quinta-feira, 31 de março de 2011

Chifre queimado


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De cócoras, na soleira da porta, Bento tentava, com o tição na mão, acender o chifre que não pegava fogo de jeito nenhum. Muita impertinência, imagina dois dias no borralho e o fogo não pegava. Resolvido, voltou à cozinha e, com o ferrão de Tenório no oco do chifre, enfiou no meio do braseiro.


Foi o que bastou. Zumira ao entrar já foi logo deitando falação. Aquilo não aceitava. Onde já se viu misturar aquela catinga no feijão que cozinhava desde cedo. Lugar de homem não era na cozinha. Se a simpatia de espanto de cobra fosse aquele fedor, que ele queimasse o chifre lá no curral, que ficasse longe do fogão.


Bento saiu no terreiro ainda com o chifre enfiado no ferrão. Tenório, que chegava suado da lida, reconheceu a vara pelo entortado do cabo. Já foi logo enfezando com o cunhado. No consentir de quem ele estava usando o ferrão? Ainda mais naquele uso inadequado. Para que queimar o chifre? Se fosse espantar cobra não era assim que fazia, tinha que ralar o chifre e misturar com estrume que encorpava a fumaça. Bento, contrariado com a falação, devolveu o ferrão e foi até a casa do vaqueiro Osório emprestar um ralo.


Depois de quase a tarde inteira que Bento estava pelejando com o chifre, o vaqueiro viu que ele estava usando o ralo de fazer quitanda de sua mulher Izaltina. Maior ciúme dum outro objeto ela não tinha. Osório, sem graça, reclamou que Bento devia ter falado o que ia ralar. Se soubesse ele não emprestava. Para que ele estava fazendo aquilo? Bento contou da simpatia de espantar cobra, disse que elas estavam aparecendo muito no paiol e atacando as galinhas. Osório explicou que não era assim, de ralar o chifre e misturar estrume, tinha de raspar com a faca melhor de corte que tivesse na casa, juntar com pólvora e, também, que chifre secado em borralho de fogão não servia. Tinha que secar ele numa fogueira, acesa em noite de céu encoberto, sem lua e sem estrelas, noite de só breu.


Misterioso, Bento juntou as pedras e fez a fogueira. Depois de secar o chifre numa seqüência de noites bem escuras, passou quase um mês raspando e guardando dentro de um embornal. Dos cartuchos do cunhado retirou a pólvora e guardou em outro.


Seu Baldino, passando rente à cerca, parou num dedo de prosa. Bento, na curiosidade dele, foi explicando o que estava fazendo. Baldino lhe disse conhecer a simpatia, a raspagem do chifre estava correta, a pólvora também, mas pedra na fogueira não podia usar não. Carecia fazer uma bacia de barro, do tamanho duma braça, encher de gravetos. Só assim espantava as cobras. O efeito só seria duradouro se a simpatia fosse feita à meia- noite e quando acabasse de queimar, ele espalhasse as cinzas em volta do local.


Bento, com a bacia de barro pronta e os dois embornais pendurados no esteio do paiol, esperava ansioso a noite chegar. O cunhado, vindo do curral com o balde de leite na mão, mangou dele dizendo que nunca tinha visto homem mais sem opinião e que ele não tinha fé no que fazia. A simpatia tinha lá suas liturgias mas sem a fé não valia nada. Já que ele aceitava palpite de todo mundo por que não ouvia o Mané Benzedor, conhecedor por profissão e morando tão perto. Bento, quase na zanga com o cunhado, resolveu procurar Mané Benzedor que lhe deu todas as orientações. Explicou como fazer, corrigiu o errado, acrescentou o estrume na bacia de barro, mandou pôr, além dos gravetos, sabugos e palha de milho e que esperasse uma noite de bem breu.


Feliz da vida, Bento ficou esperando a melhor noite, determinado a não aceitar mais palpite de ninguém, nem falar mais no assunto, evitando apodo do cunhado. Veio a cheia e nada. Na minguante deu a noite esperada, escura, fechada e sem vento, parecia noite cega de nascença.


Na paciência, com todos os detalhes, Bento preparou a bacia na porta do paiol, calculou o meio da noite e pôs fogo.


0 barulho foi seco, bum..., nem ressoou. O fedor foi exalando pelo ar e impregnando as palhas de buriti que cobriam o paiol, espantando as galinhas do poleiro. Foi quando Bento viu a sombra se transformar na figura que andava em volta exalando pior cheiro que a mistura que ardia na bacia de barro.


Dela ouviu, atrás do bafo, bem na sua frente.


- Cobra, que cobra levo. E o coisa ruim sumiu do susto.


Cobra nunca mais apareceu lá e Bento morre de medo, na noite escura, quando começa exalar aquele cheiro de chifre queimado por todo o corpo. .


MQ .

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quarta-feira, 30 de março de 2011

terça-feira, 29 de março de 2011

Jeito de chegar

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Entras em mim

Vagarosamente

Como o sol na manhã

Se te aninhar

Pudesse...

Se entregar

Quisesses...



MQ .


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VERGONHA

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VERGONHA

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segunda-feira, 28 de março de 2011

AUGUSTO MARTINS - RIO DE JANEIRO

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REFLETINDO ...

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RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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MALANDRAGEM
(Cazuza/Roberto Frejat)

Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
Bobeira é não viver a realidade
E eu ainda tenho uma tarde inteira
Eu ando nas ruas
Eu troco um cheque
Mudo uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar
Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar
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Então, foi assim...
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A vida já aprontou muitas com a cantora e compositora Ângela Maria Diniz Gonçalves, que por conta de sua voz rouca recebeu o apelido de Ângela Ro Ro. Mas, ela também já aprontou com a vida. E num caso particular, Ro Ro fez questão de se penitenciar ostensivamente diante do público: “Fui uma imbecil, uma burra de recusar essa música! Como é que eu não pensei
nisso?” Aí fez um dramático mea culpa por ter desprezado Malandragem, feita sob medida por Cazuza e Roberto Frejat, especialmente para ela, mas que foi gravada por Cássia Eller.
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Essa história me foi contada pelo cantor e compositor Roberto Frejat1, na mesa de uma pizzaria em Brasília2, rodeado pelos músicos Rênio Quintas, Tibério Gaspar, Eduardo Camenietzki, a produtora Elizabete Braga e amigos ao final de um dia de andanças pelo Congresso Nacional, Procuradoria da República e Ministério da Cultura, em defesa das causas da categoria. Frejat, além de artista e um ser humano especial, é também um dos líderes do Fórum Permanente de Música do Rio de Janeiro.
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Malandragem tem uma história curiosa. Em 1988, Ângela Ro Ro estava gravando o LP Prova de Amor e solicitou a Cazuza3 e Frejat que fizessem uma música pra ela. Os dois aceitaram a encomenda, mas demoraram a compor. Quando ficou pronta, eles foram entregar, mas Ângela já estava mixando o disco e ficou por isso.
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Frejat comenta que “quando o Ezequiel [Neves] começou a assessorar o produtor Guto Graça Melo na escolha de repertório para um disco da Cássia, ele me procurou e perguntou se eu tinha alguma coisa que pudesse sugerir. Eu disse pro Zeca que tinha uma música que eu fiz com o Cazuza, que a gente fez pra Ângela e ela nunca gravou. E a única pessoa que eu conseguia ver cantando essa música hoje, além da Ângela, seria a Cássia. Foi feita pra Ângela, está com ela. Mas, eu não sei se ela quer gravar. Eu falei: vou falar com a Ângela e vamos ver. De repente a Ângela nem tem a possibilidade, nem um projeto, nenhuma perspectiva de gravar agora.”
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Era uma situação delicada, praticamente pedir a música de volta, mas como já tinha se passado seis ou sete anos, Frejat ligou pra Ângela:
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“- Oi Ângela, tudo bem? Você lembra daquela música Malandragem, que eu e Cazuza fizemos pr’aquele seu disco, que a gente mandou pra você, que você iria gravar e não deu? E aí?
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- E aí? Ele não te falou não?” [Detalhe: Cazuza já havia desencarnado na época].
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“- Não, não me falou nada.
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- Eu achei a música uma merda! Esse negócio de meia ¾, garotinha? Imagina se eu sou uma garotinha e vou usar meia ¾? Essa música não tem nada a ver comigo!”
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Frejat ficou meio passado com aquela reação bombástica. “Você faz uma música de presente e leva uma cacetada, mas quem conhece a Ângela sabe que é tudo latido de cachorro. Porque ela é um doce.”
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“- Eu posso pegar essa música e dar pra uma outra pessoa?” – Frejat não disse pra quem.
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“- Lógico. Pode!” – respondeu Ângela Ro Ro, descartando a música de vez.
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Frejat não teve mais dúvidas, passou-a para Cássia Eller e o resultado foi o estrondoso sucesso.
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Perguntei a Frejat se o sucesso não teria a ver também com a interpretação de Cássia, a marca da instigante agressividade que ela imprimia em todas as músicas que cantava. “Eu acho que não é uma questão de interpretação”, respondeu. “Ângela é maravilhosa, a música foi feita pra ela. De certa maneira o personagem da música coube tão bem pra Cássia porque a Cássia é herdeira da Ângela numa certa persona, aquela coisa da loucura, do certo tipo de recado mais áspero. E tem essa coisa bluseira também. Eu acho que a Ângela, desde a época que a gente fez a música e deu pra ela, não teve um momento de exposição como a Cássia. No momento em que entra esse disco que o Guto Graça Melo fez, o projeto era transformá-la numa cantora pop. E Malandragem era perfeita porque era um personagem que se encaixava perfeitamente. Dificilmente você veria uma mulher cantando: Quem sabe o príncipe virou um sapo que vive dando no meu saco... Uma mulher cantando uma frase dessa, tem que ser uma Ângela Ro Ro ou uma Cássia Eller e acho que isso deu muita força pra música também. A Cássia estava no momento dela e essa música era o instrumento que ela precisava para aparecer. Por não ser uma compositora, ser uma intérprete, ela precisava de um repertório que desse um conteúdo coerente com ela. Por isso que foi importante na trajetória dela.”
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Cássia Eller gravou Malandragem três vezes: no disco Cássia Eller, de 1994, produzido pelo Guto Graça Melo, Cássia Eller ao Vivo, de 1996 e Acústico MTV, de 2001. Em todas elas foi usada como música de trabalho.
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Frejat teve oportunidade de cantar Malandragem junto com Ângela Ro Ro, a musa inspiradora. Antes, ela fez uma reverência carinhosa à Cássia Eller, depois a cantou maravilhosamente. “Porque ela continua a ser merecedora da música, apesar da Cássia ter gravado”, finaliza Frejat.


1 21/5/1962 Rio de Janeiro-RJ.

2 Bate-papo com o autor em abril de 2006, em Brasília.

3 Agenor Miranda de Araújo Neto 04/4/1958 Rio de Janeiro-RJ 07/7/1990 Rio de Janeiro-RJ.
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Ruy Godinho
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A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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domingo, 27 de março de 2011

SERTÃO DO SÃO MARCOS - Júlia Partera


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Era custoso o preparo da terra, o plantio e a lida, o cuidá da roça até o colhê. Inda tinha que esperá o tempo certo da chuva prá tudo isso e depois infrentá as capivara cumeno o roçado, inda fora de hora, como se fosse à-meia nossa labuta.
Foi aí que pareceu na idéia a arapuca.
Seguino no triero, abrimo deiz buraco de mais de dois metro, tampamo cum foia de buriti, modo que quando elas viesse cumê, caísse neles.
E deu certo. Teve dia que chegamo a pegá cinco delas. Aí era marrá no laço e puxá, depois sangrava uma a uma. Na primera veiz, num sabia como lidá com o bicho. Mais Miguilina perguntô prá seu Juvito mais dona Divina e eles explicô prá tirá o coro, depois tirá a banha que formava outro coro, ficano a carne que era boa de fazê armôndega e guardá na banha de porco. Durava ano.
E foi o que nóis feiz, enfileramo oito lata de banha de porco, enchemo de armôndega de carne de capivara. Zefa já perto de discansá, enjoano cum tudo que era de cumê, nem na cuzinha foi, fizemo tudo suzinho, eu mais Miguilina.
Na hora de fritá as armôndega, deu um lampejo e levei uma amassadinha cum farinha de milho e Zefa num istranhô; inda pois querença de mais.
Num teve injôo nem nada, foi o acabá das preocupação em tudo que cumia e num sustentava. Desse dia em diante, ela armuçava e merendava as armôndega de carne de capivara pega nas armadilha do triero.
Mesmo quando iscasseou a pega dos bicho, num sei se pur isperteza delas ou pur ismazelo nosso no preparo das armadilha, Zefa foi até discansá sem fartá as armôndega, que era só o que ela cumia.
Nasceu Laurino, grande, forte; a partera nem acreditô, lembrano os injôo de Zefa. Daí em diante, virou recumendo seu: cumê carne de capivara desde o primero mêis. A receita ajudava a afamá ela no Vai Vem. Quando as muié embuchava e cumeçava a baldiá, era só chamá Júlia Capivara, ela dava jeito.
Era assim que ia pono o cunhecimento nessa fartura, lugar mais abençoado e de tudo pur fazê, o povo trabalhadô dimais, mas meio sem idéia das coisa. Pois olha que nesse tempo eles fazia a derruba do mato p’ra roça e num distocava. Ficava o milho e os toco. Desses, só colhia o estrovo no passá cum arado.
A primera veiz que Juvito viu a que fiz, ele pois reparo na trabalheira que dava. Mais quando coí os primero carro de milho ele num acreditô no rendê do plantio. Hoje ele prepara milhor a roça. Inda aprendeu a esperá a cheia mode favorecê a distoca.
Juvito ficou meu cumpadre. Dei a caçula, Duvigis pr’ele batizá e ele pois querença d’eu batizá o dele tamém, que envinha nos dia. Nóis ficô isperano o nascê.
No dia, quando Neco Talagada foi chamá a partera, na passagem deu aviso, e num vortô. Júlia Capivara num passô e nóis incomodô. Zefa num agüentô, bateu lá.
Eu e Juvito pegamo o triero atráis de Neco mais a partera. Neco encontramo na venda bebeno.

- Onde tá a partera?

- Seu Juvito, ela foi na mesma hora, já divia ter chegado faiz tempo. Eu parei prá molhá o papo, ela já em ia longe.

Saimo os três pelos triero procurano. Neco, já meio tonto da pinga, cambaleava na frente. Quando passamo perto da roça, onde tinha as armadilha, Neco, na frente, parou na primeira e olhou dentro do buraco.

- Isso é hora de pensá em caça, Neco? Onde já se viu.

- A capivara tá aqui, seu Juvito.

- Ponha tento Neco.

- É ela seu Juvito.

Era Júlia, a partera, que tiramo do buraco, das mais infezada.

- Tenha mais respeito seu cachaceiro. Dizeno p’ro Neco.

Quando chegamo na casa de Juvito, a Zefa já tinha aparado o minino e tudo corria bem.
Batizamo o Tércio mais Duvigis junto, dos dois, a madrinha foi a partera, modo de acabar com a disfeita do buraco.
E, desse dia em diante, nunca mais chamamo a cumadre de Júlia Capivara.



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Leia a obra completa: http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/

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sábado, 26 de março de 2011

RUI GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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Beijo


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Minha boca
No beijo
Cordial
Social

Resvalado
No rosto oval

Encontrando
A tua e dizendo
Com as entranhas
Que te quero




MQ
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sexta-feira, 25 de março de 2011

RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 26.03.11

No 1º bloco o destaque vai para a Coleção Princípios do Choro e o compositor enfocado é Capitão Miguel Rangel, nascido na segunda metade do século XIX.

No 2º bloco teremos o som dolente do CD Choros e Valsas, de Benedito Costa e Waldir Silva, com uma seleção de valsas tradicionais e choros clássicos.

No 3º bloco a tônica é a soma do talento de dois virtuoses instrumentistas: o violonista e compositor piracicabano Alessandro Penezzi e o clarinetista paulistano Alexandre Ribeiro e o som do CD Cordas ao Vento, lançado em 2011.

No 4º bloco teremos a revisita do cantor Carlos Navas e o som do CD Quando o Samba Acabou – Dedicado a Mário Reis, lançado em 2007.

O 5º bloco traz a expressiva música dos jovens virtuoses brasilienses do trio Aquário o som do CD Primeiro, lançado em 2010, produção independente.
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Ouça pela internet:

Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.
Rádio UEL FM, de Londrina, quintas-feiras, 21h.

Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.

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Produção e Apresentação: Ruy Godinho
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Ninguém me Conhece: 41) Madan, Raridade

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Já comentei aqui várias vezes a respeito daquela reunião no apartamento em que vivia Élio Camalle, quando estive de penetra numa reunião de artistas da Dabliú Discos e conheci, entre outros, Kléber Albuquerque, Márcia Salomon, Fernando Forni (Daisy Cordeiro também estava, mas eu já a conhecia)... Pois bem, entre eles estava também Madan, compositor que se dedica à difícil arte de musicar poemas. A primeira impressão que tive dele foi de que era um camarada altivo. Alto, elegante, cabelos longos e barba por fazer à la Mickey Rourke, não era exatamente bonito, mas transpirava charme, classe. Simpatizei com ele na hora, embora tenha notado que a recíproca não foi verdadeira.

Camalle me emprestou seu primeiro CD e, admito, foi a última vez que ele o viu. Não que eu o tenha roubado. Roubo é uma palavra muito forte. Digamos que eu, sabedor da desorganização que acomete meu parceiro, resolvi guardar o CD pra ele. Assim, na hora em que ele precisasse, saberia onde encontrá-lo (o que fatalmente não ocorreria se estivesse em seu poder). Além do mais, cultura tem que ser compartilhada, e eu, bom divulgador, converti não poucas pessoas ao "madanismo", tendo sido eu o primeiro convertido.

É que é muito fácil gostar da música de Madan. Sua escola folk-roquenrol, mesclada às referências brasileiras, deu-lhe bagagem pra desenvolver uma sonoridade própria, única, que, no mais, deixa bem à vontade seu abençoado timbre. E Madan não complica. Deixa a complicação (se é que há) a cargo dos poemas que musica. Acho mesmo que ele devia se especializar em realizar oficinas de composição direcionadas à arte de musicar letras. Aliás, musicar letras é até fácil, pois, se o letrista é esperto e tem o cacoete do negócio, já entrega ao melodista de bandeja meia música, ou seja, versos bem metrificados, as sílabas tônicas das palavras numa cadência aconselhável, enxuga os plurais e demais fonemas que possam causar incômodo na hora de cantar etc. Já o poeta não tem nenhuma obrigação em relação às técnicas que citei acima. Afinal, poesia é uma arte que acaba em si. Por isso a tarefa de Madan é das mais complexas. E ele a desempenha com maestria e simplicidade, como se fosse fácil. Tomemos como exemplo Dona Doida, de Adélia Prado; Frei Tito, de frei Betto; Ashell, Ashell pra Todo Mundo, Ashell, de Elisa Lucinda, entre outros. O resultado harmônico leva a crer que a melodia nasceu antes da letra/poema, o que não é verdade. Há muitos talentosos compositores que não conseguem musicar letra nenhuma. Assim sendo, nesse quesito Madan é mestre (conheceria tempos depois, em Montevidéu, uma compositora chamada Samantha Navarro, que lançara um CD chamado Poemas e tinha a mesma desenvoltura de Madan em lidar com tal arte)!

Naquela época eu era dado a cultivar ídolos, e passei a admirá-lo como a um Chico ou um Tom. Cheguei ao extremo de compor vários "poemas", cheios de cabecismo e pseudointelectualismo, no intuito de tê-lo como parceiro, aproveitando-me de nossa relativa proximidade. Mas a cada novo "poema" recebia dele uma nova negativa. Fiquei realmente frustrado, diria mesmo quase traumatizado, por não conseguir enredá-lo, o que era razoavelmente fácil com meus demais parceiros. Foi então que o destino veio em meu auxílio. Uma das maiores qualidades de Madan sempre foi o senso coletivo. Daqui a pouco darei um ótimo exemplo. Por ora digo que tal qualidade o motivou a criar um grupo virtual de música chamado RSMB (Rede Solidária da Música Brasileira - veja texto sobre Adolar Marin), do qual fez parte muita gente boa, como Adolar Marin, Élio Camalle, Sonekka, Ricardo Soares, Dhara Barros e muitos outros. Posso mesmo afirmar que a RSMB foi uma espécie de pré-Caiubi. E foi justamente nesse grupo, interagindo com seus membros, dialogando, opinando, "parceirando", que fui minando as resistências de Madan. Sem que eu notasse, lá estávamos nós horas ao telefone, filosofando, dando risada, trocando conselhos. Foi Madan quem me apresentou à literatura e ao pensamento de Osho, controverso filósofo indiano. Foi Madan também quem, certa vez, após mais uma desilusão amorosa, perguntou-me: "Léo Nogueira, você que é um poeta, que tem a sensibilidade à flor da pele, me diga o que é o amor! Pra que ele serve?". Como tampouco eu soubesse, fiz como os bons terapeutas, respondi-lhe com uma série de indagações (só que em forma de poema) e tasquei-lhe o título O Amor e Outras Inutilidades:

Eu não sei nada do amor/ E o amor, de mim, não sabe/ Pra que ele serve? Onde vou pôr,/ Se não me ferve e não me cabe?/ Se tem alguém aí, me salve!/ Não tá nos livros da estante/ Não tá na net ou no mercado/ Não tá no corpo da amante/ Se tava aqui, eu fui roubado/ Quero ao amor ser condenado!/ Será uma invenção de Deus?/ Mas, se até Deus foi inventado?/ Será que nasce com o adeus?/ Estará longe ou do meu lado?/ Se ele é um vício, eu tô curado!/ De que me adianta saber tudo,/ Fazer canções, ser bom amigo,/ Se meu coração vive mudo/ Não fala aos outros, nem comigo/ Quero sentir, correr perigo!/ Não me disse o psiquiatra/ Não li na bula do remédio/ O tiro saiu pela culatra/ Se era amor, se tornou tédio/ Plantei uma flor, cresceu um prédio./ Se não o descobrir, eu morro/ Só aprendi a sentir dor/ Em vão eu grito por socorro/ Alguém me ame e, se não for/ Amor, me ame por favor!/ Se tem alguém aí.
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Madan praticamente o recebeu cantando. Estava finalmente inaugurada nossa primeira parceria. Nesse momento eu reaprendi o que já sabia, mas teimava em esquecer: As canções feitas com verdade, saídas do coração, são as mais certeiras. Enquanto quis atingir o cérebro de Madan, falhei. Mas quando entrei em sintonia com seu coração, o que parecia uma rocha intransponível virou papel. A partir daí fizemos outras, frequentei sua casa, ele, a minha. E constatei realmente que, embora passional (ou por isso mesmo), seu coração era (é) dos mais nobres.

Eis agora o exemplo de que falei acima (antes disso - abre parêntesis, lembrei-me de outro exemplo, do qual, aliás, sou gratíssimo: Madan, sem ganho nenhum, intermediou o primeiro show de Kana no Centro Cultural de São Paulo, show este que foi um sucesso e propiciou muitos outros, inclusive o de lançamento do novo CD dela, agora em maio - fecha parêntesis): Foi justamente ele o elemento de agregação de um grupo que por um bom tempo varreu pra longe o pó da mesmice no cenário musical paulistano: o 1 do 1 do 1. Formado por ele mais Élio Camalle mais Kléber Albuquerque mais Luiz Gayotto, o 1 do 1 do 1 nasceu de uma ótima ideia, os quatro cavaleiros de um apocalipse (que não veio) se uniram pra gravar um CD ao vivo na virada do milênio, no estúdio XRBM, um projeto da Dabliú Discos. Uma plateia de fãs e afins foi previamente selecionada pra assistir a esse momento histórico, que seria o primeiro show do milênio. No repertório, só canções dos quatro, ora solo, ora em parceria. Por uma ironia do destino (e de um marketing salvador), o show de lançamento do aguardado CD só ocorreria em 02/02/2002, não por culpa dos rapazes - diga-se de passagem -, que nesse tempo andaram fazendo um (bom) barulho por aí. Juntos, ganharam um espaço na mídia que nunca lhes abrira as portas antes. E sou capaz de jurar que, juntos, abririam outras portas mais. Porém, o que sobrava no meu 4+1, faltava a eles: parceria. E não só no sentido musical. Pra resumir, cada qual pegou o seu "1" e foi cada um pro seu lado. Acompanhando tudo razoavelmente de perto, percebi que Madan era o único que verdadeiramente queria continuar com a trupe. Mas um Madan só não faz serão... Aliás, faz, mais aí serão outros serões.

Por falar nisso, Madan anda mesmo sumido dos palcos. Nestes últimos anos tem se dedicado a terminar seu mais recente trabalho, que traz no repertório nossa O Amor...; mas Madan ataca em várias frentes, seu trabalho anterior, o elogiado Brincando com Palavras, foi confeccionado todo sobre poemas infantis de José Paulo Paes, chegando mesmo a ser finalista na categoria melhor CD infantil do Prêmio Tim 2006. Madan,dos nossos, de longe é o que tem maior número de parceiros conhecidos. Inclusive, duas das canções mais bonitas do repertório de Arnaldo Antunes foram poemas deste musicados por Madan: Dúvida e Deus. Se eu fosse o tribalista ex-titã já teria há muito gravado essas preciosidades. Custava? Todos sairiam ganhando. E Madan bem que é merecedor desses direitos autoraizinhos. Outra oportunidade perdida foi Madan não ter mostrado à produção do filme Batismo de Sangue (inspirado no livro homônimo escrito por frei Betto) sua Frei Tito. Nesse caso, o vacilo foi dele, pois bem que eu o tinha avisado logo no começo das gravações desse filme. Mas Madan não está muito preocupado com essas coisas. Agora mesmo deve estar meditando em cima da geladeira, impávido e sereno, como se estivesse sobre um dos picos do Tibet.
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Ouça algumas raridades de Madan
aqui.
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Leia as letras aqui.
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Madan também está no
Caiubi.
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Por Léo Nogueira
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quinta-feira, 24 de março de 2011

A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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SERTÃO DO SÃO MARCOS - Breganha

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pareceu agora na minha lembrança
um caso do diabo que se assucedeu...
muitos ano atráis
lá nas bera do Ri do Braço

Rosinha ruim dos peito nem ia iscapá,
famia tudo avisado, a mãe, as irmã, as tia
puxava reza, fazia promessa
era uma consumição vê ela daquele jeito
benzedô num dava jeito,
dotô só balangava a cabeça desacorsoado
i’eu no meu canto
me apegava com pai de todos e nada
foi aí que resovi chamá o dêmo
e fazê breganha
vida de Rosinha prá cá
arma pecadora prá lá

foi como se o coisa ruim tivesse esperando,
de repente Rosinha miora,
fica boa que os dotô e benzedô num creditava
vinha de longe prá vê

i’eu no meu canto
isperano o rabudo cobrá o trato
numa tremedeira nem durmino tava
e deu-se um tempo
desalembrei do beiçudo
que num vinha acertá
um dia tano tocano boiada
só animá pejado de brabeza
e muita pricisão de chegá
no relance
apareceu o vermelhão,
o ronca quente, capeta no duro
pele carroquenta e chifrão afiado

- vim te buscá

- agora num vô, tô cheio de sirviço

- trato é trato

- tem que isperá

- vou te levá

- agora num vô, tô ocupado

- ocê tratô tem que pagá

- pagá i’eu pago, mais tem que isperá

dipois de muita discussão o gramulhão intestô
e bufando veio prá riba de mim
i’eu num devorteio
garrei o rabo dele e dei um nó
o bichão saiu pulando,
peidando e cagando fidido
era bosta do dêmo prá tudo que é lado
do Carvueiro até a Meia Légua
ficou uma catinga só
no rasto do beiçudo
pulano cerca

dafeita que o feioso nunca mais vortô
i’eu num temo a morte pur sê coisa certa
mais arma minha na rezança do céu
vai parecê não

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Leia a obra completa:

http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/

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TUNAI - BRASÍLIA

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quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

PERY RIBEIRO - RIO DE JANEIRO

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A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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Queria te levar

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Seriam teus
Meus pensamentos
Fora do torpor
Em que tudo acontecia,

Minhas entranhas
Reviravam-se
Como num parto,
Como se o rebento
Fosse a própria dor

Dentro deles
Queria te levar
Por entre o povo da terra,
Fora de qualquer lei
Que só a loucura
Pode arrumar dentro da gente

Vagar com eles
Pela cor do quase esquecimento,
Por tons de solidão
E traços brutais

Chorar no meio
De uma guerra inteira
Vendo a verdade da minha vida

No pensamento
Queria que vivêssemos juntos
Uma fé dolorida
E momentos só possíveis
Aos incrédulos,

Nosso amor incompleto
E sem recesso, uma melancolia
E a absurda ausência
Da tua presença em mim



MQ
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segunda-feira, 21 de março de 2011

WANDA MONTEIRO - TRILOGIA DO SONHO

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I

DESENCANTO

Cravaram o germe do desencanto no coração de meu sonho
Cortaram sua garganta
Calaram seu canto
Arrancaram suas penas
Apagaram suas cores

Quebraram as asas de meu sonho
Quebraram as asas de meu sonho
Quebraram as asas de meu sonho.



II


FONTE INFECUNDA

Meu sonho envelheceu
Coberto de poeira
Já não sorve vontades
Já não inventa verdades
Já não sopra versos
Já não acende verbos

Meu sonho padece de desencanto
É fonte infecunda
Que seca
Seca
Seca



III


CLAUSTRO

As ausências comeram minha vontade
Comem
Lentamente
Meu presente
Certamente
Comerão o meu futuro
As ausências
Comem meu desejo de desejar
Meu sonho de sonhar

Resta-me o claustro do Passado
A opressão
De suas Quatro Paredes
De suas Quatro Estações
De suas Quatro Grades Cardeais



Wanda Monteiro -http://www.wandabenedictmonteiro.blogspot.com/
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A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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domingo, 20 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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CAMILA CARRARI - Ainda

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Ainda soprará aquelas sementes de dente-de-leão que não fez voar naquela furtiva e delicada manhã;
Ainda tocará sua mão com seu rosto pequeno e a mão então ouvirá as melodias que o rosto guardou em segredo;
Ainda se perderão na desordem de palavras e risos, escutando sinfonias noturnas de animais;
Ainda se esquecerão com os pés dentro d' água; depois a água pela cintura;
Ainda o aguardará no banco erguido à poesia e olor, naquela tarde morna e finda;
Ainda...


Camila Carrari - http://comodasecreta.blogspot.com/
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sexta-feira, 18 de março de 2011

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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Fundação oferece curso introdutório em dança na Bahia

A Fundação Joaquim Nabuco realiza de 29 a 31 de março de 11, em Vitória da Conquista, Bahia, o curso Cultura Contemporânea: uma introdução – Módulo Dança. O curso é gratuito e tem como objetivo atender a demanda por formação em arte e cultura contemporâneas, atingindo um público interessado em entender as relações da cultura contemporânea com a história, a economia, a política e outros universos temáticos. Em 2010, ano de lançamento, os cursos introdutórios foram realizados em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Piauí. A proposta é, em 2011, levar os cursos para o Norte e contemplar mais estados do Nordeste.

Serviço

Informações: (81) 3073-6753 (81) 3073-6753 (81) 3073-6659 (81) 3073-6659

Site: www.fundaj.gov.br/cadif



Canne traz novidades para 2011

O Centro Audiovisual Norte-Nordeste (Canne) oferece em 2011 cinco novos cursos gratuitos nas áreas técnica e de criação audiovisual. Com o objetivo de formar profissionais e estudantes nas regiões Norte e Nordeste, o Centro acrescenta a sua grade os cursos de Roteiro, Direção, Assistência de Direção, Direção de Elenco e Continuidade Cinematográfica. Para mais informações sobre lançamento dos cursos, período de inscrições e como participar das aulas, acesse a página do Canne no site da Fundaj http://www.fundaj.gov.br/canne ou entre em contato com o Canne através do telefone (81) 3073.6718.

Serviço

Local: Centro Audiovisual Norte-Nordeste Fundação Joaquim Nabuco
Endereço: Rua Henrique Dias, 609. Derby, Recife-PE. CEP: 52010-100

Informações: canne@fundaj.gov.br
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A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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MARIELZA TISCATE - Grande amor


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Eu pressinto um grande amor
Em nossas entrelinhas
Abre aspas
O silêncio
Amor sem palavras
Materialidade
Disposto em camadas
De pensamento
Trança e elo
Intraduzível coisa que nos une
Que o olho nunca viu
E as mãos
Também não
Fecha aspas



Marielza Tiscate - .www.marielza-tiscate.blogspot.com
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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 19.03.11

O destaque do 1º bloco vai para a Coleção Choro Carioca e a música de um mineiro e uma cuiabana, ambos nascidos no final do século XIX. O mineiro é R. L. Oliveira. A cuiabana é Zulmira Canavarros, que foi líder do conjunto musical que participou, em 1944, da primeira transmissão radiofônica no Centro-Oeste.


No 2º bloco, o destaque outra vez vai para o LP/CD Pixinguinha, Benedito Lacerda, Jacob do Bandolim, Canhoto e seu Regional – Os Choros dos Chorões, de 1977. O curioso é que a base desses regionais era formada por Dino (violão de sete cordas), Meira (violão), Canhoto (cavaquinho) e Jorginho (pandeiro), ícones da música instrumental brasileira da primeira metade do século XX.


No 3º bloco, teremos a presença do Quarteto de Saxofones de Brasília, formado por Vadin Arsky (sax soprano), Isaac Gomes (sax alto), Fernando Machado (sax tenor) e José Nogueira Jr. (sax barítono) e o som do CD Bem Brasileiro, primeiro da carreira do quarteto, lançado em 1997.


No 4º bloco, o destaque vai para os choros do repertório do CD Duetos - Biscoito Fino, com 14 músicas interpretadas em duo por diversos artistas brasileiros, lançado no ano de 2006.


No 5º bloco, destaque vai para o jovem e talentoso violonista e compositor paulista Rafael Schimidt e o som do seu primeiro disco de carreira, o CD Antigamente era Assim, lançado em 2010.


Ouça pela internet:


Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.


Rádio Roquette Pinto, Rio de Janeiro: www.fm94.rj.gov.br terças e quintas-feiras, 14h; quartas e sextas-feiras, às 2h.


Rádio Uel – Londrina-PR, quintas-feiras, 21h.


Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.

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Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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quinta-feira, 17 de março de 2011

SEBASTIÃO TAPAJÓS E SIMONE ALMEIDA - BELÉM

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VOZES DA AMAZÔNIA - BELÉM

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Ninguém me Conhece: 38) Daniel Gonzaga, um Homem Melhor de Ideia

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A primeira vez que ouvi falar de Daniel Gonzaga foi num especial da Rede Globo em que ele apareceu, tímido, um tanto inseguro, cantando Sangrando, do pai Gonzaguinha. Tímido, sim; inseguro, sim; mas muito parecido com o pai, sobretudo no timbre e na firmeza da voz, que naquele momento parecia não lhe pertencer. Não tive como não me emocionar. De repente, atrás dele desceu um telão e lá estava o velho Luiz Gonzaga Jr. sangrando com o filho, num tardio dueto. Aí foi impossível conter o pranto. Naquela noite eu não imaginava que nossas vidas ainda iam se cruzar.

Voltando no tempo, lembro-me perfeitamente de outro dia em que fui levado às lágrimas. Minha mãe, como de costume, lavava a roupa ouvindo no rádio (era na AM) o programa de Eli Correa. Eli, com seu jeito exagerado, aliás, não muito diferente do de outros apresentadores de AM, de repente começou a contar quase berrando como se dera o acidente que vitimara de modo fatal o cantor Gonzaguinha. Não sei se foi seu jeito de dar a notícia ou se foram os primeiros versos de O Que É O Que É, entoados pelo autor na sequência, mas o fato é que entrei num pranto convulsivo que durou um tempo infindável. Já gostava de Gonzaguinha quando (pra mim) Chico não passava de uma banda e Caetano, de um cara sem lenço e sem documento. Jobim, então, nem existia. Daí o desespero do pranto, que foi dos maiores que já me acometeram, superior ao da morte de Senna, por exemplo.

Cinco anos depois Daniel Gonzaga lançava seu primeiro disco, Sob o Sol. Ouvi em algum lugar a canção Poeira e, por causa dela, só sosseguei quando adquiri o disco. Descobri então um compositor muito diferente daquele tímido e quase doce rapaz do especial da Globo. O compositor de Sob o Sol era árido, intempestivo, indagador. O DNA não lhe passara imune. O rapaz já chegava dizendo a que vinha; em vez de renegar o pai, expunha-o (e a si): "Eu não nasci, fui consequência de uma vida que meu pai não escolheu/ A culpa não é minha, o sonho continua sendo meu/ Amigo, me diz o quê que eu faço aqui"; em vez de esconder seus medos, punha-os na vitrine, com a coragem que só sabem ter os que temem: "Às vezes eu e o meu medo/ Rezamos juntos por conseguir o direito de morrer mais cedo". Na primeira canção de seu primeiro disco já mostrava que por ali vinha chumbo grosso!

Então ele veio a Sampa, e nossa incansável
Daisy Cordeiro - que, sempre atenta aos bons compositores, já o conhecia - terceirizou-o, levando pra cima e pra baixo, apresentando-o a uma série de pessoas, entre elas, Élio Camalle. O encontro de dois compositores de verve não podia passar em branco, obviamente. Daniel, que sempre fora (e continua sendo) um compositor solitário (como fora o pai), mostrou a Camalle uma inacabada canção que foi um prato cheio pra que este a concluísse. Quando Camalle me mostrou Mambembe, o resultado daquele encontro, vi que nascia ali uma pérola de nosso cancioneiro. Infelizmente Daniel nunca a gravou, e Camalle, tomado por uma estética pop que dominou seu segundo CD, Cria, acabou transformando a parceria de tal modo que ficou irreconhecível. Aquela dor pungente e ao mesmo tempo lírica não sobreviveu ao arranjo "conceitual". Não é que tenha ficado ruim. Pra quem nunca ouviu a canção tal qual foi concebida, não estava mal, porém pra mim, que a ouvi "no berço", a versão do disco não me convenceu. Tanto que, no lançamento do Cria, no Sesc Pompeia, pro qual Daniel veio do Rio fazer uma participação, ambos esqueceram o arranjo e se entregaram à emoção original.

Então eu e
Kana fomos ao Rio, onde encontramos Daisy, que também estava por lá, e foi justamente por mãos dela que fomos parar no bairro de Humaitá, mais especificamente no apartamento de Daniel. Deparei-me com um rapaz imperscrutável, de olhos que fitavam um ponto num horizonte invisível enquanto seu dono se esforçava por prestar atenção numa conversa que deveras não lhe interessava. Não chegava a ser antissocial, era até simpático, mas, quando abria a boca, dificilmente conseguia não ser vago. Tentei achar o ponto franco, a parte mais rasa do fosso que me permitisse penetrar em sua fortaleza, mas não obtive êxito. Essa parceria me escapou. Va bene, não podemos ganhar todas... O mais engraçado (ou seria triste?) é que tenho certeza de que ele, mais que não se lembrar de mim, nem sequer deve se lembrar daquele dia. E o pior é que ainda tive comichões ao deparar-me com Noel Rosa - Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, livro que eu procurava havia séculos e que encontrei ali, largado sobre um móvel qualquer num canto de sua sala. Faltou pouco pra eu ter uma recaída e ser acometido pelo vício infantil do furto (na época eram gibis em bancas de jornais). Contive-me, contudo.


Não nos cruzamos mais. Acompanhei sua sossegada trajetória à distância, mas atento. Veio seu segundo CD, menos inspirado, mas igualmente ácido, Os Passos na Passarela, de 1998, em seguida um disco em homenagem ao pai e ao avô, que não me interessou muito, visto que o que dele eu queria ouvir era seu trabalho autoral. Esse disco me pareceu um acerto de contas com seu passado, pra que ele pudesse zerá-lo e, por fim, amadurecido, lançar seu melhor trabalho, Areia, de 2004, este, sim, uma obra-prima! Nele Daniel explora a urbanidade do pai mesclada com a sonoridade nordestina do avô. E consegue, filtrando essas duas referências, construir uma sonoridade sua, verdadeira, original. É um disco repleto de canções de grosso calibre, literalmente, como nos versos da canção Beijo (nada a ver com a homônima de
Kana), "Comprei um revólver pra poder te dar um beijo [...]/ Hoje, meu irmão, é de coração/ Eu quero liberdade pra pisar o pé em cima do chão/ E ser um homem melhor de ideia/ E talvez um homem um pouco mais sereno de coração/ Comprei a arma para ver se sobrevivo e/ desarmo essa armação [...]". A maturidade chegou a um compositor sem rabo preso, sem compromissos alheios à arte que exerce e exercita. Claro que, como não sou crítico, não pretendo que minha opinião seja mais que puro achismo. Ah, seu novo disco, Comportamento Geral, é inteiramente dedicado às canções do pai. Claro que ninguém mais do que ele tem o direito de gravar um disco somente com canções de Gonzaguinha. Da mesma forma, eu tenho o direito de aguardar, pois, o próximo. Até porque, musicalmente falando, prefiro as leituras às releituras.

No percurso de Daniel, cheguei a pensar que ele, como mais um artista filho de artista, cedo ou tarde acabaria se aproximando da turma da Trama. Mas Daniel não é dado a andar em bandos (o que eu já devia ter percebido). Ele, sim, estaria sendo verdadeiro se intitulasse algum trabalho seu de O Bloco do Eu Sozinho. Mas... Quer saber? Acho que sozinho ele está muito bem acompanhado.

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Por Léo Nogueira

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quarta-feira, 16 de março de 2011

SERTÃO DO SÃO MARCOS - Forquia

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No Ritiro da Meia Légua ficava a Invernada do Piquizeiro. Na distança de légua, a Invernada do Ataio, onde fiz casa de morada, cheia dos conforto. Tamém a ponte do Sapé emendo das duas na sede da Forquia, nus alto da Encruziada.
No abri da estrada foi fácil, só o passá de Lopoldo cum o carroção cheio de pedra. Fazê a ponte, essa sim, deu trabaio.
Era casá pedra com pedra, parecença duma cum parecença d’otra, travano essa uma cum aquela. Era ajudá Tio Rumiro, cunhecedô dos fazê barro ligoso prá garanti o sustento das pedra, até o pôr dos tronco lavrado no machado, labuta de Joaquim Pirracento, esse trabaiava subiano e juntano capim mode laçá os barro no dá a liga.
João Dico mais Lopoldo, cum o carro de duas junta, Lambari mais Cafuncho, na canga da frente, em carregação das pedra, ajudô erguê a ponte nos poco dia p’ro São João e na promessa de chamá Zarias prá tocá e matá um boi.
Cunhici Lopoldo, ele durmia embaxo duma sucupira no mei do cerrado, aculhi ele. Quando casô, fui padrim. Num deu sorte, a muié morreu cum menos de ano. Lopoldo tomava bênça todo dia, me tratava de seu Lino. Devotado, agregô na famia.
Durmia no paiol, conformado cum a vida, fazia tudo que a Bibiana pidia. Ela ia sangrá porco, chamava Lopoldo. Ia fazê sabão, pidia Lopoldo prá fazê a dicoada.
Joaquim Pirracento, cunhici no ofício, donde era o maió fazedô de carro de boi. Aquele nosso, ele que feiz. Nasceu no Curvelo, em Minas, i’eu num sabia onde era não, mais achava aquele nome uma buniteza.
Era tinhoso, por isso o apelido Pirracento. Se ele num fosse cum a cara do sujeito num pegava o sirviço. Mesmo orgulhoso, num importava das brincadera de Tio Rumiro falano que a ponte ia ficá cum jeito de carro de boi. Paricia inté que gostava da falação.
Na passada do tempo, a Forquia ia tomano jeito, o gado cada dia mais bunito, muita fartura. Só teve uma seca castigadera que nóis passava o dia intero levantano o gado no pasto. Mais nesse ano mesmo, rompemo na fartura. Até uns cobre que divia, paguei no trato.
O toque da vida era esse um, muito trabaio, mais vida sussegada. A labuta era vergá no sol, fosse na poca roça que tocava, só o do sustento, fosse na lida cum gado.
Nesse tempo, pareceu na Forquia dois homi a mando do banco, fereceno vantage de uns cobre prá omentá o prantado. Bibiana pois armoço. Cumero, ispiculano de um tudo, intardecero nos triero, rumo do Cavaiero.
No dezembro, cumpadre Quirim passô cum boiada, careceu poso e, no proseio em roda do fogo, falô dos homi do banco, perguntô meu intendimento.

- Cumpadre Quirim, num é do meu carecê, quando foi os cobre do seu Waldemo me valeu. Hoje a Forquia tá rumada é só num tê ismazelo. Fazê roça grande, com vantage dos cobre do banco, quero não.

- Pois é cumpadre, i’eu careço de fazê roça, currá novo, dá meiora na casa.

Passado o setembro, ele apareceu cum a famia, nóis feiz uma pamonhada e ele contô que ia fazê o tal impréstimo, se eu prestava garantia de assinatura.

- Cum obrigação, cumpadre. Respondi.

Em combinado, viajamo junto, assinamo os papel e ele pois a mão nos cobre cum satisfação.
No, um ano e mei passado, castigo da seca, cumpadre Quirim cai de cama, doença dos peito, num levantô mais. A viúva, no decorrê do luto, num deu conta da lida e ninguém acudiu. Nem i’eu, num era do meu sabê, o seu carecê.

- Pai, tem dois homi do banco aí.

- Tarde.

- Tarde, apeia.

- É sobre o aval que o senhor deu ao falecido João Quirino, a dívida está vencida e como o inventário demora, o banco resolveu cobrar do avalista. O senhor tem trinta dias para comparecer ao banco.

Nem apiaro.
Saí na vergonha da humilhação p’ra rua, fui batê no banco. Num tinha acordo. Corri na casa de Waldemo, ele tinha imprestado os cobre cum prazo de ano, no corrê das porcentage. Avuliei ali que meu nome já tava sujo. Vortei p’ra Furquia, reuni o gado, contei e fui batê no curtume do Neném Teodoro, que rematô a boiada na bacia das arma, veno a minha pricisão.
No prazo de mêis paguei o banco na conta que eles feiz mode ivitá humilhação e garanti honra no nome.
Na réiva, vortei p’ra Forquia e incontrei os minino tudo duente; Bibiana tinha virado um fiapo, tussino e na febre, num guentô a semana. Naquele agosto interramo, além de Bibiana, meu mais novo, mais Tio Rumiro, João Dico, a mulhé e a fia. Tristeza de vida.
Era os invisivi tarrafiano nóis. Sobrô a terra e o mais véio, sobrô Lopoldo e meu boi Lambari, que quase tive corage de vendê.
Dipois de matutá pricisão, vortei no banco. Agora quiria labutá cum prantio, agora quiria os cobre cum porcentage, igual Quirim. Nos poco ia comprano um gadim e rumava o disfeito.

- O banco não está emprestando dinheiro para plantio, o senhor volta no mês que vem que vamos analisar.

Só vortei mais uma veiz e a prosa foi a mesma.
No carecê fui minguano, até dispô da Forquia, tamém na bacia das arma.
Hoje trabaio, mais meu minino, aqui cum meu patrão, Joaquim Pirracento, fazeno carroção, carroça, portera e ponte.
Lopoldo casou cum a viúva de Quirim, inda antonte passô pur aqui.

- Como vai seu Joaquim? E prá mim.

- Bom dia, Lino. E passano a mão na cabeça do meu minino.

- Tá bom, meu filho?

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Leia a obra completa: http://sertaodosaomarcos.blogspot.com/

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MÁRCIA CORRÊA - Fingimento

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Tenho os pés deslizantes

É viscoso o chão que os desampara
Adiante cresce o abismo infindo
E a morte do amor
nasce e morre no medo

Ainda que abra os braços ao vento
Todo alento que bate é fingimento
Finge o vento que acolhe a alma
Finge a alma que recolhe o vento


Márcia Corrêa - http://novopapeldeseda.blogspot.com/
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ROLANDO BOLDRIN - SR BRASIL

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terça-feira, 15 de março de 2011

A LIBERDADE DA BELEZA - MQ

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CRISTINA FARAON - Férias na Lua

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Sem tempo, sem noite, sem dia
Num tipo de fundo de mar

Prateada, mole e fria
Vou subir e me espraiar
Dar um tempo umas semanas
Pois estou cheia e redonda
Só volto quando lua nova
Ou quando o quarto minguar
Não me espere que não volto
Não precisa me aguardar
Estou numa dessas fases
Que não sei. Vou só pensar

Becejo... tenho tanto sono!

O sono de um quartel inteiro
Nesses dias impossíveis
De cruz-credo e atoleiro

Se eu sair e não me vires,
Se eu sumir estarei lá
Bem sumida e bem guardada
Olhando pra tudo e pra nada

Não me chames que não volto
Voltarei quando souber
Explicar o sem-sentido
Dos meus versos de mulher


Cristina Faraon - http://cadeaminhavida.blogspot.com/
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DANIELA SPIELMANN - RIO DE JANEIRO

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segunda-feira, 14 de março de 2011

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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ESSA MULHER
(Joyce/Ana Terra)

De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa tira o pó lava a roupa seca os olhos
Ah! como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres pelos filhos pelo pão
Depois sorri meio sem graça e abraça
Aquele homem aquele mundo que a faz assim feliz
De tardezinha essa menina se namora
Se enfeita se decora sabe tudo não faz mal
Ah! como essa coisa é tão bonita
Ser cantora ser artista isso tudo é muito bom
E chora tanto de prazer e agonia
De algum dia qualquer dia entender de ser feliz
De madrugada essa mulher faz tanto estrago
Tira a roupa faz a cama vira a mesa seca o bar
Ah! como essa louca se esquece
Quantos homens enlouquece nessa boca nesse chão
Então parece que acha graça e agradece
Ao destino aquilo tudo que a faz tão infeliz
Essa menina essa mulher essa senhora
Em quem esbarro a toda hora
Num espelho casual
É feita de sombra e tanta luz
De tanta lama e tanta cruz
Que acha tudo natural
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Então, foi assim...

A tão propalada jornada dupla que algumas mulheres se submetem todos os dias, desdobrando-se entre o trabalho profissional e o doméstico, acabou virando uma bela peça musical na junção da letra de Ana Terra1 e da música de Joyce2.

A letrista, escritora e produtora Ana Terra conta que escreveu a letra numa noite em que estava super cansada. “Eu tinha passado o dia cuidando da casa e das crianças, sentia falta do Danilo (Caymmi), meu marido na época. Ele estava há vários dias longe, em excursão pelo Nordeste com o Bituca (Milton Nascimento), quando fazia parte da banda como flautista. Devia estar me sentindo como inúmeras mulheres que têm que dar conta de muitas atividades. Depois que as crianças dormiram, tomei banho e me olhei casualmente no espelho do banheiro. Meu rosto parecia cansado e gasto, dei um sorriso e me vi muito jovem. Minhas expressões se alternavam e tive a exata sensação de que eu era três mulheres.”3

O mais interessante é que essa sensação de ser múltipla a remetia à Bahia mística, a uma revelação que lhe foi feita em um terreiro de candomblé. “Quando estive no Gantois, levada por Stella e Dorival [Caymmi], Mãe Menininha jogando búzios me disse que eu tenho três Orixás de frente e todas mulheres: Oxum, Iemanjá e Nanã. Acho que naquele momento em
que escrevi a letra senti a presença desses três arquétipos femininos.”

Mas, voltemos ao momento do parto. Ana deitou-se no sofá com lápis e papel e começou a escrever:

“Essa menina, essa mulher, essa senhora

Em quem esbarro a toda hora num espelho casual,

É feita de sombra e tanta luz,

De tanta lama e tanta cruz,

Que acha tudo natural...”

Exatamente os versos da parte final da letra, que depois foi burilada e recebeu um início e um meio.

“Quando Danilo voltou de viagem mostrei para ele. Até então ele era meu único parceiro”, afirma. “Ele começou a musicar, mas pela primeira vez achei que a música dele não tinha a ver com a minha letra. Tentei explicar isso com delicadeza dizendo que talvez só uma outra mulher conseguisse perceber o que eu estava sentindo”. Danilo compreendeu e superou.

Como nada acontece por acaso, no dia seguinte a cantora e compositora Joyce passou na casa deles para tratar de um assunto com Danilo e Ana teve a intuição de que seria ela. “Timidamente mostrei a letra. Joyce a levou e no dia seguinte me ligou dizendo que a música estava pronta.”

Ficou tão bonita que Joyce não perdeu tempo em mostrá-la para a cantora Elis Regina, que se preparava para lançar mais um LP. Elis gostou tanto da música que a escolheu como título do disco (Essa Mulher, de 1979). “A gravação da música foi num clima de muita emoção. A Elis entendeu tudo”, comenta Ana emocionada. Joyce, por sua vez, a gravou no LP Feminina, lançado em 1980.

Essa Mulher foi apenas o início da parceria de Ana Terra com Joyce, que nos presenteariam ainda com Da Cor Brasileira, Banho-maria, Dançarina do Ar, Golpe de Amor, Guardados, Lado do Avesso, Luz do Chão e Mais Uma Vez, Mais Uma Voz.

1 Ana Maria Terra Borba Caymmi 20/5/1950 Rio de Janeiro-RJ.
2 Joyce Silveira Moreno 31/01/1948 Rio de Janeiro-RJ.
3 Entrevista concedida ao autor, em março de 2006, por e-mail.
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Ruy Godinho
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JAC. RIZZO

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Tenho andado longe, distante. Perdida no meio de florestas tropicais, ouvindo o ruído das chuvas, conversando com o nada ou escutando o barulho dos grandes silêncios.
O estrondoso barulho do nada!

Tudo que eu ainda não conheço bem, escandalosamente se debruça em meu caminho. Os beirais das minhas varandas vivem encharcados de lembranças antigas e estranhas.

E eu vivo assim, distraída e doce, sob a luz do meu novo e último amor


Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/
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domingo, 13 de março de 2011

JOAQUIM CARDOZO - OBRA COMPLETA - FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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FORTES ACORDES DA POESIA - MACAPÁ

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ANA TERRA - Como se constroi a submissão


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Celulares, roupas, corpos e almas. Consuma e descarte. Vivências e memórias de uma poeta e letrista da MPB. O panfleto distribuído nas mesas de bar mostra a imagem de uma mulher de shortinho e peitos quase de fora anunciando a noite do samba. A revista feminina ensina práticas sexuais para prender seu homem na cama. O professor sexagenário dá em cima da aluna de 20 anos que podia ser sua neta. O jornal da TV mostra o homem negro algemado. Os filmes encenam a violência em seus pormenores. A novela mostra homens velhos e/ou feios com mulheres novas e/ou bonitas. E assim a vida vai sendo levada com suas imagens construídas como realidade.

A questão é que as imagens vão construindo o imaginário do público consumidor e viram realidade. Mulher que vai ao samba é puta. Mulher precisa ter PHD em Kama Sutra para conquistar um homem. Velhos precisam de mocinhas para se sentirem machos, mocinhas precisam de velhos para se sentirem poderosas. Negro é naturalmente bandido mesmo sendo um professor de Harvard que perdeu a chave de casa e precisou arrombá-la. A violência é natural. O homem pode ser velho, feio e barrigudo que sempre terá à disposição uma linda e jovem mulher.

Conquistada a duras penas, como qualquer liberdade, a sexual feminina deve-se não só à revolução de idéias da década de ‘60, mas também ao progresso da ciência com a popularização da pílula anticoncepcional. Quando o medo de uma gravidez indesejada desaparece, o simples prazer aparece. Quando mais recentemente a reposição hormonal permite que não haja fisicamente a interrupção do desejo sexual feminino na tão temida menopausa, muitas mulheres escolhem continuar ativas sexualmente porque isso é mais um prazer da vida que deve permanecer. Assim como homens impotentes pelo envelhecimento podem lançar mão de hormônios masculinos.

A ciência darwinista ensina que a função da natureza é se reproduzir. Os animais humanos não fogem a essa regra, precisam povoar o mundo garantindo a reprodução da espécie. Por isso o macho é ativo e polígamo por natureza, enquanto a fêmea é passiva e monogâmica por natureza. Mas quando o planeta já não necessita mais de aumentar a população, e os novos costumes demonstram que homens e mulheres são polígamos ou monogâmicos por decisão pessoal, e não mais por instinto, como ficam essas afirmações científicas?

Quando uma experiência das neurociências em pesquisa de casais com mais de 20 anos de relacionamento, descobre que um percentual mantém o mesmo desejo, um pelo outro, dos primeiros tempos, outra “verdade” cai por terra: que a paixão tem prazo de validade.

A ciência é uma grande conquista da inteligência humana, mas não é exata. A cada nova descoberta a anterior é descartada. Mas como qualquer conhecimento, é apropriado pelos poderes hegemônicos do seu tempo. E hoje, a sociedade do consumo e os poderes políticos, de braços dados, utilizam as informações, divulgando-as ou escondendo-as, para adestrar e manter nosso desejo permanentemente insaciável. A submissão ao sistema dominante se constroi e reconstroi permanentemente.

Padrões minoritários são adotados como absolutos. “Pague em 36 meses sua cirurgia plástica.” E surge um bando de loucas a se deixar cortar para atender ao homem consumidor do seu corpo, que o descarta como qualquer mercadoria em troca da mais nova. “Emagreça! Ser gordo é feio.” E sai outro bando de desesperados sustentar a indústria do emagrecimento ou ainda pior, permitindo a mutilação do estômago para rejeitar alimentos e serem amáveis. Homens e mulheres são prisioneiros das verdades do momento.

Consuma e descarte, consuma e descarte. Celulares, roupas, corpos e almas. Seduza, seduza, seduza. Não importa o custo emocional das pessoas descartadas. Principalmente se elas não utilizam a ética apenas em alguns compartimentos da vida. Mas também nos seus múltiplos, porém nunca descartáveis amáveis amores.


Ana Terra
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sábado, 12 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

JOANA DUAH E BAIÃO DE 5 - RIO DE JANEIRO

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Marias

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Maria da graça
Maria das dores
Castiga os lugares
Vazios de amor
Maria sem graça
Maria sem dor
Desfaça os desertos
Maria do amor
Maria do mundo
Maria no fundo
De claras suplicas
Onde mora a flor
Maria da noite
Maria que nega
O tinto das farsas
Com tanto ardor
Maria que espera
Maria que expõe
Meandros da guerra
No templo das mãos
Maria que peca
Maria que luta
Maria do povo
Maria do perdão
No meu coração


MQ
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