sexta-feira, 30 de abril de 2010

João Curto - SERTÃO DO REINO

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João Curto



Horas esquecidas aquelas. Parecia madrugada. Silêncio e silêncio. Nenhum remeiro. Nenhum carpinteiro de machado, nem calafates ou o oficial de mancebos. Viva alma parecia estar na Casa das Canoas. A guarnição dormia, o oficial e os praças de pré, em descuido com a munição que deveriam vigiar.

No palácio, o mesmo se dava porque só o Provedor dos Contos trabalhava em silêncio, apenas deixando-se ver pela janela. De repente o martelar na madeira. Hora que começava a funcionar a oficina do Padre Lázaro, no Carmo. Entalhador já no fim da idade mas mantendo o ofício através das mãos de índios e mamelucos. Despertava todos da modorra do meio de dia encalorado.

A oficina esculpia inúmeras peças ao mesmo tempo. O serviço dividido em muitas etapas e por muitos braços tinha em João Curto o mais desenvolvido artífice, orgulho de Padre Lázaro, já fizera um sem número de peças para enviar a Portugal e Espanha, era quem dava os retoques finais em púlpitos, santos, anjos tocheiros, móveis e ornatos. Comandava, junto com o padre, vinte e dois artesãos entre oficiais e ajudantes. O apelido Curto vinha dos pequenos braços que no começo de seu aprendizado entalhava nas imagens.

Era índio canoeiro, levado com a família para as fazendas da Santa Casa ainda menino e de lá para o Carmo pelo Padre Lázaro que via nele o dom de lidar com a madeira, educado na arte e na religião foi sempre o principal ajudante do religioso.

Não falava muito mas era perspicaz e paciente. Usava com desenvoltura as ferramentas, muitas aprimorou para melhor cortar a madeira e dar as formas. Passava todo o tempo na oficina onde dormia. Parecia seu único interesse as imagens que nasciam de suas mãos.

Padre Lázaro envelhecia depressa; fraco, já encurvando e enxergando pouco, passava muito tempo na rede. Dali um dia não levantou mais, a morte o levou silenciosamente.

Foi enterrado na igreja cujos entalhes e imagens foram feitos por ele mesmo com a ajuda de João Curto, pequeno ainda. Seu orgulho de artista era a pequena igreja e o Santo Alexandre, esculpido em itaúba e pintado com as cores mais fortes que se conseguia tirar, tintas feitas de misturas, ensinamentos do velho remeiro mundurucu, de nome Antu que tirava tonalidades do urucu e de muitas outras bixáceas.

As exéquias foram acompanhadas pelas pessoas mais influentes e importantes da província, todos os sinos ecoaram doloridos pela Cidade do Pará. Emissários foram enviados ao interior proclamando o luto.

Terminada a cerimônia, João Curto foi chamado pela Provedoria dos Capelos e Resíduos onde foi submetido a muitas indagações, recebendo depois, em testamento nuncupativo, surpreso, os pertences pessoais do protetor e uma provisão em moedas portuguesas.

Na manhã, conheceu Padre Serzedelo, o novo mestre dos artesãos. Quando ele entrou, João Curto preparava, entristecido, urucu-una para um sombreado. Quando o viu, sentiu um profundo no peito, uma ausência e não conseguiu fazer mais nada direito; sua vida a partir daquele dia mudou, virou um tormento. Começou a não se importar com o ofício; deixou de dormir no Carmo uma primeira vez, ficando à mercê da aguardente. Foi acostumando sair todas as noites; numas voltava, outras não, e em todas bebia.

O deszelo com o ofício deixava Padre Serzedelo enfurecido. João Curto mudara completamente; passava muito tempo alheado, olhando uma imagem começada com o enxó na mão, recusando ajudante; outras vezes parecia furioso e fazia em horas o serviço de semanas. Se bebia, não encostava as mãos nas ferramentas; aparecia desfigurado, sujo e taciturno.

O novo mestre dependia muito dele e não vendo outra forma de tirá-lo da aguardente, confiscou as moedas que restavam; no mesmo dia, começou a sumir vinho do sacrário. Reunida, a Provedoria dispensou João Curto dos afazeres, sem permitir rogativa de Padre Serzedelo, tirando-lhe o lugar de dormir e proibindo sua permanência nas dependências do Carmo.

João Curto nunca mais foi visto por ninguém; sabia-se dele apenas que, por muitos dias, a aguardente que suas moedas puderam comprar ele tomou, desaparecendo depois.
Os tocheiros, esculpidos em imbaúba, foram encontrados um ano depois dele ter sumido; um de cada lado na porta da igreja, onde Padre Lázaro foi enterrado, guardando a entrada.
As imagens de uma beleza nunca vista, pareciam vivas; as pessoas paravam para admirar. Eram a perfeição. Os olhos pareciam de verdade enxergar; das tochas, as chamas quase dançavam, apenas os braços curtos seu autor delatavam.


MQ

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BRASÍLIA 50 ANOS

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RUY GODINHO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 01.05.10

Especial Edu da Gaita

Mais uma vez o programa Roda de Choro vai enfocar especialmente a obra de um músico brasileiro.

No próximo sábado, 01.05.10, o personagem especial é gaúcho, foi fumante inveterado, vaidoso aos extremos, demagogo, prolixo, inventor de histórias que todos duvidavam, mas foi considerado o maior gaitista do mundo.

Estamos falando de Eduardo Nadruz, o inimitável, o inigualável, o incomparável Edu da Gaita, o primeiro instrumentista de sopro a executar o dificílimo Moto Perpétuo, composição de Nicolo Paganini, que foi a maior façanha da carreira dele.

Na seleção musical, o virtuosismo e a impressionante técnica de Edu da Gaita, na interpretação de clássicos da música brasileira.

Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília:
http://www.radio.camara.gov.br/ (rádio ao vivo), sábados, 12h.

Rádio Roquette Pinto, Rio de Janeiro:
http://www.fm94.rj.gov.br/
terças e quintas-feiras, 14h; quartas e sextas-feiras, às 2h.

Rádio Universidade FM, Londrina-PR, quintas-feiras, 22h.


Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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ENCONTRO TARDIO

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Encontro tardio
Olhar de ser tão
Abraços no cio
Entendendo o não

Tanto bem querer
Pode ser assim
Cada qual com um não
Dizer o seu sim

O segredo foi medo
De ficarmos a sós
Cada qual
Sem a voz disse não

Foi tanto bem querer
No olhar de ser tão
Em cada metade
Cada qual disse não

Tanto bem querer
Pode ser assim
Cada qual com um não
Dizer o seu sim


MQ
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GUIMARÃES ROSA

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Fotografia:MQ

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

IÊN E ZU MUNDUCU / CEGO BOCOVÓ - COLHO CURA (SERTÃO DO REINO)

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iên e zu munducu / cego bocovó
sérgio souto / joãozinho gomes / marcos quinan

quando viu veloz o salto
no sombrio e denso mato
pensou um bicho imenso
uma onça ou um macaco

foi pisando em silêncio
ao encontro do entocado
entre dois olhares tensos
revelou-se o achado

no feitiço do momento
olhos negros mundiados
enxergaram-se por dentro
visionários aliados

quatro mãos em movimento
dois destinos enlaçados
um a chuva o outro o vento
caminharam lado a lado

espalharam pensamentos
dividiram e somaram
impuseram ensinamentos
aos dali e aos que chegaram

era o abaribó nascendo
do entendimento raro
de dois homens parecendo
duas sinas que se acharam

cego bocovó prevendo
com seu olho inflamado
o presente desfazendo
tudo que fez no passado

estalos de febre ardendo
no mormaço abafado
sua cegueira batendo
num navio fundeado

passou a vida vendo
no caminho escurejado
o abaribó crescendo
com um jesuíta ao lado

nessa mistura o fadário
de valentia e mistério
a igualdade trazendo
na liberdade o temário

voz e violão: sérgio souto
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BRASÍLIA 50 ANOS

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FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO - RECIFE

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Fundação Joaquim Nabuco lança concursos na área de Artes Visuais

O Projeto Trajetórias 2010 convoca artistas a submeterem propostas em artes visuais para comporem a programação das galerias da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Podem se inscrever artistas plásticos e grupos de artistas brasileiros e estrangeiros, desde que não tenham realizado exposição em quaisquer das galerias da Fundaj nos últimos 2 anos. Os artistas que tiverem suas propostas selecionadas receberão, cada um, prêmio no valor de R$5.000,00. Serão premiadas quatro propostas. As inscrições estarão abertas de 30 de abril a 09 de maio. Já o Concurso de Videoarte selecionará duas propostas para realização de obras de videoarte, concedendo a cada projeto selecionado prêmio no valor de R$6.500,00 e suporte técnico da Massangana Multimídia Produções. O objetivo é incentivar a produção audiovisual de caráter experimental. As inscrições Concurso de Videoarte estarão abertas de 31 de maio a 13 de junho. Os regulamentos do Trajetórias 2010 e do Concurso de Videoarte edição 2010 estarão disponíveis para download no site www.fundaj.gov.br As inscrições são gratuitas e deverão ser realizadas na Coordenação de Artes Plásticas da Fundação Joaquim Nabuco.



Serviço

O que: concursos Projeto Trajetórias 2010 e Concurso de Videoarte

Período de inscrições: Projeto Trajetórias 2010 – de 30 de abril a 09 de maio

Concurso de Videoarte - de 31 de maio a 13 de junho

Inscrições: Rua Henrique Dias, 609 - Derby - Recife - PE - 52.010 –100. De 2ª a 6ª feira, das 9h às 12h e das 14h às 18h.

Informações: (81) 3073.6692 e (81) 30736691 artes@fundaj.gov.br

Promoção: Coordenação de Artes Plásticas Diretoria de Cultura Fundação Joaquim Nabuco

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JAC. RIZZO - Vestígios

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O meu texto é curto
cortina de palavras
de transparência suave

Nuanças e matizes
que se estendem
profundas ao infinito

Parede caiada com pregas
dobra de muro
reentrâncias
tudo que a hera esconde

O meu texto é só pretexto
pro coração respirar



Jac. Rizzo - http://jacrizzo.blogspot.com/

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KAY LYRA E MAURÍCIO MAESTRO - BELÉM



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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Vicença e Marteniano - SERTÃO DO REINO

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Vicença e Marteniano



O Auto de Perguntas dava todas as indicações da fuga. O perguntado, judiado até não suportar, urinado e defecado estava caído no soalho, morto. Peças do Senado da Câmara misturados com as dos moradores de São José do Macapá; machos, fêmeas e muitas crianças. Segundo as respostas, teriam primeiro destino a ilha de Mexiana ou Caviana, não sabiam qual, iam em, de emenda de dois paus, remados com as mãos.

De tudo sabido pela leitura que lhe fizeram, sem poder levar junto o mestiço tucuju; de certo sabia mais; sabia os caminhos daquela rota. Pensava o capitão do mato Maltino d’Almeida, saindo na captura.

Em Caviana, Marteniano e os dezoito fugidos da pedreira, mais os dezenove liderados por Vicença, oito crianças e a coragem de romper o sopro do vento até subir pela foz do Araguari, trabalhavam fazendo jangadas, remos, palhiças e juntando o de comer para a jornada.

Não chegaram a sair dali. O capitão e sua gente os tiveram peados no outro dia. Marteniano condenado à calceta; Vicença açoitada pelo próprio Maltino d’Almeida. Os demais castigados, mas sem a mesma severidade, foram reconduzidos aos seus donos.

As autoridades se reuniram para criar as rondas e impedir que escravos particulares tivessem qualquer contato com os do Senado da Câmara que construíam a Fortaleza, estivessem eles trabalhando nas pedreiras do Auará-peru e Cururu, nos olarias, telheiros de tijolos, fornos de cal, serrarias ou nos carretos e remos.

Marteniano e Vicença pela liderança naquela tentativa de fuga, a maior que se teve notícia, mais que todos eram vigiados e trancados. Ela, escrava doméstica com muita influência entre os índios tucujus e os outros escravos, sabia para onde ir viver em liberdade. Ele, carreteiro na pedreira, muitas tentativas de fuga, marcadas em sinais de castigo por todo o corpo, sonhava ser livre como o vento que soprava da foz do Araguari, aonde em suas fugas nunca conseguira chegar, sonhava atravessar o mar e voltar a sua origem.

Com o tempo, o castigo aos dois foi abrandando, Marteniano passou a trabalhar nos fornos de cal e, apesar das rondas, conseguiram ter contato um com o outro através da índia Turici que punha comida nas caieiras. Por ela, combinaram outra tentativa, desta vez por terra. Levariam somente Turici e seu filho rapaz.

Andaram por planagens e igapós dias e dias sem detença, a não ser para tirar das roças que encontravam o da fome; margearam, não muito à beira da larga, mas na distância que dava pra ouvir o barrulho da mupororoca e por ele se guiando. Subiram pelo furo e o encachoeirado, encontrando o mocambo do Barreiro.

Estavam magros e cansados, cada corpo marcado pela fadiga foi tratado logo com sangrias, infusões e muita galinha. Todos vinham ver os chegados, buscando parentes e conhecidos. Vicença encontrou a irmã fugida fazia mais de dois anos. Turici e o filho, quase toda a aldeia. Marteniano não tinha ninguém para encontrar, sabia todos mortos no tumbeiro antes de chegar a Turiaçu. O Sudanês andou de mão em mão, contrariando a fama da sua raça, sempre fugido, capturado, castigado. Sempre sonhando entrar no vento contra, era como imaginava voltar à África, por sobre as águas.

Mais de duas centenas de índios e negros trabalhando o barro, fazendo tijolos. No pequeno arruado, uma capela pra São Benedito erguida por eles com a orientação do padre francês que ali vivia, lugar organizado como se fosse uma vila, com as raças misturadas no trabalho e no jugo da ordem, tinha do religioso direção.

Os mocambeiros viviam na alegria do cauim e dos batuques suas melhores horas. Para Marteniano era quando o banzo o pegava, ia para a beira e se deixava ficar de olhos fechados sentindo o vento esparramar as lágrimas no rosto e se imaginava numa jangada veleada, voltando.

Vicença sabia que um dia ele tentaria atravessar, ficava calada em pensar se a levaria junto, nos filhos que não teriam por conta dos seus testículos esmigalhados pela calceta; como era a África? Nunca ouvira falar de lá; igual não ouvira dos pais.

Quando trouxeram Maltino d’Almeida e outros dois peados, caçadores caçados nos domínios dos quilombolas, Marteniano terminava de amarrar os dois troncos e fincar nas entalhas os mastros do velame. Julgando ser um fugido que chegava nem prestou atenção, foi preciso Vicença vir lhe chamar.

O olhar de menoscabo de Maltino d’Almeida, mesmo peado como fizera com tantos que o olhavam, era igual. Dispunham-se a azorragá-lo quando o padre interveio impedindo com o bom preço que os franceses pagariam por ele.

Marteniano olhou de longe para o capitão do mato e de perto para Vicença com a cumplicidade que existia em suas vidas. Esperaram anoitecer e, andando pelas sombras, soltaram-no e levaram para prender nos troncos.
No arrebol, aproveitando a primeira maré baixa do dia, amarrado pelas pernas na atada com a madeira da jangada, as mãos livres para remar, Maltino d’Almeida, escravo precito ia.

Juntos, Marteniano e Vicença, por dentro do vento, rente ao mar, começavam a travessia para a África.


MQ

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BRASÍLIA 50 ANOS

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DORI CAYMMI - RIO DE JANEIRO

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AÇOUGUE CULTURAL T-BONE - BRASÍLIA

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FERNANDO CAVALLIERI - SÃO PAULO

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VALSA VERSO - CANÇÃO DOS POVOS DA NOITE

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Valsa Verso
(Marcos Quinan)

Arranjo: Fernando Merlino
Piano Elétrico: Fernando Merlino
Cello: Marcus Ribeiro
Viola: Eduardo Pereira
Violino: André Cunha
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terça-feira, 27 de abril de 2010

VINÍCIUS DE MORAES

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O caminho para a distancia - 1933


Trata-se do primeiro livro de Vinicius de Moraes, publicado em 1933. Compõe-se ao todo de quarenta poemas, a maior parte em versos livres. Sob o influxo do catolicismo militante de Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde e Octavio de Faria, a estréia do autor põe em cena uma poesia às voltas com os temas do espiritualismo cristão, de tom elevado e solene, distante do humor e da irreverência que predominavam no Modernismo de 1922.


Possui dedicatória de Vinícius de Moraes a Pedro Nava.

http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/01188700

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COLHO CURA - COLHO CURA (SERTÃO DO REINO)

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na vida dos irmãos que sonhamos:
iên, zumunducu, cego bocovó, nhanubuí, vicença, marteniano, joão curto, nhãnancinha, bartolomeu, danduca, joão colonado, tenenaí, pedro, paulo, thiago, isabel, dozinha, inácia, pedro potaço, pantaco, buiú, zé bugio, antoíno boi, lunaiá, joão tungo, tranca de rio, celeste, rosário, eneu, murtinho, rosina, joão fandro, francisco rugoso, cumará, nheiú, tarcisa, fronho, tomásia, dourado, tumida e os filhos, amélia, acapoúca, joão mão cega, padre demerval, amastor, luzia, pedro viriano e joão mutaba, cada história é cantada aqui como gesto de liberdade e plantio, hora do comum e do sagrado de todos nós

aos parceiros, amigos e mestres; sérgio souto e joãozinho gomes, companheiros dessa jornada, honrado agradeço

as histórias das pessoas comuns cantadas aqui como uma suíte popular em gravação caseira, fazem parte do feixe de contos do livro “sertão do reino”, ambientado no período da cabanagem - pode ser encontrado na ladodedentro: http://ladodedentrobrasil.blogspot.com/

para celso viáfora, ivan lins e todos que lutam pela liberdade sem se perder dentro dela.


mq

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colho cura
sérgio souto / joãozinho gomes / marcos quinan

colho cura
na seiva
das bruscas histórias
que canto aqui
que canto aqui

reboleira de sementes
reboleira de sementes

luta brasileira travada
no sertão do reino
das pessoas comuns

tenro ventre
onde teima
a liberdade
sempre
querer nascer
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voz e violão: sérgio souto
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BRASÍLIA 50 ANOS

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MANUEL BANDEIRA

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Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

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FERNANDO MERLINO - JAMIL JOANES - ERIVELTON SILVA - JÚLIO MERLINO - JOSÉ ARIMATÉIA - BAIÃO DE 5 - RIO DE JANEIRO

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EVERTON BEHENCK - MAIS UM MENINO

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Meus olhos rondam tua saia
Como um menino ronda a casa

Da amada

Procurando a janela aberta do quarto
Que revelaria o corpo sobre a cama

As costas nuas
A maciez descendo a cintura

Meus olhos rondam tua saia
Como o menino ronda a casa da amada

À noite

Esperando que uma luz convide
Que a janela aberta chame
Rondo tua saia como um menino insone

Procurando versos de amor
Em um jardim alheio
Em um canteiro de pequenos gestos

Que bastam
Para que o menino sonhe
E retome a vigília
Esperando que de trás da cortina
Um sorriso acene

A pele de uma mulher deseje
Os lábios lá fora
Guardando o beijo que se nega a ir embora

Meus olhos rondam tua saia
Como um menino ronda a casa da amada

Namorando a madrugada



Everton Behenck -
http://apesardoceu.wordpress.com/

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Nhanubuí - SERTÃO DO REINO

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Nhanubuí



No Reduto de São José, despojado de tudo na vida e dela se preciso fosse, Nhanubuí, padecendo da agonia de tirar desforço do oficial das armas, fingia dormir enquanto esperava a hora. A noite punha manto, um negrume retinto na friagem da brisa e nas marolas quebrando silêncios.

Ardentias da aguardente mitigava a espera; o fel todo dentro de dois bornais com pólvora juntada grão a grão durante meses. Tinha demorado a reconhecer o tal Antônio Gomes, agora oficial de farda; não fosse pela cicatriz nas costas até o alto das coxas, que viu quando levou a água do banho, nunca lembraria.

O Itapicuru fazia a água toda, remansado. O casco boleava sem pressa, iam descendo farinha, mel e trançados para a feira no Largo de Nazaré, quando avistaram na margem, o primeiro corpo. Antes de encostar avistaram os outros, mortos e retalhados. O choro da criança foi o único sinal de vida... nascia desnatural, do corte mortal na barriga da mãe agonizando.

Criada pelos pacajás, sem peito de mãe, desde pequena ouviu a história do massacre de sua gente, o pai tapuio, pescador de ofício; a mãe índia pacajá com seus quatro irmãos; o avô velho e dois tios com suas mulheres e filhos. Ao todo quinze parentes. Contavam que a mãe, antes de morrer, falou da luta, do ferido que ela mesma lanhou com o terçado, repartindo a carne das costas até as coxas.

Nhanubuí cresceu nos remos e na feitura de farinha, ouvindo sobre sua gente e o jeito como nasceu. Alistado muito novo, andou em muitas Vilas, por muitos anos na Fortaleza da Barra e, por fim, no Reduto de São José; cartucheiro de carga rápida e bom manejo, se preciso fosse. Já estava ali fazia tempo, nem se lembrava mais de sua história, sentia uma pouca lembrança da aldeia onde fora criado, mas vivia sabendo que guardava uma raiva que não sabia de quê; ficava agastado sem motivo; mas gostava de fazer tudo que lhe mandavam. Muito calado, raramente ficava ouvindo as histórias dos outros soldados em volta do fogo.

No Reduto de São José, nenhum comandante durava; cada disputa política na província, saía um e entrava outro. Com eles, novos praças, novas ordens, restando uns poucos, entre eles sempre Nhanubuí que não tomava partido de ninguém, era por si, cuidava as ordens; bebia aguardente escondido antes de dormir, somente quando vinha a zanga.

O novo oficial das armas de nome Antônio Gomes era famoso comboieiro e chefe de captura; velho de riso destravado no olhar ruim; de todos, o melhor comando, camaradeiro e de pouco rigor com as normas. Para Nhanubuí, mais um que tudo queria e pedia só a ele, acostumado a servir prontamente.

Quando entrou com a água quente o viu de costas, nu, com o sujo manchando o corpo e a cicatriz, um risco reto das costelas até a nádega direita quase formando outra.

A lembrança do que ouviu quando pequeno chegou junto com a danação; estava na frente do homem que matou sua mãe e seus parentes. O sangue esquentou, calando dentro de si a vontade de acabar com ele no mesmo momento que lembrou.

Desse dia, prestou mais atenção no que o oficial contava em suas bravatas; histórias das cambocas seviciadas com os homens da aldeia, peados assistindo a tudo; dos negros homiziados trazidos sem colhões e orelhas. Cada uma delas ouvidas pelos praças, entre risos e a bazófia que tinham pra contar, a minoria, mestiços como Nhanubuí que, silencioso, agora descobria suas pendências... pensava crueldades; lembrava da aldeia onde foi criado... de falarem da beleza da mãe; dele, menino olhando o fogo queimar.

Daquele dia em diante, começou a trabalhar a acangatara, plumagem por plumagem, pena por pena, trançado por trançado, assomado em saber, depois de tantos anos, quem esperava estar morto ser Antônio Gomes. Juntava a pólvora, a aguardente e os chumaços de algodão, escondendo no quarto de banho, esperava o dia.

Nesse, ao ouvir o grito pedindo a água quente, se despiu do fardamento; apenas de acangatara, um archote acesso na mão e o terçado na outra, entrou e fechou a porta com a tranca sem que o oficial nem percebesse. O primeiro golpe acertou a cabeça e a consciência; o segundo abriu a barriga de fora a fora onde Nhanubuí enfiou os dois bornais de pólvora, estancou a sangria com algodão e esperou que ele se mexesse para acender os chumaços embebidos de aguardente enfiados pelos orifícios naturais.

O velho chefe de captura, com a boca cheia de algodão, acabou nem tentando gritar, consciente, olhava o mestiço pacajá vestido para uma grande cerimônia como uma alucinação; sentiu a dor das carnes expostas, o cheiro de sangue e o calor do algodão queimar nos ouvidos.

Tentava soltar o trançado que lhe amarrava as mãos, quando a fumaça encheu o ar e o ventre queimou de uma só vez. Uma dor lancinante o empurrou para nascer dentro da morte.

Nhanubuí ninguém nunca mais viu.


MQ
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BRASÍLIA 50 ANOS

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ROLANDO BOLDRIN - SR BRASIL

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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

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FUNARTE EDITAIS 2010

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CONFIRA OS EDITAIS 2010 DA FUNARTE/MINC QUE ESTãO COM INSCRIçõES
ABERTAS:

Prêmio de Produção Crítica em Música – Edital para apoio a
dez trabalhos de pesquisa sobre música brasileira, com prêmios de
R$ 15 mil para cada contemplado. Inscrições até 26 de maio.

Prêmio de Composição Clássica – Edital para apoio a 70 obras
inéditas para a XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea, com
prêmios de R$ 8 mil, R$ 10 mil, R$ 15 mil, R$ 20 mil e R$ 30 mil.
Inscrições até 30 de setembro.

Prêmio de Concertos Didáticos – Edital para apoio a 16 projetos
de concertos didáticos em escolas da rede pública, com prêmios de
até R$ 20 mil para cada proposta selecionada. Inscrições até 28
de maio.

Prêmio Circuito de Música Clássica – Edital para apoio a 12
projetos de recitais de música de concerto, com prêmios de até R$
75 mil para cada proposta selecionada. Inscrições até 27 de maio.

Prêmio Circuito de Música Popular – Edital para apoio a 12
projetos de turnês de espetáculos de música popular, com prêmios
de R$ 65 mil para cada proposta selecionada. Inscrições até 26 de
maio.

Prêmio de Apoio à Gravação de Música Popular – Edital para
apoio a 20 projetos de gravação e difusão da música popular, com
prêmios de R$ 35 mil para cada proposta selecionada. Inscrições
até 26 de maio.

Prêmio de Dança Klauss Vianna - Edital para apoio a 40 projetos de
atividades e espetáculos de dança, com prêmios de R$ 40 mil, R$ 60
mil, R$ 80 mil e R$ 100 mil. Inscrições até 23 de maio.

Prêmio de Teatro Myriam Muniz – Edital para apoio a 34 projetos
de circulação de espetáculos, com prêmios de R$ 90 mil e R$ 150
mil, e 36 de montagem de espetáculos, com prêmios de R$ 60 mil, R$
90 mil e R$ 120 mil. Inscrições até 23 de maio.

Prêmio Festivais de Artes Cênicas – Edital para apoio a 36
projetos de festivais de teatro, circo e dança, com prêmios de R$
50 mil, R$ 80 mil e R$ 100 mil. Inscrições até 23 de maio.

Bolsa de Residências em Artes Cênicas – Edital para seleção de
43 propostas de residência artística para profissionais de teatro,
dança ou circo, com bolsa de R$ 45 mil para cada beneficiado.
Inscrições até 23 de maio.

Prêmio Artes Cênicas na Rua – Edital para apoio a 63 projetos de
apresentação, registro ou preservação de atividades artísticas,
com prêmios de R$ 20 mil, R$ 40 mil e R$ 50 mil. Inscrições até
23 de maio.

IBERESCENA - Fundo intergovernamental de apoio às artes cênicas.
Criadores e produtores podem inscrever projetos em quatro categorias.
Editais e mais informações em www.iberescena.org. Inscrições
até 3 de setembro.

Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo – Edital para apoio a 103
projetos de artes circenses nas diversas regiões do país, com
prêmios de R$ 15 mil, R$ 25 mil e R$ 40 mil. Inscrições até 23 de
maio.

Bolsa para Formação em Artes Circenses – A Escola Nacional de
Circo, situada no Rio de Janeiro, amplia seu caráter nacional ao
conceder 15 bolsas de R$ 20 mil para alunos de outras áreas.
Inscrições abertas até 23 de maio.

Bolsa de Produção Crítica em Culturas Populares e Tradicionais
– Edital para apoio a 30 trabalhos de reflexão crítica e teórica
sobre a cultura brasileira, com bolsas de R$ 30 mil. Inscrições até
27 de maio.

Rede Nacional Artes Visuais – Edital para apoio a 40 projetos de
fomento às artes visuais, com prêmios de R$ 20 mil e R$ 30 mil.
Inscrições até 24 de maio.

Bolsa de Estímulo à Criação Artística em Artes Visuais –
Edital para apoio a dez trabalhos de criação e de pesquisa em artes
visuais, com bolsas de R$ 30 mil. Inscrições até 27 de maio.

Bolsa de Estímulo à Produção Crítica em Artes Visuais –
Edital para apoio a dez projetos de produção crítica em artes
visuais, com bolsas de R$ 30 mil. Inscrições até 24 de maio.

Apoio a Festivais de Fotografia, Performances e Salões Regionais de
Artes Visuais – Edital para apoio à realização de festivais de
fotografia e/ou performances e de salões regionais, com prêmios de
R$ 95 mil e R$ 260 mil. Inscrições até 24 de maio.

Prêmio Marc Ferrez de Fotografia – Edital de apoio a 36 projetos
de no campo da fotografia, com prêmios de R$ 10 mil e R$ 40 mil.
Inscrições até 24 de maio.

Conexão Artes Visuais - Edital de apoio a 30 projetos de festivais,
salões de arte, mostras, palestras, seminários, debates, oficinas,
mapeamentos, publicações e exposições, com prêmios de R$ 55 mil.
Inscrições até 8 de maio. Patrocínio: Petrobras.

Bolsa de Criação Literária – Edital para apoio a 60 trabalhos
de produção de textos literários, nos gêneros lírico ou
narrativo, com bolsas de R$ 30 mil. Inscrições até 27 de maio.

Bolsa de Circulação Literária – Edital para apoio a 50 projetos
de atividades de promoção e difusão da literatura, em municípios
do Programa Territórios da Cidadania, com bolsas de R$ 40 mil.
Inscrições até 27 de maio.

Bolsa de Reflexão Crítica e Produção Cultural para Internet –
60 pesquisadores receberão R$ 30 mil para desenvolver textos
críticos sobre arte em mídia digital, ou produzir conteúdo digital
para a web.

Prêmio de Arte Contemporânea – Edital para apoio a 15 projetos
de artes visuais para exposição nos espaços culturais da
Funarte/MinC no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo
Horizonte, com prêmios de R$ 40 mil, R$ 50 mil e R$ 80 mil.
Inscrições até 27 de maio.

Além de editais para a ocupação de galerias e outros espaços
expositivos, foram lançadas 11 seleções públicas para projetos de
música e de artes cênicas a serem desenvolvidos em salas de
espetáculos e teatros no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.



Mais informações: www.funarte.gov.br - Portal das Artes Funarte

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EVERTON BEHENCK - BRASÃO

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Sou senhor do meu reino
Mesmo que o reino
Desmorone todo o tempo

Mas é meu
O reino

Eu vivi, comprei
Paguei
Sofri o reino

É meu

Todo espaço em volta
Para onde não volto
Porque não quero

Porque é meu o reino
O castelo
Mesmo que o castelo tenha apenas
Duas portas
E uma esteja trancada

É minha a falta
Das coisas

É minha a tarde
Onde um dia amarela
E é dele o reino
Onde uma janela nunca viu
tanta beleza

É meu o povo todo
Do reino
Mesmo que o povo todo
Do reino
Seja eu comigo mesmo



Everton Behenck - http://apesardoceu.wordpress.com/

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domingo, 25 de abril de 2010

CALADO


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Calado
Impregnado
Do mundo em volta

As palavras se esconderam
No tempo e nos fragmentos

A mágica envelheceu
Dentro dos cortes
Calada sem esperar recorrências

Gestos se desderam
Só deixando lembranças

Uma saudade pulou do coração
E concedeu perdão
Riscando um resto de amor
Nos pulsos de cada mão

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MQ
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ENRICO DI MICELLI - PATRÍCIA BASTOS - JOÃOZINHO GOMES - TIMBRES E TEMPEROS - SÃO LUIZ

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BRASÍLIA 50 ANOS

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VINÍCIUS DE MORAES

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A última viagem de Jayme Ovalle




Ovalle não queria a Morte

Mas era dele tão querida

Que o amor da Morte foi mais forte

Que o amor de Ovalle à vida.


E foi assim que a Morte,um dia

Levou-o em bela carruagem

A viajar - ah,que alegria!

Ovalle sempre adora viagem.


Foram por montes e por vales

E tanto a Morte se aprazia

Que fosse o mundo só de Ovalles

E nunca mais ninguém morria.


A cada vez que a Morte,a sério

Com cicerônica prestança

Mostrava a Ovalle um cemitério

Ele apontava uma criança.


A Morte,em Londres e Paris

Levou-o à forca e à guilhotina

Porém em Roma,Ovalle quis

Tomar a sua cangebrina.


Mostrou-lhe a Morte as catacumbas

E suas ósseas prateleiras

Mas riu-se muito,tais zabumbas

Fazia Ovalle nas caveiras.


Mais tarde,Ovalle satisfeito

Declara à Morte,ambos de porre:

- Quero enterrar-me,que é um direito

Inalienável de quem morre!


Custou-lhe esforço sobre-humano

Chegar à última morada

De vez que a morte,a todo o pano

Queria dar uma esticada.


Diz o guardião do campo-santo

Que noite alta,ainda se ouvia

A voz da Morte,um tanto ou quanto

Que ria,ria,ria,ria...


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sábado, 24 de abril de 2010

Cego Bocovó - SERTÃO DO REINO

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Cego Bocovó



Preadores avençados com Antônio Tejuco desciam o Acaraxiteua em duas canoas, bordejando o mato fechado nas margens, fortemente armados e atentos; traziam oito peças que não sabiam identificar a tribo a que pertenciam. João Bocovó fizera o assento e comandava a descida, observando cada detalhe da margem, muito receio revelava e, mais que ele, os remeiros assustando com qualquer barulho de bicho.

Nos muitos anos não tinha visto nada parecido, nunca foi tão fácil dominá-los, nunca peou nenhum com tanta facilidade e estranhou não ter mulher junto, fogo acesso e mais ainda, serem só adultos. Quanto mais pensava, mais desconfiava de alguma coisa errada. O silêncio foi tomando conta, ficando quase que só o barulho dos remos ferindo a água. O Acaraxiteua abria remansos em cada curva e a mata parecia o cobrir do sol. Um denso no ar envolvia o lugar. João Bocovó olhava vez em quando o semblante dos índios peados, confirmava sujeição, olhava as margens, confirmava silêncios. Sinalizou com a mão ao proeiro, dando rumo de meio do rio e, aos outros, alerta de luta.

- Nõm... nõm... nõm...

Os gritos ressoaram e o tapanhuno se pôs nas vistas, mal se equilibrando no casco com duas varas cravadas no fundo dum remanso, lhe sustentando equilíbrio. Parecia saído do fundo das águas; a pintura de urucu sobre a pele negra lhe dava aparência sobrenatural, assustando a tropa de resgate. Os índios peados, no primeiro grito, manearam a canoa desequilibrando a mira, enquanto das margens, o ataque veio por entre o folhame em riscos de morte. Vivos somente os remeiros e o chefe dos preadores, flechado de raspão no rosto.

No Abaribó, abundância e muita festa, resultado da armadilha. Os remeiros se misturaram ao cotidiano dos aldeados, alguns encontrando até parentes ali.

João Bocovó, reconhecido e temido por muitos, foi trancado e vigiado dia e noite, o ferimento no rosto formou uma pústula que contaminou o olho direito; as dores insuportáveis, a febre alta o faziam gritar de dor e delirar. Aos gritos dava ordens, lembrava escaramuças e devassidão, as índias usadas, seus filhos, comida peada que se carregava sozinha; contava seus teres e haveres como se desse conta a alguém; chamava os padres nome a nome, enumerando pecados, falava com lascívia das índias e se punha nu, copulando-as na lembrança. Enlouquecia. Com isso, retardava o dia de ser comido e diminuía a vigilância.

A fuga se deu num começo de madrugada. Cego de um olho, enxergou a oportunidade e se embrenhou no escuro da noite, debaixo de chuva grossa e o farfalho da mata nos ouvidos. Vagou pelos igapós do sertão abaribó com o mormaço lhe queimando abafado durante o dia e o frio que a chuva punha nas noites lhe gelando os ossos. Encontrou o Acaraxiteua sem muita dificuldade, mas na margem oposta a que tinham seguido quando aprisionado; o olho purgava em mal cheiro, o corpo lanhado e enfraquecido obedeceu até puxar a galhada da arvore pra dentro do rio.

Acordou com um barulho compassado de madeira batendo em madeira, estava cego e preso nos galhos que a maré vazante movimentava de encontro com o casco do navio fundeado no porto da Cidade do Pará.
Nele os jesuítas embarcavam expulsos da província.


MQ

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BRASÍLIA 50 ANOS

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NILSON CHAVES - BELÉM

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DI CAVALCANTI

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"Moço continuarei até a morte porque, além dos bens que obtenho com a minha imaginação, nada mais ambiciono. "

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

BRASÍLIA 50 ANOS

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RUY GODINHO

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RODA DE CHORO – SÁBADO – DIA 24.04.10
ESPECIAL TRIBUTO A VILLA LOBOS

Durante todo o mês de abril, em comemoração aos “outros” 50 Anos de Brasília, vamos enfocar o trabalho de compositores e instrumentistas nascidos, renascidos, criados ou residentes na cidade.

O Roda de Choro deste sábado vai reproduzir a gravação, ao vivo, do concerto Tributo a Villa Lobos, realizado no Teatro da Caixa Cultural, no dia 07.02.09, protagonizado pela flautista francesa Odette Ernest Dias e o violonista Jaime Ernest Dias, com as participações especiais de Beth, Cláudia, Andréa (flautas), Carlos Ernest Dias (flauta e oboé) e ainda Elza Gushiken (piano).

Além do tributo, o concerto foi uma celebração dos 80 anos de Odette Ernest Dias, que chegou ao Brasil em 1952 e aqui constituiu uma família de músicos virtuoses, além de outros tantos que ela, na qualidade de professora de flauta, ajudou a formar no Brasil.

Odette, que conviveu com Villa Lobos nos anos de 1950, durante o concerto, revelou passagens pitorescas de sua convivência com o polêmico maestro.

Na parte musical, uma seleção de peças de Bach, do próprio Villa Lobos, choros de compositores dos primórdios, entre eles Satyro Bilhar, Quincas Laranjeiras e Anacleto de Medeiros - que influenciaram a obra de Villa - além de Tom Jobim, que foi influenciado por ele.

Ouça pela internet:

Rádio Câmara, Brasília:
www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.

Rádio Roquette Pinto, Rio de Janeiro:
www.fm94.rj.gov.br
Sábados 8h.

Rádio Universidade FM, Londrina-PR, quintas-feiras, 22h.


Produção e Apresentação: Ruy Godinho

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RELÓGIO VELHO - CANÇÃO DOS POVOS DA NOITE

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Relógio velho
(Marcos Quinan)

Arranjo: Fernando Merlino
Piano: Fernando Merlino
Sax Soprano: Roberto Stepheson
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JOÃO ARAÚJO - VIOLA URBANA

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HÉLIO PELLEGRINO

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Viagem às Minas




Cicatrizes.
Matrizes.
Hemoptises.

O sol posto,
no rosto lavrado.
Escalavrado.

A lavra lágrima
decorre, colorada.
O escropo cáustico,
amarrado e amargo em punho cego,
prossegue seu trabalho.

Em vão me pego
na vertente da areia que me sabe.

Eu sou, tu és,
o amplo oceano do céu é uma amplidão parada,
o eterno
roreja tempo na pedra.

Ó tempo eterno
da pedra, fundado e decifrado,
mais que a barca de Pedro, pedra viva
vivendo o seu silêncio — água múrmura.

À luz da tarde
verte seus ecos e mistérios,
nas montanhas tamanhas.

Arde a tarde,
e a tarde arde.
É tarde, é noite, é foice, é antemanhã.
O arco-íris,
suscitado em sua cova, ressuscita.

Lua nova e sol posto
nascem do mesmo estojo.
Pojo.
Bojo.

Sangradouro
de minérios domados.
Esses gados.

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

SAMBA DE JORGE - BELÉM

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Iên e Zu Munducu - SERTÃO DO REINO

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Iên e Zu Munducu


Quando viu, veloz e em saltos no meio fechado do mato, pensou: guariba. Não era. Pensou pintura sem preceito, desar. Não era. Caça fora de hora no espaçado do dia, parecia.
Acompanhou pisando silêncios até o destro gesto. No outro, metade susto, metade medo. Caça nada, parecia resto de fogo sem fumego, avaliou quanta carne, armou a borduna de tucum, recém tirada.

Queria o assado vivo, pensou; esse prostrou manso facilitando o golpe ou adivinhando intenção de ser levado. Olhou no detalhe cuidando distância; viu os molambos que o outro vestia; a pele porejando, escura e brilhante. Não resistiu, baixou o braço e o tocou com a ponta da arma falando.

- Iên... iên... iên...

De joelhos, sem entender aquela língua mais estranha ainda do que a que vinha ouvindo desde o navio, levantou a cabeça e gesticulando desandou a contar sua história para espanto e risos do pajé. Ria de sua fala mais enrolada que a dos outros e de seu jeito de animal já ferido. Sem entender as risadas, o negro voltou cabisbaixo para sua submissão. Calaram-se. O escravo esperava o golpe, o pajé queria ouvir mais, apontava a arma:

- Iên... iên... iên... pedia ouvir.

Ficaram tempo... um gesticulava e falava muito; o outro ria sem abandonar o domínio da presa. Quando o índio ria, o negro parava e abaixava a cabeça. Parecia uma brincadeira, o índio lembrava o movimento da dança do tamanduá, boleando a arma. O negro medrava como precito, bongando dor como no castigo do bambaquerê.

Entraram juntos para espanto da aldeia, o pajé o exibindo como um animal de estimação. Esperou juntar todos em volta e cutucou falando:

- Iên... iên... iên... repetindo a brincadeira que fez muitas risadas.

Desse dia em diante, o negro virou a sombra do índio, sempre um passo atrás, acompanhando onde quer que fosse, era servidão e a curiosidade em aprender puçangas e feitiços, não ocultando modos que sabia, conhecimentos de raízes, folhas e musgos. Quando os dois se embrenhavam no mato, ficavam por dias e dias colhendo toda sorte de ervas e, de retorno, faziam experimentos, beberagens e inalações como se fossem dois boticários em pesquisa de cura.

Virou um igual - de nome ficou Iên - a sombra do pajé a quem chamava Zu Munducu. Inseparáveis. Calada a língua, falando por olhares, sinais e meios, se entendiam mais ainda no colher ervas, em lidar com as encantarias e na evocação de espíritos, sabedoria de um e de outro se misturando e misturando as línguas.

Iên vivia na maloca sem participar de nenhuma festa, deles, recebia nestas ocasiões, o naco de comida das mãos de Zu Munducu; mas pelas frestas do palhiço acompanhava as cerimônias de preparo da carne, fosse caça ou carne humana; as danças e rituais de alegria e cura.

Afastado dos demais, ficou até o dia que trouxeram um dos presos, peado no cercado. A pancada na testa derrubou o corpo no chão. Iên olhou Zu Munducu, viu consentimento. Correu, tomou a dianteira pra descarnar, cabendo, valente, nas vistas de muitos e no espanto do pajé. Cortou como eles, limpou, corou como nunca viram, esfregava as costas da mão esquerda na cavidade do ventre e entoava palavras parecidas com as já ouvidas. Soaram melancólicas, calando qualquer riso. Foi olhado de um modo diferente quando pelou pernas, braços, separou a cabeça e entregou ao pajé, murmurando profundo como no ritual. Serviu as partes dando gritos e rindo alto, tinha aprendido tudo.

No passar do tempo a aldeia foi se acostumando com a presença do negro, todos o tratando como igual, aceitando outros escravos fugidos, como ele, aparecendo sozinhos, em pequenos grupos e, às vezes, misturados com índios de outras aldeias, chegados por vontade, sem lutas.
O lugar ia cafuzando, crescendo seus domínios, misturando as raças e os costumes, protegido pela valentia e mistério. O jeito dos negros em tratar os fugidos contaminava. Passaram a fazer o mesmo com os capturados transformando o Abaribó numa mistura de muitas tribos com quilombolas. Lugar de liberdade, calaçaria, igualdade, magia, dançarás e alegria.

Tapuiúnas e tapuitingas impregnados naquelas matas surpreendiam comboieiros e grandes descimentos, aumentando a população raciada de índios, negros e mestiços aldeados na extensão de muitas léguas.

Acumulavam a comida viva, aprisionada, para grandes festejos. Comum, Zu Munducu, separar dos brancos os que tinham algum traço de sua raça ou da de Iên. Esses viviam em liberdade, a menos que não se submetessem, eram tratados como iguais, alimentados e não trancados em cercados vigiados, como os outros.
Eram mais de sessenta peados, um jesuíta e oito brancos fortemente armados. Foram dominados na escaramuça, maior grupo preso pelos abaribós, dos oito brancos, três feridos, dois mortos e comidos no local do encontro. Primeira vez que capturavam um padre, causou rebuliço. Muitos ali conheciam os jesuítas das missões, esse foi mantido separado dos demais, era um fascínio para as mulheres que dele cuidavam, comia muito e nunca foi comido, morreu velho, ensinando coisas, trancado mas espalhando descendentes. Do tempo, desse dia, ficaram poucos rituais. Os capturados serviram de escravos até se acostumarem ao jeito de viver no Abaribó, virando gente de lá, se misturando nos quereres de todos, plantando mandioca, fazendo farinha, aprendendo junto alegrias e todas as danças.

Os infensos acabavam por deixar envelhecer cativos no mais bruto dos fazeres, vigiados sem castigo até a morte. Serviam de brincadeira para as mulheres e crianças. Uns tentavam fugir, sem caminhos, errando o rumo das águas, se perdendo dos limites e se embrenhando na sesmaria dadivosa, corpos nunca achados, virando húmus ou comida de animais.

A sabedoria de Iên e Zu Munducu perdurava pela lembrança de todos; anos de harmonia com o natural e as encantarias, inçando quem chegasse fugindo do que quer que fosse.

Quanto mais crescia o lugar, mais ousados ficavam, indo longe buscar pelas trilhas, capturar viajantes de quem esbulhavam tudo. Como os dois ancestrais cuidavam harmonia. Nessas incursões fizeram o primeiro contato com um regatão, na tensão de armas que só não resultou em luta porque a cor da pele identificou iguais de um lado e de outro.

Dali ficou, para os abaribós, o comércio das drogas do sertão, as trocas e a fama do lugar que correu pelas águas, levada pelo comércio ambulante dos poderosos, ligando-os aos oprimidos e desvalidos, atraindo fugidos que achavam o rumo das suas terras, lugar onde tudo se podia.

MQ
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BRASÍLIA 50 ANOS

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GERALDO TEIXEIRA - JOCATOS - JORGE EIRÓ - RUMA - BELÉM




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LÍVIA RODRIGUES - RUBÉNS STANISLAW - EDGAR JR - ALAN CARVALHO - MARCELO FERNANDES - FÁBIO ANDRÉ - ABDIAS PINHEIRO - BELÉM

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MURILO MENDES

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Reflexão n°.1


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.


Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.


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JESSIER QUIRINO - BRASÍLIA

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

BRASÍLIA, SINFONIA DA ALVORADA


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Brasília, Sinfonia Da Alvorada
Vinicius de Moraes / Antonio Carlos Jobim

No príncipio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
De mansos rios inocentes
Por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
Mais parecia um povo inexistente
Dizendo coisas sobre nada.
Sim, os campos sem alma
Pareciam falar, e a voz que vinha
Das grandes extensões, dos fundões crepusculares
Nem parecia mais ouvir os passos
Dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros
Que, em busca de ouro e diamantes,
Ecoando as quebradas com o tiro de suas armas,
A tristeza de seus gritos e o tropel
De sua violência contra o índio, estendiam
As fronteiras da pátria muito além do limite dos tratados.
– Fernão Dias, Anhanguera, Borba Gato,
Vós fostes os heróis das primeiras marchas para o oeste,
Da conquista do agreste
E da grande planície ensimesmada!
Mas passastes. E da confluência
Das três grandes bacias
Dos três gigantes milenares:
Amazonas, São Francisco, Rio da Prata ;
Do novo teto do mundo, do planalto iluminado
Partiram também as velhas tribos malferidas
E as feras aterradas.
E só ficaram as solidões sem mágoa
O sem-termo, o infinito descampado
Onde, nos campos gerais do fim do dia
Se ouvia o grito da perdiz
A que respondia nos estirões de mata à beira dos rios
O pio melancólico do jaó.
E vinha a noite. Nas campinas celestes
Rebrilhavam mais próximas as estrelas
E o Cruzeiro do Sul resplandecente
Parecia destinado
A ser plantado em terra brasileira:
A Grande Cruz alçada
Sobre a noturna mata do cerrado
Para abençoar o novo bandeirante
O desbravador ousado
O ser de conquista
O Homem!


II / O HOMEM
Sim, era o Homem,
Era finalmente, e definitivamente, o Homem.
Viera para ficar. Tinha nos olhos
A força de um propósito: permanecer, vencer as solidões
E os horizontes, desbravar e criar, fundar
E erguer. Suas mãos
Já não traziam outras armas
Que as do trabalho em paz. Sim,
Era finalmente o Homem: o Fundador. Trazia no rosto
A antiga determinação dos bandeirantes,
Mas já não eram o ouro e os diamantes o objeto
De sua cobiça. Olhou tranqüilo o sol
Crepuscular, a iluminar em sua fuga para a noite
Os soturnos monstros e feras do poente.
Depois mirou as estrelas, a luzirem
Na imensa abóbada suspensa
Pelas invisíveis colunas da treva.
Sim, era o Homem...
Vinha de longe, através de muitas solidões,
Lenta, penosamente. Sofria ainda da penúria
Dos caminhos, da dolência dos desertos,
Do cansaço das matas enredadas
A se entredevorarem na luta subterrânea
De suas raízes gigantescas e no abraço uníssono
De seus ramos. Mas agora
Viera para ficar. Seus pés plantaram-se
Na terra vermelha do altiplano. Seu olhar
Descortinou as grandes extensões sem mágoa
No círculo infinito do horizonte. Seu peito
Encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria
No deserto uma cidade muita branca e muito pura...
Citação de Oscar Niemeyer
– "... como uma flor naquela terra agreste e solitária…"
- Uma cidade erguida em plena solidão do descampado.
Niemeyer
– " ... como uma mensagem permanente de graça e poesia..."
- Uma cidade que ao sol vestisse um vestido de noivado
Niemeyer
– " ... em que a arquitetura se destacasse branca, como que flutuando na imensa escuridão do planalto..."
– Uma cidade que de dia trabalhasse alegremente
Niemeyer
– "…numa atmosfera de digna monumentalidade..."
– E à noite, nas horas do langor e da saudade
Niemeyer
– " ... numa luminação feérica e dramática..."
– Dormisse num Palácio de Alvorada!
Niemeyer
– " ... uma cidade de homens felizes, homens que sintam a vida em toda a sua plenitude, em toda a sua fragilidade; homens que compreendam o valor das coisas puras..."
– E que fosse como a imagem do Cruzeiro
No coração da pátria derramada.
Citação de Lucio Costa
– "…nascida do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos que se cruzam em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz."


III / A CHEGADA DOS CANDANGOS
Tratava-se agora de construir: e construir um ritmo novo.
Para tanto, era necessário convocar todas as forças vivas da Nação, todos os homens que, com vontade de trabalhar e confiança no futuro, pudessem erguer, num tempo novo, um novo Tempo.
E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e que, no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, começaram a chegar de todos os lados da imensa pátria, sobretudo do Norte; forarn chegando do Grande Norte, do Meio Norte e do Nordeste, em sua simples e áspera doçura; foram chegando em grandes levas do Grande Leste, da Zona da Mata, do Centro-Oeste e do Grande Sul; foram chegando em sua mudez cheia de esperança, muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias; foram chegando de tantos povoados, tantas cidades cujos nomes pareciam cantar saudades aos seus ouvidos, dentro dos antigos ritmos da imensa pátria...
Dois locutores alternados
– Boa Viagem! Boca do Acre! Água Branca! Vargem Alta! Amargosa! Xique-Xique! Cruz das Almas! Areia Branca! Limoeiro! Afogados! Morenos! Angelim! Tamboril! Palmares! Taperoá! Triunfo! Aurora! Campanário! Águas Belas! Passagem Franca! Bom Conselho! Brumado! Pedra Azul! Diamantina! Capelinha! Capão Bonito! Campinas! Canoinhas! Porto Belo! Passo Fundo!
Locutor no 1
– Cruz Alta...
Locutor no 2
– Que foram chegando de todos os lados da imensa pátria...
Locutor no 1
– Para construir uma cidade branca e pura...
Locutor n 2
– Uma cidade de homens felizes...


IV / O TRABALHO E A CONSTRUÇÃO
– Foi necessário muito mais que engenho, tenacidade e invenção. Foi necessário 1 milhão de metros cúbicos de concreto, e foram necessárias 100 mil toneladas de ferro redondo, e foram necessários milhares e milhares de sacos de cimento, e 500 mil metros cúbicos de areia, e 2 mil quilômetros de fios.
– E 1 milhão de metros cúbicos de brita foi necessário, e quatrocentos quilômetros de laminados, e toneladas e toneladas de madeira foram necessárias. E 60 mil operários! Foram necessários 60 mil trabalhadores vindos de todos os cantos da imensa pátria, sobretudo do Norte! 60 mil candangos foram necessários para desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, soldar, empurrar, cimentar, aplainar, polir, erguer as brancas empenas...
– Ah, as empenas brancas! -
– Como penas brancas...
– Ah, as grandes estruturas!
– Tão leves, tão puras...
Como se tivessem sido depositadas de manso por mãos de anjo na terra vermelho-pungente do planalto, em meio à música inflexível, à música lancinante, à música matemática do trabalho humano em progressão ...
O trabalho humano que anuncia que a sorte está lançada e a ação é irreversível.
Cantochão
E ao crespúsculo, findo o labor do dia, as rudes mãos vazias de trabalho e os olhos cheios de horizontes que não têm fim, partem os trabalhadores para o descanso, na saudade de seus lares tão distantes e de suas mulheres tão ausentes. O canto com que entristecem ainda mais o sol-das-almas a morrer nas antigas solidões parece chamar as companheiras que se deixaram ficar para trás, à espera de melhores dias; que se deixaram ficar na moldura de uma porta, onde devem permanecer ainda, as mãos cheias de amor e os olhos cheios de horizontes que não têm fim. Que se deixaram ficar muitas terras além, muitas serras além, na esperança de um dia, ao lado de seus homens, poderem participar também da vida da cidade nascendo em comunhão com as estrelas. Que viram, uma manhã, partir os companheiros em busca do trabalho com que lhes dar uma pequena felicidade que não possuem, um pequeno nada com que poder sentir brilhar o futuro no olhar de seus filhos. Esse mesmo trabalho que agora, findo o labor do dia, encaminha os trabalhadores em bando para a grande e fundamental solidão da noite que cai sobre o planalto…
" Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantávele uma confiança sem limites no seu grande destino."
(Brasília, 2 de outubro de 1956)
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira


V / CORAL
I II III
Coro Coro Coro
Masculino Masculino Misto
Brasília Brasília Brasília
Brasília Brasília Brasília
Brasília Brasília Brasília
Brasília Brasília Brasília
Brasília Brasília Brasília
BRASIL! BRASIL! BRASIL!


VI
Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira ...
... Alma brasileira ...
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração
Brasil! Brasil!
Ah... Ah... Ah...
B r a s í 1 i a!
Dlem! Dlem!
Ô ... ô... ô... ô





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Sinfonia da Alvorada



Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360º. No fundo do "Catetinho" há um capão de árvores altas por onde passa um córrego de água boa e fria. Seguindo-se a água, sai-se num campo onde fui muitas vezes escutar o pio das perdizes. Silêncio nos campos claros batidos de sol. De repente, de perto, como um grito, vem o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos. Aqueles dois pontos de som escondidos no capim se procuram, aproximam-se, encontram-se e cantam juntos. Uma nuvem passa e sua sombra corre pelos campos. O vento faz ondas nos penachos do capim: dourado, verde, dourado...

Neste ambiente foi composto "O Planalto Deserto".

A música começa com duas trompas em quintas, que evocam as "antigas solidões sem mágoa" de que nos fala Vinicius de Moraes e a majestade dos campos sem arestas que há milênios se aquietaram. O espírito do lugar prevalece. Duas flautas comentam lìricamente as infinitas cores das auroras e poentes, sobre um fundo harmônico de cordas em tremolo. O mistério das coisas anteriores ao homem é exposto numa luz clara e transparente: "Onde se ouvia nos campos gerais do fim do dia o grito da perdiz, a que respondia o pio melancólico do jaó". Às vezes, à beira d'água, surge a trama vegetal dos galhos e lianas . O timbre da orquestra escurece. O infinito horizonte se enche das cores do crepúsculo e se escuta mais uma vez o tema do Planalto.

A 2a. parte aborda o Homem: seu espírito de conquista, sua violência, sua força, seus desejos e seus sofrimentos para atingir o altiplano. Enquanto escrevia a música desta parte, formou-se em meu espírito a seguinte imagem: uma carroça vai penosamente se arrastando serra acima. O Homem instiga os animais. A marcha acelera-se e surge o Canto, a que responde a Natureza, calma e isenta de desejos. Mas o Homem quer as coisas. Seu braço forte, riscado de grossas veias, ergue-se a uma lâmina afiada corta os ramos dessa Natureza imparticipante. O picadão se aprofunda sertão adentro. O Homem haveria de plantar sua cruz no Planalto.

Na 3a. parte os modernos pioneiros retomam o trabalho dos velhos bandeirantes. O projeto da nova capital é planificado e torna-se necessário, para levar a efeito "a gigantesca tarefa", convocar "todas as forças vivas da nação". "A Chegada dos Candangos" conta da vinda desses homens de olhos puxados e zigomas salientes; homens que em toda sua pobreza ainda encontram um jeito de rir e cantar. Homens sem os quais Brasília não existiria.

Segue-se a 4a. parte: "O Trabalho e a Construção". Evitamos a música concreta para caracterizar o trabalho (ruído de serras, estacas etc.) porque isso nos pareceu óbvio. O trabalho é visto de maneira mais subjetiva. A música começa com um fugato que retrata o inicio da ação. A sorte está lançada. A inexorabilidade da ação é posta em evidência. O fugato desenvolve-se de maneira matemática. A tônica é o centro de tudo: as tonalidades satélites vão e vêm mostrando suas cores puras, mas tudo reverte à ofuscante tônica central. Há um plano de construção e esse plano é rigorosamente respeitado. Por vezes o trabalho cessa para dar lugar à contemplação da obra já feita, e três trompas aparecem sugerindo a graça e leveza líricas do Palácio da Alvorada diante da "grande planície ensimesmada", de que nos fala Vinícius. Mas o trabalho tem de prosseguir. Surge um ritmo marcato nas vozes masculinas e no piano, aqui usado como instrumento de percussão. Depois os arcos tomam a si o mesmo motivo e às vezes, eventualmente, se lamentam, como a dizer que nenhum trabalho é feito sem sofrimento. Os instrumentinos e logo os metais retomam o marcato, a sugerir o sol no zenite reverberando nas superfícies brancas, ferindo os olhos dos homens que trabalham. Novos temas arquitetônicos aparecem, cortados por uma frase de inusitado lirismo: pois o trabalho é também amor e poesia.
Volta uma vez mais o tema do Palácio da Alvorada e tudo se encaminha para um desfecho inevitável. As tonalidades satélites mostram novamente suas cores, mas a tônica domina tudo. Os fatos se precipitam e o trabalho e a poesia dão-se as mãos. Algumas celebrações, alguma grandiosidade e o trabalho se conclui de repente numa frase triste, enunciada pela voz humana . Os homens voltam para suas casas na melancolia do poente. Um canto-chão diz de suas solidões, de suas tristezas, de suas mulheres ausentes. As cordas tomam a si o canto-chão, enquanto o texto fala dessa saudade dos homens por suas mulheres. Surgem pela primeira vez na Sinfonia vozes femininas que contrapontam intuitivamente com as vozes masculinas. Depois em bocca chiusa volta o canto-chão nas vozes masculinas retomando o tema da solidão. Um acorde de orquestra transporta ao tom relativo menor e vem a treva total. Surge, independente do Homem, o tema do "Planalto Deserto", da primeira parte.

Segue-se, na 5a. parte, o Coral final, comemorativo da realização. Vinícius usou além da palavra-sentido, a palavra-som, o que causa muitas vezes um efeito surpreendente. O Brasil aparece em toda a sua nostalgia e grandeza. Uma nova civilização se esboça. Herdeiro de todas as culturas, de todas as raças, tem um sabor todo próprio.

Rio, Janeiro de 1961

Antonio Carlos Jobim

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A idéia de escrevermos uma Sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de l958, eu acidentado num hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antonio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr desse mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem Maestro.

Houve logo, é claro, quem falasse em obra "encomendada" e outras tolices do gênero, o que feriu certas suscetibilidades de Jobim. E a tarefa ficou postergada para dias mais inteligentes. Até que, de volta do meu posto em Montevidéu, em junho de l960, recebi uma telefonada de Brasília. Induzido por esse querido amigo que é Oscar Niemeyer, o Presidente Kubitschek, também um velho amigo, convidava-nos para criar, com os técnicos da firma francesa "Clemançon", especializada na matéria, um espetáculo "Son et Lumière" para a Praça dos Três Poderes, à maneira dos que são feitos nos principais castelos franceses e em vários outros grandes monumentos do mundo, como a Acrópole, as Pirâmides e tantos mais, para fins de atração turística.

Era a oportunidade. Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se numa realidade de âmbito mundial. A cidade empreendida por Kubitschek e criada por Niemeyer sobre o plano-piloto de Lúcio Costa, outro grande e caro amigo, erguia suas brancas e puras empenas nas antigas solidões do planalto central de Goiás, em extensões apascentadas pela vetustez da terra e pela proximidade do infinito, numa paisagem de oxigênio, silêncio e saudade das origens. O lugar mais antigo da terra, como gosta de dizer Jobim, povoava-se ràpidamente; e malgrado as pragas de um grupo de ressentidos, os que preferem governar o país nas proximidades das boates, a cidade crescia num ritmo alegre de trabalho e confiança, com turmas a se revezarem de sol a sol. De nada valia o pio das aves de mau agouro da imprensa e de alhures, contra o ímpeto maravilhoso do trabalhador brasileiro, que acorreu de todos os cantos do país, sobretudo do Norte, para erguer aquelas estruturas adiante do Tempo e para coabitar pacìficamente numa "cidade-livre" levantada do dia para a noite com restos de material de construção: uma autêntica cidade de "far-west", só que sem os tiros e bandidos do cinema.

Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília a fim de estruturar temas e poemas em contato humano com a cidade. Hóspedes do "Catetinho", hoje tombado como monumento histórico, olhávamos de nossa sala de trabalho - a mesma em que o Presidente Kubitschek assinou seus primeiros atos na nova capital - a silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza. De madrugada, enquanto víamos congelar-se no ar frio o jato ascensional do Boeing-707, escutávamos também o piar das perdizes e dos jaós, entre as surdas rajadas intermitentes do vento do altiplano. Havia em nós essa tristeza que nasce da beleza, e palmilhávamos os capões de mato com a sensação do irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe do que eu. Eu voltava, a partir do lindo olho d’água do pequeno bosque, para os meus intermináveis passeios na alpendrada do "Catetinho", onde ficava a pensar o texto da Sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava "a patroa" de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário de Brasília. Apraz-me dizer nunca ouvi, ao longo das horas em que Antonio Carlos Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituam ótimo comestível, como é o caso das perdizes.

Dez dias ficamos assim no "Catetinho", nesse dolce far niente de fazer uma Sinfonia, com sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar como íamos de trabalho. De vez em quando dávamos um pulo à cidade para ver os amigos Oscar Niemeyer, José (Juca) Ferreira de Castro Chaves, João Milton Prates - os bravos pioneiros de Brasília, os homens que, com o Presidente Kubitschek, primeiro puseram o pé no planalto. João Milton Prates, herói da FAB, antigo piloto e amigo de JK, grande e bom amigo nosso, esse vinha sempre nos ver, com vitualhas e licores, e tomava pela obra em progresso um interesse quase criador. Um dia exibiu-nos, de sua carteira, a histórica promissória de 500 contos, firmada por ele e Niemeyer, com a qual puderam erguer em dez dias o incomparável "Catetinho". Ao grande Presidente e a todos esses homens que não têm frio nos olhos, mas cujos olhos se umedeceram ao ouvirem pela primeira vez ao piano os temas iniciais da "Sinfonia da Alvorada", - a nossa comovida gratidão, não só pela confiança que tiveram em nós como pelo exemplo que nos deram de ânimo, modéstia e espírito de luta.

Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos um piano que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três candangos, nós o subimos a braço para o "Catetinho", com mais medo de que seus degraus cedessem ao peso do que de um enfarte do miocárdio. Naturalmente, pois o "Catetinho" é hoje um monumento histórico, e a estátua do Fundador de Brasília parecia apreensiva, sobre o seu pedestal no terreiro em frente, com os resultados de nossa operação.
Temos um último e mais íntimo agradecimento a fazer: da parte de Antonio Carlos Jobim, a Thereza Hermanny Jobim, sua mulher, e Celso Frota Pessoa, um padrasto que é mais que um pai, que deu mão forte a um jovem estudante de arquitetura cuja verdadeira vocação era a música; de minha parte, a minha mulher Maria Lúcia Proença de Moraes. A "torcida" dos três, sem embargo de uma constante vigilância crítica, nos foi sempre do maior estímulo nesse empreendimento em que dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil.

Rio, Janeiro de 1961

Vinícius de Moraes

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