sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

RODA DE CHORO - RUY GODINHO

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O Roda de Choro deste sábado traz no 1º bloco Alfredinho Flautim, compositor dos primórdios:.
No 2º bloco um tributo: Fernando Caneca visitando Canhoto da Paraíba.
No 3º bloco o destaque vai para O Charme do Choro, composto só por mulheres, de Belém do Pará.
No bloco do Choro Cantado, Marianna Leporace (voz) e Sheila Zagury (piano) apresentam o CD São bonitas as canções.
E para finalizar do CD Cartografia Musical Brasileira, o som do Trio Brasília Brasil.
 

Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
Roda de Choro, sábado ao meio dia pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz de Brasília e retransmitido por mais 198 emissoras por todo o Brasil.
 
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Valentia - MQ


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Desgoverno nas idéias, no tolerar a vida em pirraça constante, serviço faltando, doença demais no em volta, alegria nenhuma, nem as miúdas. Custoso dormir, acordar mais ainda. Ver no dia-a-dia o corpo faltando, como ir minguando vida a fora. E para quê? Ver o patrão não fazer para o anteontem, eu junto, juntando o quê? Recebendo pagamento só no depois de amanhã, ainda com arrelia dele por coisa pouca. Para que o estorvo de mulher tolerar?

 

- Olha os remédios!

 

- Não come gordura!

 

- Está fumando demais!

 

Era vida?

 

- Por que não aposenta?

 

Isso era proposta de fazer? Os filhos morando longe, todos por conta própria. Fazer o quê? Acordar, ficar esperando o serviço aparecer, se aparecesse de manhã, sumia de tarde. Esperar o almoço, o jantar e depois a conversa igual na porta, tomando a fresca. Agora era homem de tomar a fresca?

Fartura de expectativa, renego um tudo de tempo que até podia lembrar e ir tapeando, mas não tinha saudade de nada do para trás. Queria era o na frente e o na frente só vinha o detrás no lembrar, da prosa do vizinho, da mulher, do negócio que o patrão recordava como se quisesse valorizar minha permanência, que ele pagava no atrasado, mas pagava. Vida essa.

 

- E Deus, precisa acreditar em Deus!

 

- Por que não vai numa igreja? Reza um pouco, alivia!

 

Isso era conversa? Não é queixume esse meu de homem indefinido. Fiz coisas importantes? Fiz não, ninguém fez, todo mundo vai é fazer. E eu rezar, virar lambe hóstia, contar o do dízimo? Queria era solavanco, aventurar no novo, no em ir. Mas para onde, fazer o quê? A vida perseguiu tudo só no de comum até hoje. Nenhum feito, nada que relembrar dava o prazer de ser maior, nem um pequeno gosto em conversa de tomar a fresca. Queria minguar, mas na valentia e na consideração de todos, graúdos e miúdos, ou então saber contar o quase nenhum da vida e deixar o ouvinte no interesse, na alegria ou mesmo na tristeza. Conhecia gente que também tinha pouco no ir vivendo mas, quando contava, quem ouvia, ouvia calado, ria, prestava atenção.

Tomei a decisão numa tardinha, embrenhar no mato como vim no mundo e esperar a hora chegar, sem lamentação da demora e sem a pressa de acabar logo com aquilo. Caminhei muitos dias e muitas noites no mato fechado, mais que pude fui entrando, sem a noção do tempo, procurando o pior e nisso fui vendo uma valentia tomar conta, um lembrar do que não dava valor.

Aí apareceu ele.

 

- Cabra miúdo, miudeza eu levo.

 

Naquela hora, o desaforo ajudou a ferver meu sangue e na luta com o tinhoso, o que primeiro achei para segurar foi seus culhões e ele os meus. Assim ficamos sete dias e sete noites, eu tolerando aquela dor e ele também, na maior parte do tempo os dois com a pega afrouxada, fingindo camaradagem.

 

- Num veio findá, miudeza? Ele dizia.

 

Eu apertava, ele apertava.

 

- Afrouxa que eu afrouxo, miudeza. Pensa que vai sair dessa prá ficar arvorando valentia? Vai findar miudeza!

 

No sétimo dia ele me soltou e sumiu como apareceu. Foi quando a febre tomou conta e fui minguando com aquela valentia, ali bem dentro de mim, sem poder contar para ninguém. Aquela valentia minguando junto, entrando junto na ausência, no escuro, no silêncio.

 
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

PONTOS DE LUZ

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sexta comunicação codificada - MQ

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Sexta comunicação codificada

 

 

Para Joaquim Barp Quinan

Do teu avô-menino

 

 

Entre todos as procuras

Do avô-menino

 

E certamente o menino-neto

Joaquim Barp Quinan

Haverá de ajudar

Um tanto muito

 

Está enxergar o modo vivo de tudo

Que há no mundo

Uma pedra de caminho

O próprio caminho

Rios, árvores, aves...

A terra, o ar...

A imensidão

O mofo da gaveta

Tudo vive

E nada é em vão

A água vive vida de água

O sal vida de sal

O musgo cumpre sina

Cada qual com seu papel

Cada qual com seu sinal

 

Quando achar um ser

Que ainda não achamos

Vivendo

Depressa acione os canais

Da nossa comunicação codificada

Avise o avô-menino

Para juntos observarmos

Os modos do achado

Aprender da vida viva

E da muita beleza

 

De minha parte

Tenho

Quase tudo encontrado

Catalogado no coração

Para na oportunidade

Apresentar ao menino-neto

A sabedoria de um por um

 

Cuidado que alguns homens

Procuram os seres

Para proveito

Outros para preservação

Com essa gente

Todo cuidado é pouco

Nosso motivo pra eles é nada

 

E assim posto

Juntamos nosso amor

Em amar a vida

Nesse trato vivível

Selado no tecido

Da poesia viva


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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

FRUTOS

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sábado, 22 de fevereiro de 2014

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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O programa Então, Foi Assim? deste sábado, será inteiramente dedicado ao talento e à criatividade do roteirista e compositor carioca Juca Filho.  
 
Na ocasião, ele nos contará as histórias de:
 
- Quem tem a viola (c/ Zé Renato, Cláudio Nucci e Xico Chaves)
- Toada (c/Cláudio Nucci e Zé Renato)
- Acontecência (c/ Cláudio Nucci) e
- Pelo sim, pelo não (c/Cláudio Nucci e Zé Renato).
 
Então, foi assim? Os bastidores da criação musical brasileira, sábado, às seis da tarde pela Nacional FM.
 
 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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O Roda de Choro vai dedicar-se ao Festival Curitiba no Choro, realizado em duas versões (2004 e 2010), naquela capital e que reuniu compositores de Choros de todo o Brasil.

Durante todo o programa conversaremos com o violonista e compositor João Egashira, um dos organizadores do evento.

Na parte musical tocaremos os choros vencedores constantes dos CDs Festival Curitiba no Choro - Volumes I e II.


Roda de Choro, sábado ao meio dia pela rádio Câmara FM, 96,9 MHz de Brasília e retransmitido por mais 198 emissoras por todo o Brasil.

 

Produção e apresentação: Ruy Godinho
 
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Zé da Cabaça - MQ


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No embornal, levava a paçoca feita por Didinha na véspera; na mala de saco, traspassada na sela, duas mudas de roupa e, no coração, vontade de chegar logo e ver como era ela. Meu olhar ficava perdido nas patas da mula da frente, como se cada passo deixasse para trás um pedaço.

Distraía tanto no pensar que nem ouvi o urro da onça no Capão de Dentro, terras de Cristino da Barreira. Mas a mulada ouviu e se assustou fazendo trote, desorganizando a comitiva. Bem que o pai tinha avisado para esperar o cometa do Baldino; acompanhar a boiada era mais difícil.

Apesar de as mulas com o rancho estarem na frente da boiada, quando elas se assustaram, o gado ficou nervoso e se dispersou pelo mato afora com o descontrole dos vaqueiros de Tertuliano. Juntar a boiada de novo foi trabalho de um dia; mais de dez novilhos desembestaram para o lado do mato contrário ao urro da onça, na juquira pura, terminando no Ribeirão da Concórdia. E foi lá, no contrário do urro, que achamos, na outra margem, a toca da onça.

Foi só contar, que Zé da Cabaça já começou a se arrumar para a espera, apesar da reclamação de todos, fosse pelo carecer do serviço, fosse pelo perigo. Avaliando o urro, era bicho grande, pelo tamanho da toca, então, assustava mais ainda. Mas Zé da Cabaça não labutava com medo, não. Afamado, tanto na mira como pela paciência; caçador de paca sem igual. Capaz de ficar noite inteira em cima do jirau, à espera. O apelido era por causa da cabaça onde urinava nessas horas, para não deixar cheiro e a caça espantar. Matar uma onça era um ato de respeito que, até hoje, ele não havia feito, e agora não ia desperdiçar uma chance daquelas.

Acompanhou a boiada até meia légua do lugar, esperou organizar o pouso e a noitinha chegar e saiu rumo da toca da onça.

A merenda já estava cheirando quando apareceu Zé da Cabaça, cabeça baixa.

 

- Ela num apariceu, disse. E se ensimesmou no resto da viagem.

 

Chegamos ao curtume já no meio duma manhã de domingo; despedi dos companheiros e na casa do padrinho Delmiro banhei, indo, com ele direto para a casa dela.

Conheci primeiro o pai e a mãe. O café. Ela que fez, disse dona Laura. Depois de muito prosear, falando dos teres e haveres, foi que a chamaram. Era muito formosa, mais que podia ser no meu pensamento.

Pouco mais de mês fiquei no Vai Vem, em compromisso do noivado; marcamos data e tive estrada, levando, dentro, o cheiro dela.

Fui, com o padrinho, até a Forquilha no compromisso dele e, de lá, na passada do Baldino, segui com ele.

O pai tinha razão, com o cometa a viagem demorava menos, apesar do descarrego e carrego das mulas em cada dormida, dos pousos demorados por conta dos negócios de Baldino.

Na passagem pelo Capão de Dentro, avistamos ao longe um homem entrando nos matos; quando chegamos perto, era Zé da Cabaça lidando com o almoço. Seis codornas, já assando, pareciam nos esperar.

 

- Suzinho no mundo, seu Zé da Cabaça. Falou Baldino.

 

- Tô na labuta cum onça, seu Baldino.

 

E contou que já fazia mês que estava à espera da onça; passava a noite em cima do jirau e nada da bicha. De dia, distanciava para  o cheiro não acusar. Não a viu  nesse tempo todo, mas as marcas do rastro estavam por todo lado. Já tinha estudado o terreno por onde ela chegava;  tinha entrado na toca muitas vezes para ficar com o cheiro dela. Não tomava banho, só passava as folhas do mato no corpo para não recender cheiro de gente. E nada da onça. Mas que ela estava por perto, ele tinha certeza.

Seu Baldino ria  muito e falava para o Zé da Cabaça:

 

- Onça é bicho tinhoso. Ela já sabe que ocê tá tocaiano ela, ela óia mais procê do que ocê prá ela. Ela sabe mais docê que ocê dela. É no dia que ela tá drumino, inganano o amigo.

 

- Deveras seu Baldino?

 

Seguimos viagem, deixando ele resolvido tapear a onça; pondo sentido no de dia e no de noite.

Didinha fez paçoca, almôndega, farofa, piou na vara muitas galinhas e mais um-sem tanto de matula. E dessa vez toda a família, mais dois vaqueiros, num todo de vinte bocas para comer as gostosuras de Didinha, caminho afora. E meu coração querendo chegar logo, saudades dela, cheiro dela cheirando em mim.

Chegando ao Capão de Dentro, quando eu contava ao pai a história do Zé da Cabaça com a onça, o cheiro de perdiz assada, denunciou: era ele.

 

- Seu minino, como vai? Inda num topei cum ela.

 

Quase ano ficou Zé da Cabaça ali, à espera da onça. Até roça ele fez, distância de quarta de légua da toca, com a permissão de Cristino da Barreira.

 

- Seu Baldino tava certo, ela vai no igual que i’eu. Já tive de testa cum ela muitas veiz; quando faço a mira, ela some. Tamém ela quase me cumeu, mas o gaio quebrô e dotra veiz i’eu pulei no corgo e nadei nus debaxo.

 

O tempo passou. Meu mais novo já ia fazer sete anos, quando passei no Capão de Dentro de novo, conduzindo uma boiada, já com minha própria comitiva. Quando lembrei do Zé da Cabaça, toquei o berrante como marcando o lembrar. Senti o cheiro do assado no ar. Era ele mesmo, Zé da Cabaça, ali, no mesmo lugar, com duas codornas e uma perdiz já no ponto de comer.

 

- Seu minino, cumo vai?

 

- Vou bem seu Zé. E a onça, já matou?

 

- Inda não, meu fio. Mais já tá marcada de chumbo. I’eu das unha dela.

 

Abriu a camisa mostrando a cicatriz das garras da onça.

 

- I’eu num mato ela e ela num mata i’eu; custumamo e vamo seguino a lida.

 
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FRUTOS

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ESTALEIRO - MQ

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ANDANÇAS - FREDERICO GALANTE



Quero dizer, sim, que foram estas andanças. De cerro mato, em torto de rio. Os encontros. Cada um é um, por certo, dizia minha comadre, que ainda diz, nos revelos, que as coisas são mais belas do que aparentam poder ser. Foi, que foi, nos meus sós. Cresceu tanto de modo terreno baldio antes de bosquear. Diz -se que a terra no onde a gente pisa tem forma de nos falar, basta ter ouvido. E que o rio do onde se bebe a água, traz a gente sempre de volta para o ele. Mas quando, que força desta monta eu mesmo senti, nos meus dentro e fora. Onde quando foi que, deitado, pensando em forma de desistir, senti, que prova é quem sabe olhar o fundo de um homem, a terra me abraçar e dizer "fique, meu filho, que aqui é lugar seu".


Entrementes, que bulia dizer algo de mim, forma era eu sabia não. Peguei do que conhecia, tendo passado por um demais dum vazio de ser. Qual o que um homem, que, dotado de sabedoria, decide é largar de tudo o que sabe para se preencher no novo. E foi assim. Só que o intento é danado, dói que ferra queimando, assusta e apavora. Qual um curuminzinho que ainda não sabe nadar e gente joga ele na água. Ai, que demora dum tanto em saber-se capaz! Passa por sufoco e alívio, no bater forte do coração, no pensar que vai morrer, no desespero, qual a beira dum cume bem alto, sem escora de apanhar e grito de socorrer.


Voltei a mim, modo como um homem, em broca de fome, vasculha terreno atrás de fruta e caça. Era deste tanto o caminho: vim de saída dum lugar belicoso, fumaçento, lotado de gente raivosa e dotada duma tristeza calada, crivada é mesmo lá nos recônditos da morada da alma. Em este lugar eu fazia morada, como que já não sabia mais quem morava dentro de quem, era eu nele ou ele em mim, visto que o modo de ser de um podia ser o modo de ser do outro. Em vista que, posso eu ter sido muitas vezes, eu mesmo, belicoso, fumaçento, lotado de gente. O me sentir neste lugar, eu mesmo conto: era que, de um modo meio nublado, meu coração doía era muito. Como o sumo de um homem se sentindo sozinho no meio de tanta gente!


Digo isto, sim, que o serviço de alguém nesta vida é achar o seu-caminho. Que quando as estradas estão prontas, de quem elas são? Os caminhos no onde eu morava, já eram picados. Quem tinha picado, eu não sabia não, e para onde ele queria ir, eu também não sabia. E, movido duma força, qual correnteza de rio, eu me movia nestas estradas, que não eram minhas e que me levavam para dentro delas, e eu parecia era estar sendo carregado e sem jeito de pôr os pés no chão.


Mas que, um dia, a vida tem seus modos, vi o olhar dum velho. Era de modo que ele tinha a vida nas mãos, que o mundo seu era dum tanto certo e nítido e apropriado, que até dono do tempo ele parecia que era. Os meus andares estavam por conta de construir estradas iguais a aquelas todas que eu via. Mas o olhar daquele velho me mostrou que ele tinha mesmo, de forma própria sua, criado um sereno jeito de se viver, forte como um terreno arado, semeado de tudo quanto é árvore e que resiste aos rasgos de água e seca que o céu faz o chão provar.


Sucede que eu meio que segui aquele velho. Segui sem tê-lo seguido, compreende? Nos meus pensamentos, cá de dentro. Primeiro segui foi era uma mulher, que fazia uma arte de um tal negócio de palhaça. Ai, que foi que vi dentro do olhar dela e da outra que também caminhava junta, que somando eram duas, e que também olhava igual, o mesmo jeito de caber no mundo. Mesmo jeito lá, daquele velho. E que as duas estavam eram caminhando dum jeito contrário do para onde eu ia. E elas me acenaram dizendo: vem com a gente! Fiz, que fui. Eu estava atrás do velho, como-que, era só dizer do sim.


Mas que, largar do tudo? Gente de próximo me diziam, como se fosse o acesso do insano, o dizer da bobéia, o azar do sem-juízo. Que eram olhares do fora, eu bem sabia, como do meu dentro não compreendiam. Quem era que sabia do velho? E da mulher-palhaça? E da minha dor de não caber naqueles caminhos? E quem sabia que os caminhos davam no sem-sentido? Sei que bem sabiam alguns com os quais eu convivia e que estavam eram contidos na brecha do tempo e desarrazoados do convívio, marcados por não serem compreendidos. Estes, digo-eu, mereciam vir comigo. Mas que, pelo não, sei que deixei um pouco de mim com eles.


Era bem que tinha começado, ou ainda não? Numa beira de estrada, esperamos um tal de um índio que nos levaria para o alto do rio, bem dentro da floresta. Esperamos cansados, três dias, em rede atada em cima de bosteiro, com os porcos cheirando e farejando rastro de gente e comida. Mas ficou do intento o sentido do tempo espichado, como o quê deveria ser de lugar como aquele, o velho me disse. A pequena aldeia, de tanta forma era grande, de se perder, com os jeitos deles de comerem, dormirem, falarem e amarem. Coisa de monta. Estas, que dariam livro. Em matéria de medicina, tinham o pajé e o sagrado de plantas do mato. Falavam com os mortos e limpavam o espírito das doenças, nas pajelanças. Tinha a uasca e o cambô. Tinha o canto que invadia o sono.


Foram mais muitas andanças. De entre quais, dos tantos feitos, se sabe ter registro, mas que mesmo eu deixo para quem quiser saber, procurar. O que de mim se faz saber, o velho me diz, é do crescido. Mesmo que o crescido do olhar. Mas que, sou o mesmo de ontem ou não. Quem me diz é quem me vê, não é como se diz? Sei que, de agora e do onde estou o mundo se passa no como eu vejo agora. Do passado, lembro pouco, vislumbros de desgosto. Mas que, no presente, não se tem permanências?


Se sabem, são poucos, do ofício que levo. Sou médico. Mas que, fui acrescido. Dum tanto de estas experiências com as mulheres-palhaça. Mas que, me transformei? Não sei mais, visto que, como eu disse, sei do que vejo agora. Sei dum tanto que me é pouco no sentido de compreender, mas tenho vontade de dizer. Mas que, digo: sinto é falta de ter não ter compromisso quando falo com alguém. Pois que, sempre preciso fazer alguma coisa, para motivo de acalentar. De tanto compromisso, me falta por tantas vezes é do natural, do vontadear. Posso eu não querer transcorrer prosa com fulano? Sei que, posso gostar pouco, mas digo menos ainda. Os modelos. De estradas já percorridas. Vou menos para o profundo. A prosa segue rasa, e vou tentando achar motivo de mergulho.


Não é que a gente, por vezes, perde a alma? Como se diz. Tem uns que vendem, pro dito. Quero também dizer mais coisa, a tempo. Tenho duas almas, como também soube de outro homem, e de outro e de outro -nem sei mais se todo mundo é assim! Mas, falo por mim. Uma delas, sei não, mais parece que vem como para proteger a outra. E esta alma é a que me veste para este negócio de médico. E a vila onde eu moro, conversa e lida é com esta alma. Ela é tal que tem jeito próprio de amar e desamar, de jeito de falar, dum modo assim meio letrado, sucinto e objetivo. Dum jeito meio sem-sentimento, que olha para as coisas mais de longe, que quer se afetar pouco pelas coisas. Dum jeito que fica assim meio de lado para as pessoas, pois sabe que, se deixar, "o pessoal monta em cima", como disse o caboclo.


Agora, tem a outra alma. Que dela digo pouco, pois que é ela quem vos fala agora. Sabe quem então me ouve. Ela mesma- essa alma-, que ouve o velho. Como que, não foi que vim até aqui? Casei com a mulher-palhaça. E vou ter uma filha com ela. Essa mesma alma que chora bem por dentro, abafada pela outra, em mais-de momentos. Chora às vezes à noite, escoando do travesseiro. Ela ri também, nuns tantos. E foi ela que acresceu, nestas andanças. Ela que-palhaça. O velho fala é com ela.


Essa alma faz modo de eu ficar aqui, agora, no sossego do mato, no encalço dos homens daqui, querendo ainda mais aprender. Como se faz a bajara, e se pesca de tarrafo. Como se trata desmentidura ou rasgadura. E como descer o caminho do rio.

 

 
Frederico Galante


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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Um passar de triz

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Procuro verdade, umazinha

Qualquer uma

Seja na fotografia estampada

Nos maços de cigarro que fumo

Na segurança de andar amarrado no carro

Ou numa propaganda do governo

De qualquer governo

 

Procuro originalidade, umazinha qualquer

Na televisão que se copia indefinidamente

No cinema que só aprendeu engatinhar

Numa rádio, transformada em moeda política

 

Procuro nosso tamanho, só uma olhadinha

Nos jornais e revistas

Lá impressos estão o de outros

Gente de diversos lugares

Significando o nosso

 

Procuro a fé, só um pouquinho

Nas igrejas e templos

Lá, estão protegidos pela ignorância

Os vendilhões da maior mentira do mundo

 

Então na intimidade da poesia

Descubro que verdade

Originalidade, fé

E nosso tamanho

É apenas um passar de triz

Diante do falso cultivado

Formidando para criar verdades
 
 
MQ
 
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domingo, 16 de fevereiro de 2014

TATI MORENO - BA

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sábado, 15 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

BEIRA DE RIO

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Caboclo d’Água


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No lombo de pedra da cachoeira clara
as águas se ensaboam
antes de saltar.

E lá embaixo, piratingas, pacus e dourados
dão pulos de prata, de ouro e de cobre,
querendo voltar, com medo do poço
da quarta volta do rio,
largo, tranqüilo, tão chato e brilhante,
deitado a meio bote
como uma boipeva branca.

Na água parada,
entre as moitas de sarãs e canaranas,
o puraquê tem pensamentos
de dois mil volts.

À sombra dos mangues,
que despetalam placas vermelhas,
dois botos zarpam, resfolengando,
com quatro jorros,
a todo vapor.

E os jacarés cumpridos, de olhos esbugalhados,
soltam latidos , e vão fugindo,
estabanados, às rabanadas, espadanando,
porque do fundo
do grande remanso, onde ninguém acha o fundo,
vem um rugido , vem um gemido,
tão rouco e feio, que as ariranhas
pegam no choro, como meninos.

O canoeiro
que vem no remo, desprevenido,
ouve o gemido e fica a tremer.
É o caboclo d’água,
todo peludo, todo oleoso,
que vem subindo lá das profundas,
e a mão enorme,preta e palmada,
de garras longas,
pega o rebordo da canoinha
quase a virar.

E o canoeiro, de facão pronto,
fica parado, rezando baixo,
sempre a tremer

Crescendo d’água ,lá vem a máscara,
negra e medonha,
de um gorila de olhar humano,
o Caboclo d’água
ameaçador.

E o canoeiro já não tem medo,
porque o Caboclo o olhou de frente,
todo molhado,
com olhos tristonhos,rosto choroso,
quase falando,
quase perguntando
pela ingrata Iara,
que, já faz tempo, se foi embora,
que há tantos anos o abandonou...


João Guimarães Rosa (Magma-Editora Nova Fronteira)
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Três Quartas da Limeira - MQ


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Três Quartas da Limeira era o nome do lugar onde chegamos, mato ainda. O pai, a mãe, meus irmãos e o cansaço de muitos dias de viagem, seguindo com seu Baldino e suas histórias.

Lugar do tudo por fazer, ermo. No mais de ano é que apareceram os vizinhos, seu Zequinha, dona Dalcina e a filharada. Foi meu primeiro medo: apareceram de repente, o rancho já estava erguido, já havia banco para sentar, o limpo para a primeira roça, a vaca leiteira e algumas criações; alegria do pai com seu Zequinha, oferecendo ajuda no que carecesse.

As primeiras colheitas, meu primeiro vestido de chita, meu segundo medo. Eu e Quinzinho, meu irmão, levando almoço para os baianos na roça; medo de cobra na palha de arroz onde brincávamos, esperando as vasilhas. Medo do cobreiro curado por Zé da Casca, benzedor agregado de seu Zequinha.

Meu terceiro medo, o pai contando histórias do invisível; noite escura, ele no meio dos baianos em volta da fogueira, na porta da casa. Ao seu lado, em pé, bem junto dele, não demonstrava não. Nesse dia, enquanto ele contava uma história do Ronca-Quente, aquele silêncio de mais medo que atenção, no descrever os passos do tinhoso, de dentro da casa ouvimos o barulho de passos na tábua larga do assoalho. Foi aquela correria. Nesse dia os baianos dormiram na sala, em cima da pilha de arroz já colhida. Eu e meus irmãos, juntos com o pai e a mãe, tão assustados quanto nós.

O quarto medo não tive, acostumei com as histórias dele para os baianos.

Num dia, contava que o ouro que roubaram em Arrependidos acabou nas mãos de um seu compadre que, escondido no mato, na hora em que o coletor e um companheiro amoitavam os alforjes. Ouviu.

 

- Abre um buraco bem aqui, perto dessas pedras.

 

O companheiro furou o buraco. O coletor perguntou.

 

- Como é seu nome todo companheiro?

 

- Custódio dos Anjos.

 

O coletor enquanto dava os dois tiros, rindo.

 

- Fica guardando o ouro e só entregue prá quem disser seu nome todo.

 

E enterrou o morto junto com o ouro.

O pai ria demais e dizia, para agradar, que o compadre dele era baiano.

Depois que o coletor sumiu das vistas, seu compadre baiano saiu do mato e chegou perto da cova.

 

- Seu Custódio dos Anjos, vim buscar o ouro.

 

Todos riram.

 

Foi nesse dia que notei o olhar, meu primeiro desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou e olhei também. A alegria estava ali, daquelas, também minha primeira.

Julho do ano nos casamos. No mutirão fizemos nossa casa de adobe perto da casa da mãe. Tinha dezesseis anos.

Meu segundo desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou, contei para a mãe primeiro, depois para Terêncio que me erguia para o alto. O pai jogava o chapéu e dava tiros, como naquela vez, quando chegamos e ele confundiu o barulho do veado perto da cerca e atirou; pensou ter matado uma onça e furou todo o chapéu, na alegria.

Meu terceiro desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou, minha primeira filha, Aurora. Ela, diferente dos meninos, nasceu junto com o dia. Alegria de Terêncio ao dar o nome Aurora.

Nesse tempo, mudamos dos Três Quartos da Limeira, minha primeira tristeza.

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