terça-feira, 31 de maio de 2011

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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Lançamento de documentário Ninhos Antigos



O Cinema da Fundação sedia no dia 20 de junho a sessão de lançamento do documentário Ninhos Antigos. O filme é resultado de uma pesquisa de um ano, feita por uma equipe de historiadores, arquitetos e antropóloga que percorreu as ruas do Recife analisando a evolução das moradias da cidade. No comando do projeto, Osman Godoy.


Serviço
Endereço: Cinema da Fundação
Rua Henrique Dias, 609 – Derby, Recife – PE. CEP: 52.010-100
Fone: (81) 3073-6689 begin_of_the_skype_highlighting (81) 3073-6689 end_of_the_skype_highlighting
cinema@fundaj.gov.br
Entrada gratuita





Curso sobre economia e cultura em Salvador e Rio Branco



A Fundação Joaquim Nabuco realiza em Salvador/Bahia e em Rio Branco/Acre o curso Cultura e Cidades: instituições culturais como agentes transformadores, que será ministrado pelo professor Stefano Florissi. Na capital baiana, as aulas acontecem de 13 a 18 de junho. Já no Acre, o curso acontece de 11 a 16 de julho. Nas aulas, serão abordados os conceitos de economia, o papel econômico da cultura, economia do urbanismo, entre outros temas. Em cada cidade serão disponibilizadas 100 vagas.



Serviço
Aulas gratuitas
Inscrições: Bahia – (71) 3116.8100
Acre – (68) 3223.8245
Informações: (81) 3073.6659
E-mail: cadif@fundaj.gov.br





Fundação leva cursos de cultura contemporânea para BA, PA e AL



A Fundação Joaquim Nabuco promove neste mês de junho os módulos cinema, literatura e artes plásticas do curso Cultura Contemporânea: uma introdução em três estados do norte-nordeste. Em Vitória da Conquista/Bahia, será realizado o módulo cinema, com o tutor Rubens Machado Jr, de 7 a 11 de junho. Em Belém/Pará será realizado o módulo literatura, com a tutora Zuleide Duarte, de 14 a 17 de junho. Já em Maceió/Alagoas, acontece de 14 a 17 de junho o módulo artes plásticas sob tutoria de Marília Panitz e Marisa Mokarzel.

Serviço
Aulas gratuitas
Informações sobre inscrições: cadif@fundaj.gov.br
Fone: (81) 30736659 begin_of_the_skype_highlighting (81) 30736659

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SERTÃO DO SÃO MARCOS - Zé da Cabaça


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No embornal, levava a paçoca feita por Didinha na véspera; na mala de saco, traspassada na sela, duas mudas de roupa e, no coração, vontade de chegar logo e ver como era ela. Meu olhar ficava perdido nas patas da mula da frente, como se cada passo deixasse para trás um pedaço.


Distraía tanto no pensar que nem ouvi o urro da onça no Capão de Dentro, terras de Cristino da Barreira. Mas a mulada ouviu e se assustou fazendo trote, desorganizando a comitiva. Bem que o pai tinha avisado para esperar o cometa do Baldino; acompanhar a boiada era mais difícil.


Apesar de as mulas com o rancho estarem na frente da boiada, quando elas se assustaram, o gado ficou nervoso e se dispersou pelo mato afora com o descontrole dos vaqueiros de Tertuliano. Juntar a boiada de novo foi trabalho de um dia; mais de dez novilhos desembestaram para o lado do mato contrário ao urro da onça, na juquira pura, terminando no Ribeirão da Concórdia. E foi lá, no contrário do urro, que achamos, na outra margem, a toca da onça.


Foi só contar, que Zé da Cabaça já começou a se arrumar para a espera, apesar da reclamação de todos, fosse pelo carecer do serviço, fosse pelo perigo. Avaliando o urro, era bicho grande, pelo tamanho da toca, então, assustava mais ainda. Mas Zé da Cabaça não labutava com medo, não. Afamado, tanto na mira como pela paciência; caçador de paca sem igual. Capaz de ficar noite inteira em cima do jirau, à espera. O apelido era por causa da cabaça onde urinava nessas horas, para não deixar cheiro e a caça espantar. Matar uma onça era um ato de respeito que, até hoje, ele não havia feito, e agora não ia desperdiçar uma chance da-quelas.


Acompanhou a boiada até meia légua do lugar, esperou organizar o pouso e a noitinha chegar e saiu rumo da toca da onça.


A merenda já estava cheirando quando apareceu Zé da Cabaça, cabeça baixa.

- Ela num apariceu, disse. E se ensimesmou no resto da viagem.

Chegamos ao curtume já no meio duma manhã de domingo; despedi dos companheiros e na casa do padrinho Delmiro banhei, indo, com ele direto para a casa dela.


Conheci primeiro o pai e a mãe. O café. Ela que fez, disse dona Laura. Depois de muito prosear, falando dos teres e haveres, foi que a chamaram. Era muito formosa, mais que podia ser no meu pensamento.


Pouco mais de mês fiquei no Vai Vem, em compromisso do noivado; marcamos data e tive estrada, levando, dentro, o cheiro dela.


Fui, com o padrinho, até a Forquilha no compromisso dele e, de lá, na passada do Baldino, segui com ele.


O pai tinha razão, com o cometa a viagem demorava menos, apesar do descarrego e carrego das mulas em cada dormida, dos pousos demorados por conta dos negócios de Baldino.


Na passagem pelo Capão de Dentro, avistamos ao longe um homem entrando nos matos; quando chegamos perto, era Zé da Cabaça lidando com o almoço. Seis codornas, já assando, pareciam nos esperar.

- Suzinho no mundo, seu Zé da Cabaça. Falou Baldino.

- Tô na labuta cum onça, seu Baldino.


E contou que já fazia mês que estava à espera da onça; passava a noite em cima do jirau e nada da bicha. De dia, distanciava para o cheiro não acusar. Não a viu nesse tempo todo, mas as marcas do rastro estavam por todo lado. Já tinha estudado o terreno por onde ela chegava; tinha entrado na toca muitas vezes para ficar com o cheiro dela. Não tomava banho, só passava as folhas do mato no corpo para não recender cheiro de gente. E nada da onça. Mas que ela estava por perto, ele tinha certeza.


Seu Baldino ria muito e falava para o Zé da Cabaça:


- Onça é bicho tinhoso. Ela já sabe que ocê tá tocaiano ela, ela óia mais procê do que ocê prá ela. Ela sabe mais docê que ocê dela. É no dia que ela tá drumino, inganano o amigo.


- Deveras seu Baldino?


Seguimos viagem, deixando ele resolvido tapear a onça; pondo sentido no de dia e no de noite.


Didinha fez paçoca, almôndega, farofa, piou na vara muitas galinhas e mais um-sem tanto de matula. E dessa vez toda a família, mais dois vaqueiros, num todo de vinte bocas para comer as gostosuras de Didinha, caminho afora. E meu coração querendo chegar logo, saudades dela, cheiro dela cheirando em mim.


Chegando ao Capão de Dentro, quando eu contava ao pai a história do Zé da Cabaça com a onça, o cheiro de perdiz assada, denunciou: era ele.

- Seu minino, como vai? Inda num topei cum ela.

Quase ano ficou Zé da Cabaça ali, à espera da onça. Até roça ele fez, distância de quarta de légua da toca, com a permissão de Cristino da Barreira.

- Seu Baldino tava certo, ela vai no igual que i’eu. Já tive de testa cum ela muitas veiz; quando faço a mira, ela some. Tamém ela quase me cumeu, mas o gaio quebrô e dotra veiz i’eu pulei no corgo e nadei nus debaxo.


O tempo passou. Meu mais novo já ia fazer sete anos, quando passei no Capão de Dentro de novo, conduzindo uma boiada, já com minha própria comitiva. Quando lembrei do Zé da Cabaça, toquei o berrante como marcando o lembrar. Senti o cheiro do assado no ar. Era ele mesmo, Zé da Cabaça, ali, no mesmo lugar, com duas codornas e uma perdiz já no ponto de comer.


- Seu minino, cumo vai?

- Vou bem seu Zé. E a onça, já matou?

- Inda não, meu fio. Mais já tá marcada de chumbo. I’eu das unha dela.

Abriu a camisa mostrando a cicatriz das garras da onça.

- I’eu num mato ela e ela num mata i’eu; custumamo e vamo seguino a lida.






MQ
 
 
 
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ANDRÉA PINHEIRO - MARIA LÍDIA - OLIVAR BARRETO E CONVIDADOS - BELÉM

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

MARCEL POWELL - RIO DE JANEIRO

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SERTÃO DO SÃO MARCOS - Rol das almas

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O dia delatava muita chuva, o céu foi escurecendo num passar de triz, o vento soprando dobrado. Nela cair, enchia o Vai Vem desde a cabeceira. No solavanco da água, descendo o leito, caiu a escora e o pau mais perto que sustentava, no apoio, o encabeçamento do pontilhão. Resvalo dele cair, atingiu seu Dedé que demorou a atender o grito dos companheiros para correr dali. A cheia engoliu seu Dedé e os quatro esteios de aroeira assentados e foi solapando a beira, engolindo os barrancos. Água-lama, turvada do que lambia no jungir, barro só, pejando a várzea.



Seu Dedé foi...


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O vento era tanto que avivava o borralho sem precisar soprar. Lucimar punha a lenha e gritava para Mariinha chamar dona Esmeralda. A chuva lavava o mundo, no entender da beata, bom agouro quem nascia num dia assim, fosse noite, não. Era sinal contrário. A criança estava por não esperar e não esperou.



Tavinho veio...


°°°


Ninguém se conformava, vê-la ali, deitada, quase sem força nenhuma. O rosário nas mãos e nos lábios a reza diária, rezava na febre. Rezava pedindo a vida, rezava pedindo um homem para a vida, podia ser Zitinho, podia ser Jeromo, podia ser... Faz chá, limpa eu, sussurrava. A febre tomava conta, vinda sabe lá de onde, pegar Nica com o terço na mão, rezando. Rezava pensando em Zitinho, o corpo foi esquentando, achou que era outra febre, era não. Era só no corpo, desmaiou. Desmaiava toda hora. Meu terço, traz meu terço, acor-dando pedia. Faz chá, chama tia Filó.



Nica foi ...


°°°

Preparado estava tudo ali, bacia, balde d’água, os panos, cordão, tesoura, folha de fumo, o paninho feito rolete para ela morder e até uma garrafa, se precisasse soprar.


A parteira já dormia a segunda noite no quarto ao lado. Um pouco ansioso, Necão dormia junto da mulher, metade dele dormia e a outra era a atenção figurada no modo espaçoso de ele lidar com aquela hora. Na madrugada, tudo calmo, o sono tomou conta e Necão dormiu as duas partes, só acordou no dia raiar, com a cama toda molhada e a filha, primeira, nascida com o silêncio da aurora, nos braços da mulher.



Davina veio...


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- O palhaço o que é? É ladrão de mulher...


Ia passando pela rua o primeiro circo no lugar. Aquela gente meia cigana anunciando, sem vergonha nenhuma, a função da noite, que muitos nem sabiam o que era. Na porta de casa, Zilá ficou sem graça quando o artista fez uma mesura, cantando malicioso fez uma segunda mesura, como que convidasse.

- O palhaço o que é? É ladrão de mulher...


Zilá sentiu um estranho, o bico dos seios intumescer, um calor no corpo, que a lembrava donzela, percorrer. Quis mais, quis de verdade, quis tanto que começou a encontrá-lo quando ia lavar roupa na Pedrinha, a sonhar com ele quando fazia o almoço, a rondar o circo, até com o marido junto.


Num dia, o largo vazio, nem notícias dele, tinha ido embora. A tristeza tomou conta dela, acompanhou até o copo de formicida.



Zilá foi...

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- Chama alguém, compadre, tem alguma coisa errada, a comadre tá sofreno muito.

A vizinha não sabia o que fazer. Recurso não havia ali, a Vila ficava a mais de três horas de trote, ainda tinha que buscar o cavalo no pasto. Damião, desesperado, chegou perto do catre e pediu para a vizinha sair. E ali, só com a mulher e a coragem, respirou fundo e puxou a criança do ventre da mãe como fizera com o bezerro da vaca Castanha, na se-mana anterior. Quando a vizinha ouviu o choro e correu para ver, Damião estava cortando o umbigo do filho que a mãe já tinha no peito.



Jujim veio...


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Restinho de pirraça levava, tardando nele, fazendo tudo ao contrário do mandado pela irmã.

- Leva as costuras correndo que dona Clotilde tem pressa.

Ele demorou, passou na Pedrinha, tomou banho com a meninada, juntou com a encomenda as roupas e voltou nu, até passar pelo quintal do seu Valdivino, pirraçando ele. Quando se vestia atrás da moita de bambu, sentiu a picada na perna esquerda, aquele ferroado marimbondo, coisa de nada. Em casa, começou a repuxar a perna esquerda, o lugar da picada inchava num vermelhão estancado. Teceu chamou a irmã, já era madrugada, fizeram de um tudo. O menino amanheceu só um pouquinho.



Teceu foi...



MQ


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domingo, 29 de maio de 2011

VERGONHA

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SERTÃO DO SÃO MARCOS - Zé

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Não confunda não, sou manso e reparo no seu olho comprido, minha alma está longe de sua lisura. O comando aqui é outro, põe tento que de um nada temo. Arvoro minhas intenções, não adianta rodear com essa ilusão, caio não, sei do que quero no tintim, careço de trato não, nem de latumia, vim como vem todo mundo, escolhi e não arrenego, sou firme até quando careço.


Sai para lá ardiloso, atenta outro, daqui de nada adianta essa conversa, caio não. Foge daqui, faz proposta longe, aqui tem quem te olha nos olhos, te deprecia, te espanta a presteza, me chama firmeza, seu coisa.


Não adianta semear nos outros, turva quem quiser, não reconheço, lido com todos sem te reconhecer dentro, lido com o lado igual o meu, só no simples como estou lidando agora. Se te convenço, olho no olho, destemor tenho de te ver igual, a escolha é de quem escolhe... então não adianta andar comigo tanto, faço gosto já ter escolhido.


Não adiantou esbravejar nesses anos todos, estamos aqui na mesma conversa, oferece prazer; prazer já tenho, oferece glória e riqueza, preciso não, seu coisa; colho glória na casa que entro e riqueza não esmiúço vantagem. De certo, glória e prazer teria se me convencesse, seu desafio maior aqui no Entre Rios. Sou miúdo mas me queres junto, não é? Mas sou firme e isso é gloria minha. Persevero e isso é prazer meu. E a riqueza, toda ela, carrego é dentro, já sigo, te antecedi.


Adianta caminhar junto não, esperar junto não. Quer deslize no jeito, no pensamento, vai ter nunca, olho e penso tudo simples e contrário.


Achou que nascer dentro de mim era vantagem, enganou seu coisa, te crio separado faz tempo, predomino comum, te aprendi todo e não quero te convencer de nada. Vê como faço, renego nada do mundo mas a miséria só para lidar, aparto.


Agora vai para seu canto procurar outros artifícios, seu coisa, que é hora do meu terço.


 
 
MQ
 
 
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sábado, 28 de maio de 2011

MANIFESTO

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SACRAMENTO - MQ

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SERTÃO DO SÃO MARCOS - Três Quartas da Limeira

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Três Quartas da Limeira era o nome do lugar onde chegamos, mato ainda. O pai, a mãe, meus irmãos e o cansaço de muitos dias de viagem, seguindo com seu Baldino e suas histórias.


Lugar do tudo por fazer, ermo. No mais de ano é que apareceram os vizinhos, seu Zequinha, dona Dalcina e a filharada. Foi meu primeiro medo: apareceram de repente, o rancho já estava erguido, já havia banco para sentar, o limpo para a primeira roça, a vaca leiteira e algumas criações; alegria do pai com seu Zequinha, oferecendo ajuda no que carecesse.


As primeiras colheitas, meu primeiro vestido de chita, meu segundo medo. Eu e Quinzinho, meu irmão, levando almoço para os baianos na roça; medo de cobra na palha de arroz onde brincávamos, esperando as vasilhas. Medo do cobreiro curado por Zé da Casca, benzedor agregado de seu Zequinha.


Meu terceiro medo, o pai contando histórias do invisível; noite escura, ele no meio dos baianos em volta da fogueira, na porta da casa. Ao seu lado, em pé, bem junto dele, não demonstrava não. Nesse dia, enquanto ele contava uma história do Ronca-Quente, aquele silêncio de mais medo que atenção, no descrever os passos do tinhoso, de dentro da casa ouvimos o barulho de passos na tábua larga do assoalho. Foi aquela correria. Nesse dia os baianos dormiram na sala, em cima da pilha de arroz já colhida. Eu e meus irmãos, juntos com o pai e a mãe, tão assustados quanto nós.


O quarto medo não tive, acostumei com as histórias dele para os baianos.


Num dia, contava que o ouro que roubaram em Arrependidos acabou nas mãos de um seu compadre que, escondido no mato, na hora em que o coletor e um companheiro amoitavam os alforjes. Ouviu.

- Abre um buraco bem aqui, perto dessas pedras.

O companheiro furou o buraco. O coletor perguntou.

- Como é seu nome todo companheiro?

- Custódio dos Anjos.

O coletor enquanto dava os dois tiros, rindo.

- Fica guardando o ouro e só entregue prá quem disser seu nome todo.

E enterrou o morto junto com o ouro.

O pai ria demais e dizia, para agradar, que o compadre dele era baiano.

Depois que o coletor sumiu das vistas, seu compadre baiano saiu do mato e chegou perto da cova.

- Seu Custódio dos Anjos, vim buscar o ouro.

Todos riram.

Foi nesse dia que notei o olhar, meu primeiro desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou e olhei também. A alegria estava ali, daquelas, também minha primeira.


Julho do ano nos casamos. No mutirão fizemos nossa casa de adobe perto da casa da mãe. Tinha dezesseis anos.


Meu segundo desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou, contei para a mãe primeiro, depois para Terêncio que me erguia para o alto. O pai jogava o chapéu e dava tiros, como naquela vez, quando chegamos e ele confundiu o barulho do veado perto da cerca e atirou; pensou ter matado uma onça e furou todo o chapéu, na alegria.


Meu terceiro desgoverno, o corpo esquentou, o coração disparou, minha primeira filha, Aurora. Ela, diferente dos meninos, nasceu junto com o dia. Alegria de Terêncio ao dar o nome Aurora.


Nesse tempo, mudamos dos Três Quartos da Limeira, minha primeira tristeza.


MQ



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sexta-feira, 27 de maio de 2011

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?


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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 28.05.11




O destaque do 1º bloco vai ser a Coleção Choro Carioca - Música do Brasil. O autor enfocado é José Agostinho da Fonseca, nascido em Manaus em 1886. Fez sua carreira em Belém, mas se fixou em Santarém. Além de compositor, era regente, ator e tocava clarineta e requinta.


O 2º bloco traz a performance inigualável do flautista capixaba Carlos Poyares e o som do LP histórico Carlos Poyares no Clube do Choro, lançado em 1984, pelo selo Discos Marcus Pereira.*


No 3º bloco teremos um momento de pura delicadeza e de raríssima emoção. Trata-se do CD Mulheres em Pixinguinha, que reúne Neti Szpilman (canto), Daniela Spielmann (saxes e flauta) e Sheila Zagury (piano), lançado em 1999, pela CPC Umes.


No 4º bloco teremos os choros cantados do CD Timoneiro, que traz letras do multimídia e poeta Hermínio Bello de Carvalho para melodias de Capiba, Jacob do Bandolim, Pixinguinha...


O 5º bloco traz o multiinstrumentista mineiro Dado Prates e o som do CD Brasilidade, lançado em 2000. De acordo com o músico, o CD significa “um olhar brasileiro sobre o mundo, apreensivo e inquieto, mas com fé no futuro, na nave que nos levará adiante.”


* Acervo de Carlinhos 7 Cordas e Alcione Tomé, cedidos ao programa.



Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.
Rádio UEL FM, de Londrina, quintas-feiras, 21h.
Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.
Rádio Educadora FM, de Itararé-SP, 88,7 MHz.
Rádio Mandacaru FM, de Cedro-CE 104,9 MHz.

Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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QUARTETO TEMPO - SÃO PAULO


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PAIXÃO FOSCA - BELÉM

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FELIPE CORDEIRO - BELÉM


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quinta-feira, 26 de maio de 2011

MEMÓRIA DA CARNE - PORTO VELHO

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Projeto 5ª Cultural apresenta peça teatral “Memória da Carne”




O Projeto 5ª Cultural idealizado e desenvolvido pelo Banco da Amazônia apresenta ao público local a peça teatral “Memória da Carne”, do Grupo Fiasco. A apresentação acontece no dia 26 de maio (quinta-feira), no Teatro Banzeiros a partir das 19h30. Vale ressaltar que o ingresso do Projeto 5ª Cultural pode ser trocado antecipadamente por 2kg de alimento não perecível no Teatro Banzeiros ou na sede do Banco da Amazônia.


A peça teatral “Memória da Carne” é um diálogo entre dois personagens que travam discussões sobre onde são resgatadas as mais diversificadas memórias, levantando questionamentos como: Onde se guarda? Onde se registra? O que a define importante para ser lembrança – memória? Quais são os filtros? São tantas camadas que participam da construção dessa memória que seria impossível não citar as ciências para tentar defini-las. Porém, Memória da carne, permite um encontro com esses registros em seu estado de instabilidade e (des) organização. É um convite de carne para carne ao encontro com suas memórias ocorridas, perdidas e as construídas em tempo real. A direção da peça é do ator e diretor, Francis Madson; o texto e coordenação dos ensaios sob a responsabilidade do artista Fabiano Barros; contracenam os atores: Cláudio Zarco e Eli Moreno, cuja produção executiva é de Andressa Romão.

Histórico


O projeto 5ª Cultural iniciou em agosto de 2000 e foi uma iniciativa pioneira na região Norte, estimulando e integrando a prática da solidariedade com o incentivo a música, já que cobra como ingresso das apresentações 2 kg de alimentos não perecíveis. O projeto abre espaço para variadas formas de manifestações artísticas, propiciando aos artistas locais, novos ou veteranos, nas capitais e no interior, a oportunidade de expor e divulgar suas produções junto à comunidade.


Em Rondônia, o projeto teve inicio no ano de 2002 incentivando e ampliando a identidade cultural local e fortalecendo a produção artística da região.


Informações pelo telefone: 3229-8116.
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SALOMÃO HABIB - BELÉM


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quarta-feira, 25 de maio de 2011

ZÉ RAMALHO - BRASÍLIA

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terça-feira, 24 de maio de 2011

Instantes

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Um dia ou quantos
Tem nesse turbilhão
De longas horas
Ressoando nas ruas
Que lembram você

Em quantos e tantos
Ainda é primavera
E a esquina espera
Seus passos passar

Em que dias estão
Escondidos os instantes
Do seu jeito de olhar

Em que segundo andará
Tudo o que nascemos
E nunca morrerá

Em que hora do dia
Um conflito haverá
O medo é tão perto
E na tarde a saudade
Não sai do instante
Em que não estás

MQ

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

ANA TERRA

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Homens

Por Ana Terra, do Rio de Janeiro



Vivências e memórias de uma poetisa e letrista da MPB.


Homens, melhor tê-los. E aprender com eles o que nos ensinaram por meio da poesia, da literatura, das artes, quando dominavam sozinhos esses territórios. O amor romântico é uma invenção do masculino. Fruto da inteligência emocional para tornar menos árida a luta pela sobrevivência e a reprodução da espécie. Afinal, o que fazer no intervalo entre um ato sexual e outro? Como me ensinou um amigo: quem ama é o homem, a mulher confia.

Mas há os desencontros, desacertos e uma grande discussão entre natureza e cultura, como se os humanos não fossem filhos dos dois. E agora a nova lei que equipara abuso a estupro, para o bem e para o mal.

Homens não são objeto de desejo das feministas radicais de gênero, que acreditam ser o órgão sexual do homem, assim como o machado, uma arma utilizada desde a pré-história para atemorizar as mulheres e mantê-las sob seu jugo. E que toda sedução masculina é um estupro, só que alguns homens se dão ao trabalho de comprar uma garrafa de vinho.

A teoria oficial do estupro, nos Estados Unidos, originou-se no livro de Susan Brownmiller, Against our Will (Contra nossa vontade), lançado em 1975, que apresenta o estupro como crime de violência e não de sexo.

A doutrina do “bom selvagem”, aliada à percepção da década de 1960, quando o sexo deixa de ser visto como sujo e passa a ser encarado como natural, e como o que é natural é bom, o estupro sendo um mal não teria vinculação com o sexo. Como se o sexo não fosse também cultural e um tsunami fosse bom porque é um fenômeno da natureza.

A idéia das feministas passa a ser uma avaliação consensual e, em 1993, a Organização das Nações Unidas (ONU) declara: “O estupro é um abuso de poder e controle no qual o estuprador tenciona humilhar, envergonhar, embaraçar, degradar e aterrorizar a vítima.”

Essa idéia foi posta em dúvida quando, em 2000, é publicado A natural of rape, do biólogo Randy Thornhill e do antropólogo Craig Palmer. A lógica apresentada na pesquisa é que havendo possibilidade de procriação, mesmo que pequena, poderia ser uma “tática oportunista”, uma ação selecionada, e não excluída, do processo de seleção natural. “Ou poderia ser subproduto de duas outras características da mente masculina: o desejo por sexo e a capacidade de praticar violência oportunista para atingir um objetivo.”

Esses cientistas não apresentam nenhuma justificativa moral para o estupro, pelo contrário, apresentam cenários onde haveria maiores possibilidades de ocorrência e fazem sugestões para evitá-lo. Também sugerem que a aversão das mulheres ao sexo forçado teria origem na sua natureza biológica: a fêmea é que escolhe o macho para copular, selecionando os genes que desejam para dar continuidade à espécie. Essas idéias incendiaram o campo feminista e a crítica em geral: os autores haviam desrespeitado um tabu.

A questão principal que se apresenta é que se o estupro e sua proibição estão presentes em todas as sociedades humanas, o que pode ser feito para diminuir sua ocorrência?

Legislação com graves punições é uma óbvia medida, afinal o papel da cultura é afastar o homem de sua natureza animal e instituir regras civilizatórias. Quando os laços da civilização se afrouxam, no caso de guerras e ausência do Estado, o estupro é uma prática muito mais frequente do que gostaríamos de supor. Assim como a tortura, amplamente divulgada, infringida por soldados americanos, homens e mulheres, a prisioneiros iraquianos, por exemplo.

A relação sexual evidentemente deve ser consensual mas, excluindo os casos praticados por psicopatas e os de guerra (considerando-os uma patologia coletiva), até onde pode ser razoável atribuir toda responsabilidade ao homem?

Quando depois de aceitar o jogo de sedução, uma mulher concorda em ir para o quarto de um homem? Temos o famoso caso do lutador Mike Tyson que rendeu uma boa indenização à vítima e cadeia para o acusado. Neste, como em tantos outros, não existiria um consentimento implícito da mulher? Não podermos desconsiderar o puritanismo da sociedade americana e a consequente hipocrisia, além da indústria de indenizações, que é uma instituição naquele país.

No oposto ao puritanismo, o que dizer dos bailes funk do Rio de Janeiro onde se praticam, pública e anonimamente múltiplos “estupros consentidos”? E o que pensar do argumento que justifica a violência como expressão legítima dessas comunidades?

E por que não se discute seriamente a precoce erotização das crianças pelos programas infantis da televisão. E por que confundi-los com a prática em voga de dar “selinho” e dizer “eu te amo”, como se essas expressões fossem destituídas do erotismo que, na verdade, contêm? O ato sexual é para adultos. Às crianças deve-se permitir a infância. E todas as fantasias que lhes cabe em suas mentes infantis. E não as nossas. Será que para elas um tapinha não dói?

sábado, 21 de maio de 2011

WANDA MONTEIRO - CORAÇÃO DE P0ETA

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“O poeta não é. O poeta está!
No que sonha como realidade ou no que pensa como sonho.”
Benedicto Monteiro



Os Pastores da Razão quiseram tomar, de assalto, a consciência do poeta.
Desdenhando de seus sonhos
Tentaram
Demarcar os seus passos
Apagar os seus desejos.
Beber seu entusiasmo
Comer sua coragem
Secar sua vontade
Sufocar sua lírica alegria
Congelar seu sangue
Cometeram a heresia de querer
Quebrar a sua fé.
Mas
Os Pastores da Razão
Esqueceram que o coração do poeta
Bate inconsciente
O coração do poeta

Não deixa
Nada
Nem ninguém
Dele
Morrer

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

SERTÃO DO SÃO MARCOS - Mato Dentro

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Dava medo, o mato ia fechando e fechando mais, até tampar como fosse uma parede, ninguém que ali andasse ia descobrir uma passagem, só se transpondo o emaranhado trançado de cipós enlaçando tudo e com a ajuda de alguém que já conhecesse bem o lugar. Não era o caso de Dalvo, mateiro experiente, já estivera algumas vezes naquelas brenhas mas nunca tinha achado o jeito de entrar na grota, saber o lugar certo nem supunha. Que vivia alguém lá, menos ainda. Mas ele era muito esperto no distinguir e na falta de quem, declarado conhecesse, ele se ofereceu. Ia com Zé Cosme e o patrão dele.


Já tinham caminhado bem uma hora no mato fechado, avistando por entre folhas a serrinha, e nada de encontrar o trieiro que o benzedor usava. Dalvo, com o facão tentava abrir caminho, cortando os cipós e pela posição do andar, vendo o morro, tinha quase certeza de que era ali, quando chegava perto, não era.


Num prazo, parando para tomar água e enrolar um cigarro embaixo dum pau mais frondoso, ouviram um barulho de bicho andando no mato.


- É onça, gritou Zé Cosme, engatilhando a espingarda e apontando no rumo do barulho. Antes que atirasse, Pai Nanias pulou de cima do galho no meio deles, o silêncio formou no susto que cada um levou. O primeiro a falar foi Dalvo.

- É pelo galho que ele passa!

E começou a rir assustando o benzedor, desacostumado com gente de qualquer espécie. Seu Laudêmio, percebendo que o susto foi maior nele, se aproximou e contou que estavam procurando um jeito de passar para a grota com o sentido de achar a casa do benzedor, se ele sabia onde era.


Já de cócoras ele perguntou, se mal pergunta fosse, o que eles queriam com o velho? E quem eram? seu Laudêmio explicou que eram do Arraial e precisavam com urgência de ajuda, que sua filha estava, fazia dias, de cama ruim dos peitos. Que tinham tentado de tudo, era grave e precisavam muito que Pai Nanias fosse benzer na derradeira esperança.

– Vamo em casa cumigo pegá umas ervas. E foi subindo no pau, afastando a galhada.

Era como se fosse uma escada, do galho até a pedra e desta para o trieiro que descia até o fundo do grotão. Aquela figura magra, barba e cabelo para mais de muitos meses sem cortar, jeito cadavérico, de gente que mal comia, dava medo.


Ele foi apanhando, dentro do escavado do morro, suas ervas e distribuindo em duas capangas que cruzou por cima da cabeça, uma para cada lado da cintura.


Voltar foi o mais fácil, ele pediu que alguém tomasse dianteira, e arrumasse um tacho de água quente e um lençol branco. Assim foi que Pai Nanias chegou na cabeceira de Rosinha e lá ficou duma tarde varando a noite até a tardinha do outro dia com suas rezas, suas infusões com fava de sucupira e seus emplastros.


Na boca da noite, sem que ninguém conseguisse entender, ele saiu do quarto pálido e sem dizer uma palavra, correu pelo fundo da casa no rumo do Mato Dentro, causando estranheza em Zé Cosme; quando se cruzaram na porteira, Pai Nanias resmungava o nome do diabo, como se esconjurasse o cujo.


No outro dia, seu Laudêmio e Dalvo foram até a grota agradecer Pai Nanias a reza e a benzedura que tirou Rosinha da cama. Levavam, além de muita comida, dinheiro, e por insistência de Zé Cosme, uma mula baia de presente que amarraram próximo à passagem para a grota. Lá não encontraram nem o benzedor, nem uma sobra das coisas dele, só o buraco vazio no Mato Dentro.





Leia a obra completa aqui: http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/
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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 21.05.11

ESPECIAL: A MÚSICA BRASILEIRA NA BELA ÉPOCA


O Roda de Choro deste sábado será especial. Durante todo o programa, enfocaremos a música brasileira na Bela Época, período que se estendeu no Brasil, desde a Proclamação da República, em 1889, até o final da Primeira República, com a Revolução de 30.


Influenciado pela Belle Époque, iniciado na França, por volta de 1870 e que se estendeu até o final da Primeira Guerra Mundial, o movimento afetou costumes, comportamentos, literatura, cinema, gastronomia e a música pelo mundo afora.


No Brasil, coincidiu com período de desenvolvimento e consolidação do Choro e a estilização e identificação do samba como a maior expressão musical popular urbana do povo brasileiro.


Na parte musical, ilustraremos com polcas, gavotas, cavatinas, tangos e choros dos LPs: A Bela Época da Música Brasileira e Pixinguinha, Vida e Obra, lançados em 1978*.



* Acervo General Adhemar Machado, sob custódia da produção.




Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.
Rádio UEL FM, de Londrina-PR, quintas-feiras, 21h.
Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.
Rádio Mandacaru FM, Cedro-CE, domingos , 12h.
Rádio Educadora FAFIT, de Itararé-SP, domingos, 8h.



Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ninguém me Conhece: 44) O Desejo Ardente de Lucia Helena Corrêa

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"Mulher, negra, jornalista, poeta e CARIOCA!". Foi no apartamento de outra jornalista-poeta, Guta Campos, num dos muitos saraus que esta promovia, que ouvi, à guisa de apresentação, a frase acima, da boca da própria Lucia Helena Corrêa. Lucia sem acento e Corrêa com circunflexo e sem "i", como gosta de dizer a própria Lucia, a mulher-sigla (LHC - não confundir com FHC!). Achei o tom um tanto carregado nas tintas, e não me caiu bem aquele "carioca" como qualidade; ainda não conhecia bem a dona da voz e seu enérgico (mas também afável) temperamento. Feita a apresentação, abriu seu vozeirão e cantou (à capela) uma canção de sua autoria, Cebola Crua, aliás, um poema seu por ela mesma musicado, poema este que também emprestou título a seu livro de poesia, com o qual, naquela noite, fui por ela presenteado. Melhor dizendo, Kana foi. Por falar em Kana e Cebola Crua, esta também musicou um poema desse livro, Negritude, uma bela canção que não vingou, como tantas outras que residem nos vários baús de canções órfãs.


Mas estamos falando de LHC, que, como vocês já puderam perceber, também acumula as qualidades de cantora e compositora. A bem da verdade, letrista. Não, não... LHC é uma poeta, e com P maiúsculo! Se se tornou letrista foi por descobrir-se cantora, gostar do ofício e ter o que dizer. Dessa forma, deixou alguns de seus belos poemas a cargo de melodistas de grosso quilate (calibre), como Marcio Policastro, Tato Fischer, Waldir da Fonseca, entre outros, pra que estes transformassem seus versos em canção. Mas isso porque ela teve a felicidade de ir ao Caiubi e lá encontrar os parceiros certos, que entenderam seus versos de métrica rebelde e souberam extrair deles, de forma crível, canções. Falando em canções, LHC é voz a serviço da nova geração de compositores. Só lhes (nos) pede licença pra de vez em quando se dar o prazer de fazer shows cantando exclusivamente Cartola, que, convenhamos, tem tudo a ver com ela. Acho mesmo que já passou da hora de um Hermínio Bello de Carvalho da vida descobri-la (assim como a seu Affonso Moraes).

Isso de mulher-sigla vem a cair-lhe como luva, pois LHC exerce com maiúsculo seus muitos ofícios. Nem vou falar da jornalista premiada, de alta quilometragem, pois este espaço se destina a música (estou me repetindo, acho que já falei isso a respeito de Zé Edu Camargo), mas a cantora temporã que se descobriu, de voz potente e alto teor interpretativo, é digna de caixa alta. Por falar em caixa alta, lembrei-me de uma canção de Sérgio Sampaio na qual ele dizia algo que ilustra bem LHC: "Como é maiúsculo/ O artista e a sua canção/ Relação entre Deus e o músculo/ Que faz poderosa a sua criação/ Pensando bem/ É um mistério/ Como é misterioso o coração". É assim que se dá com ela. As canções que lhe caem em mãos, ou melhor, na voz (ou, melhor ainda, no coração, pois pra chegar na voz tem que passar por ele), ficam irreparavelmente "contaminadas" (ou seria "purificadas"?) por seu estilo, passando a pertencer mais a ela que a seus autores, qualidade que poucas possuem (como Elis). Só pra se ter uma ideia, mandei-lhe, há alguns anos, uma meia dúzia de canções de minha lavra, e ela se enrabichou por Esse, parceria minha com Élio Camalle, de minha fase de eus líricos femininos. Calhou que certa noite, no velho Caiubi da rua Caiubi, ela inventou de cantá-la, acompanhada por seu (palavras suas) braço direito musical, o belo violonista Bráu Mendonça, no exato instante em que adentrava o recinto ninguém menos que Camalle. Este, intérprete espetacular moldado nas noites paulistanas, que não se sensibiliza com pouca bossa, só faltou cair estatelado no precário piso de taco, como que atingido por um raio, ao reconhecer sua canção desconstruída e reconstruída pela dona da voz. E ao prolixo Camalle só lhe restou soltar um palavrão impublicável que se referia àquelas mulheres de nobre profissão e a seus respectivos rebentos.

Se há uma pessoa que nasceu em dia acertado, essa pessoa é LHC. 1º de maio, Dia do Trabalho, é-lhe modelito feito por fino alfaiate. A mulher é o próprio trabalho de saias. Ou melhor, de vestido. É daquelas que querem abraçar o mundo. Se mete em mil projetos ao mesmo tempo, com uma fome de leão e uma fé de Jó (não confundir com Jô). Como boa sonhadora, já viu muitos deles irem por água abaixo, mas, incansável, nem se abala. Apaixonada por natureza, como boa poeta, não se limita a apaixonar-se apenas por um indivíduo qualquer, apaixona-se por tudo em que se mete e tem amor verdadeiro e zeloso pelos amigos, de quem compra as brigas. Mal conheceu, por exemplo, Marcela Viciano, minha parceira argentina de passagem por Sampa, instalou-a em seu apartamento e elevou-a à condição de irmã. E assim vem, durante os anos, aumentando o número de seus familiares.

É assim LHC. Sem meias palavras, sem meio amor, sem meio prazer, sem meia dor. É intensa em tudo o que faz. Sem papas na língua, igualmente colecionou alguns desafetos; mas a discussão, quando não sai do âmbito das ideias, oferece-lhe jogo delicioso, pois além das demais qualidades, ela tem talento nato pra esgrima verbal. Lembro-me de ter acompanhado na M-Música (grupo virtual que trata de música, obviamente - já comentei sobre ele em textos anteriores) duelos épicos entre ela e Zé Rodrix, de quem era amiga, mas com quem tinha visíveis diferenças. Mas sempre foram discussões de nível. Dava gosto ler. Agora LHC começou mais uma batalha, esta, desigual, dessa vez contra a Enfermidade (também com maiúsculo). E, nos intervalos de tão desgastante luta contra tão baixo adversário, ainda encontra forças pra gravar seu tão sonhado (e adiado) disco. Mas, teimosa como boa taurina que é, isso lhe dá forças. Não existe LHC sem luta. E, como um Cassius Clay, vai transformando as porradas em poesia, até o último assalto, mesmo contra o maior dos assaltantes.

Parabéns, Lucia! Desejo-lhe que a vida lhe propicie lutar ainda muitas e muitas batalhas, pois sei que é delas que você se alimenta!




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Ouça alguns dos desejos ardentes de Lucia aqui.
Leia as letras aqui.
Lucia também está no Caiubi.
 

 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

CRISTINA FARAON - À boca do poeta

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Hoje não quero nada meu
Quero tudo emprestado

Quero o desfalecimento dos amantes
As letras do Vinícius
A voz profunda, a rouquidão
Os cabelos longos como trilhos
E pesados
E que vão...

Quero a leveza da bailarina
Quando se lança lânguida
E falarei pela boca de um poeta
Melhor que eu
E destemido como o príncipe dos contos.

Quero a doçura da criança
Quando ela pede o impossível
E tanto se empenha
Em um desejo sem esperança

Abro mão dos meus arabescos
E letras e rimas
Porque não quero nada meu
Quero ver-me no outro
Pela boca do outro
Pelo brilho dos seus dentes
Respiração e palavras.

Meu querido poeta
Abre a tua boca em divinhações
E mostra a verdade comum de todos os homens.

Se tens olhos úmidos
E palavras exatas
Se tens um soluço livre como gaivota
E tens pés ligeiros
E a loucura necessária
E se não excitas, tens beijos trêmulos
E se sabes tocar,
Empresta-nos
Por hoje

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Tradução

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Entre conteúdos
E fazimentos
Dizendo do olhar
Decerto o teu
Estavas aqui
No fragmento
Da tua voz
Lenindo saudade

As palavras
Que traduzi ouvir
Pediam meu coração
Fossem sinônimos
Só de paixão
E ensinasse
Melhor conseguir
Tolerar do tempo
O seu andamento


MQ
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domingo, 15 de maio de 2011

SERTÃO DO SÃO MARCOS - Terra do Cobertão

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A lua, vez em quando escondia, nas poucas nuvens do céu de agosto. O trote era puxado, mas o tempo corria e a pressa de chegar estava no comando da afobação. Noite já fazendo tempo no seu traçado, foi quando ele viu o clarão de fogueira no mato. Desacorçoou da afobação. O nariz sentiu, o corpo seguiu o cheiro que recendia da codorna assada. Era Baldino com a mulada, de pouso no Cobertão.

- É de paiz, seu Baldino.

- Moço Teodoro, achegue.


E já foi retirando as almôndegas da lata de banha para dentro da panela, no reforço com a chegada de Teodoro.


- Lá envou p’ro Vai Vem, ter uma prosa cumprida cum Tó da Gumercinda. O sôr soube da disgrama que foi o nosso à-meia nas terra que o pai deixô. Ele tá me passano a perna, acha que sou besta. Coi’eu mais de vinte carro de milho, fala que foi deiz. Vendeu mais garrote do que bezerro que nasceu e fala que vingô pocos. O sôr sabe.

- Sei não, num labuto cum falação, num ponho disconfio em ninguém seu Teodoro. Sina de tropêro. Ele é seu irmão, avulie melhor, pode sê só fala-ção.


Teodoro era só agonia. Não deu conta de acompanhar a mulada lenta de Baldino, em dois dias já se despediu e seguiu na frente a meio trote. Mais dois estava na vila, na porta da casa do irmão.


- Tó! gritou na porta da casa.

Ninguém respondeu. Ele apeou.

- É Teodoro, Gumercinda. Como vai, meu irmão? Que cara é essa?


- Quero reparti tudo que o pai deixou. Num tem conversa de à-meia, o que é meu, é meu. O que é seu, é seu. Ou então vamo p’ra demanda. Falou Teodoro.


- Que revolta é essa, meu irmão? Num põe tristeza nessa casa não. Vai banhá, Gumercinda vai matar um frango. Que desassussego é esse? E seus estudos?


- Quero não, Tó. Vamo dividir tudo que tô sem tempo.

Assim foi, para tristeza de Tó, que aceitou o que o irmão queria. Dividiram a terra, o gado, toda a criação. A casa que ele morava ficou para Teodoro, o melhor da criação também. Nem as queixas de Gumercinda queria ouvir, era como o irmão queria.


Foi assim que Baldino encontrou Tó, com a família em cima do carro de bois, seguindo no caminho do Cobertão. Umas vinte cabeças de gado, poucas coisas da casa, duas capoeiras com poucas galinhas.


Perguntar, não perguntou nada. O que fez foi abrir a lata, retirar as almôndegas; do embornal, a paçoca e ali, na sombra do caminho, acolheu Tó indo no rumo do começar de novo. Seguiram juntos por todo o caminho com o tempo de um sendo o tempo do outro. Sobre o irmão, nem uma palavra. Foi Gumercinda que contou tudo a Baldino, quando o marido distanciou, na chegada do Cobertão, procurando onde fazer o rancho.


- Tó, vou ajudá inté cobri. A mercadoria que num for de incumenda e for do seu carecê, dexo na paga do quando pudé.


- Gradeço o amigo, mais aceito só se for na breganha com o gado.


Assim foi feito, Tó escolheu de um tudo no necessário, o que não era muita coisa. Mas encomenda fez muitas.


Rancho feito, a panelada de galinha com pequi de Gumercinda; para Tó, o mato virgem de começar; para Baldino, o caminho da labuta diária.


No ano, Baldino passou duas vezes por lá, e a cada uma delas foi vendo em que Tó ia transformando o Cobertão. Roça para todo lado, gado bonito, muita criação, já tendo até agregado de à-meia. Cada vez mais encomenda, enxada, foice, querosene, butina vera cruz, sal luzente e pólvora. Às vezes, um agrado de peça de chita para Gumercinda.


Com dois anos, até rancho de pouso para Baldino estava feito. A terra toda formada, luxo de rego d’água na porta do terreiro, carroção novo feito por Joaquim Pirracento. Mas do irmão nunca mais falou.


No descarrego das mulas, encomenda do Manco, foi que Baldino soube a primeira vez de Teodoro. Devia no fiado da venda, mais de conto de réis; a sede nas terras que o pai deixou estavam virando uma tapera velha. Os agregados foram indo embora um por um, às vezes até sem paga nenhuma.


Num ano passado, ouviu falar que Teodoro tinha vendido tudo. Era visto somente no cavalo magro e na venda, atrás duma garrafa de pinga.


Foi perto do Vau do Lajeado, a duas léguas da casa de Tó, no Cobertão, que Baldino viu o cavalo sozinho com a rédea enganchada no espinheiro. Teodoro, achou no vau, todo sujo, fedendo. Magro de assustar. Ali mesmo que Baldino fez fogo, caçou perdiz, pôs no ensopado e cuidou de Teodoro por dois dias. Quando ele acordou, ainda fraco.

- Seu Baldino?

Baldino o deixou ali, com comida no jeito para uns dias e uma cabaça cheia de um chá de raiz; amarrou o cavalo perto e foi para o Cobertão, pedir a ajuda de Tó.


Chegando, avistou Gumercinda na bica labutando com capado, no lado dum tacho de sabão. Não falou nada, esperou Tó chegar.

- Ocê sabe do seu irmão, Tó?


- Desse assunto num trato nem cum o amigo Baldino. Tenho irmão, não.

Quando Baldino ia falar, a voz de Gumercinda gritando:


- Meu Deus, Tó. Corre aqui, depressa.


Era o irmão caindo de cima da sela, em pele e osso.


Meio ano passado, Baldino fez pouso no Cobertão; foi festa na casa de Tó e Teodoro, herança que o pai deles deixou.


 
Leia a obra completa aqui: http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/
 
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sábado, 14 de maio de 2011

MAURO DIAS - ANA DE HOLLANDA MINISTRA DA CULTURA


"Aplaudi a indicação de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura da posição independente de quem não votou na Dilma Rousseff. Aplaudi por muitos motivos, mas dois deles já me seriam suficientes. Primeiro, Ana de Hollanda vinha de um não questionado período à frente da Funarte, o que lhe conferia - confere - experiência administrativa e comprova capacidade na lida com as complicações do tráfego burocrático. Segundo, e mais importante, Ana de Hollanda é uma artista independente. Fez a carreira de cantora a contrapelo do mercado, gravou o que quis gravar, da forma como quis gravar, tendo como norte o primado estético, como regra a integridade artística. Há quem goste e quem não goste do trabalho da cantora Ana de Hollanda. Não há quem lhe negue honestidade e coragem na construção da carreira.


O fato é inédito: um artista, se não de sucesso, ao menos de prestígio, sem ligação com a indústria (ou a academia) chega ao comando do MinC. Bolas, todos sabemos muito bem que existem duas músicas brasileiras (e vou falar só de música, campo que conheço bem e sobre o qual escrevo há mais de quarenta anos). Uma delas, uma dessas músicas brasileiras, é a criada pelo mercado, pela indústria, pelas três multinacionais que mandam no mercado fonográfico, na difusão televisiva e radiofônica e no trânsito virtual de informações. Essa música é, na quase totalidade (totalidade, de fato; há uma ou outra exceções que confirmam a regra), muito ruim. Não representa xongas para a cultura. Tem significado para a megaindústria do entretenimento e para as bolsas de valores. Naturalmente, a criação que circula nessa esfera tem o lucro como objetivo. Nada contra o lucro. É só questão de parar as coisas no lugar.


A outra música brasileira é a que o sujeito faz de acordo com sua sensibilidade, suas convicções artísticas, seu desejo de traduzir o mundo, à sua maneira, sem outros ditames que não os de foro íntimo. Esse criador é o independente. Se faz um disco, ele é lançado por uma gravadora pequena - ou o artista cria seu próprio selo para lançar o disco. Dessa forma, a obra submete-se ao mínimo possível de interferência externa. O resultado pode ser formidável ou pavoroso. Não importa, é autêntico. E a verdade é: nem toda música independente é boa, mas praticamente toda música boa em circulação é independente. Ou, posto de outra forma: se ser independente não faz de ninguém um bom artista, ser parte da indústria, como regra, caracteriza um artista que se importa mais com o lucro do que com a arte.


Essa é uma discussão antiga, que embute um monte de "no entanto", "não obstante", "por outro lado" - e joga com questões não artísticas - necessidades particulares, questões de sobrevivência, vaidade, claro, mas também coerência, caráter e outras qualidades (negativas ou positivas) abstratas. Renderia páginas e páginas de exposição e outras tantas de discussão, mas nada muda a realidade: a boa canção brasileira está na produção independente, que, sim, também é um mercado, mas de proporções menores do que aquele capitaneado pela grande indústria e, por uma tradição há muito estabelecida, mais preocupado com a boa qualidade - a autenticidade - de seu produto. A independência permite que o artista ouse, seja diferente, corra riscos, defenda estéticas, crie estéticas, marque presença, anuncie sotaques, explicite estranhamentos, estabeleça parâmetros, diversifique parâmetros, introduza ou suprima elementos, expanda experiências, enfim, manifeste-se.


Então, quando alguém vinda dessa extração assume o Ministério da Cultura, essa é uma boa notícia. Ana de Hollanda vem (ou melhor, é) do mercado independente, conhece as dificuldades de se fazer cultura o amparo dos mecanismos da grande indústria, sem garantia nenhuma de chegar ao topo da parada de sucessos, mas com garantia total de fazer o que lhe dá na telha e lhe parece bom (muitas vezes pagando do próprio bolso para que a criação se transforme em produto, em disco). Eventualmente entra um trocadinho, suado, sofrido, pequeno, mas estava previsto. E é assim que a cultura se move, assim ela anda para a frente.


Uma cantora com experiência nessa área pode fazer muito pela música brasileira - mais uma vez, estou falando de música porque é o que conheço melhor. Com base em sua experiência no mercado independente, com seu conhecimento de como funcionam os mecanismos que freiam a divulgação da obra que não pertence ao grande mercado, pode dar contribuição formidável para nosso cancioneiro. Pelo vasto conhecimento da cultura popular tradicional, pela vivência junto aos criadores alternativos, pelas batalhas que enfrentou para levar seus discos às lojas, seus espetáculos aos palcos, conhece como só quem viveu a questão as dificuldades porque passa a grande maioria dos autores, intérpretes, músicos. Junte-se isso à experiência administrativa e podemos ter um Ministério da Cultura que faça jus à cultura que representa.


Agora querem expulsar Ana de Hollanda do MinC. Há um golpe em andamento. Ela mexeu em vespeiro e estão fazendo o possível para defenestrá-la.


A nomeação de Ana de Hollanda foi uma porrada na cara da corrente hegemônica do MinC conforme a estrutura deixada por Gilberto Gil, um grande artista que fez carreira na indústria (os tempos eram outros, naturalmente) e que tem cabeça de mercado, até porque as contingências de sua trajetória são muito peculiares (outro tópico que renderia páginas e páginas de discussão). E foi uma porrada porque Ana de Hollanda mandou retirar da página inicial do sítio do MinC o link para licenças do Creative Commmons, um mecanismo que permite que determinado autor abra mão, sob certas circunstâncias, de seus direitos financeiros resultantes da circulação da obra.


A ministra argumentou desde o início que não era necessária aquela licença específica - que se apresenta como sem fins lucrativos -, uma vez que a legislação ordinária permite que um autor abra mão de seus direitos - etc. O MinC considera o link propaganda de um produto multinacional que funciona como "barateador de custos" para a "livre circulação da informação" - leia-se, obra de arte (música, textos e mais). Não argumentou, muito diplomaticamente, que o tal mecanismo é mantido por empresas de software - o Google, por exemplo, é uma empresa de software livre, usado no mundo inteiro, gratuito. Gratuito? É o maior empreendimento comercial da era da informática, maior do que a Microsoft. Ganha em publicidade. Ganha fazendo circular ("gratuitamente") conteúdo ao qual vem agregado a publicidade. Ganha monitorando virtualmente nosso gosto, nossas preferências, nossas atividades comuns e elegendo, com base nas informações que acumula, os produtos que devem ser de nosso interesse; cobra do anunciante, atinge um público cuidadosamente escolhido etc., etc., etc.


Mas na hora de distribuir conteúdo - vamos falar de música, especificamente -, o Google (e qualquer outro provedor) precisa pagar direito autoral, de acordo com legislações vigentes no mundo inteiro. Isso representa custo alto, dado o volume de informação em movimento. E aí entra o "facilitador" Creative Commons, um formulário pronto, que basta preencher e - eureca! - o autor abre mão de seu direito em troca da garantia (na verdade, nenhuma) de estímulo para divulgação da obra, uma vez que não há custo para quem a vai divulgar - e o verbo "divulgar" é usado eufemisticamente no lugar do que de fato é posto em prática: negócio. O conteúdo é negociado, não é "divulgado". Ele é trocado pelas informações sobre seus gostos e preferências para orientar a publicidade que você recebe quando abre determinada página.


Você dirá: mas é assim que funciona o mundo. Verdade. Só que, no mundo dos negócios, todos os envolvidos ganham alguma coisa - uns poucos ganham muito, uma parte ganha alguma coisa, a maioria ganha bem pouco, mas todos ganham. No caso da "flexibilização" do direito autoral todos ganham - menos o autor. Só que, sem o autor, não há obra, e sem obra essa estrutura toda não tem razão de ser. Então porque apenas o autor deve abrir mão de seu lucro, se é ele que faz rodar a engrenagem?


Claro que ninguém é obrigado a usar a licença do Creative Commmons. Mas o autor vai pensar, inevitavelmente, que se ele não abrir mão de seus direitos e os outros abrirem mão, a obra dele vai ser preterida, porque tem custo, enquanto a dos outros não tem. Então, porque precisa mostrar a obra, ele acaba abrindo mão de seu direito de autor. É só isso. Foi só por isso que a licença foi retirada da página do MinC. Porque ela induzia o autor a abrir mão de seu lucro - aumentando o lucro de quem veicula sua obra. Uma espécie de Ardil 22, mais cruel - muito mais cruel - do que o Ardil 22 original, vocês lembram? O livro "Ardil 22", do norte-americano Joseph Heller (filmado por Mike Nichols) é passado numa guerra - da Coreia, acho. Os pilotos têm um número determinado de bombardeios para realizar, e esse número sempre aumenta. Então, o sujeito resolve pedir para ser dispensado, porque não aguenta mais a barbaridade que está cometendo. Vai ao médico, que lhe pergunta: "Você está maluco"? O cara responde que não. "Então não posso lhe dar licença. Você não está ferido. Só poderia dispensá-lo se você estivesse ferido ou louco. Mas se você estivesse louco não pediria para parar de voar. Se você pede para parar de bombardear, é porque você está são. E se você está são, não posso dispensá-lo".


Agora querem expulsar Ana de Hollanda do MinC. Há um golpe em andamento. Ela mexeu em vespeiro e estão fazendo o possível para defenestrá-la.


Ela feriu a lógica do Ardil 22. Como não pode ser punida por tirar uma peça publicitária da página do MinC, o cerco vem de outros lados. Escândalo no Ecad? Culpa da ministra. Os órfãos da estrutura montada por Gilberto Gil e Juca Ferreira no governo Lula, que davam por certo assumir o MinC, querem que Ana de Hollanda façam intervenção no Ecad - mas intervenção numa entidade de direito privado, que história é essa? O Ecad, que funciona mal, mesmo, sem dúvida, pertence aos autores. Foi criado, nos anos 60, como órgão fiscalizador da arrecadação de direitos autorais. Antes do Ecad, cada sociedade de direitos autorais recolhia o dinheiro de seus associados e o distribuía de volta como bem entendesse, sem ter de prestar contas a ninguém. O papel do Ecad é fiscalizar, de forma centralizada, a arrecadação e distribuição, punindo quem cometa impropriedades. O próprio Ecad, no entanto, comete (muitos) erros. Pois que se conserte o Ecad. Que os autores (e intérpretes e arranjadores e todos os envolvidos) se unam para fiscalizar o Ecad. Não que o governo intervenha para acabar com o Ecad. Ou, pior do que isso, como anda sendo defendido: que o governo se torne gestor do dinheiro do direito autoral.


Porque essa reivindicação, vale lembrar, é antiga. É do interesse dos donos de emissoras de rádio e televisão, concessões públicas que em grande parte acaba nas mãos de caciques políticos - que são contra a cobrança do direito autoral, obviamente. Os políticos vivem pedindo intervenção no Ecad. Agora, por inocência ou desconhecimento, ou malícia, ou interesses ocultos, um monte de gente - intelectuais em bons postos públicos, criadores que frequentam gabinetes, ambiciosos que se sentiram lesados com a mudança da política do MinC - estão fazendo coro com os políticos que não querem pagar o direito autoral. E a ministra é contra? Derrube-se a ministra!


Pois agora querem expulsar An a de Hollanda do MinC. Há um golpe em andamento. Ela mexeu em vespeiro e estão fazendo o possível para defenestrá-la.


Devo dizer que não tenho procuração para falar em nome de Ana de Hollanda. Nem estou dizendo que Gilberto Gil e Juca Ferreira tenham agido de má fé. Apenas acho que eles estavam equivocados e que Ana de Hollanda está certa. Ou no caminho certo. E tenho certeza de uma coisa: se o golpe que está sendo armado der certo, estaremos dando um passo para trás, um imenso, infinito passo atrás, em termos de democracia, de gerenciamento independente, de visão criativa apartada (embora não ignorante dele, atenção) do mundo do mundo do negócio. Estou com medo."

 MAURO DIAS
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