segunda-feira, 31 de março de 2014

João Carolina - MQ


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Carolina hum, hum, hum...

Carolina hum, hum, hum...

 

E passava os pés no chão, ora com o direito, ora com o esquerdo, arrastando um na frente, puxando como se a sola fosse subir no outro. Com o que firmava esse movimento, dava um pulinho para frente.

Era o João Carolina, pessoa e dança.

Ele perambulava pelas ruas, juntando os meninos onde passava, quando bebia cantava e dançava.

 

Carolina hum, hum, hum...

Carolina hum, hum, hum...

 

Sem beber, saía pelas ruas, falando em latim, segundo o cônego que, vez em quando, levava ele à casa paroquial para um banho.

Quando sóbrio, se irritava com a meninada e atirava pedras. E eles vinham gritando atrás dele:

 

Carolina hum, hum, hum...

Carolina hum, hum, hum...

 

Chegou à cidade e se agregou a ela, ninguém sabia quem era ou de onde tinha vindo. Não falava nenhuma palavra a não ser em latim.

Ficou João Carolina por causa da dança. Doido, ninguém sabia como. Passava horas falando a mesma frase em latim. Dormia no coreto da praça ou desaparecia nos matos ao redor.

Uma vez o vi, no pasto, deitado no chão com as mãos abertas, gritando bem alto:

 

- Deus, me ajuda!

 

Tive coragem e me aproximei.

 

- Seu João Carolina.

 

Ele levantou os olhos e me olhou. Não disse uma palavra.

 

Carolina hum, hum, hum...

Carolina hum, hum, hum...

 

Não se sabe da mão de qual moleque veio a pedra. Foi bem na testa, o sangue escorreu, formando uma poça no chão. Levei imediatamente para casa, cuidei do ferimento e o deixei dormir lá. Sua noite foi um delírio só. De manhã não falou uma palavra. Foi só aquele olhar calado.

Cada dia me convencia mais, observando João Carolina na rua, de que ele não nascera daquele jeito. Havia enlouquecido no decorrer da vida.

Nascia ali uma cumplicidade demonstrada nos olhares. Mas muito estranha. Havia medo no olhar dele, havia curiosidade e um pouco de medo no meu.

Uma vez o segui pelo mato, ele tirou a roupa e, nu, chorava e gritava.

 

- Deus, me ajude!

 

Num ponto da cerca o esperei.

 

- Seu João Carolina, o senhor está bem?

 

Ele sentou no chão. Abandonando o latim e começou a falar.

 

- Eu era padre e me apaixonei por uma mulher casada. Fugi com ela, nos agregamos à Coluna Prestes e andamos muito, sertão afora.

Nasci aqui mesmo; só soube de tudo, já ordenado. Meu pai é daqui, foi abandonado pela minha mãe quando eu era pequeno. E ela me abandonou na rua, em Minas. Fui criado pelos padres e assim me tornei um deles.

Fui vigário em Curvelo. Lá conheci Donana, logo na primeira missa que rezei. Nas confissões a desejava muito, ouvi-la confessar seus pecados me dava prazer e sofrimento. Ela foi notando, pela minha respiração, o quanto me transfigurava naquelas horas. E a cada dia que confessava, seus pecados tinham mais detalhes, mais insinuações. Começamos a trocar também olhares, daí para as juras de amor, no confessionário, foi pouco tempo. Meu conflito com Deus, com a fé e os dogmas da igreja foi nenhum.

Nos deitamos a primeira vez. Já na segunda combinamos fugir e nos juntar à Coluna, que estava na Bahia, e o fizemos na semana, depois da festa do padroeiro, levando toda a renda e os donativos conseguidos. Nas vésperas, recebi uma encomenda do convento. Era carta de padre Anselmo, que relatava minhas origens. Mas não dava tempo de mudar o destino, procurar um pai que eu não sabia existir, levando Donana comigo. Era muito arriscado. Não tivemos problemas nenhum em nos juntar à Coluna, menos ainda em nos adaptarmos à nova vida.

Às vezes, em volta da fogueira, com as mulheres que acompanhavam a marcha, ficávamos bebendo e cantando. Um dia, abusei da bebida, Donana também. Ela começou a dançar, provocando os companheiros, que já não diferenciavam as prostitutas das nossas mulheres. No outro dia, me confessou ter gostado daquilo tudo, não era para me provocar. Deitou com o primeiro, depois daquela dança. Me relatou, passado um tempo, sem omitir detalhes e os nomes dos outros.

Na mesma noite, eu a matei, estrangulada com as próprias mãos; era dia de combate, aproveitei a confusão da batalha e cortei, no facão, a cabeça de trinta e dois companheiros. Oficialmente disseram que foi o inimigo atacando pelos flancos. Levei muitos anos para chegar aqui e descobrir que meu pai morreu faz muito tempo.

 

O João Carolina ficou silencioso e levantou.

Não consegui fazer nenhuma pergunta.

 

 

Me lembro da dor na nuca, da inconsciência. Mas nunca soube quem me socorreu e nunca souberam quem me cortou a língua e as duas mãos.

 

 
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domingo, 30 de março de 2014

São Jorge -MQ


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- Soçobro de rompê essa légua no passo lento. Duas junta. Teimosia de seu Eulálio, magina querê que tocasse os animá no vagar, sem afobo, mais querê tamém que andasse ligero, cum coisa que ia adiantá muito chegá antes do armoço, sei do afobamento dele, entrante o mêis de coiê, mais sei tamém da preguiça de Damin mais Nestor em lidá com o que fosse em meio de manhã. Essa hora pr’eles é de esperá Mazinha chamá prá cumê.

- Andá em recumendo de patrão nem ataio posso fazê por dentro das terra do Sapindó. Recumendô pr’eu pará nus cubertão de mato prá descanso dos animá, nos prazo, de hora em hora. Ê lida! Envou nesse mole... lerdera. E se os boi amuntá no barranco? Mania essa de seu Eulálio tocá boi cum canga, só prá omentá o sirviço, fosse ele o boi, ia vê.

- Nem mei de caminho ainda, diacho, mormaço cansa mais nesse andá lerdo. Quando chegá, banho no poço, armoço e me deito todinho no paiol.

- Que é isso, meu boi? Serena a brabeza, vem cá, meu boi, êi, êi ...

 

Nessa hora, no tanger as duas juntas, amarradas uma na outra, subiram no barranco, Felício desgovernou o corpo amolecendo o equilíbrio, jogando cavalo, cavaleiro e os bois encangados na grota coberta pelo mato fechado. Ao cair, a barrigueira do arreio rebentou ficando o pé de Felício enganchado no estribo, enlaçado pelos pedaços, misturado com os galhos e cipós daquela beira. De cabeça para baixo, pendurado, tentando se erguer, Felício via a agonia dos animais, mal cabendo no buraco, sem ter por onde sair. Procurava um jeito de erguer a cabeça, já não agüentando a posição. Não tinha como cortar o estribo, a faca, com o tombo, caiu da bainha. No braço e no rosto uma ardência que mal deixava ele pensar, como que paralisado, rezava para São Jorge.

 

- Meu Santo cavalero, ajuda i’eu.

 

Nem bem acabou de invocar o santo, ouviu um barulho de mato e viu aquele homem com a espingarda na mão e o cachorro cheirando tudo ao redor.

 

- Precisa de ajuda?

 

- Sim, tira i’eu daqui que envou caíno... o sôr chega naquele pau faiz firmeza com uma mão e me dá a otra. Vou ficá no gradecido, seu moço.

 

Ajudado, Felício conseguiu com muita dificuldade retirar os animais da grota para seguir viagem. Agradeceu ao caçador e depois de explicar como aconteceu aquela situação pôs os animais para andar. Já na distância, agradeceu ao santo em pensamento.

 

- Obrigado São, Jorge.

 

O estranho respondeu, gritando de longe.

 

- De nada, seu moço.

 
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sábado, 29 de março de 2014

ENTÃO, FOI ASSIM? - RUY GODINHO

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O programa Então, Foi Assim? Os bastidores da criação musical brasileira deste sábado, será inteiramente dedicado ao talento e à criatividade do cantor e compositor carioca Oswaldo Montenegro.
Na ocasião, ele nos contará as histórias de:

- Lé e Bia (Oswaldo Montenegro)

- Pra longe do Paranoá (Oswaldo Montenegro)

- Bandolins (Oswaldo Montenegro e Zé Alexandre)

- Lua e flor (Oswaldo Montenegro) e

- A lista (Oswaldo Montenegro).

Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde na Nacional FM.
 
Produção e apresentação de Ruy Godinho.
 
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sexta-feira, 28 de março de 2014

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O Roda de Choro deste sábado é especial.
 
Vai dedicar-se integralmente ao CD Uma história do cavaquinho brasileiro, álbum que o cavaquinhista, compositor e produtor Henrique Cazes lançou em 2012, contando sua versão particular sobre a história do cavaquinho no Rio de Janeiro, desde os primórdios do instrumento no país.
 
Roda de Choro, sábado, ao meio dia pela Rádio Câmara FM, com retransmissão em mais 197 emissoras em todo o Brasil.
 
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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quinta-feira, 27 de março de 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Fiado -MQ


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Dá uma quarta de farinha, seu Manco. Ranja prá nóis mode cumê bom lencasa. Das rumação que feiz, cumé mesmo que chama aquele home? Aquele que amuntô na riqueza da viúva do falecido seu Quelé. Esse um mandô nóis saí das terra, caçá rumo. Nóis tamo num provisoro cum os cigano.

No abuso não, no gradecido. Cigano é povo falado, mais num é cumo é falado não, é povo bão, robin daqui e dali, mais coisa poca, coisa que tá no mundo, de quem pegá é. Coisa uma só, nada p’ra riqueza e nem p’ra ridiqueza, seu Manco, mode tal a quarta de farinha que careço e o sôr num há de negá.

Magina, seu Quelé vivo, dexava esse avexo? Inda mais que sempre fui trabaiadô, até a viúva sabe, mais ela num põe cisma no que o um faiz, não. Fica no calado e ele vai lidano do modo. É home ruim, seu Manco, parece de parte com o diabo, magina zangá pur conta dum capado que seu Quelé em vivo, deu. Tava no ponto, sangrei, no tá fazeno a lingüiçada o home viu e ralhô, tomô até os miúdo, xingô um muito, em poco num infrentei ele.

Faca tenho não, seu Manco, canivetinho de fazê, nos em hora, o pito. Pruveita, ranja tamém um dedo de fumo seu Manco, tô no escasso, o sôr põe cobro, evém a lua nova, tiro mel, faço paga dos trem.

Abuso não, semo de lida, sirviço que o sôr tivé faço. Qué rumá a cerca dos fundo? Corto pau no mato, lavradinho, sôr põe linha, tira o prumo, cerco tudo no jeito. Agrego na paga duns trem.

Tenho queixa não seu Manco, em lá ficou o cujo, mais a vida vai viveno, nele e neu, e se ele é o próprio coisa num resto prele, não. Careço é de rumá aprumo logo, fazê uns cobrim, achá um lugá longe e devotá à Nossa Senhora de altar.

Aqui? O padre num dexa nem i’eu entrá na igreja, repara d´eu tá lá cum os cigano, põe zanga iqual o um, tamém é dono, né.

Fôr priciso faço de pau, lavro manto e tudo, capelinha faço, ponho no rancho, devoto. Quero vê! Arremedo, iscundido, a capelinha da casa de seu Quelé. Sô bôbo não! Pode fiá seu Manco. Já quais sei fazê muita coisa, largo fiado p’ro sôr não.

Pode fiá na garantia da palavra, do céu Nossa Senhora vai pôr zêlo pr’eu saí da pricissão.

 

 
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terça-feira, 25 de março de 2014

segunda-feira, 24 de março de 2014

O irmão do Rutinho - MQ


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O sol já ia nas grimpas do dia, esparramando quentura para todo lado, e o menino ainda no faltar das obrigações com o padre que era teimoso, imagina chamar Zé Bilú na igreja, convencer de quê, meu Deus? O povo falava até que ele tinha parte com o diabo. E agora essa do vigário chamar. Boa coisa não era.

E não era mesmo, o padre exigia de Zé Bilú que ele desse a volta e não passasse na porta da igreja, como fazia toda madrugada, quando voltava do jogo, bêbado, e gritando pela rua. Ameaçava excomungar, mandar prender.

Zé Bilú retrucava que ele num tinha nada com os particulá dele, que ele era home do mundo e num tinha respeito de quem usava saia.

A confusão foi formada, no sermão de todo dia o padre excomungava o ateu; na intendência, dava parte; falava com as gentes da política. Falava, com as carolas do lugar, da qualidade desse cidadão, não tinha profissão, ninguém sabia de onde tirava o sustento. O padre parecia não tirar o Zé Bilú do pensamento hora nenhuma. Esse, por sua vez, fazia parecer que nem era com ele. Fingia não ouvir.

Mas de madrugada sempre achava um jeito de levar um animal qualquer para defecar na porta da sacristia. No outro dia, o vigário fazia queixa para o delegado e procurava durante todo o dia Zé Bilú, sem encontrar.

Zé Bilú não corria dele, mas sempre evitava encontrá-lo, fosse para não ter o bate-boca, fosse para não enfezar o homem.

E assim foi sucedendo, excremento na porta da sacristia, falação no sermão. O delegado não tinha como fazer nada, o intendente era parceiro de jogo do excomungado. E todos foram se acostumando com a arrelia dos dois.

A vida de Zé Bilú não era só no à toa, não. Não era só no jogo o arrisco dele, tinha o garimpo no Veríssimo, no à-meia com o Rutinho, espera de sorte no cascalho, nas águas do rio. Teimosia de anos, de muito baralho partido para o lado do não, de muitos calos nas mãos que ele não dava parecença.

A não ser Baldino, que sabia e fornecia abastecimento, quase sempre no prazo de troca das poucas pedras do de sustento. A maior dava para ano, mas ficou na banca de jogo. Zanga de Rutinho. Mas Zé Bilú tinha o crédito do fornecimento e a zanga acabou aí.

Zé Bilú pôs combinação com o irmão, na evitação da mesa de jogo, enquanto não repartisse as pedras poucas que tirava. Depois disso era os dias na rua, no carteado, na arrelia com o padre, enquanto o cobre durasse.

Rutinho que ficava no pesado da lida não punha importância. O irmão, quando pegava na bateia, trabalhava num dia o que valia muitos. Às vezes, Zé Bilú chegava, sentava no barranco sem nem tirar as botinas e ficava olhando o cascalho para lavar, como naquele dia, com o olhar fixo num rumo, pensando sabe lá o quê. Ficou quase a manhã assim.

Não espantou Rutinho. De vez em quando ficava sentado olhando, já estava acostumado. Mas, de repente, ele levantou, passou a mão na bateia e foi no rumo certo do monte de cascalho para lavar e nem chegou a usá-la. Com a mão mesmo ele pegou a pedra, soltando um grito que foi ouvido até lá no Garimpo do Ligoso. A pedra era do tamanho de um ovo, das mais puras. Logo chegou gente de outros garimpos, tamanha a gritaria de Zé Bilú e Rutinho.

 

- Bamburrei minha gente, segurava o diamante com as duas mãos, punha contra o sol, pulava e gritava com o irmão e a companheirada que foi juntando.

 

A notícia chegou no Vai Vem, primeiro que o vento que estava soprando. Mas os irmãos não foram para lá, não. No medo de queimar a pedra esperaram um mês a passada de Baldino no voltar. Com ele foram para Minas vender o bamburro.

Com os cobres na guaiaca, puseram a labuta nas terra da viúva de Totonho Costa, comprando a parte dela, mais a de dois herdeiros, incluindo a sede. Formando com o ajunte dos pedaços, terra bastante para gado, lavoura e muita criação.

Zé Bilú, passados quase seis meses, voltou para a mesa de jogo como se não tivesse acontecido nada. De madrugada, a mesma algazarra de sempre, a mesma arrelia com o padre, o animal defecando na porta da sacristia. E para surpresa sua, não teve sermão.

O padre nunca mais fez queixa de Zé Bilú para o delegado nem para o intendente. Mas quisesse saber dele, era só passar na porta da sacristia, se tivesse o monte ali, Zé Bilú estava no Vai Vem.

No correr do tempo, Rutinho engraçou com Lonora dos Costa. O irmão tratou do pedido e foi com Rutinho combinar data na igreja.

E aí foi senhor José Belarmino para cá, senhor José Belarmino para lá.

Hoje, dia de Nossa Senhora da Conceição, festejo maior da paróquia, Zé Bilú é o festeiro. Na procissão, Zé Bilú carrega o andor com a fita de congregado mariano no pescoço.

Mas, até hoje, se quer saber se ele está no Vai Vem é só passar de manhãzinha na porta da sacristia e ver se o monte esta lá.

 
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domingo, 23 de março de 2014

Moça Davina -MQ


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Davina era só pensamento, de tanto o padre falar em anjos, pensava como seria a vida deles, por que cada um tinha um da guarda? Será que, também, tinha um demônio para cada um, na tentação?

Olhava a figura do santinho que a mãe lhe dera quando pequena, o anjo protegendo a criança quase caindo no abismo. Era tão bonito aquele anjo. Será que cara teria o demônio? Pensava. Será que o padre ia zangar com ela se perguntasse? Será que Lalinha tão sabida, lia tantas coisas, podia explicar?

Davina ficava pelas tardes perdida dentro da imaginação, sonhava com o anjo, com aquela beleza toda, lhe dando a mão como fosse a criança do santinho.

Um dia, pediu que Lalinha explicasse se, como o anjo da guarda, todos tinham um demônio da tentação. Como era a cara do diabo, do anjo da guarda ela conhecia, tinha o santinho. Mas se o demônio aparecesse como ia distinguir.

Lalinha, cheia de mistério, contou que o diabo era a tentação em tudo, tinha qualquer cara que quisesse, ardiloso, era coisa ruim, era o mal. Lembra dos sete pecados? Orgulho é coisa dele, a inveja também, até uma bem pequena. Preguiça era ele atentando, a gula era ele comendo dentro da gente, a ambição e raiva, tentação dele, e a luxuria era a vontade de fazer coisas, sem-vergonhices.

Gostar de doce de leite era pecado? Perguntava Davina. Gostar não era pecado, mas comer mais do que a fome era. Respondia Lalinha.

As duas ficavam nessa conversa por horas, enumerando situações de raiva, inveja, preguiça e ambição, quando chegava na luxuria Davina queria saber mais. Não pode, é desonra, mas quando você casar pode, não é pecado, Lalinha respondia como se soubesse tudo sobre aquilo. Como? E não dói? Perguntava Davina. Não devia doer era abençoado por Deus, deve de ser bom, mas sai um pouco de sangue. Antes de casar é como se fosse o diabo fazendo, dizia Lalinha.

Durante muito tempo era o assunto das duas, onde Davina visse Lalinha sempre tinha uma pergunta. Perguntava se ela já tinha beijado. Se era pecado. Tinha que confessar? Isso era tentação?

Lalinha demonstrava conhecer o que só tinha no curioso, nunca ia contar que sabia bem pouco daqueles assuntos, gostava da admiração da amiga.

 

 

Necão conhecia todos na sala mas, mesmo assim, não se dirigiu a ninguém, foi passando, generalizando o cumprimento.

 

- Tarde.

 

Nem prestou atenção se lhe responderam ou não, foi direto para a cozinha em sorriso nenhum. A mulher do Donato, que fazia o café, foi quem lhe falou.

 

- O senhor acalme seu Necão que não há de ser nada, a mãe está com ela no quarto, a menina já serenou e o padre foi chamado.

 

- Padre, prá quê! E esse povo aí na sala? Que ajuntamento de gente é esse?

 

- O senhor não sabe o que aconteceu com a menina? Se pôs no choro desde cedo e começou a gritar, não deixando ninguém chegar perto, agora que abrandou. Gritava muito e falava embaralhado, sem sentido.

 

- Por que chamar o padre? Perguntou Necão, entrando no quarto onde a mãe e a filha abraçadas choravam.

 

- Foi o diabo, pai. Foi ele sim.

 

Enquanto falava, Davina se encolhia na cabeceira da cama num choro doído, com as cobertas tampando o corpo, ficando só a cabeça de fora. A mãe chamava por Nossa Senhora da Conceição, e Necão, sem reação nenhuma, parado no meio do quarto não entendia nada. Nesse momento o padre chegou, Davina, ao vê-lo, começou a chorar mais alto ainda e a gritar.

 

- Foi o diabo, seu vigário, eu não queria não.

 

O pai, se refazendo do susto, esbravejou com uma raiva que nunca ninguém vira.

 

- Diabo coisa nenhuma, cadê esse safado? Conta quem é, Davina, vou acabar com a raça dele. Quem é o desgraçado, me conta, filha?

 

- Calma, seu Necão, pediu o padre.

 

- Ela está possuída? Perguntava a mãe, chorando.

 

Com muito custo, o padre convenceu o casal a sair do quarto e rezou por mais de hora, enquanto os vizinhos se juntavam pelo resto da casa como se tivesse morrido alguém. Nessa hora, Necão não agüentou e pôs todo mundo para correr, já com a espingarda na mão.

 

- Ela falou o nome do desgraçado? Perguntava ao padre que saía do quarto com cara de pouco adianta.

 

Dobrando os paramentos, disse que ela nem deixava ele chegar perto e que era um despautério essa história de diabo, mas, por via das dúvidas, ele exorcizou a menina e benzeu o lugar.

Necão enfurecido entrou no quarto seguido do padre e da mulher e encontrou Davina, ainda chorando, quase nua, com o sangue escorrendo pelas pernas, tentando esconder o lençol sujo. A mãe ao ver a filha daquele jeito, tirou o marido e o vigário do quarto, chorando, ajudou a filha limpar o sangue do seu primeiro menstruo.

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sábado, 22 de março de 2014

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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O programa Então, Foi Assim? deste sábado, será inteiramente dedicado aos 50 Anos do Golpe Militar no Brasil.
 
Vamos mostrar, por intermédio de entrevista com diversos compositores, de que forma este golpe atingiu a classe musical, com a instituição da censura, da repressão, das torturas, dos desaparecimentos, dos assassinatos e da ausência total de direitos civis, que deixaram profundas sequelas na alma brasileira.  
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde pela Nacional FM.
 
Produção e apresentação Ruy Godinho
 
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sexta-feira, 21 de março de 2014

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O programa Roda de Choro deste sábado vai ser especialmente dedicado à criatividade e ao virtuosismo do multi-instrumentista carioca Carlos Malta, nascido no Rio de Janeiro em 25 de fevereiro de 1960.
Em entrevista concedida em 17 de abril de 2013, ele comentou sobre a carreira, falou da vida, do instrumento e dos parceiros.
Na parte musical ouviremos uma seleção de choros de diversos álbuns de carreira de Carlos Malta.
 
     Roda de Choro, sábado, ao meio dia pela Rádio Câmara FM, com retransmissão em mais 197 emissoras em todo o Brasil.
Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Fogo pelas ventas - MQ


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Não havia ninguém no mundo que se parecia mais com uma vela do que Otacílio. Pudera, desde menino freqüentava aquela sacristia.

Tinha sido coroinha quando pequeno e, por mais de sessenta anos, era sacristão. Já havia enterrado dois padres, um monsenhor, e um cônego.

Magro, seu aspecto era o de uma vela; conversar com ele de perto não dava, não que tivesse mal hálito, era o cheiro de vela. Já quase cego, só enxergava direito firmando as vistas. Mas de uma devoção desmedida com a paróquia, a padroeira e o vigário. Cuidava dos paramentos, imagens e demais ornamentos com zelo, sabia onde cada um estava guardado na igreja.

Uma vez, a meninada escondeu o Cristo morto, ele passou apurado até descobri-lo escondido atrás do altar de Nossa Senhora Aparecida. Desse dia em diante, nas vésperas da Semana Santa, ele vigiava a sacristia dia e noite.

Com a velhice, mal enxergando e ouvindo, deixavam que ele fizesse apenas algumas tarefas mais leves. Entre elas, acender as velas. Era um ritual. Primeiro as do altar mor, depois, um a um, o de Santo Antônio, Nossa Senhora Aparecida, São Judas Tadeu, Nossa Senhora da Conceição e, por último, o castiçal que ficava em cima da mesa da sacristia, que o padre ao celebrar a missa levava para o altar.

Todos os dias, após acender as velas, meia hora de conversa com dona Cotinha, na sacristia, onde a vida alheia era revista em detalhes, principalmente a de Totonho Costa, fazendeiro, político, homem dos mais influentes da região.

Otacílio tinha muito medo dele, não ficava um segundo perto. Dizia para dona Cotinha, na sua fala mole, cheirando à vela:

 

- Seu Totonho gosto não, muito brabo, está sempre botando fogo pelas ventas.

 

Razões Otacílio tinha de sobra. O fazendeiro só andava com os capangas guarnecendo, era de uma ignorância sabida e já provada por todos. A qualquer lugar que fosse, primeiro os capangas na frente.

A Cobra Verde ficava na ponta da Rua de Cima. Casa de mulher, toda caiada de verde, os cômodos forrados de pano vermelho, até a cozinha. Extravagância de dona Preta, mantida por Totonho Costa, freguês mais importante, para quem ela sempre guardava uma novidade.

Na véspera, Dé Cristão, seu capanga, chegava pelos fundos para dar aviso. Dona Preta providenciava os preparos e, nesse dia, a casa não abria. Totonho chegava de tardinha, desmontava e seus capangas soltavam os cavalos no pasto, atrás da casa, e ninguém mais se aproximava do lugar.

Totonho Costa tinha taras que eram guardadas em segredo, a sete chaves. Parte na generosidade do dinheiro e parte no exemplo da Mudinha, que dona Preta fazia questão de mostrar para toda rapariga nova, dizendo que Totonho é quem cortara a língua dela.

Nesse dia foi igual. Duas talagadas de cachaça, já escolhida Diolinda, a cigana que, quando não tinha nenhuma novidade, era sempre a preferida. Diolinda conhecia os gostos. Na hora certa.

 

- Enfia a vela! Gritou Totonho.

 

Ela tirou a vela debaixo do travesseiro e enfiou. Foi quando o estremecer pareceu diferente das outras vezes, o corpo retesou e ela sentiu por dentro um enrijecer que não conhecia daquele jeito. A contração dos músculos quebrou a vela na sua mão, ficando um pedaço enfiado. O quietar-se do corpo era assim mesmo adormecendo, mas o esfriar não.

Só se ouviu o grito na madrugada, quando ela percebeu o frio da morte.

Foi uma correria, dona Preta não sabia o que fazer, chamou os capangas, eles também não.

Dé Cristão acordou o padre quando já amanhecia. Contou que o ataque se deu no caminho, quando o Coronel ia trocar de roupa, depois de se banhar no Lajeado. Demoraram a encontrar o corpo e resolveram trazer para a igreja, por ser mais perto. Além do mais, eles não conseguiam vestir as roupas no morto.

O vigário foi na conversa, ajudou a pôr o defunto em cima da mesa da sacristia. Por causa do membro enrijecido, o coronel foi colocado de bruços.

 

- Vamos banhar ele e cortar a parte de trás da roupa prá vestir. Mande avisar a família. Pediu.

 

E saíram da sacristia, deixando o corpo estendido de bruços na mesa.

Nisso entra Otacílio para acender a vela e acende o pavio que saía do ânus do morto.

Dona Cotinha, espantada, já dentro da sacristia.

 

- O que é isso, seu Otacílio? É seu Totonho Costa?

 

Quando o sacristão olhou para trás, assustado, e firmou as vistas, o toco de vela que arrolhava o ânus do morto já havia derretido e os gases do corpo em contato com a chama provocavam uma labareda de fogo.

O sacristão espantado. Dona Cotinha desmaiando.

 

- Divino Pai Eterno, pelas ventas eu já sabia, mas pelo rabo, ainda não. Cruz credo.

 

 
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quarta-feira, 19 de março de 2014