terça-feira, 31 de março de 2009

SEXTA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Para Joaquim Barp Quinan
E Francisco Barp Quinan
Do avô-menino


Entre todas as procuras
Do avô-menino

E certamente os meninos-netos
Joaquim Barp Quinan
E Francisco Barp Quinan
Haverão de ajudar
Um tanto muito

Enxergar o modo vivo de tudo
Que há no mundo
Uma pedra de caminho
O próprio caminho
Rios, árvores, aves...
A terra, o ar...
A imensidão
O mofo da gaveta
Tudo vive
E nada é em vão
A água vive vida de água
O sal vida de sal
O musgo cumpre sina
Cada qual com seu papel
Cada qual com seu sinal

Quando acharem um ser
Que ainda não achamos
Vivendo
Depressa acione os canais
Da nossa comunicação codificada
Avisem o avô-menino
Para juntos observarmos
Os modos do achado
Aprendendo da vida viva
E da muita beleza

De minha parte
Tenho
Quase tudo já encontrado
Catalogado no coração
Para na oportunidade
Apresentar aos meninos-netos
A sabedoria de um por um

Cuidado que alguns homens
Procuram os seres
Para proveito
Outros para preservação
Com essa gente
Todo cuidado é pouco
Nosso motivo pra eles é nada

E assim posto
Juntamos nosso amor
Em amar a vida
Nesse trato vivível
Selado no tecido
Da poesia viva

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MQ
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MARISA (A)PENAS

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INCOMPETÊNCIA


Dizer do amor é segurar as águas
que se me escorrem a empapar o chão...
Mais simples pois é o falar de mágoas
Embora saiba que o faço em vão

pois é ao vento meu dizer tristonho
quais mortas folhas, a ninguém tocar
pobres lamentos de perdidos sonhos
soltos, varridos, sem nunca cessar...

Amasso cinzas onde o fogo ardeu
em brasas puras do que é só meu...
Jaz no profundo deste poço escuro
tantos registros de sentidos vastos...

Se não alcanço do que vem futuro,
do passado, a mim, ficam os repastos...
Sinto o amor e o que ele envia

ao meu caminho como direção
mas me escapa sempre, e à revelia,
decifrar em versos minha emoção...

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Marisa Pitaluga

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ENTREATOS - Velha saudade

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Fotografia MQ



Tinha andado o mundo todo, mas sentiu vontade de voltar, não para nada específico da profissão.


Sentia saudade apenas das ruas, do lugar onde viveu na mocidade, das pessoas que ainda reconhecia. Viver longe foi como precisar dormir para sonhar. E agora não; voltara, sonhava acordado e não precisava da lembrança para lhe entregar o cheiro da sua terra.

Gostava mesmo de andar pelas ruas, da boemia, de ver o dia entrando na manhã.

Sabia dosar o olhar de mundo que trouxera, já cansado; gostava de freqüentar os cabarés da cidade velha, ouvir o apito dos navios fundeados, chamando os marinheiros despejados nas ruas.

Sentia-se um privilegiado; anônimo sem feito algum, mas um privilegiado.

Nenhuma nostalgia, mas lembrava-se dela, sempre misturando naquela saudade as mulheres que freqüentara.

Demorou poucos dias para saber da tragédia; um ferimento doméstico descobriu o câncer que comia a carne. Meia dúzia de pessoas acompanharam o enterro, os clientes não ousaram aparecer.

Para ele ficou uma carta deixada com a dona do cabaré, para que ela lhe entregasse, se um dia ele aparecesse. Nela, só falava de saudade e dizia que seu maior desejo naquele resto de vida era ouvi-lo tocar as músicas de Ismael Silva.

Despedia-se em letras trêmulas e com muito sentimento.

Dizem que, até hoje, quem passa de madrugada na porta do cemitério ainda escuta uma música dolente, como quando ele, enquanto viveu, tocou na beira do túmulo da mulher da vida.

MQ
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PAULA ORSI CRUZ

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NOSTALGIA DOS SUSPIROS

SAUDADE DESTAS QUE NÃO REBENQUEIA
QUE NÃO ARQUEIA
NÃO DÁ TRÉGUAS
NÃO DEIXA ESTAR
SAUDADE QUE SÓ DÓI
QUE ESMAGA, APERTA
ESPREME, ALERTA
SINTO FALTA DO JANTAR QUE NUNCA FIZ
DO CAFÉ DA MANHÃ NA CAMA QUE NUNCA LEVEI
DAS VIAGENS QUE NUNCA FIZEMOS
DOS LUGARES ONDE NUNCA ESTIVEMOS
SINTO FALTA DE DIVIDIR
DE MOSTRAR
DE ESCUTAR
SINTO FALTA DAS LIGAÇÕES DIÁRIAS
DAS TROCAS DE OLHARES
DAS POESIAS E DA MÚSICA
DA DANÇA, E COMO NÃO?
DOS DEDOS NO VIOLÃO
E DA VOZ À SE SOLTAR
NOSTALGIA DOS SUSPIROS
DO PENSAR AO ACORDAR
DO ACONCHEGO DE DORMIR
SABER QUE ESTARÁ LÁ
A ESPERAR-ME
A SAUDAR-ME
A ABRAÇAR-ME
E A BEIJAR-ME


Paula Orsi Cruz - http://foto-sinta-se.blogspot.com/
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segunda-feira, 30 de março de 2009

QUINTA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Para Joaquim Barp Quinan
E Francisco Barp Quinan
Do avô-menino

Conhecerão cores
Cheiros, sabores...
E ouvirão harmonias
Em tantas coisas poderão tocar
Enrediçados no meio da vida
Onde tudo pode ser aprendido

Recomendo aos meninos-netos
A simplicidade
Ao olhar pro azul
Cheirar as manhãs
Comer arroz
Tocar o orvalho
E ouvir o nascer do dia

Simplicidade é a mais bonita
Forma do mundo
O grande parece pequeno
E fica cabendo dentro da gente
E o pequeno parece um quase nada
Com o grande estando dentro


MQ
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VICENTE BARRETO - SÃO PAULO

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ENTREATOS - Está tudo combinado

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O telefone tocou, madrugada do dia mais quente do ano; tocou muitas vezes. Quando atendeu, a voz pastosa de uma mulher parecendo embriagada disse, tentando sussurrar – está tudo planejado, morrerás ainda hoje – e desligou.


A essa hora? Pensou, e voltou a dormir. Novamente o telefone, a mesma voz, a mesma frase.

Que droga, pensou; tomou água e foi ao banheiro.


De novo? Trote a uma hora dessas! Levantando de novo, para outro copo d’água e o banheiro.

Na quarta vez, tentou fazer uma pergunta – e como morrerei? Do outro lado desligaram, como das outras vezes.


Pensou que fosse brincadeira de algum amigo imitando voz de mulher ou, quem sabe, mesmo uma amiga. Aquela respiração parecia-lhe familiar, coisa chata.

Na quinta vez que o telefone tocou, ele apenas tirou do gancho, mas ficou olhando o aparelho, não conseguia dormir.

Olhava o telefone fora do gancho e sentia uma vontade inexplicável de ouvir de novo a ameaça e a mulher respirando abafado. Era como uma necessidade.

Aquilo durou o resto da madrugada; uma dezena de vezes ouviu a voz, mesma entonação e as mesmas pausas, parecia uma gravação.

Quando o dia amanheceu, já tinha fumado quase um maço de cigarros e estava esperando o telefone tocar de novo. Sete horas, mudo. Sete e meia, continuava mudo. Tomou banho, fez o café e quando ia saindo para trabalhar, já próximo da porta, o telefone tocou. Era a mesma voz, que perguntou:

– Você ainda tem cigarros?

– Estou fumando o último – respondeu, acreditando que ela ia ouvi-lo sem desligar.

– O veneno está nele... Adeus.

MQ
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SELMA PAREIRA - GOIANIA

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MÁRIO QUINTANA

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CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim jamais cansa
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu
É só ganhar toda a vida,
Inexperiência...esperança...

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana
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sexta-feira, 27 de março de 2009

DENTRO DA PALAVRA - Dentro da palavra

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Dentro da palavra

(Marco Antonio Quinan / Marcos Quinan)

De dentro da palavra
Explodem versos
Deixando marcas
Sonhos e verbos
Dos estilhaços
Vestindo a lida
Compõe-se os passos
Constrói-se a vida


O ventre da solidão
Me aqueceu, me abrigou
Por entre rimas formou então
O ser que hoje sou


Vertigens não lamento
Cicatrizes me enlaçam
O meu verso é um momento
Que procura meus pedaços
E na rima que me leva
Os caminhos aprendi
Pois um dia na palavra
Minha historia estava ali

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Voz – Edmar da Rocha
Arranjo – Fernando Merlino
Piano – Fernando Merlino
Cello – Saulo Moura
Viola - Ivan Zandonade
Violino – André Cunha
Moringa - Marcos Amma

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Encontre na : www.ladodedentro.com.br

MACHADO DE ASSIS

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Gazeta de Notícias - 22/07/1894

OS DIREITOS da imaginação e da poesia hão de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em nome deles protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro. Este homem fundou uma seita a que se não sabe o nome nem a doutrina. Já este mistério é poesia. Contam-se muitas anedotas, diz-se que o chefe manda matar gente, e ainda agora fez assassinar famílias numerosas porque o não queriam acompanhar. É uma repetição do crê ou morre; mas a vocação de Maomé era conhecida. De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem consigo milhares de fanáticos. Também eu o disse aqui, há dois ou três anos, quando eles não passavam de mil e tantos. Se na última batalha é certo haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de tal apóstolo, é que algum vínculo moral e fortíssimo os prende até à morte. Que vínculo é esse?


No tempo em que falei aqui destes fanáticos, existia no mesmo sertão da Bahia o bando dos clavinoteiros. O nome de clavinoteiros dá antes idéia de salteadores que de religiosos; mas se no Koran está escrito que ‘o alfanje é a chave do céu e do inferno’, bem pode ser que o clavinote seja a gazua, e para entrar no céu tanto importará uma como outra; a questão é entrar. Não obstante, tenho para mim que esse bando desapareceu de todo; parte estará dando origem a desfalques em cofres públicos ou particulares, parte à volta das urnas eleitorais. O certo é que ninguém mais falou dele. De Antônio Conselheiro e seus fanáticos nunca se fez silêncio absoluto. Poucos acreditavam, muitos riam, quase todos passavam adiante, porque os jornais são numerosos e a viagem dos bondes é curta; casos há, como os de Santa Teresa, em que é curtíssima. Mas, em suma, falava-se deles. Eram matéria de crônicas sem motivo.

Entre as anedotas que se contam de Antônio Conselheiro, figura a de se dar ele por uma encarnação de Cristo, acudir ao nome do Bom Jesus e haver eleito doze confidentes principais, número igual ao dos apóstolos. O correspondente da Gazeta de Notícias mandou ontem notícias telegráficas, cheias de interesse, que toda gente leu, e por isso não as ponho aqui; mas, em primeiro lugar, escreve da capital da Bahia, e, depois, não se funda em testemunhas de vista, mas de outiva; deu-se honesta pressa em mandar as novas para cá, tão minuciosas e graves, que chamaram naturalmente a atenção pública. Outras folhas também as deram; mas serão todas verdadeiras? Eis a questão. O número dos sequazes do Conselheiro sobe já a dez mil, não contando os lavradores e comerciantes que o ajudam com gêneros e dinheiros.

Dado que tudo seja exato, não basta para conhecer uma doutrina. Diz-se que é um místico, mas é tão fácil supô-lo que não adianta nada dizê-lo. Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes, podia ir ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza americana. Seria uma empresa quase igual à remoção do Bendegó, que devemos ao esforço e direção de um patrício tenaz. Uma comissão não poderia ir; as comissões geralmente divergem logo na data da primeira conferência, e é duvidoso que esta desembarcasse na Bahia sem três opiniões (pelo menos) acerca do Juazeiro.

Não se sabendo a verdadeira doutrina da seita, resta-nos a imaginação para descobri-la e a poesia para floreá-la. Estas têm direitos anteriores a toda organização civil e política. A imaginação de Eva fê-la escutar sem nojo um animal tão imundo como a cobra, e a poesia de Adão é que o levou a amar aquela tonta que lhe fez perder o paraíso terrestre.

Que vínculo é esse, repito, que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro? Imaginação, cavalo de asas, sacode as crinas e dispara por aí fora; o espaço é infinito. Tu, poesia, trepa-lhe aos flancos, que o espaço, além de infinito, é azul. Ide, voai, em busca da estrela de ouro que se esconde além, e mostrai-nos em que é que consiste a doutrina deste homem. Não vos fieis no telegrama da Gazeta, que diz estarem com ele quatro classes de fanáticos, e só uma delas sincera. Primeiro que tudo, quase não há grupo a que se não agregue certo número de homens interessados e empulhadores; e, se vos contentais com uma velha chapa, a perfeição não é deste mundo. Depois, se há crentes verdadeiros, é que acreditam em alguma cousa. Essa cousa é que é o mistério. Tão atrativa é ela que um homem, não suspeito de conselheirista, foi com a senhora visitar o apóstolo, deixando-lhe de esmola quinhentos mil-réis, e ela quatrocentos mil. Esta notícia é sintomática. Se um pai de família, capitalista ou fazendeiro, pega em si e na esposa e vai dar pelas próprias mãos algum auxílio pecuniário ao Conselheiro, que já possui uns cem contos de réis, é que a palavra deste passa além das fileiras de combate.

Não trato, porém, de conselheiristas ou não-conselheiristas; trato do conselheirismo, e por causa dele é que protesto e torno a protestar contra a perseguição que se está fazendo à seita. Vamos perder um assunto vago, remoto, fecundo e pavoroso. Aquele homem que reforça as trincheiras envenenando os rios, é um Maomé forrado de um Borgia. Vede que acaba de despir o burel e o bastão pelas armas; a imagem do bastão e do burel dá-lhe um caráter hierático. Enfim, deve exercer uma fascinação grande para incutir a sua doutrina em uns e a esperança de riqueza em outros. Chego a imaginar que o elegem para a câmara dos deputados, e que ele aí chega, como aquele francês muçulmano, que ora figura na câmara de Paris, com turbante e burnu. Estou a ver entrar o Conselheiro, deixando o bastão onde outros deixam o guarda-chuva e sentando o burel onde outros pousam as calças. Estou a vê-lo erguer-se e propor indenização para os seus dez mil homens dos Canudos...

A perseguição faz-nos perder isto; acabará por derribar o apóstolo, destruir a seita e matar os fanáticos. A paz tornará ao sertão, e com ela a monotonia. A monotonia virá também à nossa alma. Que nos ficará depois da vitória da lei? A nossa memória, flor de quarenta e oito horas, não terá para regalo a água fresca da poesia e da imaginação, pois seria profaná-las com desastres elétricos de Santa Teresa, roubos, contrabandos e outras anedotas sucedidas nas quintas-feiras para se esquecerem nos sábados.

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QUARTA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Para Joaquim Barp Quinan
E Francisco Barp Quinan
Do avô-menino

O que vocês
Estão sentindo aí
Também nasceu junto
Com o avô-menino
Parece uma coceirinha
Um mais agradável
Um olhar derramando
Um aperto desapertado
No coração
Uma certeza certa
Certinha
Uma coisa sem explicação
Toda explicadinha
Dentro da gente
Arrepiando até o dedão
Parece um invisível
Protegendo...
Que a gente sabe o que é
Sem nem saber que sabe
Ele vai nascer em vocês
Novinho
Igual nasceu
No avô-menino
É esse um tal de amor
Que nunca fica velhinho


MQ
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CENA DE ESQUINA

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O crime: uma facada no companheiro de esquina; motivo: a traição da cadela que lhe dava amor.


O barulhento vizinho sentiu ciúmes e, da gentileza do início, acabou por tomá-la à força, uma vez, duas, três, até impor a rotina.

Descoberto naquela manhã, a briga foi como um duelo que a cadela presenciava, grunhindo em volta. A ferramenta afiada tomou corpo de faca e tal qual abriu um ventre.

A morte rondou o estuprador, os médicos a espantaram.

O amante desapareceu sorrateiro, com a cadela soluçando nas mãos, fugiu pouco, a polícia prendeu.

Ficou a cena na esquina, suspensa, e quatro anos de prisão.

O animal dali não saiu; passava dias e noites cheirando os cantos, a calçada, o lugar da casa de papelão e restos de madeira que a limpeza pública, comprovado o abandono, demorou a recolher.

Quando o sedutor voltou em ataduras, olharam-se. Ela triste e assustada, ao vê-lo resignou-se e, pensando no outro, por ali ficou definhando submetida, mas rondando o quarteirão, decerto procurando entender sua razão.

Durou poucas semanas até, numa segunda-feira, jogar-se debaixo de um ônibus qualquer.

A cena na esquina novamente ficou presa no ar e o arrogante sedutor colheu todas as noites de solidão do lugar.

Aberta a cela, a saudade ardia e a vingança pairava no ar; o comborço já não havia. Alguma doença o comera pelos pulmões. Morreu em cena, na esquina, esperando o companheiro e parente sair da penitenciária para, juntos, chorarem a falta da cadela.

MQ

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quinta-feira, 26 de março de 2009

TERCEIRA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Para Joaquim Barp Quinan
E Francisco Barp Quinan
Do avô-menino

Danou-se tudo
No mundo quando
Inventaram o que move
O inventar
Tem um tal de dinheiro
Coisa mais esquisita
Era uma pedra
Virou num metal
E hoje um papelzinho
Mixuruquinho de nada
Mas já tem uns outros
Jeitos deles movimentar
Um quadradinho de plástico
Que quebra só de olhar
Mas tem uns números
Escondidos pra quem
Sabe descodificar
É o que dá validade
Na quantidade que se
Quer trocar
Uma laranja
Vale um desses dinheiros
Mas a outra vale não
O povo que põe roupa
Na liberdade, coitada!
Esquece o jeito duma laranja
Quando vê outra
E vão inventando o que
Move o inventar
E é uma multidão tão grande
Que vai sendo triturada
No moinho do inventar
Que a liberdade devia se rebelar
Andar só nua
E ser de um jeito só
Para todos
Tanto aqui quanto acolá

MQ
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CAMILO DELDUQUE

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Fotografia MQ


11.11.03
Cosanostra


O estilete do diabo
Cravo encravado na flor
É língua afiada
Lambendo o fígado dos ébrios

Bocas abertas
Beijos escancarados
Sumos de saliva

O demônio sacraliza o banal
E passa visto no passaporte dos castigos

Estigma dos embriagados
O cinismo é lâmina coreografada

Bêbados são deuses
Obrigados a suturar os quistos da obrigação
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O POVO DO BELO MONTE IX - Brás Teodoro

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No fora do tempo me vi na casa de João da Dica acompanhando ao longe - apequenado no caminho - a figura do filho mais querido. Vinha com a mala nas costas e um jeito de mundo no andar.

- Cala esse cachorro, meu velho!

Pediu ela quase gritando no descontrole da alegria. Os dois viviam naquele ermo desde que nasceram. Ela disposta na premonição e nas rezas que fazia atendendo todos que ali batiam. Ele, já encurvado pelo custoso da vida, esmorecia com qualquer esforço; gritava com o cão magro e barulhento e punha brilho nos olhos embaçados pela cegueira se espalhando, entendendo ser o filho chegando por fim.

A poeira remoinhava em volta do meu corpo parado ao lado dum monturo, me entrando pela respiração sem turvar as vistas. Via como se estivesse mais perto deles, quase rente àquele encontro. Convivi nos dias, dividindo o muito que retiravam do quase nada que tinham para repartir. Dica benzendo os dois homens restados em sua vida com a umidade de sua fé e os galhos de folhas secas, ouvindo do filho o melhor do mundo por onde andou.

Depois a partida. Eu via a cobra andar no mato e ouvia a insistência de Dica com o filho para que demorasse mais um pouco, inventando um agrado qualquer disposto num fundo de baú. Entendia o trajeto da cobra plena de veneno e o momento que ela cruzaria o caminho, e vi a sabedoria do olhar da rezadeira olhando o meu, livrando o filho.

Ela estava ali, na minha frente, dentro do papel-barro, nascendo das minhas mãos. Era diferente, atormentado e conformado, vivendo junto com aquelas pessoas, sentindo a alegria de Dica livrando o filho da picada da cobra para vê-lo seguir o Beato.

***

Anabel entrava e saía colocando ordem ao meu redor e sua beleza em meus olhos. A agonia no meu corpo se contentava com o que idealizava sem tempo e nem idade. Precisava de algum tipo de lembrança e escrevia meu amor sem gestos. Doía e doía.

Dei de não deixá-la entrar e ficar sentindo sua presença do outro lado da porta tentando me ouvir chorar baixinho. Ela me pensando em um momento de muita emoção, e eu entendendo tudo o que desentendia. Mas, gostava de sabê-la ali.
Parecia uma força dolorida me conduzindo por onde já andara; sentia como se toda a emoção vivida com minha arte e meus amores tivesse sido reunida para um tempo sem tempo em que estava vivendo. Vagava minha lucidez e loucura como coisas límpidas, o amargo de indignação, que me pôs em tanta luta... era como se fosse o meu não-real. Iria fazer uma travessia no menos animal da minha tristeza e dor. Sabia, mas não sabia. Não sabia, mas sabia.

Dei de reler tudo o que juntara na vida sobre a loucura, eram dias e dias somente de leitura tentando entender a minha, como achar maneiras de lidar com aquilo; vidas reais nascendo da minha arte; eu me transmudando em participar de momentos delas, só conseguindo descrever aqui tudo o que via e vivia com eles, na vida deles, na forma de falar deles. Vidas nascendo, irreais, do meu sentimento; Anabel sendo amada e lembrada na consumição da poesia, me inventando poeta para possuí-la mulher. Era como se lesse páginas em branco, um vazio. Sentia como sendo lido.

Qualquer coisa que tentasse ordenar me colocava frente à ausência do tempo que me tomava. O papel-barro surgia na minha frente como se saísse pronto da minha emoção. A espátula colada como extensão do braço, abraçava as formas e a cor de terra punha seu perfume no meu corpo... Depois, o cheiro abafado me queimava as narinas, e lágrimas tentavam apagar minhas chamas. Era a loucura com sua lucidez me libertando.

Um cansaço me derrubava e o normal se punha de novo na casa, a presença dela me acalmava e me confundia mais, levando-me a recordar as mulheres que tive na vida. Lembrava e ia reinventando a sensação das minhas mãos acariciando Anabel; o calor do meu hálito queimando sua pele e minha língua dando-lhe frescor quando a beijava inteira sentindo seu gosto, vestindo-me de seu corpo, de seu cheiro. Lembrava muitas mulheres para poder inventar esse amor... pedia emprestado os melhores momentos que trouxe da vida para, de alguma forma, vivê-los com ela.

***

À minha frente os contornos do rosto de Linoro. Por suas mãos, no Arraial dos Vaga-lumes, fui levado ao casebre; os dois animais, pele e osso, lambiam a terra e devoravam o próprio pêlo em movimentos mortiços. A criança restava no chão batido e apenas a mãe, de cócoras, com o choro infirmado pela fome, espantava as moscas varejeiras. Os outros da casa, junto à cacimba quase seca; esguridos lambiam o couro esticado nas varas em curtimento. Nem dor havia ali; pareciam padecer numa ausência de qualquer sentimento, de qualquer vontade; apenas pude sentir no grito da fome o íntimo da morte.

Vi, conduzidos por Antônio Conselheiro o que sobrou deles ser levado para o Belo Monte.

***

Morria todos os dias na sensação de esvaecimento, a ventura me reinando e me condenando. O sangue vinha de longe, sujava a memória que não tinha e limpava a que me havia. Era a dor atilada confundindo a solidão de tantos me ajudando a chorar. Por dentro fitavam-se, olho no olho, cada um querendo predominação, cada um com sua opressão e soberba rosnando. O Diabo e Deus trancados na vida, se fartando nos embates e morrendo juntos, devagar.

Clamava por Anabel - me dê as horas da tua presença, sonha meu corpo, tira a dor dos meus restos, da minha angústia; chora comigo para sempre!
Sentia, verso e controverso se misturando à urna viva. Sepultava toda a loucura. Era o povo do Belo Monte quem levava o caixão.

***

Na coberta, Leonila mexia o tacho fervendo a goma; Simeão de Caieira trazia amarrados de casca de angico e cuidava o fogo. Os filhos dividiam as tarefas - um carneando e coureando, outro tirando o relho e o mais velho carregando as tiras para o aloque - utilizavam os próprios fueiros da carroça nas forquilhas fincadas no terreiro, desde os tempos do avô, para fazer o jirau.

Na hora da goma pronta Leonila deu o sinal para a filha trazer as tiras de couro para dar fervura e fazer a sola. Na cozinha a mais nova fervia o chá de mangará para a tosse da mãe. Num canto, embaixo do banco, o menino cego de nascença abria as favas do feijoeiro... e assim a vida corria para eles no Belo Monte, quando apareci ali ferido de faca com um garrote de embira estancando o sangue.
Vim descendo a Favela por nenhum caminho, desprevenido de rumo, sem o de comer. Alapado durante o dia e cumprindo marcha na noite. Nenhuma pergunta fizeram, recebi uma taiada de carne e a farinha; contei do samango me furando e de como acabei com ele. Limparam a ferida banhando-a com manjericão e, com um lambedor que me deram, em pouco a livuzia foi embora e a leseira veio derreando.

Acordei aos cafus e no silêncio da casa vazia. Quis levantar, mas o corpo desobrigou no cansaço, ali fiquei com os pensamentos, sem saber direito onde estava e sem esforço para continuar fugindo. Ao longe, ouvia um canto de igreja; pensava que aquela família poderia estar me delatando, mas o que sentia era uma calma se pondo em volta.

Quando me pus de pé, Simeão de Caieira já estava lidando com o couro em cima do toco e as cintas amontoadas dum lado. Mal me viu, começou a furar e sem falar uma palavra, demonstrando apenas com jeitos, esperou ouvir minha história. Contei estar fugindo do mando da justiça por conta dum acerto de contas quando ainda era da polícia, no agreste pernambucano, sem enumerar direito o lugar, nem o porquê e nem como matei Alceu de Maria Mendonça.

Ouviu tudo enquanto furava o couro ritmando o bater do martelo na sovela como se a ferramenta traçasse um risco na tira.Com a voz calma levantou, entrou na casa de onde trouxe a vestimenta completa: chapéu de couro com o barbicacho de tira sem trançado, gibão, guarda, mombucabo, perneiras e matolão que me entregou, olhando minhas vestes arruinadas e rotas. Contou onde estávamos e pediu para me levar ao Conselheiro, lá no Santuário, antes de continuar fugindo.

Da conversa com meu Pai Conselheiro encontrei o caminho e meus temores. Com Simeão de Caieira, aprendi a lidar com um ofício; o traje que ganhei foi feito de irmandade e me abraça assim, na lida e na crença de sermos irmãos.

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YAMANDU COSTA E IVAN VILELA EM SÃO PAULO....

Fotografia Divulgação
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A Orquestra Infanto-Juvenil de Violões se apresenta nesta quinta-feira, dia 26, no Teatro São Pedro, às 21h. O recital terá a participação especial do violonista Yamandu Costa e do violeiro Ivan Vilela. No repertório, peças de Américo Jacomino, Tom Jobim, e outros grandes compositores.

A Orquestra Infanto-Juvenil de Violões é regida pelo maestro Claudio Weizmann. O show será em benefício do Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista.

Teatro São Pedro
Rua Barra Funda, 171
Barra Funda (próximo ao Metrô Marechal Deodoro)
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quarta-feira, 25 de março de 2009

VINICIUS DE MORAES - AMIGOS MEUS

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Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.

Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vós sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

Vinícius de Moraes
1965
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ANTONIO JURACI SIQUEIRA - BELÉM

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SEGUNDA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Para Joaquim Barp Quinan
e Francisco Barp Quinan
Do avô-menino

Espero que não tenham
Decifrado os códigos e vértices...
A mim não reclamaram
Por certo nem notaram
Os adultos são meio assim
Despercebem... despercebem...

Vamos correr de todas as igrejas
Nelas o que convém
Convém demais
É quase como uma verdade

Nelas a liberdade não entra
Porque uma vez ela entrou
E a vestiram tanto
Que quando saiu pensaram
Que era carnaval

Das gentes, os mais esquisitos
Pra esses
Tudo é proibido
E nunca vi ninguém inventar
Histórias mais requintadas

O jeito vai ser conviver
Com elas só como histórias
E olhá-los com o comum
Do olhar de quem
Convive a harmonia
Da liberdade com jeito
E por isso é respeitador

Cuidado
Recomendo aos meninos-netos
Para não sermos descobertos
Nessa confabulação
Há muitas maiorias
Nas crenças que sabem de tudo
E eles não gostam que a gente fale
Nada não
E eles podem estar
Vigiando os meninos-netos e o avô-menino
E propor até uma inquisição

MQ
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DADADÁ CASTRO, ZÉ LUIZ MANESCHY E ALCYR MEREILLES - BELÉM

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terça-feira, 24 de março de 2009

VELHO MENINO

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Velho menino
(Eudes Fraga / Marcos Quinan / Paulo Fraga / Iranildo Pereira)

Estou cada vez mais velho
E sou cada vez mais moço
Sou presa fácil do tempo
Da vida que é meu esboço
Não há muita diferença
Entre o homem e o menino
Tenho os dois no mesmo compasso
Quando traço meu destino

Tenho tudo o que vivi
Não deixei nada pra trás
Da lembrança sou refém
Da saudade muito mais
Na consciência o caminho
E a vontade de lutar
Meu amigo eu sou o mesmo
Nunca fui de engabelar

O amor
Que me espera
Tem desejo pendurado
Na janela do olhar
Sou feliz, a vida é bela
Meu amor não tem idade
Perto dela

Estou cada vez mais velho
E sou cada vez mais moço
Sou o senhor dos meus passos
Nos sonhos que não tem fim
Eu nunca conheci cansaço
O meu santo é meu padim
Meu torrão é quem me consola
Quando a dor esbarra em mim

Tenho tudo o que vivi
Não deixei nada pra trás
Da lembrança sou refém
Da saudade muito mais
Na consciência o caminho
E a vontade de lutar
Meu amigo eu sou o mesmo
Nunca fui de engabelar

O amor
Que me espera
Tem desejo pendurado
Na janela do olhar
Sou feliz, a vida é bela
Meu amor não tem idade
Perto dela


Piano : Adelson Viana
Baixo : Aroldo Araújo
Percussão : Hoto Junior
Violão : Eudes Fraga
Vozes : Eudes Fraga e Marcus Brito
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segunda-feira, 23 de março de 2009

ACADEMIA CORDISBURGUENSE DE LETRAS GUIMARÃES ROSA

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Fotografia: MQ
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Parabéns aos amigos da Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa pela eleição da nova diretoria e pelo trabalho que realizam.

Meu agradecimento pelo apreço de sempre.

MQ
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PRIMEIRA COMUNICAÇÃO CODIFICADA

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Joaquim Barp Quinan
Francisco Barp Quinan
Sou teu avô-menino
E proponho acordo
Táticas de desmembramentos
Tudo secreto porque decerto
Muitos não acharão que é certo
Envolvê-los tão cedo nessa epopéia

Foi quando eu era avô-filho
Que conheci
Ela estava em todo lugar
Mas desinteira
Porque as gentes
Achavam de prendê-la
Numas esquisitices

Sei só um pouco do
Antes...antes...antes...


Um que era mais forte
Tirava dum mais fraco
E a trancava dentro da sua força
Acho que foi assim que tudo começou
O fraco às vezes nem sabia o que era
Mas ficava mais fraco
Alguns não esqueciam os vestígios
Que ela deixava neles
E começaram a vê-la espalhada
Pelas coisas do mundo
E um primeiro
Decerto percebeu que era entre
Os homens a maior prisão

E esses uns
Os mais tolos
Numa diabeira danada
Dizem que a defendem
Que lutam por ela
Desde antes... antes... antes...
Mas tudo isso é medo puro
Os fortes não sabem lidar
Os fracos na maioria das vezes
Não a reconhecem
Por isso nossa campanha
Integrativa

Aviso aos atentos meninos-netos
Que a liberdade é sabida
E só por isso anda até hoje
Entremeada nos caminhos
De fortes e fracos
Quando a olharmos
Ela nos olhará
E devemos estar preparados
Para sempre trocar
O que formulamos nesse olhar

De tanto ser fragmentada
Pelo tempo afora
Se ela nos olhar com o olhar
Da liberdade que nos convém
Devemos tomar cuidados
Porque ela não é de ninguém
Quando parece ser só tua
Sempre é de mais alguém

Se olhar assintôtica
É coisa
Que pode ser que sim
E pode ser que não
Mas sempre é quando
E pro pai-menino é estando
Se for condicional, provisória...
Vigiada ou sob palavra
Não olha não, porque são
Fantasias que os homens
Fortes e fracos
Puseram nela
Para tentar nos enganar

De cátedra
Roupa de gala
Que só esconde
A beleza da nudez
Do seu jeito de olhar

Devemos ter muito cuidado
Com essas vestimentas
Imprensa, indiferença...
Linguagem, pensamento...
O guarda-roupa
É bem cheio
O melhor é olhá-la
Com a limpidez dela própria
Essa, deixaremos entrar

Vestida ou nua
Presa ou liberta
A cobiça ronda a dita
Não vamos roubá-la para nós
Deixamos o coração aberto
Para todas às vezes
Que ela quiser entrar

Assim ficamos acertados
Joaquim Barp Quinan
Francisco Barp Quinan
No que me ajudarão
Continuar encontrando
E assim encontrarão também

E poderão contar aos filhos
E aos filhos dos filhos
Que também ajudaram o avô-menino
Andar pela guerra no mundo
Para deixar a liberdade
Entrar nua, sem meias partes...
Por todas as partes do coração

Nosso código mais secreto
Vamos nos comunicar
Como os adultos porque assim
Eles não vão dar conta de decifrar

Nalguma emergência dessa lida
Consultem o pai-menino
Ele também a conhece
Vejo muitas vezes os dois juntos
Em mais emergência o tio Bola-menino
E a tia Nininha-menina
Eles também andam nessa labuta
Com o avô-pai desde
Um antes-antes pouco
No mais-mais emergência
A mãe-menina sabe querer
Ver a liberdade no coração

E eu
Avô-menino ajudado
Ajudo os meninos-netos
Tê-la assim
Até quando em definitivo
Ela vier
Na morte me levar


MQ
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CHICO LOBO - BRASÍLIA

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domingo, 22 de março de 2009

UM SEBASTIÃO DE NOVA JERUSALÉM

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Muito de cada pedra
Eu uni em construção
Pra formar um só cenário
E dar a história razão

Contando do homem santo
Que viveu em um sertão
Se arvorando duma vida
Transformada em lição

De joelhos um suplício
No meio de dois ladrões
Escolha de seus patrícios
Aceitas num lava-mão

Muito de cada pedra
Que descreve essa história
Declara e lavra
Seu modo de memória

Lugar de sacrifício
Calvário é meu sertão
Lugar de pouco ofício
Lugar de lutar em vão

Não sei cantar palavras
Versos, sei dizer não
Mas represento a vida
Que vaga com seu ferrão

Recito só o suor
Do meu corpo que é são
Vivendo desde menino
Pra boca tirar das mãos

Na mentira o atino
Fazendo propagação
Enquanto vivo no limo
Sou apenas nordestino
No nome de Sebastião
Na função, um Sebastião
Vivendo desde menino
Na unção, um Sebastião
Vivendo desde menino
Nordestino Sebastião

MQ e MAQ

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JOÃO DO PIFE

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João Bibi dos Santos, conhecido como João do Pife era considerado um gênio na arte de tocar o pífano. Filho de agricultores, João do Pife aprendeu a tocar pífano ainda criança, quando ajudava os pais nas lavouras de fumo, em Arapiraca. Dono de uma musicalidade ímpar e autodidata, o menino logo começou a ganhar fama e a ser reconhecido pelo talento.

Do final da década de 1960 até o final da década 1980, João do Pife viveu a fase áurea de sua carreira, realizando shows por todo o Brasil, acompanhando o humorista Coronel Ludogero e tocando com artistas de renome como Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

João do Pife, faleceu na Santa Casa em Maceió, em fevereiro de 2009, vítima de falência múltipla dos órgãos.
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PEQUENO SER - Camilo Delduque / Marcos Quinan

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Pequeno Ser
(Camilo Delduque / Marcos Quinan)


Um, dois, três, dei a volta no mundo
Três, dois, um, fiz o mundo girar
Acordei uma vez, giroflê
Outra vez acordei, giroflá

Vira mundo, gira mundo, deixa eu-mundo girar
Vira mundo, gira mundo, deixa eu-mundo girar

Vou cobrar do encanto aonde eu passar
Todo amor que existe para ser meu par

Um, dois, três, demorei um segundo
Três, dois, um, aprendi a sonhar
Eu cantei uma vez, tirolê
Outra vez eu cantei, tirolá

Vira mundo, gira mundo, deixa eu-mundo girar
Vira mundo, gira mundo, deixa eu-mundo girar

Vou cobrar do encanto aonde eu passar
Todo amor que existe para ser meu par

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Violão e voz: Camilo Delduque.
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sábado, 21 de março de 2009

JOGO DA VIDA


Em cada rodada
No jogo da vida
Sensatez é promessa
De quem quer ganhar

No imprevisto
De cada jogada
Ninguém banca a ordem
Que ela quer dar

De tudo que há
A crença é forte
Mas tome cuidado
Quando ela blefar

No jogo da vida
Se perde e se ganha
Sem saber direito
Se é sorte ou azar

MQ

O POVO DO BELO MONTE VIII - Brás Teodoro

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***

A tristeza por Anabel. Nem lembrava de quando me contou do desquite, do filho perdido e da culpa que sentia por tudo isso. Ela chorava uma emoção de tristeza - diferente de quando viu um de meus trabalhos - que continha tanta nostalgia. Parecia parir toda dor que eu embalava, calando a minha.



Como não a vi por muitos dias pensei: teria me contado coisas que não queria? O bilhete que encontrei na cozinha com um volto logo esclareceu e me mostrou o quanto eu iria sentir sua falta. Parecia que uma parte de mim tinha sido arrancada sem deixar cicatriz, um mais profundo. E foi assim que, naqueles dias, na sua ausência derramei a poesia das minhas lembranças, enlouquecendo a loucura.

***

E eles vinham aos poucos e me levavam para a lembrança de suas vidas me dando as mãos e contando:


– Sou Maria de Sassá, trocada em menina por favorecimento no dolo do pai com um poderoso do lugar. Vivi alguns anos nas terras do Mutacará, existindo só para a boca e a conformação, longe de qualquer tipo de afeto, servindo com o tempo todo da vida e com o viço que o meu corpo ganhava nos anos.


Afora a boa lembrança já quase apagada da infância, rezas e brincadeiras que restavam embaralhadas na saudade, meu único bem lembrar foi o dia em que o Beato passou e deixou muitas palavras ressoando no meu pensamento. A ele, fui apontada como sobrinha, sozinha no mundo, acolhida ali.


Como se nascesse na infância de novo, nunca me lembrava de ter visto na vida um homem de Deus que aparentasse o comum dos homens; que falasse com simplicidade da fé, nas pessoas e no alcance que qualquer um tinha com seu trabalho.


Na secura dos dias e da caatinga, a pregação do beato foi deixando nascer um outro tipo de conformação e o mesmo que alguma alegria nas pequenas coisas do meu todo dia.


Num deles, aconteceu de repente: lidava com a borrega no cercado quando percebi vindo de toda direção, um enxameado de homens bem armados atirando pra todo lado. Foi o tempo de me agachar saindo das vistas. Dali, assisti ao bando confirmar a punhal todas as mortes, uma por uma. Exceto o grito de surpresa e alguma reação pouca, o que ouvi foi um comando para que todos saíssem e esperassem no mato. Daquele que falava, só via o tronco emoldurado pela janela; as mãos lavravam um pedaço de pau como se brincasse naquela hora; parecia fazer uma cunha de madeira para cravar no peito de Quelém; aquele era só com ele, dizia a voz profunda e pungida. Esperei tremendo o corpo todo.


Ouvi a mesma voz gritar para Quelém: - seu filho duma égua! - Que tirasse a roupa toda, ficasse nu que iam ter uma conversa comprida.


De onde estava, mal respirava com medo de ser descoberta, mas via por entre a cerca; meus olhos gastavam a coragem que parecia não ter; iam de ponto a ponto da cena ouvindo a voz ser obedecida por Quelém, nu, encostado no gaveteiro, abrindo a gaveta e enfiando as partes dentro, obedecendo.


Quando achei a fresta para melhor ver, as costas do poderoso sangravam nas picadas da lambedeira imputadas pelo chefe daquela chusma. Com o orgulho massacrado pela firmeza das ordens dadas, não obedecia sem entender. Tentava falar alguma coisa, argumentar, saber o porquê daquele ataque e era imediatamente calado pelo aço picando as costas.


Até então não tinha visto Lineu de frente, agora via fechando a gaveta, esmigalhando no canto os testículos de Quelém; aproximou-se do móvel pelo outro canto onde cravou as pequenas cunhas no encaixe da gaveta, batendo com a mão de pilão até lacrar. No outro canto gemendo a maior das dores, Quelém parecia um animal. Só aí pude ver melhor seu rosto mirrado num olhar frio e impassível, esperando os gritos ressoarem para começar a falar abaixando a voz.


Pausadamente, contou quem era e por que estava ali; deu o nome da mãe violada e morta, com detalhes até de como ficou cada corpo estirado no chão, do pai, dos irmãos, da avó sangrada doente dentro da rede. Repetiu imagens e palavras nunca esquecidas durante mais de vinte anos; o quanto esperou a vingança, o quanto foi difícil depois de saber onde vivia Quelém como homem honrado depois de abandonar a vida de bando; agüentar os dias todos de preparar seu ódio para o dia e a hora. Essa chegada, sem pressa, ia falando lentamente que não o mataria. Ia deixar para sua escolha como seria sua morte, única benevolência na vingança sonhada.


De onde estava, vi quando ele fincou a lambedeira no móvel ao alcance da mão de Quelém pálido de dor. Sumiu das vistas até recender no ar a fumaça com cheiro de couro queimado. Apareceu mais uma vez no vão da janela, desejando a Quelém toda a dor do mundo - se resolvesse usar o punhal sem corte ou se preferisse que se matasse antes de começar a queimar ali mesmo- e que o inferno lhe fosse tanto quente quanto eterno.


As labaredas quase tomavam a casa toda quando Lineu ainda jogou o pote d’água no gaveteiro para que ele queimasse por último saindo correndo por entre as chamas. Parou no terreiro e se benzeu sem se virar.


De onde estava, me enchi de coragem e, num ímpeto, segui ele de longe pelo meio da caatinga.


- Com Lineu, um dia levamos nossas vidas pro Belo Monte. Terminou de contar.


Eu estava com eles quando entraram no santuário vazio àquela hora; rezaram entrecortando silêncios num jeito de fé, querendo viver uma vida diferente.

***
MQ
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sexta-feira, 20 de março de 2009

EMBRIAGADOS

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A conversa se arrastou por mais de duas horas. Mágoas, demandas, traições e ressentimentos era um rascunho se desenhando.


Justificavam o que parecia justo. Um afirmava o amor. Outro escolhia não amar mais e dizia isso claramente. Os dois estavam mentindo.

Metáforas tiraram a afiação das palavras. Deslealdades, covardias e falta de limites foram imputadas a razões egoístas, como coisa do humano convivendo no amor.

Os melhores momentos não faziam parte daquele ato.

O que um idealizou do outro não estava mais no gesto dos olhos, tinha se perdido em momentos diferentes. Fazia falta.

Para um, viver tudo que pudesse. Havia muita vida em si. Para o outro, o melhor do que tivesse, havia muita morte em si.

Na mesa, a toalha manchada de molho, a bebida que não embebedava. Era um momento comum.

Quantidade e qualidade provavam da mesma perda, a verdade dizia suas mentiras e a mentira, suas verdades.

Em volta, na outra mesa, a decepção começava a beber com o ódio; o perdão pedia a conta e tentava retirar o amor e a paixão embriagados do local.

MQ
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SÃO JOSÉ DILIGENTE

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Transmudados para o longínquo
Um tempo de noites escuras
Entre relheiros, sementes, fogueiras,
Dominâncias e sonhos de liberdade

Assim cantamos essa liturgia leiga e viva
Exéquias tardias e necessárias
Entrançadas nas mãos
Dos parceiros Marco Antonio Quinan, Fernando Carvalho,
Fernando Merlino, Henrique Pereira Alves e Eudes Fraga
Que conduzem a vontade muda das palavras
Que nossa história escasseada,
Descurada, não quer contar...

Entrelaçados na sensibilidade
De Roberto Stepheson , Pantico Rocha, Priscila Barp
e Marcelo Quinan
Junto com os companheiros,
Victor Astorga, Marco Milagres, Renata Ribeiro, André Cunha
Daniel Cunha, Ocelo Mendonça, Adelson Viana, Elias Correa,
Paulo César Pinheiro, Luciana Rabello, Pedro Amorim e Waldonys
Entregamos esse trabalho à memória
E aos descendentes dos mortos do Brigue Palhaço
E a amizade de Edyr Augusto Proença

Santa Maria do Belém do Grão Pará, novembro 2004.


MQ


Relação dos mortos no Brigue Sam José Diligente (Brigue Palhaço), Pará, Brasil, 1823.

Manoel de Freitas, soldado da cavalaria
Lourenço Ginsimiano, da dita
André José, da dita
Henriques Antunes, da dita
Joaquim Crisóstomo, da dita
Manoel de Mello Cruz, da dita
Filippe António, da dita
Lourenço Gracimiano, da dita
António Duarte, da dita
Joisé Eugenio, sargento
João Pedro, furriel da artilharia
Joaquim Marques, soldado da dita
António Marcelino, da dita
Manoel António Tambor, da dita
Manoel Georges, soldado da dita
Agostinho Nunes, furriel do primeiro regimento
João José do Espírito Santo, furriel da dita
José dos Santos, soldado da dita
Custódio José da Câmara, cabo do segundo regimento
Filippe Maciel, soldado da dita
António Joaquim, soldado da dita
Jerônimo Barbosa, soldado do terceiro regimento
Manoel Pereira do Amaral, da dita
Zidoro Pestana, da dita
Francisco José, paisano
António Nicolao, terceiro regimento
Florentino Ignácio, capitão de artilharia miliciana
António Fernandes, sargento do terceiro regimento
Manoel Garcia, sargento da dita
Hilário de Souza, furriel do primeiro regimento
Bento António, furriel de artilharia
Manoel Maria, cabo do primeiro regimento
Manoel Pereira, cabo de artilharia
José Firmin Nunes, cabo
Ângelo da Trindade
José Anastácio
José Pereira da Silva
Lourenço António
Candido de Oliveira
Eleutério António
Joaquim da Costa
Luiz Bertame
Raimundo de Souza
Anselmo de Moraes
Manoel José Bentes
José Joaquim
Filippe Sam Thiago
Raimundo António
Carlos José Francisco
João Coutinho
Clemente Diniz
Manoel António Lopes
Manoel do Nascimento
José Bento
António José
Ângelo José de Melo
Gregório José
Francisco José da Ponte
Francisco António
José Lopes
Antonio da Motta
Miguel dos Anjos
Apolinário António
Manoel António
Joaquim Bento
Eusébio Rodrigues
Gregório Rego
Filippe Sam Thiago
José António
Eleutério da Rosa
Joaquim da Silva
Domingos José Monteiro
Feliciano António
Manoel Higino
Feliciano António
Manoel Higino
Manoel Luís
Lourenço António
Barnabé Ferreira
Martinho Pedro
Cosme Deos
João Baptista
Henrique José
José Bonifácio
António Francisco
José Alberto
Lourenço Gomes
Victorino Lopes
Manoel Raimundo
Francisco Saraiva
António Rodrigues Bento
Joaquim de Sant'Ana
Lourenço Ferreira, paisano
Manoel Luís, soldado da cavalaria
António José da Silva, da dita
Francisco Joaquim, da dita
Sabino José Gonçalves, da dita
Victorino António, da dita
Gregório António Duarte, da dita
Raimundo José, da dita
Theodofio Constantino, da dita
José Domingos, soldado do primeiro regimento
José da Silva Gomes, da dita
Manoel Martins e Melo, soldado da dita
Manoel Barbosa, soldado da dita
Francisco José de Jesus
José Raimundo Vieira, da dita
Pedro Alexandrino, da dita
João Airol de Melo, soldado de artilharia
Francisco Simões, soldado da dita
Braz Coelho, soldado da dita
Joaquim, soldado
António Rodrigues
José de Assunção, soldado
José Nunes Barreto
Manoel Joaquim, miliciano
Zeferino José da Silva, paisano
Manoel António, artilheiro
Thomé de Moraes, artilheiro
Daniel Duarte, paisano
Marinho José de Sousa, segundo regimento
Manoel Soares, da dita
Américo José, artilheiro
José Domingos, da dita
João Pedro, terceiro regimento
Luis Filippe, cabo do segundo regimento
Luís António Correa, da dita
Manoel Pedro, do primeiro regimento
Domingos António, da cavalaria
Lourenço Xavier, da dita
Domingos António, do primeiro regimento
João Baptista, da dita
Joaquim Manoel
Francisco Candido, da dita
Christovão Manoel, segundo regimento
Bernardo António Fernandes, paisano
Sebastião Raimundo,cabo de cavalaria
António Filippe, primeiro regimento
Domingos Pereira, artilheiro
António José, terceiro regimento
Frutuoso da Costa
Manoel José da Silva, da dita
Joaquim José, soldado do terceiro regimento
Manoel Gomes, bombeiro
José António Gomes, do primeiro regimento
Germano José, mulato escravo
João Maria, miliciano
José Martins
José Leandro, paisano
José António das Rosas, dita
Manoel António, dita
António Pereira dos Santos
Francisco Raimundo, da dita
Fernando José, artilharia
José Manoel Pereira, dita
Gregório José Joaquim, bombeiro
Mauricio Joaquim dos Santos, primeiro regimento
Gabriel Araújo, do terceiro regimento
Raimundo dos Anjos, terceiro regimento
Manoel Simões, terceiro
Leão Pedro
Manoel Domingos, paisano
Raimundo Rodrigues das Neves, sargento do terceiro
Feliciano António dos Santos, furriel da cavalaria
José Raimundo, sargento do primeiro
Raimundo José da Silva, furriel de artilharia
José Rodrigues, furriel do terceiro regimento
Fidelis José, da dita
Manoel George, artilharia
Manuel Joaquim Gomes, sargento dos bombeiros
Leandro de Sousa, primeiro regimento
José do Espirito Santo, da dita
Caetano José Pinto, furriel de cavalaria
António Fabino, furriel da terceira
Raimundo Manoel do Sacramento, sargento da cavalaria
Joaquim Pereira Reges, furriel da artilharia
António da Silva, furriel do segundo
Cláudio António Borralho, sargento
João Damasceno Manuel, primeiro regimento
Lucas António, sargento da artilharia
Ignácio José da Maia, cabo do primeiro
Lázaro José Gonçalves, cabo da dita
Manuel Martins, furriel de artilharia
Miguel Arcanjo, sargento artilharia
Vicente Pereira Tavares, sargento do terceiro
António Francisco Barbosa, sargento do segundo
Bernardo Monteiro, furriel do segundo
José de Jesus, cabo do terceiro
Venceslau António Lobato, furriel do segundo
Francisco José, miliciano
José da Gama, cavalaria
Francisco José Soares, dita
Eugenio Rodrigues, cavalaria
Germano António, cavalaria
Manoel Lucian, cavalaria
José Neves Bento, dita
Francisco António, dita
Manoel do Nascimento, dita
Theodofio Bandeira, da dita
Feliciano Ramos, dita
Lourenço Francisco, dita
António Caldeira, dita
Basílio José Andrade, dita
Luís Carlos, dita
Manoel Luis, soldado do segundo regimento
Elisário José, dita
Vitorino José, dita
Manoel de Jesus
Alexandre da Silva, dita
Manuel Gaspar, dita
João Alberto, dita
Manoel Lourenço, dita
Manuel Bernardes, dita
Domingos António Pereira, dita
António Rodrigues Vieira
Bartolomeu Rodrigues, dita
Anacleto José, dita
Manuel Rezende, dita
António Nascimento
Manoel José Lopes, soldado do terceiro
José Miguel, dita
Manoel do Nascimento, dita
Manoel Estevão, dita
Francisco José
João Crisóstomo Tambor
Romão Gonçalves, dita
Romualdo Ferreira, soldado
Policarpo António, dita
João Florêncio, dita
João Raimundo, soldado do primeiro
Mário Pereira, artilharia
Manoel de Sousa, dita

Nomes ilegíveis
_________ José, da dita
_________ Filippe, da dita
"Florentino Aloez", cabo do segundo
_________ António
"Aleissandre" Nunes
José de __________
________ Gomes
Manoel ___________
"Atanásio" de Sam Thiago
"Filizardo José
_________ , furriel do terceiro
__________ , miliciano
__________ João dos Santos, soldado
Serafim dos "Paiol", primeiro regimento
"Genevaldo" Joaquim, paisano
Bernardino____________, cabo da artilharia
José " Narciso" , cabo da dita
José do ____________, dita

Os quatro sobreviventes:
Lourenço Ginsimiano
Sabino José Gonçalo
António Duarte, furriel do regimento da cavalaria
Apolinário António, artilharia

Fonte:
Translado de Devassa dos mortos do Sam Jose Diligente,
Fundo do Supremo Tribunal , códice BU181
Arquivo Público Nacional, Rio de Janeiro.


Pesquisa : Célia Gomes

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SÃO JOSÉ DILIGENTE - Eito

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Eito
(Marcos Quinan / Marco Antonio Quinan)

Arranjo: Fernando Merlino
Fernando Merlino - piano elétrico
Pantico Rocha - percussão
Marco Milagres - baixo acústico
Renata Ribeiro - viola
André Cunha - violino 1
Daniel Cunha - violino 2
Ocelo Mendonça – cello
Participação especial:
Pedro Amorim – bandolim

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RUY GODINHO - RODA DE CHORO

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ESPECIAL MODINHA

O RODA DE CHORO deste sábado é especial. Vamos nos dedicar a conhecer algo mais sobre a Modinha, gênero musical que, juntamente com o lundu, foram as raízes principais da música popular brasileira. E da qual derivou a música de seresta, as cantigas e, posteriormente, a canção.
No século XVIII fez grande sucesso na corte, atestado pela quantidade de citações de poetas, cronistas e viajantes da época e pelo lançamento, em Lisboa, do Jornal de Modinhas, periódico quinzenal (1792/1796), criado para a divulgação de partituras do gênero.
Apontado como seu criador Domingos Caldas Barbosa (1740/1800) foi também o responsável por sua difusão em Portugal.
No final do século XVIII o gênero decaiu nas terras lusas, mas ganhou força no Brasil, onde se consolidou, mantendo-se vivo até o início do século XX.
Na parte musical uma seleção de modinhas do século XIX e XX, entre elas: Lua Branca (Chiquinha Gonzaga), Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo), Quem Sabe? (Carlos Gomes), Rasga Coração (Anacleto de Medeiros/Catulo da Paixão Cearense), Ontem ao Luar (Pedro de Alcântara/Catulo), No Tempo dos Quintais (Sivuca/Paulinho Tapajós) e outras.

Ouça pela internet:
Rádio Câmara, Brasília:
www.radio.camara.gov.br (rádio ao vivo), sábados, 12h.
Rádio Roquette Pinto, Rio de Janeiro:
www.fm94.rj.gov.br
terças e quintas-feiras, 14h; quartas e sextas-feiras, às 2h.
Rádio Universidade FM, Londrina-PR, quintas-feiras, 22h.

Produção e Apresentação: Ruy Godinho
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ALMIRZINHO GABRIEL - SÃO PAULO

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quarta-feira, 18 de março de 2009

ENTREATOS - Despedida

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Disso me encarrego, dos teus sapatos, da lógica dos teus vestidos, dos pequenos acertos – de lembrar, de esquecer, de guardar.


Não misturo minhas mãos a tapas e agressões, meu egoísmo é solidário e solitário – o tempo não pode voltar.

Vai que haverá ainda muitas noites de luar, pisa neles, posa neles – deslumbra.

Meu caminho nunca se acabará, não tenho destino, o que me ungiu foi dor de mundo – nada acalmará.


Disso me encarrego, do teu sentimento, da mágica de algum momento, de não te esquecer – minha estatura.

Não misturo o que não pondero, um poeta pode dizer minhas palavras e ser em vão – desacato e sei desatar o azar.

Vai que é vida, o mundo escolhe e se deixa escolher, a sede de algum ponto de vista, está na água – nasça na sua viagem.

Meu rosário é desigual, contém todos os erros que são o meu jeito também, contém o direito pertinente de tê-los – meus algozes.

Disso me encarrego, da mentira das mãos, do que não era preciso, e da urgência de algum olhar; me encarrego do silêncio – maior palavra.

Não misturo o que me deste com o que fizeste calar, subestimaste minha hora e a obra-prima que foram os instantes - amarga boca.

Vai, a cena é tua, freqüenta o perigo de ser feliz, a necessidade do teu corpo poderia ser o meu e a dele o teu, era tempo ainda, mas deixa a tristeza do nosso amor no silêncio – bebo a falta.

Esse é meu tanto de mágoa transposto para o amor que carrego – tanto e tão pouco.

MQ

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MARIELZA TISCATE - Tentáculos

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TENTÁCULOS

Abri minha boca pra você e disse:
Sopra, vamos, sopra
Você veio vindo:
Não entendo o que quer com isso
Sopra você aqui dentroE vou ficar preso aí?
Só quero o seu sopro
Mas eu sou meu sopro
Ah... então

Ofereci meus ouvidos a você e disse:
Fala, vamos, me fala
Você veio vindo:
Não entendo o que quer com isso
Sorverei idéias
Mas, por que?
Só converse
Não posso, eu sou minha idéia
Ah... então

Ofereci meu corpo a você e disse:
Pega, vamos, me pega
Você veio correndo:
Hum... isso eu entendo
Sopra aqui dentro
Sim.. sim...
Fala... me fala...
Falo sim, falo o que quiser

Ah... então... adeus!
Não quero só tentáculos

Marielza Tiscate

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OFICINA SEU ESTRELO E O FUÁ DO TERREIRO - BRASÍLIA

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terça-feira, 17 de março de 2009

RELEMBRANDO

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Relembrando
(Marcos Quinan / Marco Antonio Quinan)

Arranjo: Fernando Merlino
Fernando Merlino - piano elétrico
Roberto Stepheson - sax soprano
Marco Milagres - baixo acústico
Renata Ribeiro - viola
André Cunha - violino 1
Daniel Cunha - violino 2
Ocelo Mendonça - cello

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NASCIMENTO



Teu amor é recorrente
Porque foi anseio
E sonho imantado na solidão

Meus braços entorpecidos
Adivinhavam tua existência
Antevendo o corpo ridente
Jorrando saudades

Insonoro e triste
Andava estradas
Supondo viço de juventude
Dormindo em quintais
Colhendo janelas e portas abertas
Deixando cheiro em muitos seres
E guardando o deles em mim

Queimando labaredas inteiras
Encruzilhadas marcaram minha pele
Pequenas pedras se cravaram
Na coragem dos meus pés

Estradas nuas me andaram

Cruzei pontes que não ligavam nada
E outras deram no silêncio da tua vida
Ainda não nascida diferençando
Meus passos dos outros caminhantes

As luzes que faiscavam já eram teus olhos

A cobiça não era igual
Meus gestos destoados e leais
Perdiam-se em cada rama de capim
Nenhuma margem me adivinhava

Exposto ao sol
O vento me bulindo
As noites vinham umedecidas
Apertando as luzes com a escuridão

Palavras habitavam meus pensamentos
E comiam minha voz
Tu haverias de viver no meu silêncio
E degradar meus medos
Nasceste despudoradamente
No meu corpo
Em todos sentidos

Amor inaugural e não sabido
Que carreguei
Por campos plantados
E áridos lugares
Esperando as manhãs

Havias de nascer
Da primeira palavra que ouvi
Quando ainda estava no ventre
Gravitando em seios

Insonoro e triste
Já levava para tua boca
O sal das lagrimas do mundo
Triscando verdades

Quantos chicotes atormentei
Com o vergalho da minha sede
E respingos do orvalho
Que esparramava ao caminhar

Juntando surgências e espinhos
No meu andar capineiro e agudo
Misturei rumos sucedentes
Coleando o pensamento
Mas deixando sinais

A musica silenciosa sustentou o ar
Que sufocava meus pulmões
Com a urgência das mãos
E a boca cheia de palavras

Um lajeiro fecundou os dois rios
Que nasceram dos meus pés
E a distância do mar ficou esperando
Para calçá-los, tudo serve...

No que se desordena
A miséria pula nos caminhos
Esperando que um deus haja
Que um demônio já tenha agido
Que a desrazão esteja em alguém
Colhendo as sobras da ignorância
Minha boca cheia de palavras
Vomitou puro impudor

Quis conquistar a solidão
Feitiço de mel e fel
Martelando dolente,
Explicitamente, semovente,
Passeando pelos sete planos
Emanando indisfarçáveis conveniências
Esperando amanhãs
E o embate perdido nas mãos
Desmaterializadas com verdades

Caminho anônimo, meu ato
Com o amor resplandecendo nos olhos
Nunca esqueci meus sonhos
Pelos cantos do mundo
Nos pés, uma única direção,
Doloridos tornaram
Disfarces e se puseram
Sempre à minha frente

Tempos de descaminhos
De bebida forte tomada só
Em volta de fogo frio
Nas noites sem lucidez
Com a pátria sangrando dentro
Da minha angústia e a boca
Suja de palavras querendo
Engolir a escuridão da margem

Vomitando indizíveis promessas
Um louco passou
Um sino bateu
E a distância saudou
Mudando a pele da lembrança
Que não fez ninguém dançar
Os olhares amativos
Vingaram no meu corpo
Nasceste...


MQ
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MACHADO DE ASSIS

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Publicado em A Semana - Gazeta de Notícias em 22/07/1894


ANTÔNIO CONSELHEIRO é o homem do dia; faz-me lembrar o beribéri. Eu acompanhei o beribéri durante muitos anos, pelas folhas do Norte, principalmente do Maranhão e do Ceará. Via citadas as pessoas que adoeciam do mal, que eu não conhecia e cujo nome lia errado, carregando no i: lia beribéri. Confesso este pecado de prosódia, esperando que os meus contemporâneos façam a mesma coisa, ainda que, como eu, não tenham outros merecimentos. Quem tem outros merecimentos, pode claudicar uma vez ou duas. Ao duque de Caixas ouvi eu dizer – míster; mas o duque tinha uma grande vida militar atrás de si. Que feitos militares ou civis tem um senhor que eu conheço para dizer eleiçãos?

Mas, tornando ao meu propósito, eu li os casos de beribéri por muitos e dilatados anos. Acompanhei a moléstia; vi que se espalhava pouco a pouco, mas segura. Foi assim que chegou à Bahia, e anos depois estava no Rio de Janeiro, de onde passou ao Sul. Hoje é doença nacional. Quando deram por ela, tinha abrangido tudo. Ninguém advertiu na conveniência de sufocá-la nos primeiros focos.

O mesmo sucedeu com Antônio Conselheiro. Este chefe de bando há muito tempo que anda pelo sertão da Bahia espalhando uma boa nova sua, e arrebanhando gente que a aceita e o segue. Eram vinte, foram cinqüenta, cem, quinhentos, mil, dois mil; as últimas notícias dão já três mil. Antes de tudo, tiremos o chapéu. Um homem que, só com uma palavra de fé, e a quietação das autoridades, congrega em torno de si três mil homens armados, é alguém. Certamente, não é digno de imitação; chego a achá-lo detestável; mas que é alguém, não há dúvida. Não me repliquem com algarismos eleitorais; nas eleições pode-se muito bem reunir duas e três mil pessoas, mas são pessoas que votam e se retiram, e não se reúnem todas no mesmo lugar, mas em seções. Casos há em que nem vão às urnas; é o que elegantemente se chama pico de pena. Uns dizem que este processo é imoral; outros que imoral é ficar de fora. Eu digo, como Bossuet: “Só Deus é grande, meus irmãos!”

Como e de que vivem os sectários de Antônio Conselheiro? Não acho notícia exata deste ponto, ou não me lembro. Se não têm rendas, vivem naturalmente das do mato, caça e fruta, ou das dos outros, como os salteadores. A verdade é que vivem. A crença no chefe é grande; Antônio Conselheiro tem tal poder sobre os seus amigos, que fará deles o que quiser. Agora mesmo, no primeiro ataque da força pública, sabe-se que eles, baleados, vinham às fileiras dos soldados para cortá-los à facão, e morrer. Entretanto, eles têm amigos estabelecidos à sombra das leis. Um telegrama diz que de Alagoinhas mandaram pólvora e chumbo ao chefe. Apreenderam-se caixões com armas Comblaim e Chuchu. Dizem as notícias que não se pode destruir tal gente com menos de seis mil homens de tropa. Talvez mais; um fanático, certo de ressuscitar daí a quinze dias, como ele assegura, vale por três homens.

Há um ponto novo nesta aventura baiana; está nos telegramas publicados anteontem. Dizem estes que Antônio Conselheiro bate-se para destruir as instituições republicanas. Neste caso, estamos diante de um general Boulanger
[1], adaptado ao meio, isto é, operando no sertão, em vez de o fazer na capital da República e na câmara dos deputados, com eleições sucessivas e simultâneas. É muita cousa para tal homem; profeta de Deus, enviado de Jesus e cabo político, são muitos papéis juntos, conquanto não seja impossível reuni-los e desempenhá-los. Cromwell derrubou Carlos I com a Bíblia no bolso, e não ganhou batalha que não atribuísse a vitória a Deus. “Senhor – escrevia ele ao presidente da Câmara dos Comuns, - senhor, isto é nada menos que Deus; a ele cabe toda a glória”. Mas, ou me engano, ou vai muita distância de Cromwell a Antônio Conselheiro.

Entretanto, como a alma passa por estados diferentes, não é absurdo que o atual estado da do nosso patrício seja a ambição política. Pode ser que ele, desde que se viu com três mil homens armados e subordinados, tenha sentido brotar no espírito profético o espírito político, e pense em substituir-se a todas as Constituições. Imaginará que, possuindo a Bahia, possui Sergipe, logo depois Alagoas, mais tarde Pernambuco e o resto para o norte e para o sul. Dizem que ele declarou que há de vir ao Rio de Janeiro. Não é fácil, mas todos os projetos são verossímeis e, dada a ambição política, o resto é lógico. Ele pode pensar que chega, vê e vence. Suponhamos nós que é assim mesmo; que as calamidades do tempo e o espírito da rebelião se dão com as mãos para entregar a vitória, ao chefe da seita dos Canudos. Canudos é, como sabeis, o lugar onde ele e o seu exército estão agora entrincheirados. Isto suposto, que será o dia de amanhã?

Lealmente, não sei. Não sou profeta. Se fosse, talvez estivesse agora no sertão, com outros três mil sequazes, e uma seita fundada. E faria o contrário daquele fundador. Não viria aos centros povoados, onde a corrupção dos homens torna difícil qualquer organização sólida, e o espírito de rebelião vive latente, à espera de oportunidade. Não, meus amigos, era lá mesmo no sertão, onde os bichos ainda não jogam nem são jogados; era no mais fechado, áspero e deserto que eu levantaria a minha cidade e a minha igreja.

Antônio Conselheiro não compreende essa vantagem de fazer obra nova em sítio devoluto. Quer vir aqui, quer governar perto da rua do Ouvidor. Naturalmente, não nos dará uma Constituição liberal, no sentido anárquico deste termo. Talvez nem nos dê uma cópia ou imitação de nenhuma outra, mas algumas cousa inédita e inesperada. O governo será decerto pessoal; ninguém gasta paciência e anos no mato para conquistar um poder em entregá-los aos que ficaram em suas casas. O exemplo de Orélie-Antoine I (e único), rei dos Araucânios, não o seduzirá a por uma coroa na cabeça. Cônsul e protetor são títulos usados. Palpita-me que ele se fará intitular simplesmente Conselheiro, e, sem alterar o nome, dividi-lo-á por uma vírgula: “Antônio, Conselheiro, por ordem de Deus e obediência do povo...” Terá um conselho, câmara única e pequena, não incumbida de votar as leis, mas de as examinar somente, pelo lado ortográfico e sintático, pelo número de letras consoantes em relação às vogais, idade das palavras, energia dos verbos, harmonia dos períodos, etc., tudo exposto em relatórios longos, minuciosos, ilegíveis e inéditos.

Venerado como profeta, obedecido como chefe de Estado, investido de ambos os gládios, com as chaves do céu e da terra na gaveta, Antônio Conselheiro terá o seu poder definitivamente posto? Como tudo isto é um sonho, sonhemos que sim; mas Oliveiro terá um Ricardo por sucessor, e a obra do primeiro perecerá nas mãos do segundo, sem outro resultado mais que haver o profeta governado perto da rua do Ouvidor. Ora, esta rua é o alçapão dos governos. Pela sua estreiteza, é a murmuração condensada, é o viveiro dos boatos, e mais mal faz um boato que dez artigos de fundo. Os artigos não se lêem, principalmente se o contribuinte percebe que tratam de orçamento e de imposto, matérias já de si aborrecíveis. O boato é leve, rápido, transparente, pouco menos que invisível. Eu, se tivesse voz no conselho municipal, antes de cuidar do saneamento da cidade, propunha o alargamento da rua do Ouvidor. Quando este beco for uma avenida larga em que as pessoas mal se conheçam de um lado para outro, terão cessado mil dificuldades políticas. Talvez então se popularizem os artigos sobre finanças, impostos e outras rudes necessidades do século.

[1] Militar e político francês Boulanger, provocador de
um acesso de febre militarista que ameaçou as instituições republicanas daquele
país entre 1885 e 1889.

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VITAL LIMA - Chão do Caminho

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segunda-feira, 16 de março de 2009

ACORDE BRASILEIRO

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ABC DAS ACROSSEMIAS

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as letras formam siglas
bastando que ao se juntarem
combinem em cada logro
dividir ao se repletarem

em cada grupo que formam
fraternos são os caminhos
ganâncias se articulam
há para todos, escaninhos

importa não ter conteúdo
jurando como tivesse
kubitschek deixo de fora
labor que foi inconteste

mas junte todas que engodo
não se separa facilmente
onde letras formam embuste
presumem-se impunemente

quem entra não quer sair
recorre por toda vida
sem pudor com o lugar
tramando por onde siga

uma forma de rapina
vendida em cada bravata
xeleléu de quem dá mais
zanzando fora das atas

o y e o w desse abc
corresponde ao povo inteiro
difícil de ser versado
mas fácil de se conter
é só espalhar a esmola
pra ele nem perceber
quem vive dentro de siglas
no vício só do poder
parecem mais estrupícios
que homens em seu valer
merecem formar agora
nas letras desse abc
a.p.r.o.v.e.i.t.a.d.o.r.e.s
f.a.c.i.n.o.r.a.s
c.a.n.a.l.h.a.s
conveniências de cada mercê

MQ

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NICE PINHEIRO - LEI DO CAMINHÃO DO LIXO ...

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Um dia peguei um táxi e fomos direto para o aeroporto. Estávamos rodando na faixa certa quando de repente um carro preto saltou do estacionamento na nossa frente. O motorista do táxi pisou no freio, deslizou e escapou do outro carro por um triz!

O motorista do outro carro sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós. O motorista do táxi apenas sorriu e acenou para o cara. E eu quero dizer que ele o fez bastante amigavelmente. Assim eu perguntei: 'Porque você fez isto? Este cara quase arruina o seu carro e nos manda para o hospital!'

Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que eu agora chamo 'A Lei do Caminhão de Lixo".

Ele explicou que muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por aí carregadas de lixo, cheias de frustrações, cheias de raiva, e de desapontamento. À medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar, e às vezes descarregam sobre a gente. Não tome isso pessoalmente. Apenas sorria, acene, deseje-lhes bem, e vá em frente. Não pegue o lixo delas e espalhe sobre outras pessoas no trabalho, em casa, ou nas ruas.


O princípio disso é que pessoas bem sucedidas não deixam caminhões de lixo estragarem o seu dia. A vida é muito curta para levantar cedo com remorso ou mal humorado. Ame as pessoas que te tratam bem. Ore pelas que não o fazem.

A vida é dez por cento o que você faz dela e noventa por cento a maneira como você a recebe!

Tenham um dia abençoado, livre de males!

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NICE PINHEIRO - http://www.nicepinheiro.blogspot.com/
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WALTER FREITAS - Tuyabaecuaá

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sábado, 14 de março de 2009

SÃO JOSE DILIGENTE - Reduto

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Reduto
(Marcos Quinan / Fernando Merlino)

Arranjo: Fernando Merlino
Fernando Merlino - piano elétrico
Eudes Fraga – voz e percussão
Marco Milagres - baixo acústico
Adelson Viana - acordeon

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O POVO DO BELO MONTE VII - Brás Teodoro

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Um recém estiado céu deixava a manhã de sol entrar, mas as réstias pareciam turvas; sombras dançavam nas faces que lotavam a Igreja Velha contestando valimento mas, obedecendo à submissão do Beato à missão dos padres apresentados; pareciam arredados do divino que habitava o altar, baldando a fé de todos; eram vistos apontando castigos trazidos dos consistórios onde o Belo Monte era descrito nas conveniências e logros.


Os olhares dos que esperavam os sacramentos do batismo para os filhos eram de obediência embaçada. Entravam de tantos em tantos, tirados da multidão que esperava sua vez. O frade olhava sem entender algumas famílias trazerem, além da criança, uma imagem de santo ou santa e ficava espantado de como todos se dirigiam a Antônio Conselheiro. Olhava o piso da igreja sem entender a falta da divisão dos níveis para os abastados, os pobres; sem entender a falta de espaço no fundo da igreja para os devedores assistirem às cerimônias religiosas.


Na soleira da porta que unia a Sala das Imagens ao altar, assistia a tudo com um aperreio desguiando meu olhar. Parecia que uma névoa fina confluía para a penumbra da fisionomia das pessoas, tudo era tênue e vago. Ouvia um burburinho de vozes e choros de crianças abafados pelo latim, sentia o cheiro dos santos óleos e via os religiosos salgando inocentes com aquela fé sem irmandade, estranha.


Olhei para o fundo da igreja onde estavam os rostos que já vira antes na ponta da espátula. Ali estavam Ana das Letras com uma criança nos braços, ladeando Quilimério e Laurina; ao lado o Beato, fisionomias impassíveis esperavam sua vez.


Na medida em que se aproximaram, o frade olhou Antônio Conselheiro com desprezo como se enxergasse só dissimulação e loucura. Mas sua figura era mansa e contrastante ao jeito como o via aquele outro olhar. Ele rezava em voz baixa. Semelhava paz.


Naquele momento senti uma emoção diferente, era como se o Beato estivesse tentando me contaminar com sua fé; senti as lágrimas quentes me escorrerem pelo rosto. Nos braços de Ana das Letras, a criança recebia o sacramento. Quando a água benta foi despejada na sua cabeça, foi como se uma labareda de fogo queimasse a minha, e mil demônios estivessem me dominando. Um dolorimento laçou minhas pernas e caí para um nada, um escuro, um vazio sem fim.


Minha boca soltava um mormaço ao respirar. Foi o que senti quando acordei... estava debruçado na mesa e tinha a certeza de que estava só, mas não. No canto da sala os vi reunidos e encolhidos, rezando uma oração numa língua estranha, pensei latim mas não era; as palavras saíam da boca como se, ao choque com o ar, lançassem estilhaços de sílabas que vagavam até meus ouvidos.


Procurei por ela, já não estava ali. Ninguém estava ali. Senti um cheiro muito forte de suor... Na tela em cima da mesa apenas o papel-barro esparramado, nada havia feito. Silêncio, tinha vagado pelo mistério que consentia e me consumia, sentia no ar o cansaço me possuindo e ouvia um padre estrangeiro fazendo seu relatório ao bispo que dormia, todo mês, escondido com a mulher do juiz. Agora presenciava os comborços relatando ao barão o que o padre viu e o mesmo padre recitando em praça pública as prédicas de São Francisco de Assis.


Um homem gordo reclamava de não ter braços para o trabalho em suas terras, enquanto pagava os contos de réis ao miserável que vendia a filha mais nova para coitos e servidão. O interlocutor vestindo riquezas e soberba reclamava das listas de votações.


E os deseleitos seguindo em procissões, fome e silêncios procurando um caminho de validar a vida.


***


Muitas horas imprecisas e depois a presença de Anabel no pensamento. Tentava entender o que sentia - o amor que nascia na minha agonia. Fechava os olhos e tinha sonhos, me via ao seu lado como se amantes fôssemos num reino onde andávamos pelas ruas de mãos dadas.


Tudo do meu dia, quando não estava enlouquecido pelas minhas alucinações, remetia a ela. A pele macia do seu corpo era o centro do meu; me imaginava inventado por ela em vigor e harmonia. E acordava na minha realidade, velho, muito velho e enlouquecido, com respostas para a emoção e nenhuma para o corpo... amor incompleto, possível e profundo. Sabia de alguma forma tê-la e de outra, construía na mente somente para ser lembranças de enlevos e prazer.


Sonhava poemas com o que meu corpo ainda lembrava. Éramos, sim, neles, um homem e uma mulher. Sim, eu a amava enquanto aquela espécie de morte e vida se completava.


***


Era uma só voz que parecia ressoar como se fossem muitas, dizia ritmado, pungindo o silêncio dentro de quem acorda:

nossos pés
andaram ermos
e estradas
nossas mãos
limitações
e procura
nossas bocas
sede
e fome
cheirávamos no ar
cansaço
e pó
ouvíamos um Deus
ausente
e pobre
conjugando com poderosos
descaso
e dor
e mesmo assim
morremos
irmãos

Mal abri os olhos, e lá estavam todos à minha frente; fisionomias que eu não sabia de onde me eram familiares. Um rosto de mulher mais que os outros.


Ela me estendia a mão e se dizia Rita das Dores. Eu a enxergava agora em meio aquela cor de terra e de solidão; amornava, enrolada na colcha de merinó e na satisfação do corpo farto de amor, varando aquela noite de horas calmas.


Um ar silencioso, leve e úmido, próprio de chuva na estia, se instalou suavemente. Pela janela ela via o céu desnublando e esperava as estrelas sonhando com cada momento que ainda tinha por viver; nem notou o clarão do dia apagando a noite; pareceu que ouvia o estalo de cada pé de cana da ressoca que a chuva trouxe.


A boca seca reclamava pela água fresca da quartilha apanhada na biqueira do telheiro. Serviu e bebeu gole a gole olhando a tifanga armada no canto do cômodo, vazia de seu corpo acalmado depois de calor e bramuras espalhados pela noite - amor solitário encenado por entre o rendilhado - um queixume do corpo e da alma saciado pelas mãos, mentindo amor.


Ali se amava, ali muitos a possuíram. Vi todos eles como um bando de urubus voando em círculos, alguns chegaram a querê-la de fato. Via Rita das Dores esquecida naquela encruzilhada de caminhos vindos de todo lugar, subjugada pelos interesses dos abastados; donos das terras vestidas de canaviais viçados que a seca judiava mas nunca despia.


Era o lugar onde os caminhos se misturavam e se desmisturavam... gente do longe. Uns com a liberdade nos olhos, outros escravos da necessidade, mas todos carregando o peso da seca esturricando suas vontades.


Escravos libertos, vaqueiros, meeiros, tropeiros e gente de toda desocupação que tinha no mundo, chegavam sempre procurando ou escondendo alguma coisa; por ali passavam e eu os via, todos em círculos em volta da carne tenra da mulher.



Era, naquele sertão onde a caatinga começava a adensar, a cacimba que mais demorava a secar: a de Rita das Dores, via seu corpo, perene para a luxúria, deitar com todos, sem enlevo algum; desdava-se naquela hora como se cumprisse uma sina. O encanto só encontrava na solidão das noites, quando copulava às poucas chuvas, algumas estrelas, qualquer réstia de luar ou um vigor de mormaço; assim esperava a vida no seu prazer solitário.


Sentia o enlevo: a vi sem lágrimas esperando embuchar de cada homem com quem deitava. Esperava os filhos que seu ventre teimava em não gerar e que sua velhice um dia iria reclamar.


Vaguei junto com Beleléu, juntando as cazumbas que a seca ia pondo no chão; o salitre abundante naquelas terras cuidava quase curtir o couro.


Ia a pé puxando os dois jumentos encangalhados. Num, entramelado, levava dois surrões com ossos, cabeça e chifres; no outro montava uma sobre as outras as peles ressequidas. Sentia forte a sensação de vida indo buscar na morte o pão.


Com os urubus ele dividia os despojos do gado, o mau cheiro e a secura do lugar. Pra si guardava a inveja dos vaqueiros andejando lugares, merecendo tanta atenção.


Roedeira dava no seu peito, amargava, não havia jeito de abrandar. Andava em roda do quixó, cuidando com o rabo do olho, maldando cada gesto que ela fazia, era sua danação e seu mais bem olhar. No lugar só achegava gente novidadeira, trançando boatos, com um jeito de leriado que ele corejava com entojo. Não podia um desatino de maltratar esses uns. Entrava nos seus pensamentos, seu querer, remansando de amor.


Querelante só pra si mesmo, assim ficou, fingindo lidar com os jumentos amarrados longe por causa do cheiro. Rodeava a cacimba muitas vezes antes de tirar a água, cuidando o olhar até ser notado por Das Dores. Quando ela olhou, parecia enxergar a mim não a ele.


Pensei ter sonhado aquelas fisionomias e aquelas vozes - pensei ter estado com eles no meio da desesperança e assim, no sonho de cada um deles, filhos pra velhice e a quentura dum querer no rude vaquejando restos de vida pela caatinga.


Não sabia se dormia ou se estava acordado. De algum modo, novamente estive entre eles enquanto moldava o semblante de cada um. Estavam lá no papel-barro, no cinzento do ar triste, tomando conta do meu cansaço e das notas da música.


***

MQ
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