulho de resfolego de animal e a voz, parecendo de mulher.

Aviou João Camboa, ladeando pela esquerda; qual foi a surpresa; era a viúva Teodora e a mucama no caminho com mais dois negros velhos, pessoa tida como corajosa, dona daquelas terras por herança de finado marido, era respeitada por todos e temida por muitos.

Assustadas, mas sem esboçar o menor sinal de impor galope nos animais, ficaram caladas até Zé Bugio estender o papel e pedir que a sinhá lesse. Ela o fez se empalidecendo muito, confirmando na sua leitura as suspeitas de que o feitor tinha mentido, deviam era margear pelo outro lado, até avistar as canoas.

Um sinal de cabeça e um tapa nas ancas do cavalo foi o agradecimento. A raiva dominou a hora no esbravejar do cabano, os três se puseram de novo no mato, não sabiam o que fazer para juntar os grupos espalhados e ficaram mais afobados ainda com o comentário de Fitada.

– Cunheço ela! Tá mintindo... mais quê tá...

Zé Bugio pediu marcha, a cidade estava lá, atacava por onde fosse.



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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O Roda de Choro deste sábado traz no 1º bloco Capitão Miguel Rangel, compositor dos primórdios;

No 2º e 3º blocos teremos o maestro, arranjador e compositor pernambucano Moacir Santos e o som do CD Choros & Alegria;

No bloco do Choro Cantado, o talento e a competência da cantora Verônica Sabino, no som do CD Passado a limpo, lançado em 1999.

E para finalizar, a revisita do duo goiano Pedro Braga e Luiz Chaffin e o som do CD Com a corda toda.
 
 
Roda de Choro, sábado, excepcionalmente a uma da tarde pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz, de Brasília, retransmitido em mais 205 emissoras pelo Brasil, Japão e Angola.

 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Pedro Potaço - MQ

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Não deu tempo de pensar: Potaço atirou na direção do inimigo. O cano da arma velha fendeu-se com a explosão, o fogo cegou o olho da mira e chamuscou todo o rosto. Nem assim perdeu a agilidade. Esbravejando pulou por cima das touceiras de onde os soldados disparavam, lacerando os cujos com o terçado sem lhes dar tempo de carregar as armas, impondo-lhes sua valentia com a derrota. Eram poucos e ficaram ali para sempre, uns demoraram tolerando a dor e a morte chegar, suplicando por um golpe final de boa morte.
Seus rompentes de valentia eram falados, dizia-se protegido e que sempre escapava porque a morte não o queria em seus desígnios. Parecia ser verdade pelas vezes que enfrentou tocaias e ardis que o inimigo impunha, como se soubesse de seus próximos passos. Essa fama o fazia, onde passasse, incorporar mais seguidores, já formavam um grupo de mais de quarenta entre tapuios, escravos fugidos e mamelucos como ele.

Quando um sinal de caminho havia, a sina se impunha nas errâncias, sem tergiversar para o passado. Pedro Potaço lembrava o relho comendo a carne, a cada chicotada o algoz dava uma risada mais alta, sentia o sangue verter escorrendo até o cós da calça. Foi a primeira e a última vez que foi açoitado, cumprindo punição por comer da saca de farinha. Castigo imposto como escravo ele fosse, amarrado na argola da porta pelas mãos e sentindo o peso das do patrão misturar com a risada e os impropérios. A mulher pedindo clemência e o português batendo o preço da mão de farinha.

No silêncio, a marcha descompunha em leque, até o barranco, modo evitar a tropa vinda em alcance. Divididos em grupos de três em três, sobrando na retaguarda Potaço e o mulato Mutu, ferido no peito.

Acantonados na mata, sentiam o mormaço da tarde produzindo um torpor que contagiava a todos. Na espera do sinal, um momento de descanso no meio da fatigante marcha de tantos dias.

Tremeluziu na escuridão da noite nascendo; o sinal do candeeiro na margem, era o aviso. Estertorando ao seu lado, com o peito aberto por ferimento, o mulato perdia todo o sangue; os espasmos de dor pareciam afastar a morte; precisava ser carregado mas o tempo urgia, era uma distância que ele não dava conta de carregar só; a decisão foi tomada sem hesitação: fez que o iria carregar com uma mão e com a outra cortou a jugular na misericórdia de não abandoná-lo sofrendo.

No lanchão, em meio ao gado, se esconderam, agachados para a travessia, o alvoroço dos animais foi se aquietando quando a embarcação pôs-se em movimento, margeando, rio abaixo, à espera do outro sinal. Quando ele, veio em três piscadas de lume da outra margem, a embarcação atravessou.

A roupa de algodão esmolambada que cada um vestia fazia muito perdera a cor; a sujeira predominava. As armas velhas, a falta de cartuchame, de pólvora, a maioria dos homens armados de terçados, bordunas e franzinas lazarinas mal davam conta da caça. O alimento era escasso, raro uma caça, dividida sem fartura, em nacos que não matavam a fome. Mas a valentia os alimentavam e sabiam ser sorrateiros.

Ensombrecia a tarde quando o governador de armas começou a falar para uns poucos reunidos em volta atendendo o toque de rebate. O descaso com seu pronunciamento o deixou colérico. Gritava proceder do reino, de avoengos ilustres, gabava representar o império. Que iria acabar com os desmandos havidos até ali, enumerava a captura de revoltados, a prisão de uma dezena de culpados. E deram-se horas, até quando os estampidos da primeira carga surpreenderam a milícia formada no Largo.

O português foi encontrado morto entre as sacas, com a boca cheia de farinha empapada de sangue e a urina escorrendo, ainda quente, pelo chão.




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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Dozinha e Inácia - MQ

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- I’êle sortava vento inquanto fornicava i’eu, fornico froxo, por mode conta da nhandiroba qu’eu passava. Achava qu’era gosto meu. Quando envinha era os modo, fazê num duê, um avantajo daquele quereno... quereno... cruzi crêdo, Suzuca reclamava, Armina tamém. Insinei marrá tripa de porco cum olhim d’nhandiroba, na hora era só moiá um dedo, inludia. Suzuca cuntô pra Nhanjina, i’ela feiz tamém.

- Ficô tudo pra i’êle, gostano dele. Nois vigiava os rumo d’ele vim mó num querê o manipanço. Num matá boi, i’ele pegava nóis, uma. Medo de ficá sem coiê o sangue pro sarapatel, inda na bondade dele, procela dum oiá mais teso qu’eu davo.

- Ué mia parenta siô ôiava cedo pr’uma, paresque gustá du craro, cum’antão o vaquero Ventura du iscuro... i’êle sim. Caricia tripinha, caricia fingi detono, ‘struvenga firmava us gozo, quan’ele dava diamba, uns mais.

Remavam descendo o rio, com a canoa carregada de cachos, costume que faziam gosto, hora de se tardar, longe dos afazeres, longe da perseguição dos homens de mando. Hora mais feliz das duas.

No repuxo da curva, ouviram a explosão e viram o primeiro sinal de fumaça. Quando deu vista, o velame da embarcação inçado de vento fazia distância.

Temeram! Eram tantos homens que chegaram nos últimos dias, tantas armas e conversas... a cozinha ficava o dia todo com a mesa posta, davam comida a todos que vinham. Sabiam coisa importante acontecendo; o padre junto, muita gente bem vestida, livros e papéis esparramados, ordens pra todo lado; agora aquele silêncio e o sinal de fogo.

Uma luta teria durado mais e a guerra ouvida de longe. Remaram mais depressa e foram distinguindo a destruição, a casa grande, a senzala, o paiol, as moendas, tudo queimando, restado somente a capela com a parede lateral quase destruída.

Encostaram na boca do igarapé com medo e desembarcaram cautelosas, se aproximando devagar, procurando avistar alguém que não havia ali. Nenhum corpo. Andaram nos arredores, nenhum cabaneiro, nenhuma criação, nada vivo. Como se tivessem sido engolidos pela explosão que ouviram.

Desnorteadas, as duas escravas dormiram aquela noite no que restou da casa e, na manhã, sem encontrar ninguém, somente aquele silêncio no ar, remaram subindo o rio, margeando entraram no primeiro igarapé, evitando quem fosse.

Enveredaram por muitos caminhos d’água, abandonando a canoa, pensando conhecer a nesga de barranco, e caminharam por horas para descobrir que não sabiam por onde andavam. Com a noite, o medo dos barulhos da mata, Inácia, ferida num resvaladouro e o cansaço, sem saber voltar nem para onde, tinham amarrado a canoa, prostraram embaixo dum enorme angelim.

Ali foram encontradas muitos dias depois Donzinha, fraca, variando e comendo terra; Inácia com a ferida gangrenada na perna dando os últimos respiros.



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