domingo, 31 de outubro de 2010

Tavinho Paes - Grandes obras

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no país da democracia

uma enorme obra tornou-se
absolutamente necessária
para que a hipocrisia
junto com a inveja e a bobagem
tomassem posse do estado
e mal fizessem às pessoas do bem Todo Mundo
grão-mestre daquela nação
convocou Alguém para executar
a inadiável tarefa
Alguém

embolsou 40 % da verba
e ofereceu o restante para que
Qualquer Um
tocasse a obra à sua maneira Qualquer Um
cobrou 30% de comissão
e dividiu o que sobrou com
Alguém
que ofereceu-se para suar a camisa
e tocar a obra até o fim no fim: deu tudo errado
e Todo Mundo culpou Alguém
porque Ninguém fez
o que Qualquer Um
poderia ter feito
mas não fez ... mesmo assim
Ninguém foi preso
pelo grande fracasso


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Devaneio


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Desfiguro meus medos
Sem nenhuma leveza
Transfiguro minha coragem
Com complacência

Venho de lugares
Que nem conheço
De um tempo
Que sempre é o mesmo

Derivo de procuras
Intuições e impertinências
Descendo de lembranças
Solitariamente entalhadas

Escolhi na apostasia
Mostrar clareza
E aprender o mundo
Sem nenhum temor

A emoção sem trava
Que vaza dos meus sentidos
É cura esbagoada
Das minhas mãos

Dentro do meu corpo
Levo a morte
E o espaço indiviso
E ermo da solidão

Por isso preciso em todos os dias
Esquecer a beleza me subjugando
Desmanchando o devaneio
Que sempre quis no coração



MQ

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BRASIL

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sábado, 30 de outubro de 2010

Ninguém me Conhece: 20) O Caiubista Zé Rodrix


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Quando Zé Rodrix aprontou a última das suas e, à francesa, retirou-se do cenário, eu, estupefato, após derramar fartas lágrimas, passei a acompanhar, autômato, os noticiários na TV a seu respeito. E o que vi? Uma cobertura preguiçosa e repetitiva que carecia de profissionalismo e, assim, desrespeitava o falecido. Pensei com meus botões que a imprensa escrita, mais investigativa, trataria do assunto com mais riqueza de detalhes. Enganei-me rotundamente. A impressão que dava era que o Zé havia morrido na década de 80 e só agora descobriam seus restos mortais. Não havia um só profissional que encontrasse uma informação satisfatória a respeito do que ele havia feito nesses mais de 20 anos! Minha tristeza foi se transformando em ira e nojo. Então esses almofadinhas, formados pelas melhores faculdades do país, não tinham absolutamente nada a acrescentar ao público além do fato de haver ele morrido disso à tal hora do dia tal no hospital xis, que o velório aconteceria na loja maçônica ípsilon e o enterro, no cemitério zê? Daí pronto, acabou-se, passemos ao futebol...


Quem é que nunca ouviu falar de Zé Rodrix? Na década de 70 o Brasil inteiro cantou com ele as aventuras de desventuras de ser latino-americano e nunca se enganar. Meio mundo foi morar dentro da baleia com Mestre Jonas enquanto a outra metade do mundo sonhava em ter uma Casa no Campo. E ele, com seu cabelo a la Globetrotters, suas calças boca-de-sino cor-de-rosa, suas reluzentes camisas sempre com os botões superiores abertos, seus óculos escuros que não escondiam o olhar de galhofa, seu bigodão aparado num barbeiro mexicano, sua postura de latin lover e sua lábia corrosiva, do alto de seu metro e cinquenta e pouco, parecia se divertir tanto quanto divertia, sabedor de que o mundo não passa de uma grande piada.


Mas esse Zé Rodrix, dos festivais da década de 60, que foi do Som Imaginário, formou trio com Sá & Guarabyra, fez um milhão de shows e apareceu em todos os programas de televisão existentes, esse Zé Rodrix todo mundo conhece. Eu queria falar do outro, do lado B, do cara que parou de compor quando Elis morreu, que dedicou-se aos jingles (e também com eles fez o Brasil todo cantar), que tirou onda com o Joelho de Porco, que aprontou mil e uma e que, finalmente, abstêmio, maduro, cozinheiro e pai de família, foi parar, a convite de uns bichos-grilos modernos, numa casinha carente de reforma porém charmosa localizada em Perdizes, próximo à PUC, mais precisamente na rua Caiubi, 420. Esse Zé Rodrix ninguém conhece e já passou da hora de alguém falar dele, pra que a justiça seja feita não só a ele quanto aos bichos-grilos supracitados, que naquela casinha fundaram o Clube Caiubi de Compositores.


Zé Rodrix sempre esteve à frente de seu tempo. Pensador, intelectual, poliglota, multi-instrumentista, antes que alguém sonhasse com a Internet, trocou o Rodrigues pelo Rodrix e tornou-se único. Mas esse mesmo Zé Rodrix andava um tanto cabisbaixo, descontente com os rumos da canção e sobretudo com aqueles que se deram o direito de pilotar esse planetinha que gira ao redor do próprio rabo em busca de um ensolarado osso. Nessa época ele recebeu um convite pra ser homenageado pelos tais rapazes e passar um par de horas ouvindo umas cançõezinhas despretensiosas. Educado, aceitou o convite, rezando pra que aquelas duas horas passassem depressa. Passaram. Mas seu efeito perdurou, e Zé, já em casa, não conseguia tirar da cabeça aquelas duas dúzias de canções que ouvira. Não acreditava que ainda existiam quixotescos compositores que, quais discípulos de Baco, celebravam o encontro pelo prazer do encontro.


Mas podia ser que os rapazes tivessem se esmerado pra surpreendê-lo. Era preciso tirar a prova dos nove. Sem que ninguém esperasse, voltou lá outra noite. E não é que a mágica se repetiu? Tanto que ele voltou pela terceira, pela quarta, pela décima vez! Quando pensou que não, estava viciado. Estando livre, não passava uma segunda-feira sem ir ao tal Clube. E mais: aquela sucessão de belas canções havia feito o compositor despertar de um longo período de hibernação. O que Elis levara com sua morte, o Caiubi devolvera-lhe: o desejo ardente de compor! E ele se entregou ao velho/novo vício como um adolescente deslumbrado. Ali ele era mais um, sem pose, sem máscara. E vieram as parcerias. Zé sentia-se revigorado compondo com rapazes que tinham até metade de sua idade.


E veio a preocupação: ele tinha que fazer algo por esses jovens. E fez. Usou de sua experiência e sua sabedoria e tornou-se o guru deles. Dirigiu-os mesmo rumo ao profissionalismo. Começaram então os grandes shows. O Caiubi deixava de ser um grupinho de amigos pra se transformar num verdadeiro movimento de grandes proporções. Sob a tutela do mestre, compositores que nunca haviam feito nem um show sequer gravavam belos discos, afiavam o discurso, enfim, preparavam-se pro que desse e viesse. E o que desse e viesse estava por vir. O Clube marcou presença no Festival da Cultura, aglutinou compositores em grupos, e surgiram os Tropeçalistas, o 4+1, a Trinca Caiubi, chegou o Rossa Nova, todos na labuta, produzindo, acompanhados de perto pelo olhar carinhoso e firme do generoso Zé, que lhes abria mesmo sua casa, que em pouco tempo virava o QG da caiubagem.


Quando caiu em si, Zé Rodrix estava num processo de criação com o qual não se deparava havia muito. Os dias eram cada vez mais curtos. Ele escrevia livros, dava palestras, fazia shows, compunha, comandava o Caiubi, chegara mesmo a retomar a parceria com Sá & Guarabyra... Era preciso dividir a responsabilidade. Sedutor, usou de toda sua lábia e acabou por convencer o antigo companheiro de estrada, Tavito, a mudar-se do Rio pra São Paulo e acompanhá-lo na nova empreitada. E não é que o moço veio? E não é que, da mesma forma que o Rodrix, também o ele se encantou com o Clube? Retomaram a parceria e caíram de novo na estrada. Seu novo show em dupla era impagável, repleto de sucessos antigos, canções novas, histórias, havia mesmo um bloco em que se divertiam cantando jingles que todos sabiam de cor mas não imaginavam que eram deles.


Então Zé Rodrix achou que já era hora de ele gravar seu primeiro DVD. Selecionou umas poucas antigas canções, muitas novas canções, entre as quais boa parte havia sido composta com os parceiros caiubistas, e reuniu-as num show. Duas noites de gravação. Banda bem ensaiada, participações especiais, o Zé estava que era um luxo só, e radiante, carismático, 100% Rodrix. Mas justamente por ser 100% quem era, exigente sagitariano, ao se deparar com o resultado final, achou que não estava bom o suficiente pra ser eternizado em um DVD. Ainda não seria dessa vez. Adiou o projeto enquanto se lançava de cabeça num novo trabalho, o primeiro disco de inéditas do trio Sá, Rodrix & Guarabyra em anos. E com produção de Tavito. O DVD não saiu, mas o disco do trio, sim. Só que o Zé não o viu. O CD foi batizado dom o nome de Amanhã. E parece que foi ontem que ele se foi...


Tanta coisa! Tantos projetos! Tantas realizações! Mas naquele 22 de maio e nos dias subsequentes a TV não exibiu. Tampouco os jornais foram atrás do furo. Pra eles bastava dizer que Zé Rodrix, o compositor de Casa no Campo, havia morrido disso à tal hora do dia tal no hospital xis, que o velório aconteceria na loja maçônica ípsilon e o enterro seria no cemitério zê. E agora voltamos ao vivo com o Big Brother...


Dediquei-lhe um soneto, chamado G.A.R.G.A.L.H.A.D.A. (ele gostava de escrever a palavra "gargalhada" assim, como se fosse uma sigla, quando comentava algo espirituosamente, nas muitas listas das quais participou) e mandei-o pro Sonekka, o cara certo pra musicá-lo. E que o musicou. Ficou assim: Já que ele se esqueceu de despertar/ E só restou seu corpo, inerte e frio,/ Não chore, sem o dono, ele será/ Não mais que um mero terreno baldio./ Sua alma deve estar noutro lugar/ Liberta da carcaça que a cobriu/ Mil anos-luz do sistema solar/ Cantando um rock’n’roll made in Brazil./ Com sua gargalhada a ecoar/ Pois morto é quem é vivo e nunca viu/ Que além dessa baleia existe o mar./ Na sua moto alada, além de lá,/ Com Jesus na garupa, a mais de mil,/ Foi pr’onde os anjos não ousam pisar.*


***


Ouça algumas das parcerias caiubistas de Zé Rodrix aqui:
http://clubecaiubi.ning.com/profile/OXdoPoema


Leia as letras aqui:
http://clubecaiubi.ning.com/profiles/blogs/ze-rodrix

A página de Zé Rodrix permanece no Caiubi:
http://clubecaiubi.ning.com/profile/ZeRodrix

* Ouça G.A.R.G.A.L.H.A.D.A. aqui:
http://clubecaiubi.ning.com/profile/LeoNogueira(é a 13ª canção).


Por Léo Nogueira -
http://www.oxdopoema.blogspot.com/
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Tua janela


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Rente um silêncio
De janela fechada
O quintal da casa
Recolhe no chão
O viço do jambeiro
Que taciturno dança
Passos de flores
Chorando saudade
Na mais perfumada
Das horas da noite
De uma paixão

Rente um silêncio
De janela fechada
O quintal da casa
Recolhe no chão
Um confuso luar
Cheirando a solidão
Que a lua minguando
Põe pela noite
Separando em pedaços
O mais doloridoDe uma canção



MQ
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RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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Pedro Rocha - A Noite

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Hoje está fazendo
uma saudade linda
e um floco de verso
pulou de mim quando deitei

lá no fundo
ainda
restou raso
um gole de beijo

gosto do gosto

lembrando na boca

onde você não está

as palavras te acham

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Corpo ausente


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Pulcritude posta em partes
Nos retalhos da lembrança
Vivendo nas mãos endorecidas
Pela ausência pulsando
Na pele que veste os gestos

O silêncio engole as formas
Põe récita no pensamento
E liberta os versos do corpo
Reinventando insinuações
Alma no movimento e inquietação
Rimando com o olhar
O abstrato da presença

Imaginando sem pudor
Pedaço a pedaço
Espalhado no espaço
O corpo ausente refletido
Nos olhos cegos do amor


MQ

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DOSE CERTA - SÃO PAULO

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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 30.10.10

No 1º bloco o destaque vai para a Coleção Choro Carioca – Música do Brasil. Os compositores enfocados serão J. Claudino e Moreira de Assis, ambos ilustres desconhecidos, nascidos no final do século XIX.

No 2º bloco enfocaremos o violonista e compositor João Pernambuco, nascido em Jatobá/PE, no ano de 1883 e o som do LP histórico João Pernambuco 100 Anos, por Antônio Adolfo e Nó em Pingo D’Água, lançado pela FUNARTE, em 1983.

No 3º e 4º blocos teremos um momento de pura delicadeza, de raríssima emoção e que deve ser reverenciado como uma oração. Trata-se do CD Mulheres em Pixinguinha, que reúne Neti Szpilman (canto), Daniela Spielmann (saxes e flauta) e Sheila Zagury (piano), lançado em 1999, pela CPC Umes.

No 5º bloco, a tônica será a presença do competente Grupo Choro Rasgado e o som do CD Baba de Calango, primeiro disco do grupo, lançado em 2005, pelo selo Maritaca.


Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.

Rádio UEL FM, de Londrina, quintas-feiras, 21h.

Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.


Produção e Apresentação: Ruy Godinho


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MARIELZA TISCATE - Defasada

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Sempre mando alguém embora
Depois que já não quer mais ficar
E quando falo: tudo bem, volte
Já levaram tudo e não há porque voltar

Estou sempre defasada
E de portas abertas
Desarmada
Quando lembro do perigo
É tarde
Não há mais o que roubar

Mesmo a indignação
Que me toma nestas horas
Parece um grande desacerto
Sem razão de ser

A questão é que
Não me pertenço
E se é assim
Não tenho o que perder.

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Marielza Tiscate - http://maritiscate.blogspot.com/
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O mais verdadeiro


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O amor
Ajusta a ilusão
Na medida
Parecendo um grande esplendor

Espera promessas
Exibe novas quimeras
Para se sustentar

O amor
Na forma que escolheste
Não muda o sentimento
Que me escolheu

O impossível é o mais verdadeiro
E o possível se desdobra
Num feitio de dor
Quando desvenda o idealizado
Do outro em cada um



MQ

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Mario Quintana


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Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros...
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena!!"

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

ASSINE O MANIFESTO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

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MQ

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Para assinar o Manifesto em Defesa da Democracia
Clique em :
http://manifestoemdefesadademocracia.wordpress.com/


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BRASIL

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PEDRINHO CAVALLÉRO E KAREN TAVARES - BELÉM

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RONALDO FRANCO

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A mulher sensual não se explica.
Compreende-se nas suas curvas
e nos dedos dos pés...
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RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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MARACANGALHA
(Dorival Caymmi)

Eu vou pra Maracangalha eu vou,
Eu vou de uniforme branco eu vou,
Eu vou de chapéu de palha eu vou,
Eu vou convidar Anália eu vou.
Se Anália não quiser ir eu vou só
Eu vou só, eu vou só,
Se Anália não quiser ir eu vou só,
Eu vou só, eu vou só,
Sem Anália mas eu vou...



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Então, foi assim...


O escritor Rubem Braga dizia que na Bahia existem três ritmos: o lento, o muito lento e o Dorival Caymmi1 – um tempo devagar quase parando, quase meditativo, sem ansiedade. O mais ranzinza de todos os velhinhos cariocas, também conhecido como O Urso, Rubem Braga admirava a calma e a serenidade folclórica do amigo baiano que compunha a partir de inspirações repentinas, mas que ia lapidando devagar, burilando artesanalmente.

Se Dorival não ostenta quantidade – cerca de 100 composições apenas – em contrapartida exibe qualidade. Só compôs obras-primas, esculpidas com a paciência de um velho mestre.

Mas, pelo menos uma obra fugiu à regra e fluiu rapidinho, letra e música, embora o mote tenha nascido muitos anos antes: Maracangalha.

A canção tem uma história divertida. Zezinho, amigo de infância de Caymmi, quem o inspirou. Aliás, foi com Zezinho, ainda adolescente, que ele começou a tocar sambinhas inspirados na espontaneidade do povo baiano e nas festas de rua.

Zezinho, com o pretexto de sair de casa para se encontrar com uma amante em outra cidade, dizia para a mulher dele: “Eu vou pra Maracangalha”2, onde supostamente fazia negócios. Caymmi ficou apaixonado pela sonoridade da frase.

Uma tarde, em 1955, segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello3, Caymmi estava em casa, na Rua Cesário Mota Júnior, em São Paulo, pintando um auto-retrato, quando de repente, veio-lhe à lembrança a frase de Zezinho. Caymmi começou a cantarolar, música e letra nascendo ao mesmo tempo:

“Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de liforme (uniforme) branco, eu vou

Eu vou de chapéu de palha, eu vou...”

Quando Caymmi chegou à parte que diz ‘Eu vou convidar Anália’, uma vizinha, Dona Cenira, apareceu na janela e perguntou para D. Stela, esposa dele:

“- Dona Stela, o que é que seu Dorival está cantando aí, tão bonitinho?”

“- Caymmi, Dona Cenira quer saber o que é que você está cantando?” – transmitiu D. Stela.

“- Estou fazendo uma música que fala de um sujeito, que sai de casa feliz para se divertir. Ele vai para Maracangalha, vai convidar Anália...” – respondeu Caymmi.

“- E por que o senhor não põe Cenira no lugar de Anália?” – sugeriu a vizinha inconveniente.

“- Fica pra outra vez Dona Cenira...” – disse Caymmi se desculpando.

“Aí não dava mais pé”, completa o compositor, fechando as portas para a intromissão da vizinha em sua obra. Assim nasceu Maracangalha, sem maiores pretensões, de uma só vez. Nasceu e ficou engavetada até o ano seguinte, quando o compositor voltou para o Rio de Janeiro e a gravou na Odeon, em 1957, no LP Eu Vou Pra Maracangalha, com grande sucesso, que se estendeu ao carnaval.

Um fato curioso da carreira de Caymmi é que, na década de 1960, em função de uma crise de hipertensão, ele e a esposa Stela ficaram internados em uma clínica de repouso na Baixada Fluminense, que tinha o nome de Maracangalha, em homenagem à música. É que a vida de artista impôs a ele um grande desgaste. O excesso de trabalho noturno, associado a uma vida boêmia regada a altas doses de álcool, cigarro e uma alimentação desregrada, resultaram em hipertensão e estresse.

Maracangalha foi regravada dezenas de vezes. Destacam-se os registros de Tom Jobim, CD Antônio Brasileiro (1994); Leandro Braga, CD Pé na Cozinha (1998); Cláudio Nucci, CD Ao Mestre com Carinho (2004) e a regravação em família no CD Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo – Ao Vivo (2004).


1 30/4/1914 Salvador-BA.
2 Um lugarejo na Bahia também conhecido como Cinco Rios, onde funcionava uma usina de açúcar homônima, fechada
em 1987.
3 A Canção no Tempo: 1958-1985, v. 2.


Ruy Godinho

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SELMA PARREIRA - GOIÂNIA

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Ninguém me Conhece: 19) A Marca Registrada de Clarisse Grova

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Foi na Sala Funarte, aqui em Sampa. Fui, a convite de Daisy Cordeiro, ver um show de Rafael Alterio e Cristina Saraiva. O convidado de Rafael era o excelente pianista André Mehmari, já Cristina, letrista não-cantora, convidara pra interpretar suas canções uma moça vinda, como ela, do Rio. Uma tal de Clarisse Grova. Tudo ia bem até que essa mulher resolveu abrir a boca. Rapaz, fui acometido por uma série de sensações, todas hiperbólicas. Foi amor à primeira vista. Da plateia, remexia-me no assento, ofegava, enfim, não conseguia crer no que presenciava, arrepiado do couro cabeludo à unha encravada, sonhando em ter um dia aquela voz a serviço de minhas palavras. E pensei: como vivi até hoje sem saber que existe uma cantora assim no Brasil?

Findo o show, tive a inusual cara de pau de ir até o camarim, e não foi preciso nem gaguejar, seu olhar encontrou o meu, e ouso dizer que "pintou um clima", rolou uma química, eu era o zangão-poeta pronto pra morrer (viver) de amor e música, e ela, a abelha-rainha do clã das notas afi(n)adas. De repente, soltou: "Mas você também é do ramo, não?". Quando respondi que era letrista, ela me apertou a mão e pediu: "Manda pra mim uma letra. Vamos ser parceiros". Então me disse que, após muitos anos como apenas intérprete, sentira necessidade de usar sua voz a serviço também das próprias canções, então estudara violão e começara a compor. Trocamos e-mails, ela voltou pro Rio, e eu, pro Jabaquara. Já em casa, na mesma noite, enviei-lhe uma letra. O tempo passou e nada de resposta. Nessas horas acabamos caindo na velha armadilha do preconceito. Disse pra mim mesmo: "Tinha que ser carioca! Só tem garganta!". Aproximadamente um mês depois do show, abri meu e-mail e lá estava uma mensagem dela na qual pedia desculpas pela demora e mandava em anexo a gravação de minha letra por ela musicada. Lindamente! Lembro que Adolar estava em casa e também ouviu, admirado, em primeira-mão, o nascimento dessa vitoriosa parceria.

De lá pra cá foram cerca de 40 canções! E vejam que, quando uma coisa funciona, está acima das distâncias. Encontrei-me pessoalmente com Clarisse pouquíssimas vezes na vida. No entanto, quem ouve pensa que compomos lado a lado, tal a sintonia a que chegamos. Uma canção nossa, em especial, obteve elogios rasgados de Zé Rodrix. Outro Zé, o Edu Camargo, ao ouvi-la, não se conteve e me confessou: "Cara, essa mulher canta com o útero!". A canção em questão chama-se Roma. Há uma longa história a respeito de sua feitura. Um dia conto. O que gostaria de relatar agora é que a ouvi ao vivo pela primeira vez certa ocasião, interpretada pela própria Clarisse, no Rio, numa casa chamada Panorama, então uma espécie de Caiubi carioca. Aliás, ouvimos, Kana estava comigo e foi testemunha de que o que se passou comigo ali, naquela casa, naquela noite, foi algo muito próximo do êxtase. Meu ego de compositor raras vezes se sentiu tão massageado. Vi a plateia (sobretudo a feminina) cantando com ela, a plenos pulmões "Eu desejava ter um Nero/ E que pra ele eu fosse Roma". Nessa mesma noite conheci Marianna Leporace, que aniversariava, e mais muita gente boa da M-Música. E, pra torná-la perfeita, Clarisse me apresentou a Tavito, que me deu o primeiro de seus muitos largos abraços e, ao pé do ouvido, disse-me: "Léo Nogueira, sou seu fã!". Ainda bem que o homem era forte e o abraço, idem, pois por uma fração de segundo senti que o chão me escapulia dos pés. Como diria Rondon, "é felicidade demais"!

A voz de Clarisse me inspirou a escrever muitas letras, como poderei dizer?, buarqueanas. Ou seja, com o eu-lírico feminino. O já citado Zé Edu, ao ouvir Hiroshima, uma de minhas parcerias com La Grova que mais têm agradado, escreveu um e-mail na tribuna do Caiubi que guardo carinhosamente até hoje (e que me pode servir de prova contra ele) no qual deu o segunte depoimento, um tanto exagerado pelo calor do momento: "Cheguei a uma conclusão: Hiroshima, de Léo Nogueira e Clarisse Grova, é a melhor música já feita desde a criação do universo".

Com minha mania de agregar, acabei apresentando Clarisse a muitos belos parceiros, como
Lúcia Santos, Adolar Marin, Lis Rodrigues, Marcio Policastro e Élio Camalle. Com este, compusemos Coragem, canção que dá título a seu primeiro disco inteiramente autoral, em fase de finalização. Fase BEM BAIANA de finalização, acrescento. Com toda a calma do mundo. Termina aí, Clarisse, pô!

Mas Clarisse é muito mais. Tem uma longa carreira, sua voz já esteve a serviço da nata da música brasileira, tanto nos palcos como em discos. Além disso, gravou seu primeiro disco (um LP!) pela EMI-Odeon com arranjos de um tal de César Camargo Mariano, que ninguém conhece, e chegou mesmo a gravar um CD com canções dos novatos Cristóvão Bastos e Aldir Blanc a convite deles, CD este que ganhou elogios de meio mundo. Com o compositor Felipe Radicetti gravou um CD em dupla chamado SuperLisa, lançado até no Japão por nosso amigo Vasco Debritto. Ruy Castro, por exemplo, inexperiente jornalista e pesquisador musical que escreveu só uma meia dúzia de livros sobre música brasileira, arrematou: "Uma das últimas cantoras puras do Brasil".

Tenho que confessar que, se tivesse tido tempo ou curiosidade pra pesquisar a seu respeito antes de dar o primeiro passo em sua direção naquela noite, as pernas teriam pesado mais e cada passo a frente teria sido acompanhado de dois atrás num um-pra-lá-dois-pra-cá capenga, fosse eu um bêbado com chapéu-coco como o daquela canção. Graças a Deus, minha ignorância me salvou. E sua simpatia. Uma artista com esse curriculum vitae… tornar-se parceira fiel (quase) de um cara da plateia não é todo dia que acontece. Nem em todo show. Quando penso naquela noite e em sua postura, fico pensando em como no meio artístico atual sobram Marias e faltam Clarisses... no solo do Brasil, meu Brasil.


***

Ouça algumas das marcas registradas de Clarisse aqui.

Leia as letras aqui.Clarisse também está no Caiubi.


Por Léo Nogueira - http://www.oxdopoema.blogspot.com/

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ZARABATANA JAZZ - BELÉM

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Encontro


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Eu era forte todo dia
E sozinho pela noite
Só fazia falta
O amor ingente
No que tudo havia
Por certo esperar
Decerto nem sabia
Que vinha pelo ar
E era melodia
Palavras pra soar
Feições que a procura
Esquecia de pensar
Tinha um rumo
Cravado no olhar
Mas era sem jeito
Saber desvendar
Ao longo dos anos
Encontrei a feição
De tudo que já era
E tinha no coração



MQ

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JAC. RIZZO - O amor quando rima

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Um dia
a gente acorda

e o amor foi embora

O gostar
que não morava
do lado de fora
se desmancha
evapora

Ainda bem
que o amor cansa
também
Ainda bem?
Não tão bem

O gostar
precisa sempre
de alimento
senão
vai buscar
outro condimento


Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/

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domingo, 24 de outubro de 2010

VINÍCIUS DE MORAES

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Orfeu da Conceição : tragédia carioca. Moraes, Vinicius de, 1913-1980


Autor: Moraes, Vinicius de, 1913-1980
Colaborador: Scliar, Carlos, 1920-2001, (il.)
Local de Publicação: Rio de Janeiro : Imprensa Nacional
Ano de Publicação: 1956


Descrição: Exemplar possui assinaturas de Vinicius de Moraes e Carlos Scliar


Resumo: Com ilustrações de Carlos Scliar, esta é a primeira edição em livro, no ano de 1956, da peça Orfeu da Conceição. Escrita em três atos e com o subtítulo "tragédia carioca", a peça atualiza o mito grego de Orfeu e Eurídice, ambientado-o no contexto contemporâneo de uma favela de morro, com protagonistas negros e de origem popular, em pleno carnaval. O texto, premiado no Concurso de Teatro do IV Centenário de São Paulo, foi encenado pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em setembro de 1956, com direção de Leo Jusi, cenografia de Oscar Niemayer e música de Antônio Carlos Jobim, entre outros colaboradores.


Direitos: Livro reproduzido com autorização da VM Empreendimentos Artísticos e Culturais


http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/01189800


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WANDA MONTEIRO - MetaFisicaMente

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Todas as noites
Ela saía de dentro de si pra viajar
Voar na companhia de peixes alados
Nadar na companhia de colibris
Reverberar dentro de pedras
Um dia
Ela não voltou
Voltar como?
Se o presente lhe era inacessível
Voltar pra onde?
Se o real lhe era impossível
Restava-lhe seguir
Viajando
Meta
Física
Mente
Na Mente
Que mente


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Intuição

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Faz assim
Esquece o fato
E meu palpite abstrato
No balcão do botequim
Meu argumento
Tem palavras retorcidas
É que sou de bem com a vida
Pra você eu não invento
Pois afinal
Essa nossa intimidade
Nunca esperou saudade
Nem deixou o seu sinal
Qual astúcia
É premissa do legado
Que eu quero pôr de lado
Sem mostrar incoerência
Meu instinto
Dá muita sabedoria
Não preciso valentia
Calo só quando consinto
Se vai embora
Deixa o pressentimento
Inspiração não tem momento
No ardil que me devora
Assim eu vou
Apontoado e fecundo
Foi assim que vim ao mundo
Onde ela me achou
E vem comigo
Essa tal intuição
Que se esconde da razão
Sem fazer o que eu digo



MQ
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BENTO GONÇALVES - RS

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sábado, 23 de outubro de 2010

segurança

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“nada é seguro a não ser o instante”

MQ



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RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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GERALDO VANDRÉ

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Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve – Canção Terceira


Se é pra dizer-te adeus
pra não te ver jamais
Eu – que dos filhos teus
fui te querer demais
no verso que hoje chora
para me fazer capaz
da dor que me devora
quero dizer-te mais
que além de adeus
agora eu te prometo
em paz
levar comigo
afora o amor demais

Amado meu sempre será
quem me guardou
no seu cantar
quem me levou
além do céu
além dos seus
e além do mais
amado meu
que além de mim se dá
não se perdeu
nem se perderá


.;

Toinho Alves

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"Aprendo ainda que a esperança não tem medo de ilusões. Costumamos chamar as crenças alheias de superstições e às nossas superstições damos o nome de crença. Nossa ideologia é ciência, a ciência dos outros é ideologia. Nossos crimes são apenas erros, os erros dos outros são crimes. Nossas árvores só dão frutos doces, as dos vizinhos dão frutos amargos. Mas vem a tempestade e joga todas no chão, por igual, e as sementes por toda parte. Vejo, assim, que a condição para manter minha esperança é respeitar e esperança dos outros, mesmo quando me pareçam ilusões. É o tempo quem diz o que há de vingar."

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

João Guimarães Rosa

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“a gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar”




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João Cabral de Melo Neto

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A Carlos Drummond de Andrade


Não há guarda-chuva

contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro
paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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. RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 23.10.10

O RODA DE CHORO do próximo sábado mais uma vez será especial. Isso porque, durante todo o programa, enfocaremos as múltiplas facetas da vida e obra da mulher e artista considerada a mais importante e mais significativa nascida no Brasil: Chiquinha Gonzaga.


E para revelar com propriedade fatos históricos sobre esta excepcional compositora, ativista política e pianista brasileira, a gente convidou Wandrei Braga, pianista, pesquisador e especialista no assunto.


Para ilustrar a parte musical, Wandrei selecionou 9 composições em diversos gêneros, de diversas fases da vida da personagem, que vão desde uma marcha-fúnebre, até o Oh! Abre Alas carnavalesco.


Ouça pela internet:



Rádio Câmara, Brasília: www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.


Rádio Utopia FM, Planaltina-DF, quartas-feiras, 18h.



Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SUELI ADUAN - Balas

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Bala de goma
Goma de masgar
Goma colorida
Doce da vida
Goma de chupar
Coma goma
Coma

Em coma
Bala de atirar
Bala de perfurar
Amargo da vida
Bala de matar
Em coma



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Paulo Leminski - Amor bastante

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quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

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WANDA MONTEIRO


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ONDE FOI PARAR A MEMÓRIA DESSA NAÇÃO?


Imaginem um tempo no Brasil e que a Palavra ficou de quatro. Isso mesmo, no fatídico ano de 1964, a palavra, sob o julgo de metralhadoras e sob o comando de fardas de muitas estrelas, ficou de quatro. Nesse tempo, a Palavra foi cassada e decretaram o SILÊNCIO, e apenas, aqueles que já nasceram de quatro tinham o poder e o comando sob a palavra, só eles, os Censores, decidiam e determinavam o que podia ser dito, escrito e publicado. Imaginaram?


Imaginem um tempo, em que os brasileiros, reunidos numa grande abstração chamada Povo, se constituía numa grande massa humana, silenciada, subjulgada, acuada, e que caminhava, sob o efeito letárgico de propagandas subliminares e hinos carregados de pseudo ufanismo. Imaginem uma grande massa humana, caminhando sem respostas, sem rumo e sem esperança. Imaginaram ?


Imaginem um tempo nessa nossa amada Nação, em que a Nação deixou de ser Nação e passou a ser apenas uma abstração estatal comandada por um obscuro “Sistema”, um nome pomposo usado para vestir outro nome feio chamado Ditadura. Imaginaram?

Imaginem um pais, um estado, uma cidade, um bairro, vigiado e monitorado por homens fardados e que sob o comando do tal “Sistema” tomavam de assalto a cidadania de brasileiros, abordando, invadindo lares, prendendo, julgando e condenando, de forma sumária, milhares de brasileiros, sem lhes dar o direito de defesa e ferindo todos os preceitos constitucionais de uma Nação Democrática. Imaginaram?

Imaginem um tempo nesse nosso Brasil, em que eleições diretas e gerais, direitos sociais, conselhos municipais e estaduais de direitos, participação popular e protagonismo social, manifestações populares e políticas públicas dirigidas ao ideal de justiça social eram palavras proibidas. Imaginem um tempo em que todas essas idéias e todos esses ideais eram sumariamente abortados à força pelo tal “Sistema” e mais, que essas palavras eram proibidas de serem proferidas e publicadas, e que aqueles que se insurgissem contra a “Ordem“ e tivesse a ousadia de dizê-las, publicamente, eram, de pronto, inquiridos e recolhidos em cárceres até segunda “ordem”. Imaginaram?

Imaginem um tempo nesse nosso Brasil de muitos Brasis, em que milhares de brasileiros sobreviviam, sem voz e na mais absoluta ignorância de seus direitos, numa linha crescente e desumana de pobreza e de exclusão social. Um tempo, em que aparelhos e eletrodomésticos, carros, educação, e sobretudo, informação, eram coisas de luxo e se constituíam em privilégio apenas da chamada classe alta oriunda das oligarquias detentoras absolutas das benesses do poder que patrocinavam. Imaginaram?

Nos dá uma certa angustia só de imaginar, não é? Agora, imaginem o que sente, quem de fato viveu esse tempo, e ainda tem, viva e pulsante, essa memória de dor em sua vida?


Pois, eu vivi esse tempo. Milhares de pessoas, assim como eu, viveram.

Eu não esqueço de cada momento de angustia, incerteza e medo acontecendo com meu país, minha cidade, meu bairro, meu lar. Não esqueço de cada instante em que vi, ao lado de minha mãe e meus irmãos, a minha casa ser invadida e nossa paz ser tomada de assalto por homens, com fardas da infantaria de selva que seguindo ao tal “Comando” depredavam nosso lar a procura de supostas provas de “ subversão” que pudessem incriminar o dono daquele lar, esposo e pai daquela família. Não esqueço de cada instante, desse melancólico e silencioso interlúdio de 10 anos de Estado de Exceção. Tempo, em que em nome de uma hipotética, equivocada, distorcida e fraudulenta “ paz e ordem democrática” foram cometidas as mais inomináveis atrocidades contra cidadãos brasileiros. Não esqueço!

Não esqueço também da sofreguidão e da luta de milhares de brasileiros que atuaram e que lutaram pelo processo de redemocratização de nosso Brasil. De como foi difícil chegar até aqui.

Mas, hoje, diante do que vejo e presencio nas ruas, nos lares, nos bares, nas praças, e sobretudo, quando me deparo com as mais variadas manifestações de grupos que ainda representam essas oligarquias, confesso que me assola uma certa angústia e preocupação.
Sinto uma profunda tristeza e desencanto quando testemunho cenas que ferem a ética e o bom senso democrático. Sinto angústia quando testemunho, pelos meios de mídia, as manifestações, as palavras de pouca ou nada honradez e os ataques covardes e inconseqüentes de candidatos que postulam governar essa Nação. Fico mais preocupada ainda, quando dogmas e “verdades” morais e religiosas servem de instrumentos de manipulação política, proselitismo a favor da fisiologia do Poder.


Sem essa de os fins justificam os meios! Entristece-me ver profissionais da comunicação prestando-se a esse mal serviço à sociedade.

Esta Nação, nunca foi xenófoba, fundamentalista e beligerante no trato de suas questões morais e religiosas, então, é bom tomar cuidado com o que é publicado, postado e veiculado nos meios de mídia e nas redes sociais, esse é um caminho equivocado e perigoso. Muito perigoso.

Confesso que sinto um certo nojo quando vejo as propagandas eleitorais e me deparo com campanhas manipuladoras, e imediatistas, vazias de conteúdo primário e supostamente didático que cometem o acinte de tratar o eleitor como burro, teleguiado e sem capacidade alguma de discernimento. Isso me dá ojeriza.

Não pertenço a nenhum partido político, não tenho religião. Sou poeta, escritora e minha natureza libertária e libertadora não me permite participar de corrente e grupos políticos, religiosos e até mesmo, literários. A única Ordem a que pertenço é a Ordem dos Advogados do Brasil, por força de minha militância como advogada. Mas, nem por isso, deixo de exercer o meu direito constitucional de me manifestar política e ideologicamente. E exercendo esse direito e o tendo como dever, manifesto-me sempre, diante de fatos e eventos que possam colocar em risco, mesmo que remotamente, a Democracia e a Liberdade e que possam comprometer todos os avanços, até hoje conquistados em favor de um ideal de Paz e Justiça Social.

Como mãe de três filhos e cidadã desta nação chamada Brasil, eu quero e preciso manter dentro de mim a esperança por um Brasil melhor para todos os brasileiros. Preciso crer e continuar lutando pelos Ideais de Liberdade, de Justiça e Paz Social. Esta foi a melhor herança que recebi de meu pai Benedicto Monteiro, um homem público que foi cassado, caçado, preso, torturado e quase morto por esses ideais.

Eu preciso acreditar, no bom senso desses milhares de brasileiros e sobretudo, na sua consciência democrática de não se deixar levar por manobras e campanhas manipuladoras.
Espero, que de fato, esses milhares de milhares de brasileiros guardem dentro de si a memória histórica dessa nação e que possam, com lucidez, decidir um futuro melhor para o Brasil.


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Wanda Monteiro -
www.caleidoscopiodpalavras.blogspot.com

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QUINTAS CULTURAIS - BRASÍLIA

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

SÉRGIO SOUTO - BELÉM

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CLARA DAWN


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Jaz em mim um espirito inquietante, em ebulição... ora sereno, ora tormento, ora paz, ora guerra, ora ânsia, ora paciência.

Há em mim um espirito, vezes dissoluto, vezes santo, vezes profano, vezes maluco, vezes criança,vezes maduro, vezes oscilante, vezes seguro, vezes intolerante.

Mora em mim um espirito sem jeito... um espirito que sempre quer, um espirito que se deixa querer, um espirito que vai. Um espirito a mercê... a mercê de algo, a mercê do desconhecido. A procura... procurando ser encontrado.

Meu espirito se pudesse fugiria para o lado oposto de mim, então habitaria no meu espirito um corpo, um corpo carente, uma alma quieta e uma mente normal.


Clara Dawn - http://claradawnescritora.blogspot.com/

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RUY GODINHO – ENTÃO, FOI ASSIM?

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TERNURA ANTIGA
(J. Ribamar/Dolores Duran)

Ai, a rua escura, o vento frio
Esta saudade, este vazio
Esta vontade de chorar
Ai, tua distância tão amiga
Esta ternura tão antiga
E o desencanto de esperar
Sim, eu não te amo porque quero
Ai, se eu pudesse esqueceria
Vivo e vivo só porque te espero
Ai, esta amargura, esta agonia
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Então, foi assim...


Em outubro de 1959, a Música Popular Brasileira perdeu uma de suas mais importantes compositoras. O coração frágil de Dolores Duran1 parou de bater, aos 29 anos, no auge da carreira, vítima de uma lesão congênita. Na noite anterior fez show no Clube da Aeronáutica e depois foi jantar com Marisa Gata Mansa, Ted Moreno e mais alguns amigos. Ao chegar a seu apartamento, por volta das sete da manhã, avisou a empregada: “Não me acorde. Quero dormir até morrer”.

A noite seguinte seria triste nas boates de Copacabana. As rodas da boêmia perderam parte da alegria e do bom humor, um paradoxo à imagem de melancolia e solidão que Dolores passava ao seu público por intermédio de canções como A Noite do Meu Bem, Fim de Caso, Por Causa de Você, esta última da parceria com Tom Jobim.

Nove anos antes, ela conheceu aquele que seria um dos raros e mais constantes parceiros de composição: o pianista Ribamar2. Ele era músico amador, tentando vaga na poderosa Rádio Nacional e ela iniciava a carreira no Programa César de Alencar. Ficaram amigos e quase todas as noites se encontravam na casa noturna Cantina, onde ela cantava e ele a acompanhava ao piano. Um dia ela mostrou-lhe uns versos. Ribamar pediu que os deixasse alguns dias com ele. Assim nasceram Quem Sou eu? , Pela Rua, Se Eu Tiver e Idéias Erradas. Porém, a mais importante composição da dupla estaria por vir e em condições inusitadas.

Alguns dias após a morte da cantora, Ribamar precisou de uma música para inscrever no Festival As Dez Mais Lindas Canções de Amor, promovido pela TV Rio. Foi à casa de Dolores e pegou umas letras inéditas com Marisa Gata Mansa, amiga inseparável de Duran. Dentre essas, estava Ternura Antiga e Quem Foi? . Um Ribamar cheio de emoção debruçou-se principalmente sobre Ternura Antiga e traduziu para a música que nascia toda a beleza triste e melancólica que Dolores transmitia em suas composições. Conquistou o segundo lugar no Festival, com a interpretação da cantora iniciante Lucienne Franco.

Embora tenha experimentado o sucesso como cantora, sobretudo nas rodas da boêmia carioca da década de 1950, foi depois do desencarne que a fama de Dolores Duran como compositora cresceu. Entre seus principais intérpretes estão ícones do quilate de Tito Madi e Roberto Carlos (Ternura Antiga), Milton Nascimento (A Noite do Meu Bem), Gal Costa (Estrada do Sol), Maysa (Por Causa de Você) – também gravada por Frank Sinatra com o título Don’t Ever Go Away – e Nana Caymmi, que lançou o CD A Noite do Meu Bem – As Canções de Dolores Duran, em 1994.

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1 Adiléia Silva da Rocha 07/6/1930 Rio de Janeiro-RJ 24/10/1959 Rio de Janeiro-RJ.

2 José Ribamar Pereira da Silva 09/12/1919 Rio de Janeiro-RJ 06/9/1987 Rio de Janeiro-RJ.



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Ruy Godinho
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SÉRGIO BASTOS

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

MÚSICA INSTRUMENTAL OU ERUDITA BRASILEIRAS

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Música instrumental ou erudita brasileiras

Edital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para a temporada 2011 do Projeto Quintas no BNDES, serão escolhidos 39 espetáculos musicais

Inscrições no portal www.bndes.gov.br e no protocolo do BNDES (Av. Chile, 100, no Centro do Rio)

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O LAÇO E O ABRAÇO - Mário Quintana

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Meu Deus! Como é engraçado!

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.

É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah! Então, é assim o amor, a amizade.
Tudo que é sentimento, como um pedaço de fita, enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,deixando livre as duas bandas do laço.

Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!


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JAC. RIZZO - Desordem de mim

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No labirinto
me perco
o sal do tempo
me encontra
me dispersa me dissipa
me dissolve

De certeza
só o vento
dando nó
em meus cabelos
da maresia
cortando
roendo a alma
por dentro

Tudo é vago e distante
tudo é caminho de volta
tudo é antes


Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/

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guardança


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de pura guardança e apego
fica para quem continuar na lida
estas cantigas choradas que embalaram
minha labuta, meu cotidiano
a saudade engolindo tempo
as lembranças encurtando vida
de pura lembrança e apego
fica para quem continuar na lida
estas cantigas choradas
com todos os companheiros
os de labuta, os de sereno
o meu amor
parentes tantos
pais, filhos e irmãos que valem mais que ouro
e os parceiros de cantação, de fervor
e os de sonhos

por fim e só por apego
me enterrem no sertão do são marcos
em cova rasa
com a mesma saudade que sinto
por todos em vida
por apego...



MQ
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domingo, 17 de outubro de 2010

canto de bom entôo


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para joão guimarães rosa


no rumo que o vento venta
em canto de bom entôo
o dia nascendo claro
nas patas, um quase vôo

cavalo aponta as ventas
cascos caminho cravo
roca, rangendo tempo
cascos caminho cravo

distância afia a pressa
anseio que abençôo
de longe vou rompendo
na saudade que remôo

sustendo o afogueio
no destino que dôo
roca, rangendo tempo
cascos caminho cravo

estalo de tira fraca
rompe léguas, desacorçôo

tramela abrindo a porta
em volta faz bom ressôo

amor, sina tirana
em canto de bom entôo
roca, rangendo tempo
cascos caminho cravo


MQ

,

SUELI ADUAN - Da Rua

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Noite

Da rua o
som sem metal

São Paulo, Nova York, Santiago

Noite no mundo

No coração do mundo

No homem



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sábado, 16 de outubro de 2010

ANA TERRA


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Traição
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Nelson Rodrigues dizia que traição é trair o amante com o marido. Uma saudosa e querida ex-sogra dizia que se existisse pílula anticoncepcional na época dela com certeza seu marido seria corno. Muitas mulheres acham perfeitamente normal manter relação extraconjugal apenas por interesse sexual e jamais pensam em desfazer o casamento. Há mulheres fiéis por escolha. Há relacionamentos de todos os jeitos e maneiras e o que se conta à boca pequena nas famosas fofocas femininas é muito diferente do que se publica a respeito das diferenças entre homens e mulheres.


É muito recente a “libertação da mulher” para que se construam teses a respeito, mas o que observo é que há tantas diferenças entre homens e mulheres quantas há entre indivíduos. Há mulheres que separam amor de sexo e homens que não.

Há homens super maternais, fiéis e casamenteiros. Há mulheres que jamais seriam mães se a cobrança social as deixasse em paz para apenas trabalhar e ganhar dinheiro. E por que não? Sexo sem culpa foi uma das grandes conquistas da minha geração, e isso só aconteceu porque podemos evitar tanto a gravidez indesejada quanto o marido indesejado. Casei quatro vezes e todos os casamentos foram totalmente diferentes um do outro. Os maridos também. As separações foram decididas por mim, deixando para trás muitos privilégios como riqueza e conforto social. E recomeçando do zero. Não me arrependo.

Ouço muitas opiniões a respeito de traição. Há os que pensam que escapadas e aventuras apenas sexuais, sem envolvimento afetivo, não são traição, mas um divertimento como outro qualquer. Outros acham que traição é se envolver emocionalmente mesmo que não haja sexo. Eu, que provavelmente sou uma idiota holística e anticartesiana jamais soube como corpo e alma se separam. Amar alguém e não sentir tesão e ter tesão sem amar? Juro que não sei e nem quero saber.

Deslealdade para mim é o que se mente quando os olhos não veem, mas o coração pressente. Ou desqualificar o que os olhos veem e o coração sente. Ou demonstrar interesse por outro ou outra na presença do par. Ou ser negligente com a “esposa”, abrindo naturalmente a porta para os consoladores de “viúvas” citando Nelson outra vez. E esses existem aos montes, inclusive derrubando o mito masculino: “mulher de amigo meu pra mim é homem.” É nada. Só é mais perto.

O que acho é que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Trair quem nos trai não é traição, é isonomia. E pra não dizer que não falei de flores, amar é a melhor coisa que foi inventada. Melhor ainda quando pode virar letra de música.


Por Ana Terra

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na gafieira


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rés ao chão, no compasso
mesmo tempo, risco e laço
na ginga jogada no salão
presumindo presa fácil
no meio da multidão

a morena requebrando
sente o visgo, fogo arde
num olhar encandeado, armadilha
que o moreno jogou

cada passo ressoando
na cadência do desejo
fez no outro um acorde

é inveja que lampeja
no aço da navalha
seu brilho de desolação

quando o ciúme acha a rima
no sangue que ficou no chão



MQ
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

RUY GODINHO - ENTÃO, FOI ASSIM?

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pausa


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Para Marco Antonio Quinan

do eito
onde capino o dia,
confiro meu verso,
pari o poeta

MQ


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SÉRGIO BASTOS

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RAFAEL E PEDRO ALTÉRIO - SP

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Ninguém me Conhece: 18) A Febre de Fernando Cavallieri

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Quando tinha por volta de 13 anos, num jogo de futebol de salão, dei um drible que fez fulano perder o rumo de casa (é, já dei minhas cacetadas), e este, pra se sentir vingado em sua honra, confundindo futebol com boxe, numa pancada certeira, fez-me beijar a lona (que não havia). A brincadeira custou-me uma fratura no braço esquerdo, duas semanas de gesso (durante os quais a régua foi minha espada vingadora contra a implacável coceira) mais sessões de fisioterapia.
Desta experiência, trouxe uma peculiaridade que, contra a minha vontade, fez-me aprender a reparar nas diferenças: acostumei-me a usar o relógio no pulso direito, gostei, e mantenho o hábito até hoje. Porém, no âmbito da sociedade, a diferença, por vezes, chega a parecer aberração, pois o cidadão é educado pra ser igual e, instituído do direito à igualdade, acha que o certo é que todos pensem/ajam como ele. Eu mesmo, durante o período escolar, fazia de tudo pra esconder minha origem cearense (cheguei a, inconscientemente, forçar a perda, ou melhor, troca do sotaque) e meu fanatismo por Roberto Carlos (primeiro ídolo), tudo no intuito de ser popular, ser igual, ser mais um, fazer parte da “tchurma”. Crescido, longe das salas de aulas, aprendi a defender minhas características, peculiaridades, esquisitices, enfim, tudo o que até hoje forma o que sou, ainda que em construção. Este preâmbulo um tanto improvisado foi apenas o meio que achei pra apresentar Fernando Cavallieri.

Sim, Fernando Cavallieri, ou simplesmente o Cava (pros íntimos). Um cara que aprendeu a tocar violão com este de cabeça pra baixo, sem, contudo, inverter-lhe também as cordas. Vou explicar melhor: como há mais gente no mundo destra que canhota, tudo é feito pensando nessas pessoas. Com o violão não é diferente. Um professor destro, seguindo uma partitura pra destros, dá aulas a um aluno destro. Quando calha de o aluno ser canhoto, este inverte as cordas, de maneira a parecer que, quando está diante de um professor, olha prum espelho. Cava até chegou a ter aulas dessa forma, mas preferiu obedecer a sua naturalidade e, em vez de inverter as cordas de seu violão, inverteu a posição de seus dedos, criando acordes que, embora pareçam esdrúxulos, possuem a sonoridade necessária pra que sua harmonia flua naturalmente.

Mas não sou músico, repito o que me ensinaram apenas. Vamos, pois, ao Cava: Conheci-o praticamente na mesma época em que comecei minha parceria com
Adolar, todos nós outros pertencentes então à RSMB de Madan (ver texto sobre Adolar). Contudo, apesar de eu e Cava termos desenvolvido fortes laços de amizade, com este a parceria não decolou, ficando sempre ao rés do chão. As letras que eu mandava pra Adolar (e as melodias que este me incumbia de letrar) transformavam-se rapidamente em canções, ao passo que com Cava o mesmo processo resultava lento e infrutífero. Não porque lhe faltasse capacidade, pelo contrário, quando uma letra lhe toca a alma, extrai dela uma belíssima canção, como no caso de Febril, letra de Zé Edu Camargo pela qual Cava se apaixonou a ponto de musicá-la em minutos, aos prantos. Não, definitivamente o problema não era a falta de talento. Quando muito, seria de química, talvez. Quem sabe as letras que eu lhe enviava não eram pra ser musicadas por ele. Muitas delas viraram bonitas canções nas mãos de compositores outros, como foi o caso de Hiroshima, parceria minha com Clarisse Grova (contei essa história aqui).
O fato é que o fracasso da parceria fez nascer em mim sentimentos nada apreciáveis, como inveja, mágoa e rancor, sentimentos estes que se intensificaram quando Cava me presenteou seu terceiro CD, o excelente Inefável. Dentro do encarte, ele, carinhosamente, fez uma montagem com as fotos dos parceiros e músicos que participaram do disco. Confesso que não ver minha foto ali entre tantos rostos conhecidos foi uma experiência traumática. E ainda mais por ter resultado num CD excepcional, o qual eu, meio que de forma masoquista, ouvia e reouvia à exaustão.

Há coisas que não se podem explicar com palavras, tão inefáveis como o disco de Cava. Nossa parceria faz parte desse conjunto de coisas. Freud explica, Shell responde (by
Vlado). Em contrapartida, nossa amizade já nos regalou momentos de celebração da mais pura cepa. Entre tantos momentos, destaco um aniversário de Cava que comemoramos dentro de seu carro, em pleno estacionamento do Pão de Açúcar, eu, ele e Camalle (ou teria sido no carro deste?). Tomamos vinho, comemos, no lugar de bolo, salgadinhos, proseamos, emocionamo-nos... Memorável noite. Estávamos próximos à minha antiga residência, porém, dado o avançado da hora, pra não atrapalharmos o sono da beleza de Kana, optamos por permanecer ali mesmo. Quando a companhia é boa e está presente a arte do encontro (by Vinicius), as coisas ao nosso redor sofrem uma transformação que as melhora.

Se, no entanto, minha parceria com Cava não evoluiu, tive ao menos a felicidade de intermediar uma belíssima parceria dele com
Camalle. Deu-se assim: na época, Camalle morava em minha casa. Chegou certa noite encantado com uma letra que Cava lhe enviara. Mostrou-ma. Era, com efeito, muito inspirada. Na manhã do dia seguinte, confessou-me: “Léo, desgostei da letra”. Passadas algumas horas da impressão primeira, encontrara nela algo que o incomodou, mas não sabia exatamente o quê. Tomei-lhe a letra das mãos, li-a duas ou três vezes e cheguei à conclusão de que o verso derradeiro era supérfluo, redundante mesmo, na letra. Dei-lhe a ideia de que ele experimentasse lê-la sem ele. A mágica se deu. No mesmo dia nascia O Olho do Furacão, das mais belas do repertório de ambos.

Cava é um artista completo. Baita músico; grande cantor (inclusive, é muito bom também quando escolhe cantar canções alheias. Até o apelidei de Elisregino); versátil na composição, seja fazendo música e letra sozinho, seja letrando melodias alheias ou mesmo musicando letras dos mais diversos letristas (excetuando as deste escriba. Mas estou sendo maldoso. O que falta à nossa parceria em quantidade sobra em qualidade. O problema é que, se é do humano querer sempre mais, com o compositor então...). No mais, Cava é um branco de olhos claros que ataca muito bem no samba. Aquele filtrado pela bossa, claro.

Eu teria muito mais a escrever a respeito do moço, mas seria abusar da boa vontade de vocês. Por ora, basta acrescentar que Cava é dos primeiros que romperam de vez com a indústria, chegando mesmo a se autopiratear em vez de se submeter às condições “salgadas” de prensagem. Lembrando que, quantos mais discos são prensados, mais barata fica a unidade. Ou seja, proporcionalmente falando, prensar cem mil cópias é muito mais barato que prensar mil, este número bem mais próximo à nossa realidade. Cava prensa 50, 30, 20, de acordo com a demanda. Além disso, é autor de versos como “Você deu samba e muito mais./ Vai procurar os seus direitos autorais”, “Eu falo braille ao seu ouvido cego”, e, entre tantos outros, estes mortais: “Eu rezo pelo dia em que o Bem se levante/ e mande o Mal à lona num letal nocaute/ Como o Mal, se exima de ser elegante/ que vire o tabuleiro e lhe dê xeque-mate”. Touché!

Quem avisa amigo é: o texto acaba aqui. Peço aos lúcidos que vão lá embaixo clicar no link (que frase feia!) e ouvir as canções do moço. Aos desvairados, deixo como bônus texto que escrevi em 14/04/2006, quando do lançamento do Inefável:

INEFÁVEL

O que dizer sobre o Inefável? O que dizer, se é inefável? Tudo bem, vou falar sobre ele falando sobre mim. Eu cresci. Sim, senhor. E do alto do meu metro e pouco de homem feito, asseado e barbeado, pude observar lá embaixo, “no chão sob os meus pés”, aquele menino nu que fui, comendo terra com as mãos pra alimentar seu ego, ego este que tinha mais a ver com uma solitária do que com o ego em si. E enquanto esse menino mastigava a terra, esfregava os olhos, criando barro por meio do contato das mãos imundas com as lágrimas do rosto. Menino mau, mau menino! Ora segurava com a mão esquerda (destro que é) o encarte daquele CD.
Olhava hipnotizado as mandalas e jogava mais terra goela abaixo, remelento e com o nariz a escorrer lava. Gania e chorava e pedia peito de mãe, indignado por o CD ser tão bom. Se fosse uma droga, ao menos a solitária roncaria menos, devoraria menos vísceras, de dentro de seu buraco negro. Mas não, o CD tinha que sair assim tão bom? A sensibilidade tinha que falar assim tão alto aos ouvidos de uma criança? Esse cantante tinha que soltar sua voz “febril” cada vez melhor, atirando cada palavra na cara dos ouvintes como se fosse a última a sair de sua boca? Não, ele não tinha esse direito. Não fez “sua boa ação do dia”, “inesgotável, insuportável, insustentável, inconsolável”… O menino, “numa água de dar dó”, sonhava ser “homem”, enquanto misturava “capim” à terra que ingeria. Enquanto ouvia “sempre te direi que vai dar”, simplesmente não dava! “Mirando um céu de estrelas” coloridas, enxergou a sua, apagada, que não estava mais lá. O menino, tão jovem, não sabia que podia gerar dentro de suas entranhas tamanho sentimento incontrolável de inveja criativa. Ouvia aquele puto e sua trupe estelar estalar suas bem resolvidas notas em seus tímpanos sujos sem cotonete de mãe. Não, não era um “cisco no olho”, era uma “tarde nebulosa” que teimava em não passar. Ele, menino “sórdido”, mau menino, regando seu tumor pra se “vivificar”. Quem disse que era “a hora errada”? Por que só pra ele era a hora errada, enquanto pra todos os outros era a hora certa? Via aquele trem ir embora e sumir no horizonte deixando-o ali, só, nu, com sua solitária a lhe causar câimbras. Ele, menino bem alimentado e que acreditava em “Papai Noel”. “Qual nada”! Aquele menino se expunha ali por inteiro, na frente de todos e de ninguém, com sua solitária etíope (ou seria nordestina?) maior que ele, em seu parco tamanho, não cabendo em si e arrotando arrogância… Viu, menino? Isso é pra você aprender que existe um universo girando além do seu umbigo e enquanto você fica aí “se achando” vai se perdendo. Você, cigarra que não canta. Qual cigarra qual nada! Você não passa de uma formiga preguiçosa. Cigarra são aquelas que lá se vão, naquele trem, que labutam enquanto cantam. Enxugue as lágrimas, menino! E, já que você comeu terra e da terra fez barro, volte ao barro de onde veio e cresça e apareça! Esse bichinho dentro de você é apenas uma lombriga, mas se você estiver atento aos sons inefáveis e aos seus tons geniais ao seu redor, quem sabe um dia esse pequeno monstrinho possa ainda se transformar numa linda borboleta…
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Ouça algumas das febris canções do Cava aqui.
Leia as letras aqui.Cava também está no Caiubi
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